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domingo, 13 de janeiro de 2008

A resistência antifascista: colheita de 2007

Acabou de sair na edição deste mês do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa um artigo de fundo sobre "A resistência antifascista: colheita de 2007", por Daniel Melo.
O artigo contém um dupla recensão crítica aos livros Memórias – um combate pela liberdade, de Edmundo Pedro (Lisboa, Âncora Editora) e A passagem: uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, de Manuela Câncio Reis (Lisboa, Editorial Caminho).
Apresenta ainda um breve balanço global dos livros publicados no ano passado sobre a resistência antifascista e a listagem das anteriores recensões críticas específicas, a saber:
CUNHAL, Álvaro, Obras escolhidas de Álvaro Cunhal – tomo I (1935-1947), Lisboa, Edições Avante! (por João Madeira, ed. de Fevereiro).
GALIZA, Rui Daniel, PINA, João, Por teu livro pensamento, Lisboa, Assírio e Alvim (por Daniel Melo, ed. de Novembro).
LOPES, Joana, Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses e a ditadura, Lisboa, Âmbar (por Daniel Melo, ed. de Novembro).
MADEIRA, João, PIMENTEL, Irene, FARINHA, Luís, Vítimas de Salazar. Estado Novo e violência política, Lisboa, Esfera dos Livros (por Daniel Melo, ed. de Outubro).
NUNES, Renato, Miguel Torga e a PIDE. A repressão e os escritores no Estado Novo, Coimbra, Minerva (por Daniel Melo, ed. de Setembro).
SEABRA, Zita, Foi assim, Lisboa, Alêtheia Editores (por João Leal, ed. de Novembro).
Nb: imagem de cartoon de João Abel Manta (retirada daqui).

sábado, 12 de janeiro de 2008

A memória pública da ditadura e da repressão

O artigo "A memória pública da ditadura e da repressão", de Irene Pimentel, foi recentemente disponibilizado no site do Le Monde diplomatique - edição portuguesa, como homenagem por ter recebido o Prémio Pessoa. Este artigo fora originalmente publicado na edição de Fevereiro de 2007 daquele jornal, no dossiê «Os silêncios da História», co-organizado por Daniel Melo e o qual contou ainda com os contributos de José Manuel Sobral e Sérgio Godinho (tal como foi aqui noticiado oportunamente).
O livro A história da PIDE, de Irene Pimentel, será recenseado no Diplô em próxima edição.
Nb: imagem de cartoon de João Abel Manta.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Novas recensões a livros sobre a resistência anti-salazarista

Sairam na edição deste mês do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa recensões críticas aos livros Por teu livre pensamento e Entre as brumas da memória, ambas por Daniel Melo.
O livro Por teu livre pensamento é da autoria de Rui Daniel Galiza (textos) e João Pina (fotos), e recolhe um conjunto de testemunhos de 25 ex-presos políticos, contendo ainda notas biográficas sobre os mesmos.
O livro Entre as brumas da memória é um testemunho de Joana Lopes sobre a actividade dos católicos progressistas nos anos 60.
Às duas obras já aqui nos referiramos, aquando dos respectivos lançamentos este ano (vd. etiquetas na coluna da direita começadas com «livro», seguidas do título da obra correspondente).
Nb: imagem do Monumento aos presos políticos, escultura de Jorge Vieira.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Tarrafal: foi há 70 anos que aí chegaram os primeiros presos políticos (documentário)

Um documentário sobre o campo de concentração do Tarrafal será exibido hoje na RTP2, às 23h30, precisamente no dia da chegada dos primeiros presos políticos ao seu interior. Chama-se Há setenta anos, o Tarrafal - os últimos sobreviventes, a autoria é de Fernanda Paraíso, e a produção cabe à Take 2000. Eis o resumo oficial do mesmo:
"Um documentário que assinala os 70 anos da chegada dos primeiros presos políticos ao Tarrafal A 29 de Outubro celebra-se a chegada dos primeiros 152 presos políticos ao campo de concentração do Tarrafal. Este documentário biográfico recolhe o testemunho de cada um dos cinco últimos sobreviventes do campo, nascidos entre 1914 e 1918 e que, com idades entre os 17 e os 20 anos, foram enviados para a chamada «colónia penal» onde passaram o melhor da sua juventude.
Cinco percursos paradigmáticos partilham o idealismo que vai conduzir estes jovens a cruzar os seus destinos no campo de concentração do Tarrafal...".

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A violência política sob o salazarismo

Saiu na edição deste mês do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa uma recensão crítica ao livro Vítimas de Salazar, por Daniel Melo. O livro, da autoria de João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha, trata da violência política sob a ditadura salazarista, abordando o aparelho repressivo oficial e as suas vítimas. A esta obra já aqui falámos, aquando do seu lançamento em Fev.º deste ano.
Um dos autores desse livro, Irene Pimentel, irá lançar uma versão da sua tese de doutoramento no final deste mês. Chama-se A história da PIDE, tem a chancela do Círculo de Leitores e da Temas & Debates e dele daremos notícia detalhada noutro post mais próximo da data.
Imagem: cela da Prisão do Forte de Peniche (foto de Pedro Medeiros retirada daqui).

domingo, 15 de julho de 2007

Da insubmissão solidária em Urbano Tavares Rodrigues

Saiu nesta quinzena uma extensa entrevista ao resistente antifascista Urbano Tavares Rodrigues, conduzida por José Carlos Vasconcelos para o JL.
Urbano nasceu em Lisboa em 1923, mas passou a infância no Alentejo, próximo da vila de Moura, o que o iria influenciar nas suas preocupações sociais, cívicas e políticas. Como diz o próprio: “Um paraíso, depois perdido, a que sempre quis voltar – e a descoberta de que esse paraíso é também um lugar de horrores. E a descoberta ainda da miséria, do povo. Eu e o Miguel falávamos e confraternizávamos com eles, nesse tempo que era o da Guerra Civil de Espanha, em que o meu pai deu guarida no monte a republicanos [espanhóis]”. Sobre a sua vivência alentejana pode ler-se «A casa da minha infância».
Foi preso pela primeira vez durante a II Guerra Mundial, por ter dado vivas aos Aliados e à liberdade no cinema Tivoli, onde fora com outros colegas do Liceu Camões ver um documentário sobre a guerra. Com o fim da guerra, apoiou o Movimento de Unidade Democrática, mas já não enquanto simpatizante do PCP, de que se afastara por causa do Pacto Germano-Soviético e ao qual só regressaria após as eleições de 1969 (foi então candidato da CEUD em Lisboa, mas tb. ajudou a CDE no Alentejo).
Foi leitor de Português em diversas universidades estrangeiras (Montpellier, Aix-en-Provence e Paris, entre 1949 e 1955). Nessa estada recolheu várias vezes assinaturas de intelectuais anti-fascistas como Louis Aragon, em prol da libertação dos presos políticos e da liberdade de imprensa em Portugal.
Por ter apoiado a campanha oposicionista de Humberto Delgado é expulso da Universidade de Lisboa, para onde fora convidado por Vitorino Nemésio. Interpelado por Urbano na Liv.ª Bertand, o ministro da Educação da altura, eng. Leite Pinto, confirmou que essa fora uma retaliação política: “«Então, demitiram-me por motivos políticos». Ao que ele respondeu: «Pois claro». «Mas eu não fazia política nas aulas», retorqui. «Mas fazia cá fora», disse ele. Voltei-lhe as costas”.
Em 1959, participa na revolta da Sé e entra para as Juntas de Acção Patriótica. Em 1961, envolve-se no malogrado assalto ao quartel de Beja, donde escapa ileso. Acusado de «actividades subversivas», é impedido de dar aulas nas escolas portuguesas, tendo que sair do Colégio Moderno e só podendo exercer a sua profissão na secção francesa do Liceu Francês. O seu envolvimento nas Juntas leva-o a ser preso pela PIDE em 1963. Depois de liberto, ajudou à fuga para o exílio de muitos desertores e antifascistas perseguidos, com o apoio de comunistas. Voltará a ser preso pela polícia política em 1968, tendo sido torturado com a tortura do sono e tendo estado em isolamento durante os 5 meses de detenção.
Segundo o ensaísta João de Melo, a obra de Urbano caracteriza-se por “uma literatura de combate e de experiência pessoal”, retratando um século de contrastes, sofrimento e sonhos: “Chama a si a crónica miúda e persistente deste último século português, ela mesma o trânsito de um país que viajou das trevas profundas para a luz da liberdade e das dos universos das injustiças sociais, da opressão, da cadeia e de todos os abusos para a celebração do país do povo, da terra, da revolução e da fraternidade” (in O Imaginário alentejano de Urbano Tavares Rodrigues, 1996; fonte: aqui). É uma elegia da resistência popular à injustiça social e à opressão política, assim o assume o próprio Urbano: “Compreendi que o meu destino estava verdadeiramente ligado ao mundo do Alentejo, dos trabalhadores rurais, dos pequenos camponeses e por esses, por um Alentejo diferente eu havia de lutar, de escrever, havia de viver”.
Sobre o seu perfil cívico vd. Urbano Tavares Rodrigues – cidadão e escritor, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2005. Veja-se ainda um encantatório texto de Urbano sobre Lisboa antiga no site Teia Portuguesa. Existe uma breve biografia literária na DGLB.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

A tortura do sono vista pela cinematografia portuguesa

Fazer um filme em torno da tortura do sono parece, à partida, uma tarefa espinhosa, mas foi a isso que José Barahona se abalançou, e com bons resultados. Contou com a preciosa ajuda do escritor Mário de Carvalho. Aproveitamos para divulgá-lo aqui, agradecendo a Mário Machado Castro a sugestão.

Ficha técnica do filme Quem é Ricardo (Portugal, 2004)
Realizador: José Barahona
Intérpretes: Augusto Portela, Luís Mascarenhas, Quim Cachopo, João Didelet, Heitor Lourenço, João Miguel Rodrigues, André Gago, António Marques, Jorge Estreia.
Argumento: Mário de Carvalho
Fotografia: Leonardo Simões
Som: Quintino Bastos
Montagem: Isabel Antunes, José Barahona
Duração: 35 min.
Formato: Betacam
DigitalProdução: Cinequanon
Financiamentos: ICAM, RTP.
Fonte: blogue O país do burro.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Centenário de António Aniceto Monteiro


O centenário do nascimento do matemático e exilado político António Aniceto Monteiro foi evocado pela Universidade de Lisboa com um Colóquio (4-5/6) e a Exposição António Aniceto Monteiro / Portugaliae Mathematica. Esta mostra, organizada pela Sociedade Portuguesa de Matemática, abriu a 31/V e decorre até 31/VII, no Museu de Ciência da FCUL.
Mais informações no blogue dedicado a António Aniceto Monteiro.
Na imagem: capa da recente fotobiografia dedicada ao matemático.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Miguel Torga e a repressão cultural sob o Estado Novo

Um livro que aqui anunciámos, sobre a perseguição da polícia política ao escritor Miguel Torga, vai ser lançado este sábado, contando com uma apresentação por Irene Pimentel.
Aproveita-se para reproduzir a informação do convite:
"As Edições Minerva Coimbra, o Director da Colecção Minerva História, o Autor e a Coordenadora Científica do CEIS20, convidam para o lançamento do livro Miguel Torga e a PIDE: a repressão e os escritores no Estado Novo, de Renato Nunes.
A apresentação será feita pela Prof. Doutora Irene Flunser Pimentel. A sessão realiza-se no próximo dia 26 de Maio, pelas 16h30, na Livraria Minerva (Rua de Macau 52, Bairro Norton de Matos), em Coimbra.
N.º 26 da Colecção Minerva História dirigida pelo Prof. Doutor Luís Reis Torgal.
Segundo o Director da Colecção Minerva História, Luís Reis Torgal, «este será o primeiro livro desta colecção inteiramente dedicado ao estudo de um processo da PIDE, no contexto de uma série a que poderíamos chamar “A repressão e os escritores”. Seguir-se-ão livros sobre os casos de Aquilino Ribeiro e de Fernando Namora».
Nesta obra o autor procura analisar os processos instruídos pela polícia política a um dos mais consagrados escritores portugueses do século XX - Miguel Torga, pseudónimo adoptado por Adolfo Correia da Rocha.
Em anexo, o autor optou por apresentar, uma breve cronologia dos processos de Miguel Torga na polícia política e também alguns originais e, por vezes, surpreendentes documentos extraídos dos processos do escritor na PVDE/PIDE/DGS.
«A presente obra é, pois, como o seu título indica, um estudo sobre um processo organizado pela PIDE (utilizamos apenas a sigla que se tornou tristemente célebre), que mostra como a nossa “ditadura” não teve, efectivamente, o carácter “original” e “benevolente” – imagem que o regime deu de si próprio – que se lhe quer por vezes atribuir, numa lógica “revisionista”. A literatura, como qualquer outra arte, ou qualquer forma de vida (incluindo o quotidiano de cada um, a vida de família, o domicílio, a correspondência…), era constantemente vigiada e violada.
Na qualidade de historiador não poderemos omitir esta realidade objectiva que se nos depara com uma grande clareza quando consultamos o Arquivo da PIDE/DGS na Torre do Tombo. Os seus processos são de uma grande evidência, ao contrário de outras fontes ideológicas e de propaganda que mais facilmente encandeiam o juízo dos leitores, mesmo dos historiadores, mormente os cientistas sociais estrangeiros, apresentados muitas vezes como “paradigma científico”, mas que nem sempre conhecem bem a realidade portuguesa e que repetem de forma automática, ou com pressupostos de complexa (ou simplista) engenharia teórica, uma longa cadeia de testemunhos ideológicos e “científicos”, nem sempre, todavia, rigorosamente avaliados». Luís Reis Torgal
Renato Nunes nasceu no dia 3 de Julho de 1980 em Lille (França), embora as suas origens estejam associadas ao concelho de Oliveira do Hospital. Licenciou-se em História, Ramo de Formação Educacional, em 2003, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Actualmente, lecciona na Escola Básica 2, 3 de Tondela. Colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20), tem vindo a estudar os processos de alguns escritores na polícia política do Estado Novo e na Direcção-Geral de Censura. Para além deste livro, que constitui a sua primeira publicação historiográfica, está a preparar uma outra obra sobre idêntico tema relativo a Aquilino Ribeiro."

Edições MinervaCoimbra
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3030-059 Coimbra
Contactos:
tlm.: 917640027; tel: 239 701117 / 239 716204
fax: 239 717267; e-mail: minervacoimbra@gmail.com

domingo, 20 de maio de 2007

Luuanda: prémio e castigo

A 21 de Maio de 1965, o ministro da Educação Nacional determinou a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE). Na semana anterior, o Grande Prémio de Novelística fora atribuído a Luuanda, de Luandino Vieira. O premiado era membro do MPLA e estava preso no Tarrafal, acusado de atentar contra a «segurança do estado».
Numa altura em que o regime de Salazar forçava o país a envolver-se acriticamente numa guerra colonial em três teatros de operações para defender a integridade da «Nação pluricontinental» portuguesa, a posição de independência assumida pelo júri e pela SPE fez temer a afirmação de uma «quarta frente». Com o beneplácito da Fundação Calouste Gulbenkian (que deixou de financiar o Prémio), o Governo pôs em marcha uma campanha de propaganda para denegrir e silenciar esses «traidores» que habitavam no «andar de baixo do mundo confuso das artes e das letras» (editorial do Diário da Manhã, de 22/05/1965).
Luuanda foi publicado na capital angolana em Outubro de 1964, com o dinheiro do galardão Mota Veiga, e circulava em Lisboa desde o início de 1965, entre estudantes e intelectuais, em círculos próximos da Casa dos Estudantes do Império.
Alexandre Pinheiro Torres, no suplemento “Vida Literária e Artística” do Diário de Notícias, foi o primeiro crítico a reconhecer em Portugal a qualidade literária das três histórias que formavam o livro. Em conformidade com esta posição, propôs, enquanto membro do júri do grande Prémio de Novelística, a entrada da obra no concurso.
A 15 de Maio, o júri, também constituído por João Gaspar Simões, Manuel da Fonseca, Fernanda Botelho e Augusto Abelaira, reuniu-se para atribuir o prémio. Todos os jurados sabiam que Luandino estava preso no Tarrafal, mas não pensaram que a atribuição do prémio desse tanta polémica, levasse ao encerramento da SPE e à destruição da sua sede pela Legião e pela PIDE.
A 22 de Maio, foram chamados a depor na António Maria Cardoso e ficaram presos, excepto Fernanda Botelho que conseguiu «escapar», por ser funcionária da Embaixada da Bélgica. Alexandre Pinheiro Torres, o último jurado a ser, preso, conseguiu ainda enviar para o Jornal do Fundão a notícia da atribuição do prémio, acompanhada de uma fotografia de Luandino Vieira. A publicação da notícia valeu àquele jornal a suspensão de 180 dias.
Informação retirada de: Cláudia Castelo, “Prémio e Castigo”, Expresso, 20/05/1995, p. 98-105 [Revista]; imagem retirada daqui.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Liberdade, liberdade!

Aproveito a oportunidade para reproduzir um texto do companheiro do movimento Jorge Martins, dando conta duma nova peça teatral alusiva à resistência anti-salazarista e à liberdade. Agradeço ao Jorge Martins ter acedido ao repto para colaborar com o blogue do NAM.
"Estreou na passada 5ª feira, no Bar do Teatro da Trindade, «LIBERDADE, LIBERDADE!», a nova peça de Filomena Oliveira e Miguel Real, dois autores com obra firmada há alguns anos: adaptação dramatúrgica de «Memorial do Convento» (1999) e de «A Voz dos Deuses» (2000); co-autores de «Os Patriotas» e de «O Ultimatum de 1890» (2001), de «O Umbigo de Régio» (2003) e de «1755, o Grande Terramoto» (2006). Filomena Oliveira também é autora de «Tomai lá do O’Neill» (1999) e da adaptação de «A Relíquia» e da tradução e versão dramatúrgica de «O Alquimista» (2005). Miguel Real é autor de uma vasta obra de ficção e ensaio, designadamente, «Geração de 90 – Sociedade e Romance no Portugal Contemporâneo» (2001), «Memórias de Branca Dias» (2003), «A Voz da Terra» e «O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa» (2005), «O Último Negreiro» e «O Último Eça» (2006).
«Liberdade, Liberdade!» mostra-nos, com a provocada cumplicidade dos espectadores pela constante interactividade com os actores, a dura realidade portuguesa das prisões políticas entre os anos 40 e 60 do Portugal do Estado Novo e do salazarismo. No meio de um comício relâmpago num café de Lisboa, a PIDE irrompe subitamente e leva presos um estudante católico e um operário. Mais tarde, a polícia política prende também um militante comunista numa tipografia clandestina. Os três vão encontrar-se na mesma cela, onde se assiste à tortura e à coragem, à traição e à denúncia, à corrupção e à cumplicidade. A fuga torna-se uma obsessão para os presos, que acabam por ter destinos bem diferentes, em todo o caso de trágicos contornos. O Bar do Trindade acaba por ser um cenário perfeito para a eficácia deste inolvidável espectáculo. Com um excelente desempenho dos actores do Teatro Tapafuros, muito bem sublinhado pela orgânica sonora e, em particular, pela voz off de um Salazar pateticamente omnipresente, esta peça também é obrigatória para quem não quer mesmo, mesmo, mesmo esquecer os crimes da ditadura portuguesa.
Os autores explicam o que os levou a escrever «Liberdade, Liberdade!», um original de 2004 com encenação de Filomena Oliveira: «Criámos esta peça como hino de homenagem a todos os homens e mulheres que lutaram, morreram, foram presos e torturados para que Portugal pudesse ser livre»."
Jorge Martins

quarta-feira, 28 de março de 2007

Centenário do nascimento de Miguel Torga (1907-1995)

Comemora-se este ano o centenário do nascimento do médico Adolfo Rocha (1907-1995), mais conhecido como Miguel Torga, seu pseudónimo literário. A efeméride está a ser evocada por todo o país. Das várias iniciativas em andamento, destaque-se por ora 5 delas.
Em 1.º lugar, o Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo lançou agora on-line partes do processo do escritor na PIDE (vd. aqui; nb: infelizmente o acesso aos documentos digitalizados parece necessitar dum software específico que não é referido).
Em 2.º lugar, o historiador Renato Nunes vai lançar brevemente o livro Miguel Torga e a PIDE - a repressão e os escritores no Estado Novo, da editora coimbrã Minerva, com prefácio de Clara Rocha (filha de Torga) e a ser apresentado por Luís Reis Torgal. Este livro inaugura uma colecção de pesquisas do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX destinada a divulgar processos similares a este, como os de Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro e Fernando Namora.
Em 3.º lugar, o jornalista Sérgio C. Andrade publica hoje no Público um cuidado dossier dedicado ao assunto, intitulado «Já está na net a devassa da PIDE à vida de Torga» (sup. P2) e donde se retirou grande parte da informação aqui disponibilizada.
Em 4.º lugar, a Biblioteca Municipal de Arganil colocou em linha um núcleo dedicado ao escritor, com a sua biografia, bibliografia activa e muito material iconográfico.
Por fim, a Delegação Regional de Cultura do Norte prepara uma exposição com os referidos documentos, a inaugurar em Outubro, em Vila Real.
Para Renato Nunes, o processo de Torga documenta "o interesse quase obsessivo da PIDE pelos vários domínios da vida do escritor", patente em todas as dimensões da sua vida pessoal: "as violações sistemáticas da correspondência, o registo das suas viagens, dos encontros com amigos, até os rendimentos da sua actividade como médico".
Como refere ainda Sérgio C. Andrade, foi "uma vida devassada até à intimidade". Sobre essa violência escreveu o próprio escritor no seu Diário XII (1975), quando tomou conhecimento do processo: "Vista através daquele registo laborioso e tenaz de gusanos inexoráveis, a minha vida era a própria imagem da desolação. Descarnada de qualquer substância anímica, mais objectivamente exacta do que a biografia que porventura aflora à tona do que escrevi, parecia o relato de uma autópsia".
O escritor Miguel Torga foi preso em 1939 pelas ideias expressas no livro O quarto dia da creação do mundo, e toda a sua vida foi vigiado de perto pela PIDE. Sobre a sua passagem pelos cárceres do Aljube escreveram Artur Pinto e Margarida Sousa Reis o texto «Miguel Torga e o Aljube».
O autor de Novos contos da montanha foi também perseguido pelos Serviços de Censura, que lhe apreenderam vários dos seus livros e lhe censuraram inúmeros escritos seus na imprensa.
PS: uma biografia de Torga contendo bibliografia passiva seleccionada pode ser lida aqui.

sábado, 24 de março de 2007

A crise académica de 1962 na literatura de ficção

"Das vésperas da crise da Universidade à proibição do Dia do Estudante, aos confrontos em que a estudantada se desfraldou por inteiro, num rasgo de coragem igual à dos nossos tempos e muito mais determinação perante uma inovadora polícia de choque, da algidez do grande luto académico aos desagravos dos grevistas de fome em plena cantina universitária, eu sentira crescer dentro de mim a tristeza da minha condição de já não estudante. «Há muitas formas de nos solidarizarmos e de os acompanhar», dizia Raul, enfiado na sua bata branca de médico interno, perscrutando do alto do hospital num assomo de alucinação um formigueiro enraivecido a deixar-se resvalar pelas paredes das faculdades para, a seguir, atravessar a passo de enterro os relvados cobertos de luto por entre clamores de estádio e assobios de rua, enfim perdendo-se nos descampados da cidade universitária. Era um clima de guerra em que os desarmados defendiam a unidade de hoje pela união de amanhã - lema da juventude estudantil, não por um dia, por uma vida, por um destino. «Sejamos precisos e realistas: por uma geração que fosse!»"
Orlando da Costa
(Os netos de Norton, Porto, Eds. Asa, 1994, p. 125/6)

terça-feira, 20 de março de 2007

A raia 1936-1952, repressão, resistência e memória

Como já noticiámos, a 2.ª parte do Congresso Internacional «A Raia 1936-1952, repressão, resistência e memória» irá realizar-se em Ourense, de 28 a 30 deste mês. Eis a altura ideal para deixar as últimas informações sobre o assunto, reproduzidas do Indymedia-Galiza:
"O congresso que leva por título «A Raia 1936- 1952, repressão, resistência e memória», é uma iniciativa no quadro do actual Ano da Memória, que procura recuperar a memória e a dignidade das pessoas reprimidas durante as ditaduras de Franco e Salazar estando aberta a todas aquelas pessoas e colectivos que assim o desejarem de ambos lados da Raia que separa galegos e portugueses. Quer servir como ferramenta académica e formativa para que o processo de recuperação da memória histórica continue e assente en metodologias e práticas cada vez mais eficientes, e ao mesmo tempo, de ponto de encontro de associações culturais e pessoas de ambos lados da fronteira galaico-portuguesa, com o fim de fortalecer os laços de união existentes".
A imagem com o programa do encontro é retirada daqui.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

O que faz falta é lembrar a malta!

O Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) realiza hoje um debate sobre «Os silêncios da História», em torno do dossier do seu n.º de Fevereiro. Terá início às 21h30, no novo espaço da Livraria Ler Devagar (R. da Rosa, 145, no Bairro Alto, a antiga rua das tipografias e jornais..).
Irene Pimentel escreveu nesse n.º sobre a memória pública da ditadura e da repressão, no qual salienta o contributo do movimento Não apaguem a Memória! para o reavivar do debate sobre o lugar da memória na pedagogia democrática. José Sobral reavaliou a importância da memória colectiva das comunidades rurais do Portugal salazarista. Sérgio Godinho evocou Zeca Afonso. Mais detalhes neste post anterior, dedicado exclusivamente ao último dossier do Diplô.
Aqui fica o convite a todos para uma boa ocasião de se debater e reflectir sobre a nossa memória histórica recente. Porque, e parafraseando Zeca Afonso, o que faz falta é recordar a malta!

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Repensando a memória colectiva

Já saiu o n.º de Fevereiro do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa). O dossier português é sobre «Os silêncios da História», e pretende contribuir para a reflexão sobre a nossa memória histórica recente.
O dossier abre com o texto de José Sobral sobre «Os Sem-História», dedicado às comunidades rurais do Portugal salazarista omitidas pela História oficial, reservada que estava esta às grandes figuras 'nacionais' e às elites locais. Tal quadro teve a sua extensão simbólica na concepção urbanística da Belém ribeirinha: aos Jerónimos associaram-se os espaços de poder e leitura da História da ditadura (Padrão dos Descobirmentos, praças do Império e do Ultramar, Museu de Arte Popular) e da democracia (Centro Cultural de Belém, futuro Museu da Língua e dos Descobrimentos).
Os encobrimentos feitos pela História oficial e a memória oficial são vários. O texto de Irene Pimentel («A memória pública da ditadura e da repressão») revê criticamente como foram avaliados o salazarismo e a sua repressão ditatorial no trinténio democrático, do ponto de vista político e social. Demonstra o défice de justiça quanto ao aparelho repressivo, apresentando dados globais sobre as reduzidas condenações de agentes da PIDE. Refere ainda as entidades que, a contra-corrente duma imposta amnésia selectiva, pugnaram pela preservação da memória pública desse período, começando com a Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas, a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses, a Comissão do Livro Negro do Regime Fascista e o Tribunal Cívico Humberto Delgado, e detendo-se, por fim, no contributo do movimento Não apaguem a Memória!.
O dossier encerra com uma vibrante evocação de Zeca Afonso por Sérgio Godinho. Na data em que se celebram 20 anos do passamento do grande cantautor da resistência, um dos seus mais talentosos discípulos revê o mestre reescrevendo uma de suas músicas sob a forma de viva confidência a propósito do legado que dele recebeu.

Hélder da Assunção Costa in memoriam (1927-2007)

O operário antifascista Hélder Costa faleceu recentemente. Armando Teixeira, do Não Apaguem a Memória!, evocou a sua vida e exemplo em texto publicado no jornal da terra de ambos, o Barreiroweb. Tomamos a liberdade de aqui publicar o trecho inicial.
"Homenagem a Hélder da Assunção Costa
A morte do nosso amigo e camarada Hélder Costa, despedaçou-nos o coração. Significa uma perda enorme para o Barreiro de gente honrada e séria, de que fez da coragem da resistência ao salazarismo e às estruturas e regime fascista, a bandeira de uma vida de luta, sacrifício e exílio, sempre norteada pela integridade de carácter e de princípios, e pela modéstia de uma enorme envergadura intelectual.
Hélder Costa foi um trabalhador honesto, democrata e sonhador pela liberdade na terra que o viu nascer em 1927, na zona do Largo Rompana, no Barreiro Velho. Filho de pai operário preso e violentado nas extraordinárias greves de 1943, ainda adolescente correu pelas ruas do Barreiro ocupado militarmente, entre selváticos espancamentos e prisões arbitrárias, para levar o almoço ao progenitor, detido com centenas de outros barreirenses nos armazéns do Teodoro Rúbio, por detrás da Bonfim, pelo «crime nefando» de terem feito greve e protestaram na vila, contra os salários de miséria e a falta de géneros alimentares, nas grandiosas «marchas da fome».
Hélder Costa ganhou nas ruas do Barreiro, a consciência da injustiça e da força brutal – a mando do próprio Salazar, perante as reticências do ministro do Interior, que tinha receio de tamanho complexo industrial!.. - de um regime terrorista que mais tarde, por ser activista do MUD Juvenil e do MUD (Movimento de Unidade Democrática) o haveria de encarcerar durante quase seis meses, sem culpa formada e sem motivos, porque valentemente assumiu na polícia politica que lutar pela liberdade e pela democracia não é crime!"

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Vítimas de Salazar

Lançamento do livro:

Vítimas de Salazar
Estado Novo e Violência Política

de Irene Pimentel, João Madeira e Luís Farinha

4.ª feira, 7 de Fevereiro, 18h30
(Sala do Plenário do Tribunal da Boa-Hora)
Apresentação por Mário Soares
Nb: este post foi originalmente publicado a 31/I, tendo sido transferido para hoje por razões de visibilidade informativa.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

A Grande Maçã podre de Portugal: amnésia selectiva ou oportunismo comercial?

A programação televisiva nunca me interessou por aí além. E desde que tenho internet em casa, o televisor está quase sempre desligado. Porém, através do jornal e de alguns amigos, fiquei a saber do concurso "Os Grandes Portugueses" (RTP1). Nos últimos dias, fui confrontada com o impressionante score do ditador António de Oliveira Salazar. Ora, como cidadã e membro do movimento Não Apaguem a Memória! sinto-me no direito e no dever de lembrar os interesseiros e os amnésicos selectivos que Salazar foi o cabecilha de um regime opressivo e obscurantista que disseminou o medo por toda a sociedade portuguesa, utilizou o Estado para perseguir e destruir a vida de cidadãos que lutavam pela democracia e pela liberdade, apoiado por uma polícia política brutal, por uma censura ignorante e mesquinha, por uma ideologia ultra-nacionalista e colonialista, e envolveu o país numa longa e absurda guerra em Angola, Guiné e Moçambique. O "equilíbrio" das finanças e a "ordem nas ruas" foram os 'feitos' impingidos pela sua propaganda política. Resta acrescentar que o primeiro foi conseguido à custa da ausência de uma justa redistribuição da riqueza; e o segundo, à custa da atemorização, da violência e da arbitrariedade. Convém não esquecer! Nós não esquecemos.
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Imagem: capa da Time, 22.07.1946. [NB: devido ao artigo de capa, "Portugal: até que ponto o melhor é mau?", a revista norte-americana foi por cá proibida durante 6 anos e o seu autor expulso do país]