segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

A morte saiu à rua num dia assim

Faz 3.ª feira 45 anos que o pintor José Dias Coelho, militante do PCP, foi assassinado pela PIDE, na Rua da Creche, em Alcântara, Lisboa. Tinha então 38 anos.
Dias Coelho aderiu, ainda adolescente, à Frente Académica Antifascista, e, já como aluno da ESBAL, fez parte do MUD Juvenil, participando em várias lutas estudantis em 1947. Naquela escola superior foi um dos dirigentes da frente pró-Associação Académica e das lutas em defesa da paz e contra a reunião da NATO em Lisboa em 1952. Em consequência disso foi expulso da ESBAL, proibido de ingressar noutra faculdade do país e demitido do lugar de professor do ensino técnico no Liceu Camões.
A rua onde foi assassinado tem hoje o seu nome. É, portanto, um lugar de memória já consagrado. Para 19 de Dez.º estão previstas cerimónias durante a tarde, incluindo o relançamento do seu livro A resistência em Portugal (pelas Edições Avante!) e a inauguração da exposição «José Dias Coelho, artista militante e militante revolucionário» (na Junta de Freguesia de Alcântara, R. dos Lusíadas, 13).
A canção de José Afonso «A morte saiu à rua» é uma homenagem a José Dias Coelho, aqui fica a sua letra:
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A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai
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O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu
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Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
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Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada, há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação
v
Nb: parte da inf. extraída daqui; vd. tb. estudos de Júlia Coutinho, "José Dias Coelho. Breve cronologia pessoal e afluentes" e "José Dias Coelho . A coerência do ser e do fazer"; testemunho de José Cardoso Pires aqui.

domingo, 17 de dezembro de 2006

Carta Aberta a propósito da Memória

Caro Pacheco Pereira
A sua crónica de quinta-feira passada (7/12)fez-me sorrir e pensar. Sorrir pela sua falta de argúcia. Escreve que o PCP participa e apoia as iniciativas do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!. Mesmo sem argumentar que este é composto por cidadãos a quem não se pergunta a sua filiação partidária, é fácil perceber que ao PCP não interessaria que este movimento existisse. A razão está, inclusivé, nas suas palavras – o PCP considera como sua propriedade privada a “memória” da resistência ao Estado Novo. Ora, no desenvolvimento das suas acções, o “Não Apaguem a Memória!” vem questionar essa “propriedade privada”, o que, naturalmente, não é bem visto na Soeiro Pereira Gomes, de onde não veio participação ou apoio. Este Movimento não é uma organização satélite do PCP nem de qualquer outro partido. Se o fosse, estou certo de que eu e a maioria dos que nele participam não lhe teríamos dado o nosso empenho. Falamos com todos, mas não obedecemos a nenhum!

A questão do arquivo do PCP também me parece óbvia. Enquanto houver a possibilidade de retirar dividendos políticos do seu uso, o PCP não o abrirá a ninguém. O que do ponto de vista da propriedade, e apenas nesse, é legítimo. Continuará, assim, a haver ficções sobre “grandes antifascistas” e, em contraponto, esquecimentos éticamente censuráveis.

Não concordo consigo quando algo professoralmente recomenda a necessidade de juntarmos à “memória edificada” a “memória dos homens”. Creio que só o diz por ter da nossa actividade um conhecimento desprendido, pois desde o primeiro plenário deste Movimento que esse é um campo de trabalho que se vai explorando na medida do esforço e disponibilidade de alguns. O que acontece é que tem frutos menos visíveis e necessita de mais tempo e trabalho de outra natureza. É óbvio que a “memória edificada” necessita da “memória dos homens”, caso contrário o “edifício” perderia o sentido. Mas, Pacheco Pereira, fica aqui feito o convite para que participe connosco nesse esforço conjunto, sobretudo tendo em conta o trabalho de investigação que já fez, integrando um dos vários grupos de trabalho ou, se preferir, criando um outro que lhe pareça necessário.

Este Movimento considera que pode dar um contributo em prol da memória do que foi a resistência à ditadura no Estado Novo. E pretende fazê-lo. Mas não temos vocação monopolista nem universalista. Propomo-nos, por um lado, honrar e dignificar os que lutaram e sofreram para derrubar a ditadura e, por outro, criar as condições para preservar essa memória em defesa da democracia e da liberdade. Poderemos, com isso, vir a cair num gueto político? Não sei! Sei que temos de definir fronteiras para não nos transformarmos em lamentáveis alforrecas políticas. Sei que temos de eleger com rigor o nosso campo de acção para não corrermos o risco de nos tornarmos inconsequentes.

Some-se com o nosso o trabalho de outros, cidadãos, organizados ou não, porque o importante é que a memória exista e esteja disponível para todos, dos miúdos da escola aos “tecnocratas que nos governam”!

A propósito, na próxima segunda-feira dia 11 de Dezembro, às 14h30, vou ser julgado, juntamente com Duran Clemente, por ter organizado e participado no protesto de 5 de Outubro de 2005 na Rua António Maria Cardoso, a propósito da extinção da memória da sede da PIDE/DGS.
Apareça!

O Movimento na escrita dos colunistas

O Movimento foi assunto de notícia devido a dois acontecimentos maiores: o descerramento da lápide no Tribunal da Boa-Hora, condenando a “justiça pidesca” praticada nos “tribunais plenários (6/12/06); e o julgamento ubuesco de João Almeida e Duran Clemente, no 6º Juízo Criminal de Lisboa (11/12/06), que terá o seu desfecho no próximo dia 21, às 16h.
A actualidade pôs por isso o Movimento no centro das atenções públicas e vários colunistas comentaram, em diversos tons e sons, o que tem sido a nossa actividade e o modo como a concretizamos. Porque um deles deu azo a polémica, o de Pacheco Pereira (Público 7/12/06), recorde-se em revista o que foi o Movimento nas páginas deste jornal.
“Não apaguem a memória, mas também não lembrem só uma parte da memória” foi o título que Pacheco Pereira deu à sua crónica e que está acessível no seu blog “Abrupto” – http://abrupto.blogspot.com/. O colunista interpela o Movimento quanto à sua liberdade de acção relativamente ao PCP, enunciando uma premissa falsa e construindo, a partir daí, uma argumentação formalmente correcta, mas substancialmente errada. Escreve: “Acaso não era suposto o Movimento dizer alguma coisa sobre a política do PCP de fechar os seus arquivos e apenas divulgar documentos escolhidos a dedo para não ferir uma história tão ‘oficiosa’ como falsa? Ninguém contesta o direito legal que o PCP tem de não abrir os seus arquivos, mas talvez se deva exigir ao partido, que participa nas iniciativas do Movimento Não Apaguem a Memória! e as apoia, que se comporte de forma diferente e que não ajude a sonegar do conhecimentos de todos a parte da memória colectiva que se encontra fechada nas suas sedes (...)”.
Erro nas fontes ou debilidade na sua informação, o que vem a dar ao mesmo, Pacheco Pereira equivocou-se. Foi o que lhe disseram diversos membros do Movimento, em cartas enviadas ao Público, que há uma semana aí aguardam publicação e, por isso, entendemos poderem ser desde já aqui divulgadas.
A primeira é a de João Almeida, em forma de Carta Aberta. Seguir-se-ão as de Martins Guerreiro, Artur Pinto e de Ana Prata.

Não apaguem a memória



Cartoon de Zé Dalmeida

À morte de um canalha

Os canalhas vivem muito,
mas algum dia morrem

OBITUÁRIO COM 'HIP-URRAS'

Vamos festejá-lo
venham todos
os inocentes
os lesados
os que gritam à noite
os que sonham de dia
os que sofrem no corpo
os que alojam fantasmas
os que pisam descalços
os que blasfemam e ardem
os pobres congelados
os que amam alguém
os que nunca se esquecem
vamos festejá-lo
venham todos o crápula morreu
acabou-se a alma negr
o ladrão
o suíno
acabou-se para sempre
'hip-hurra'
que venham todos vamos festejá-lo
e não-dizer
a morte
sempre apaga tudo
a tudo purifica
qualquer dia
a morte
não apaga nada
ficam
sempre as cicatrizes
'hip-hurra'
morreu o cretino
vamos festejá-lo
e não-chorar por vício
que chorem seus iguais
e que engulam suas lágrimas
acabou-se o monstro prócere
acabou-se para sempre
vamos festejá-lo
a não-ficarmos tíbios
a não-acreditar que este
é um morto qualquer
vamos festejá-lo
e não-ficarmos frouxos
e não-esquecer que este
é um morto de merda

Mario Benedetti, poeta uruguaio, nasceu em 1920 e fez este poema às 4h da madrugada do dia em que soube que Ronal Reagan morreu. O Movimento "Não Apaguem a Memória!" considera que ele foi feito por medida para o ditador Pinochet, que a morte levou, muito atrasada, no passado 11 de Dezembro.

A raia: repressão, resistência e memória

Começou ontem o Congresso Internacional «A raia 1936-1952, repressão, resistência e memória». O evento, organizado pela Raia Viva, terá lugar em Chaves e em Cambedo da Raia e prolonga-se pelo fim-de-semana. Contará com as intervenções de Paula Godinho (sua alma mater, adivinha-se), Xerardo Pereira e William Kavanagh, entre outros, além de variadas iniciativas. O programa vem aqui (versão galega aqui). Repetirá em Ourense, em Março do próximo ano.
Nb: post primeiramente publicado aqui; a propósito deste assunto vd. post mais recente.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Esclarecimento introdutório

O blogue do movimento cívico Não Apaguem a Memória! deixou de estar acessível aos seus colaboradores desde 7 de Dezembro passado, por razões técnicas imputáveis à empresa Blogger, ligadas à mudança para o novo sistema Beta. Porém, toda a informação do antigo blogue continua consultável.
Foi solicitado auxílio informático via informação interna e aguardámos que a própria Blogger entretanto emendasse os erros que criou. Como não havia sinal de resolução, resolveu o Grupo de Comunicação avançar com uma recriação (ainda que temporária) do blogue anterior, com o mesmo nome mais o aditamento dum 2 no final. Esta é uma prática corrente na blogosfera, daí a escolha desta solução.
Por ora, o blogue será um estaleiro. Com a colaboração de todos os que estiverem disponíveis, que nunca serão demais, esse aspecto improvisado dará gradualmente lugar a um novo edifício. As portas, essas, já estão abertas.