domingo, 15 de abril de 2007

Festejar Abril

Faltam 10 dias para o 25 de Abril!

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Visita à sede da PIDE no Porto

"O Núcleo do Porto do movimento cívico «Não apaguem a Memória!» vai realizar a 21 do corrente mês de Abril, entre as 15 e as 17 horas e 30 minutos, a segunda visita guiada por ex-presos políticos às instalações do actual Museu Militar do Porto, edifício onde funcionou uma delegação da polícia política do Estado salazarista, a PVDE/PIDE/DGS.
Com esta iniciativa, pretende-se afirmar a importância do edifício no roteiro dos locais de memória da resistência ao Estado Novo.
O núcleo do Porto deste movimento cívico plural e aberto tem efectuado diligências junto das autoridades administrativas locais e centrais visando a criação de um Museu da Resistência no edifício onde longamente esteve instalada delegação do Porto da PVDE/PIDE/DGS.
Espera-se que da convergência da acção cívica dos cidadãos e das cidadãs da área metropolitana do Porto, motivados pelo aprofundamento da educação histórica e pela defesa da preservação da memória histórica das lutas anti-fascistas, resulte uma renovada dinâmica de participação e de cidadania."
Nota de imprensa do Núcleo do Porto do movimento Não apaguem a Memória!

quarta-feira, 11 de abril de 2007

A cooperativa PRAGMA - há 43 anos


A Pragma foi fundada por um grupo de católicos em 11 de Abril de 1964, data propositadamente escolhida por nela se comemorar o primeiro aniversário da publicação da encíclica Pacem in Terris. Ao elegerem esta espécie de “patrocínio”, esses católicos deram um sinal do que os movia. A Pacem in Terris tinha sido para eles um reconforto, uma tábua de salvação. Passaria a ser também um meio de pressão.
Constituíram a Pragma como uma “Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária”, o que concretizou os objectivos que se propunham e, simultaneamente, permitiu que tirassem partido de uma lacuna legislativa: as cooperativas não tinham sido abrangidas pelas limitações impostas ao direito de associação e, por essa razão, nem os seus estatutos eram sujeitos a aprovação legal, nem a eleição dos seus dirigentes a ratificação pelas entidades governamentais. Forçando uma porta entreaberta por um lapso do poder, os fundadores da Pragma puseram mais uma peça no puzzle da oposição ao regime – cuidadosa e imaginativamente.»
«A história da Pragma é uma bela história. Ela ilustra bem alguns ambientes da última década do fascismo. Mobilizou muita gente, abriu horizontes, influenciou muitos jovens que foram chamados para combater na guerra colonial – alguns desertaram, outros tiveram um papel activo, como milicianos, na alteração de mentalidades, e na preparação do 25 de Abril.»

Excertos de A cooperativa Pragma – uma boa ideia e uma bela história, in Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória – Os Católicos Portugueses e a Ditadura, Âmbar, Lisboa, 2007, p.61 e p.79.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Tributos a Adriano (1942-1982)

O cantautor da resistência Adriano Correia de Oliveira é hoje homenageado na Marinha Grande, por ocasião da passagem do 65.º aniversário do seu nascimento (programa aqui).
A iniciativa parte dum grupo de amigos de Adriano e tem o apoio do município local e de várias personalidades.
Inicia-se pelas 21h15 com uma sessão solene de homenagem, na presença dos filhos Isabel e José Manuel Correia de Oliveira, do compositor José Niza e do poeta e deputado Manuel Alegre. Segue-se canto livre com Francisco Fanhais, Luísa Maio e João Miguel e o lançamento do disco «Adriano Sempre!», com temas interpretados por músicos de diversas gerações e áreas musicais. Neste dia é ainda inaugurada a exposição «Adriano Sempre!», dedicada à sua vida e obra.
A homenagem é retomada a 21 de Abril, com um espectáculo musical em que participam os músicos intervenientes no disco «Adriano Sempre!» (pav.º municipal de exposições da Marinha Grande, 22h).
Os Erva de Cheiro também editaram um disco de homenagem «Cantaremos Adriano» e dão espectáculos alusivos em Avintes (28/4, 21h30) e Loulé (30/4, 21h30, Cine-Teatro Louletano). O conjunto é formado por Alexandre Pinto, João Queiroz, Jorge Jordan, Nuno Faria, Paulo Cavaco, Rui Sousa e Vitor Sarmento. Para ouvir as músicas dos Erva de Cheiro e ter acesso a informação inédita sobre Adriano vd. o blogue Cantaremos Adriano.
Para uma biografia de Adriano vd. aqui ou aqui.
Sugere-se ainda a consulta dos sites Adriano Sempre! e Adriano Correia de Oliveira (da Esc.ª Sec.ª Emídio Navarro).

domingo, 8 de abril de 2007

3º Congresso da Oposição Democrática (1973)





Entre 4 e 8 de Abril de 1973 realizou-se o 3º Congresso da Oposição Democrática.


A Comissão Executiva era composta por:



Álvaro Seiça Neves (Advogado)
António Neto Brandão (Advogado)
António Pinho Regala (Estudante)
Carlos Candal (Advogado)
Flávio Sardo (Advogado)
João Sarabando (Publicista)
Joaquim da Silveira (Advogado)
Manuel Andrade (Advogado)
Mário Bastos Rodrigues (Estudante)

(E ainda, nos termos do artº 8º do regulamento, por dois delegados escolhidos por cada uma das Comissões Distritais)

Não podendo estar presente, por se encontar exilado no Brasil, Ruy Luis Gomes enviou (por telegrama) as palavras de abertura que foram lidas por Álvaro Seiça Neves:



"Profundamente sensibilizado convite presidir Congresso saúdo companheiros consciente da importância deste Congresso para objectivos centrais nossa luta liberdades democráticas povo português independência povos coloniais declaro aberta a sessão ".


CONCLUSÕES DO CONGRESSO:
Situação e perspectivas políticas, nos planos nacional e internacional

Declaração final
do III Congresso da Oposição Democrática aprovada na sessão de encerramento de 8 de Abril de 1973


1) – Os milhares de democratas presentes no III Congresso da Oposição Democrática, reunido em Aveiro de 4 a 8 de Abril de 1973, têm a consciência de que esta reunião – a que o Governo foi obrigado por pressão das condições internas e para tentar melhorar a sua imagem internacional – constituiu uma grande vitória das forças democráticas. A larga mobilização de democratas efectuada em todo o País em torno da organização dos trabalhos, da elaboração das teses e do debate dos problemas apresentados, veio no seguimento da movimentação democrática crescente, ao mesmo tempo que traduz o descontentamento cada vez maior da população portuguesa em face do constante agravamento dos problemas fundamentais do País.

2) – Manifestam os democratas em Congresso o seu firme e veemente protesto contra as múltiplas acções repressivas com que o Governo procurou intimidar, dificultar e impedir a sequência dos trabalhos. Tais acções vão desde as prisões de numerosos democratas quando em vários pontos do país colavam cartazes do Congresso, à proibição de sessões de trabalho preparatórias, desde o corte sistemático de noticias sobre o Congresso pela Censura, ao encerramento do parque de campismo em Aveiro para evitar o alojamento das camadas trabalhadoras e da juventude estudantil; desde a retenção de excursões do «rápido» em Avanca para identificação dos passageiros – tornando Aveiro uma cidade cercada – a criarão de um clima de inquietação, propalando notícias falsas sobre pseudo-violências em Aveiro e tudo culminando com a ferocidade com que as forças policiais atacaram a romagem dos democratas à campa de Mário Sacramento na manhã de domingo 8 de Abril, causando feridos. Reconhecendo ser a violência um direito dos oprimidos, o Congresso pretende que o exercício da violência pelas autoridades contra o povo pacífico e indefeso toma o nome de desumanidade e brutalidade.

3) – Realiza-se o Congresso num momento em que os problemas do povo português são cada vez mais graves e se verifica a total incapacidade das forças dominantes para os resolver.

Doze anos de guerra colonial representam um crime contra a Humanidade pela destruição de populações e culturas africanas e um sacrifício absurdo que tem sangrado o país em vidas e recursos, constituindo profunda causa de depressão das energias morais de um povo que precisa de as mobilizar para a construção do futuro.

0 crescente domínio do capital monopolista internacional e nacional agrava pesadamente as condições de trabalho e de vida das massas trabalhadoras, transfere para essas massas trabalhadoras o custo da inflação e das pseudo-medidas para a debelar, reduz ainda mais os direitos sindicais, transformando-os em meros simulacros, esconde a sua incapacidade para responder aos problemas e exigências reais com a proclamação de projectos de ensino, habitação, saúde e segurança social que nada resolvem e deixam intactas as verdadeiras causas da gravíssima situação de carência em todos esses domínios.

0 agravamento das contradições internas do regime e a limitação da sua base política de apoio tem levado o Governo, como resposta a essa agudização, a acentuar a escalada repressiva em todos os aspectos e sectores da vida nacional, criando uma situação em que para se ser acusado de subversão e receber os golpes de um poder que não conhece limites, e suficiente tomar consciência dos problemas do país e legitimamente procurar-lhes caminhos de solução.

4) – Perante este quadro, que foi pormenorizadamente analisado por cerca de duas centenas de teses e comunicações e em vinte e cinca longas e largamente participadas sessões de trabalho, os democratas presentes no III Congresso da Oposição Democrática concluem que os objectivos imediatos, possíveis de atingir através da acção unida das forças democráticas, são:

- Fim da guerra colonial;
- Luta contra o poder absoluto do capital monopolista;
- Conquista das liberdades democráticas.

A luta por objectivos parciais e imediatos, sendo nas actuais condições amplamente mobilizadora, não deve no entanto fazer-nos esquecer o objectivo final da conquista do socialismo, o qual é indispensável para a construção de uma sociedade justa e digna.

5) – Perante a expansão das forças democráticas e a sua crescente projecção no povo português, perante a radical oposição entre o movimento democrático e o regime na analise e nas linhas de solução dos problemas fundamentais do país, não resta outra alternativa ao Governo a não ser a repressão total da movimentação democrática ou o reconhecimento da realidade política nacional.

0 primeiro caminho, alem de ferir os direitos elementares de qualquer povo, revelar-se-ia inoperante como a experiência histórica demonstra.

Por isso, deve ser igualmente objectivo imediato de acção a conquista do reconhecimento da organização democrática e da sua plena liberdade de actuação.



Tal como se esperava, o Congresso sofreu a repressão das forças fascistas, não só contra os Congressistas, mas também contra os repórteres estrangeiros que faziam a sua cobertura:




A repressão sofreu o repúdio da imprensa estrangeira:

O protesto dos jornalistas estrangeiros contra a repressão (comunicado de 8.4.73)

Os correspondentes da imprensa estrangeira que se deslocaram à cidade de Aveiro para informar sobre o III Congresso da Oposição Democrática, acto perfeitamente legal e autorizado pelo governo português, desejam por este meio protestar da maneira mais enérgica contra a agressão brutal desencadeada pela polícia durante a manifestação realizada na manhã de hoje, domingo, 8 de Abril de 1973, durante a qual foram agredidos sem motivo algum duas jornalistas, uma delas de mais de 60 anos de idade, da imprensa suiça e alemã respectivamente, e um enviado especial do jornal italiano «Il Giorno» que foi derrubado e agredido selvaticamente por quatro polícias ao mesmo tempo, e a quem roubaram a máquina fotográfica. Também a um enviado especial do agência latino-americana Prensa Latina lhe foi roubado o filme que havia tomado dos acontecimentos.
Nós, jornalistas estrangeiros, somos trabalhadores da imprensa dos nossos países, e desempenhamos uma função estritamente profissional, cumprindo a nossa tarefa de informar a opinião pública.
Consideramos que a atitude da polícia em Aveiro violou os mais elementares princípios da liberdade de imprensa e, ao mesmo tempo, foi desnecessariamente brutal e agressiva, pelo que protestamos energicamente junto dos nossos colegas portugueses e perante a opinião pública deste país.

a) Ginninger ( « New York Times»); Rameier («AZ» de Viena de Áustria) ; Herrman ( imprensa suiça e alemã) ; Hora ( Agência Prensa Latina) ; Kesseber («Suddeutsche Zeitung», Munique- RFA) ; Haubrich (« Frankfurter Allgemeine Zeitung» - RFA); Muller («Sudwest Press» - RFA); Gerhardt ( Rádio Alemã); Ochetto («Il Giorno»-Itália) ; Goertz (« Die Welt» - RFA).

sábado, 7 de abril de 2007

Formação para professores

Curso para Professores em Lisboa (21-04 a 09-05) e Faro (28-04 a 26-05)
Portugal: Ditadura, Revolução, Democracia
A Associação 25 de Abril em parceria com a Associação de Professores de História, promove um curso de divulgação de História Contemporânea para professores dos ensinos Básico e Secundário.
Módulos:
1. O Estado Novo no pós-II Guerra Mundial (Professor Fernando Rosas e Professor António Reis)
2. A guerra colonial (Coronel Aniceto Afonso e Coronel Matos Gomes)
3. A conspiração e a acção militar do 25 de Abril (Coronel Vasco Lourenço)
4. A descolonização (General Pezarat Correia e Almirante Vítor Crespo)
5. A transição do poder revolucionário para o poder democrático (Coronel Vasco Lourenço, Almirante Martins Guerreiro e Coronel Rosado da Luz).
Programa e ficha de inscrição aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Por teu livre pensamento – histórias de 25 ex-presos políticos portugueses

Ainda no âmbito das comemorações do 25 de Abril, será lançado a 21 um novo livro com testemunhos de resistentes antifascistas, Por teu livre pensamento, de Rui Daniel Galiza e João Pina. Dada a relevância da obra aproveitamos para reproduzir a informação que amavelmente foi cedida pelos autores.
"A Assírio & Alvim promove no próximo dia 21 de Abril, pelas 16:00H, no Centro Português de Fotografia na cidade do Porto, o lançamento do livro «POR TEU LIVRE PENSAMENTO – Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses», de autoria de Rui Daniel Galiza e João Pina, obra prefaciada por S. Exa. o Presidente da Assembleia da República, Dr. Jaime Gama.
Este lançamento irá acontecer em simultâneo com a inauguração da exposição que reúne o trabalho fotográfico de João Pina, 55 provas distribuídas por duas salas e uma instalação multimédia, patente ao público de 21 de Abril a 24 de Junho de 2007.
Ambos os eventos irão decorrer no Centro Português de Fotografia, instituição situada no edifício da antiga cadeia da relação, local onde estiveram detidas várias figuras marcantes da cultura portuguesa, como são os exemplos de Camilo Castelo Branco e do ensaísta e professor universitário, Óscar Lopes, detido naquele estabelecimento pela polícia política. Está já confirmada a presença de vários dos ex-presos políticos que figuram na obra.
O livro e a exposição «POR TEU LIVRE PENSAMENTO» são o resultado de 25 entrevistas efectuadas a igual número de ex-presos políticos, por dois jovens sem qualquer memória pessoal do período em questão, que pela sua acção de luta contra o Estado Novo e em prol da implementação da Democracia em Portugal, viveram experiências de privação de liberdade e maus tratos nas prisões do fascismo.

Uma das lamentações que os nossos entrevistados mais transmitiram foi o facto de, na sua opinião, Portugal ser 'um país sem memória'. Se com este modesto contributo conseguirmos dar um pouco a conhecer o que era viver no Portugal de há poucos anos atrás, e lutar pela sua transformação num país melhor, a nossa tarefa está cumprida. Rui Daniel Galiza - Textos
Exactamente um ano, um mês e um dia antes de a 'Grândola Vila Morena' passar no Rádio Clube Português e os militares saírem à rua, morreu uma pessoa que marcou a minha vida, apesar de nunca o ter conhecido pessoalmente: o meu avô materno, Guilherme da Costa Carvalho. Ele foi o protagonista de várias histórias que ouvi, todas elas recheadas de detalhes das suas peripécias – as fugas de Peniche e Caxias, o paludismo que apanhou no Tarrafal, onde passou períodos na 'Frigideira'. João Pina – Fotografia

Disponível nas livrarias a partir de 18 de Abril, com um preço de capa de €30, «Por Teu Livre Pensamento» é um projecto que pretende dar maior visibilidade a factos e figuras da história recente de Portugal, factos e figuras essas que parecem simultaneamente tão próximas e tão distantes da memória colectiva de todos nós, principalmente das gerações que os sucederam, para quem a democracia e a liberdade são factos consumados.
Para que não se esqueça.

Para informações adicionais contactar, P.F.:
Vasco David –
vasco.david@assirio.pt
Duarte Azinheira –
duarte.azinheira@assirio.pt
Telef.: 21 3583030

Data: Sábado, dia 21 de Abril, às 16:00H.
Local: Centro Português de Fotografia
Antigo edifício da Cadeia da Relação
Campo Mártires da Pátria
4050-368 Porto
"

ADENDA- cabe tb. registar aqui a lista dos 25 ex-presos políticos antifascistas homenageados nesta obra:
AIDA MAGRO
ALBERTINA DIOGO
ANTÓNIO TERESO
CARLOS BRITO
CARLOS COUTINHO
CONCEIÇÃO MATOS
DIAS LOURENÇO
EDMUNDO PEDRO
EMÍDIO GUERREIRO
ERNESTO PEREIRA
EUGÉNIA VARELA GOMES
ILÍDIO ESTEVES
ISABEL DO CARMO
IVONE DIAS LOURENÇO
JOÃO VARELA GOMES
JOSÉ MÁRIO BRANCO
LIGIA CALAPEZ
MANUEL PEDRO
MANUEL SERRA
MARIA LUISA CABRAL
NUNO TEOTÓNIO PEREIRA
PEDRO BAPTISTA
SALDANHA SANCHES
SÉRGIO VILARIGUES
SOFIA FERREIRA

quinta-feira, 5 de abril de 2007

O saudoso tempo do fascismo - introdução ao riso e à memória

Este é decididamente um mês de boa colheita para a memória da luta pela liberdade.
Ainda a 10 de Abril será lançado o livro de memórias O saudoso tempo do fascismo - introdução ao riso e à memória, de Hélder Costa, na sede da Associação 25 de Abril, em Lisboa, às 18h30.
Em jeito de introdução à leitura do livro do dramaturgo, encenador e director do grupo de teatro A Barraca, deixa-se aqui um excerto do respectivo prefácio, por Urbano Tavares Rodrigues:
"Poderia ser quase uma autobiografia meio humorística, mas Hélder Costa preferiu falar da sua geração. (...)
E depois a Lisboa dos anos sessenta, as greves na Universidade, antecipando o Maio francês de 68, os primeiros passos de emancipação das raparigas, o erotismo em frente comum com a luta política. (...)
Neste livro convivem a todo o momento a crítica e a mofa, armas de ataque do autor, com a lembrança simples, por vezes à beira da emoção, de gestos heróicos levados a rir, em que a ideologia, a dignidade e adrenalina do risco se dão as mãos. Tudo isto numa galopada de juventude estudante, como no capítulo dedicado a Campo de Ourique ou em múltiplas referências à fraternidade desafiante, ao amor e à ternura que enchiam as algibeiras deste revolucionário andante, vozeador que, espalhando brasas, também colecciona a amizade".

Sob Céus Estranhos



O Livro Sob Céus Estranhos - Uma História de Exílio de Daniel Blaufuks tem o seu lançamento marcado para o próximo dia 10/04, às 18,30, na Fnac Chiado.

Após a apresentação do livro por Richard Zenith, será projectado o filme com o mesmo nome.

Daniel Blaufuks nasceu em Portugal em 1963.

A partir de 1987 frequentou o curso de Fotografia do Centro de Arte e Comunicação Visual (Ar.Co.) e, na década de 90, prosseguiu os seus estudos no Royal College of Art em Londres e no Watermill Center de Nova York.

Começando por exercer a sua actividade como freelancer em diversas publicações portuguesas, distanciou-se progressivamente do fotojornalismo.

Fez a sua primeira exposição individual na Galeria Ether depois de receber o “European Kodak Award”, em 1989.

Posteriormente, publicou um conjunto de Séries Fotográficas:

My Tangier, 1991
Cinema Paraíso, 1991
London Diaries, 1994
Uma viagem a São Petersburgo, 1998
Andorra, 2000
Lisboa, Pessoa, Exílio, Saramago, 2001

Já este ano, conquistou o Prémio BES Photo 2006, a maior distinção nacional para a Fotografia, com um trabalho realizado sobre o Campo de Concentração nazi Theresienstadt, hoje situado na República Checa.

Leo Spitzer, Professor de História do Darthmouth College, apresenta assim o Livro:

"Sob Céus Estranhos é uma meditação evocativa e poética sobre a experiência dos refugiados da Europa Central e sobre um sentimento de dispersão em trânsito na cidade de Lisboa e nos seus arredores.
É uma descoberta comovente, positivamente modesta e humana do espaço, do tempo e do desenraizamento, transmitidos de geração em geração, dos avós que partiram da Alemanha para Portugal, para os pais, para o neto. Poucos refugiados permaneceram em Portugal depois de a guerra acabar, mas os avós de Blaufuks, ao contrário de tantos outros, decidiram não seguir viagem nem voltar para a Alemanha.
Tendo crescido em Lisboa, no quinto andar do mesmo prédio onde moravam os seus avós, Daniel Blaufuks viveu a infância num universo de vestígios dessa experiência dos refugiados - um mundo de alusões, fotografias, alguns objectos, comidas, costumes e memórias que não eram as suas, mas que acabaram por o atrair e marcar de forma indelével.
Utilizando algumas dessas reminiscências, bem como filmes da época e de família, excertos de memórias e textos de refugiados, relatos de família e materiais de arquivos europeus e americanos, Blaufuks oferece-nos um vívido documento com uma bela imagem sobre um momento significativo da história do século XX.
O resultado - belo, delicado - é testemunho de uma importante, ainda que muitas vezes menosprezada, verdade. Apesar da sua natureza imperfeita, apesar da sua incapacidade para captar e comunicar a experiência através da memória, a transmissão entre gerações é envolta em valores e em lições que podem efectivamente passar de pessoa para pessoa, de geração para geração, através dos tempos."

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Na noite em que Salazar "ganhou", na votação, da televisão pública

Publicamos hoje um texto de Irene Pimentel, historiadora e activista do movimento Não apaguem a Memória!, que nos revela os bastidores do concurso da RTP1, «Os grandes Portugueses». Por ele ficamos a saber os pormenores rocambolescos deste programa de má memória. O registo, irónico, faz juz à boa tradição lusíada, e adequa-se que nem ginjas ao tema. Boa leitura!
"Caindo num logro, achei que tinha tido a 'sorte' de ser convidada para a «grande gala», onde “tudo” ficaria decidido: ou seja, ia-se decidir quem era o maior português de sempre (em 25/3/2007). Iria finalmente – pensava – contribuir para contraditar, nem que fosse um pouco, o pensamento único. Ingenuidade e omnipotência! É certo que, após muito hesitar – é verdade –, decidi que talvez valesse a pena intervir, nem que fosse durante 45 segundos, para lançar uns pós de contraditório. Já agora, de História, num programa sobre figuras históricas, que se caracterizou por evacuar precisamente… a História. Era um concurso, mas um concurso é um concurso, é um concurso…, na televisão pública.
Tive, porém, o cuidado, ao chegar ao estúdio, de me informar se iria realmente intervir. Foi-me assegurado que sim, fui à caracterização, e colocaram-me num determinado local. Primeiro aviso: tinha sido remetida para os “apoiantes” de Vasco da Gama. Vim, depois, a perceber, pela localização, que, sabendo que ele ficaria em último lugar, era o local de onde nem valeria a pena falar. É certo que devia ter percebido e ido embora. Afinal tinha sido convidada, para estar sentada (diga-se que muito inconfortavelmente), durante três horas, para assistir – caladinha – à grande decisão, qual personagem do filme Laranja Mecânica (do Kubrick), obrigada a ver tudo, impossibilitada de fazer zapping!
Reconheço que me deixei manipular pela RTP – televisão pública – para a qual, como todos os portugueses (que pagam impostos), desconto. Tinha sido abordada, há cerca de uns meses, para dar alguns depoimentos sobre personalidades públicas da História de Portugal, para um programa da RTP, que me pareceu, tal como me explicaram então, um programa em forma de concurso, que teria a oportunidade de divulgar figuras históricas portuguesas, ao grande público. Público tão arredado da História, para não falar da memória, relativamente a tempos mais recentes. Gravei depoimentos sobre Álvaro Cunhal, Oliveira Salazar, Humberto Delgado, José Afonso e Aristides de Sousa Mendes, se bem me lembro. Recordo-me de ter discutido então sobre a presença de Salazar (que estava programada) e de ter sido colocada a questão de ele poder ganhar. Mais uma razão – pensei –, para fazer um depoimento sobre ele (que realmente fiz).
Depois, surgiu, uma mini polémica, em resultado de ter havido da parte da RTP a ideia de não colocar Salazar e Caetano à votação, à semelhança do que havia acontecido na Alemanha e em França, respectiva e relativamente a Hitler e a Pétain. Pareceu-me estranho, pois eu própria tinha gravado um depoimento sobre o ditador português, e achei que dali resultava um efeito perverso – desejado ou não – que tinha o condão de fazer do omnipotente presidente do conselho de ministros uma vítima… da Censura, caso ele não fosse incluído nas personalidades que iriam ser sujeitas ao “voto” dos “portugueses”. Parece que houve uma mobilização de salazaristas e de apoiantes de Álvaro Cunhal!
Passou o tempo… Pensei que o concurso não tinha grande audiência, os debates eram mornos, cá fora pouco se falava dele, a não ser com alguns picos de excitação, regulada pelos métodos de marketing. Mesmo assim, era um concurso, um concurso… e, para não haver batota, haveria certamente contraditório. Eis que surgem, em Lisboa (não sei se pelo país) cartazes referendários, a branco e preto (não me refiro à cor, mas à tonalidade da mensagem), dicotómicos e destinados a excitar e a fazer sangue: «Salazar, ditador? Ou salvador». O primeiro adjectivo era um pleonasmo, o segundo não se percebia: salvador de quê? do seu próprio regime?
Cá fora, as pessoas começaram a estranhar, uns com maior ou menor revolta, a grande maioria com indiferença. Era um concurso, um programa de entretenimento, dizia-se, com a vantagem de difundir, ao grande público, personagens históricas. Uns davam o benefício da dúvida, outros consideravam o programa inócuo, uma vez que Salazar estava bem morto e enterrado. Muitos, entre os quais me incluo, desvalorizaram e enganaram-se. Outros acertaram e disseram que o programa era um disparate e passaram à frente.
Depois, foi a escolha de quem defendia as personagens. As mais polémicas ficaram a cargo de defensores, apoiantes ideológicos das mesmas. Tudo a bem do espectáculo, do circo e da dicotomia, para acentuar o voto militante. Vieram então os programas hagiográficos sobre as figuras. Tanto mais hagiográficas quanto se aproximavam dos tempos recentes. Ressalve-se o programa sobre Aristides de Sousa Mendes, cujo momento histórico teve cerca de uma semana, e com quantas consequências! Salvou vidas humanas. Devo dizer que não vi todos os documentários, por isso, só me posso referir aos relativos a Aristides, Cunhal e Salazar.
O elogio a Salazar tinha imagens de arquivos – conhecidas – e Jaime Nogueira Pinto, propagandeando, sem a criatividade estética de António Lopes Ribeiro, na Revolução de Maio, o regime salazarista. Todos os lugares comuns presentes: o homem que equilibrou as Finanças, que defendeu a nossa independência nacional, ao apoiar os golpistas militares em Espanha, e que nos salvou da II Guerra Mundial. Evidentemente omitindo que qualquer um equilibra as Finanças, eliminando toda a oposição, as greves, as manifestações, e ocultando-a através da Censura.
Mas o melhor estava para vir! Foi o espectáculo mais aborrecido ao qual jamais assisti! Felizmente, o que ia ouvindo contribuía para enervar bastante, para manter qualquer pessoa acordada. Havia um senhor que elogiava o facto de ele próprio gostar de mulheres. Alguém assegurava que Fernando Pessoa não era alcoólico nem homossexual. Um político da Direita portuguesa lamentava que o século XX português tivesse sido triste, talvez – só talvez – para revelar que não iria fazer a mesma coisa que Salazar. Entretanto, qualquer amante de história, atento aos anacronismos, sabe que Salazar só há um e que nada se repete da mesma forma.
Um falava das crueldades de antanho, reduzindo a Inquisição portuguesa à brandura dos nossos costumes. Um senhor jornalista da assistência defendia o primeiro rei de Portugal, arengando as massas a votarem nele, graças ao qual Portugal era este país extraordinário, de onde saíram os valorosos filhos que, na véspera, tinham goleado, por 4 a 0, outros – neste caso flamengos –, mostrando à Europa de que massa somos feitos.
Mais uma vez o melhor estava para vir. O defensor de Salazar, sem tempo para fazer o trabalho de casa, repetiu o que já havia dito no tal filme de propaganda, sem a estética estado-novista: que ele tinha sido um ditador, mas também um «líder», que, esse sim, tinha congregado toda a direita e domesticado as Forças Armadas (os quadros intermédios), que nunca tinha sido corrupto, que nascera e morrera pobre, num país seguro. Se houvesse contraditório, alguém poderia ter dito, entre outras coisas, que houve os ballets roses, que o ditador sabia bem que o que parece às vezes é, e que, por isso, basta instaurar a censura e, como por milagre, desaparecem todos os conflitos, a corrupção, os crimes, os suicídios. Que tivemos uma guerra colonial em três frentes, durante treze anos, sorvedoura de uma geração portugueses, forçados ao serviço militar obrigatório. Já agora…. Que dizer do argumento de Nogueira Pinto, segundo o qual se pode agradecer a Salazar ter feito uma guerra colonial em três frentes, pois contribuiu com isso a formar uma identidade nacional, que possibilitou a criação de países africanos?
A omissão, que é a arma dos mal-intencionados não parou aí. Não se ouviu, durante toda a noite, da parte do defensor do ditador, inúmeras palavras: por exemplo, PIDE/DGS, tortura, assassinato, despedimento por razões políticas, campos de concentração, miséria, falta de educação, «orgulhosamente sós», «viver naturalmente», a mordaça à criatividade, informadores da polícia, provincianismo. E sobretudo, hipocrisia e duplicidade! Perdão, para ser justa, o defensor encontrou um defeito no ditador: nos últimos anos do seu regime, não ouviu o povo! E, assim, se deu lugar à complexidade da personagem.
No programa, assistiu-se também à suprema ironia de o defensor de Salazar tentar eliminar, com batota (qualquer concurso a tem, pelos vistos), um adversário. E aqui, é mais grave, pois sai-se do terreno da ideologia, que qualquer um tem o direito de defender, em democracia, para a falsidade. Jaime Nogueira Pinto inventou o número de um milhão (porque não dois milhões, ou meio milhão, sempre era mais credível) de refugiados que Salazar teria salvo, durante a II Guerra Mundial. Então, porque puniu Sousa Mendes, acusando-o de desobedecer às suas ordens ao dar vistos a apenas alguns milhares de perseguidos do nacional-socialismo? Na realidade, o Estado Novo teve de deixar entrar, em Portugal, os refugiados com vistos de Sousa Mendes, porque a Espanha os recusou de volta. Houve fugidos ao nazismo, em Portugal, apesar de Salazar e porque, quando os destinos da guerra se viraram para o lado dos Aliados, o ditador viu o que tinha a ganhar com uma postura de neutralidade colaborante.
No final, não faltaram os analistas políticos, alguns dos quais surgiram no seio dos defensores. Um deles – defensor do Marquês de Pombal – aproveitou para dizer que Salazar “ganhou” porque tudo em Portugal estava muito mal. Embora não o dissesse, percebia-se que se referia ao próprio regime. Agora a sério: esse regime é o regime democrático. Com todos os seus erros, temo-lo, e é incomensuravelmente melhor que a ditadura. Até porque em democracia, podemos criticar, sugerir lutar contra o que não gostamos. No programa da RTP, houve vozes contra o regime democrático. É próprio da democracia. Mas também convém que alguém a defenda, num instrumento que é pago pela mesma.
Aproveitando o facto de ter estado 'calada' a assistir, vou relatar algumas coisas que vi. Odete Santos estava lá para gáudio dos espectadores. Num registo conhecido e inadequado – por isso terá sido escolhida –, interveio e foi gozada e achincalhada. Da bancada dos “salazaristas” (defensores de Salazar), havia risos ostensivos e achincalhantes de quem nem num concurso se sabe comportar. Prestou-se a isso, mas um mínimo que se exigia da televisão pública é que as pessoas convidadas não fossem alvo de chacota. Quando o defensor do Marquês de Pombal, exactamente no mesmo registo – melhor dito, mais num registo utilizado, em tempos, com mocas –, fez a sua “análise” final, ninguém pestanejou, talvez porque a sua intervenção tenha sido então considerada a de um “analista político”. Depois do final do programa, assisti a 'fogosos' jovens, 'amantes de história', na sua 'juventude' a gritarem palavras de ordem (gritavam «JSD», JSD», entre outras coisas), aproveitando mais uma vez… para dizer coisas sobre Odete Santos.
Ao meu lado, estavam muitos colaboradores do concurso, que com trabalho de qualidade intervieram no mesmo, e vi desânimo e desalento, até revolta, com o resultado final. Alguém, que fez, aliás, um excelente documentário, dizia «mais valia que não se tivesse feito este concurso». Pois é, foi uma irresponsabilidade da televisão pública do Estado, com a qual eu própria colaborei!
Irene Pimentel, historiadora
P.S. Já agora, também na televisão pública (por isso nem tudo está perdido), poder-se-á assistir a uma série de excelentes documentários, da autoria de António Barreto e de Joana Pontes. Foi também na RTPN (programa «Choque ideológico») que assisti, em 26 de Março, a uma excelente intervenção sobre este concurso, do advogado Carlos Abreu Amorim, acerca da forma como uma certa direita “liberal” se envolveu em blogues, na defesa do ditador anti-liberal, deixando cair a máscara. Sugiro ao Público que o entreviste. Foi até agora a melhor análise sobre como está a ser feita, por alguns, a História da I República Portuguesa e a ascensão de Salazar ao poder."

terça-feira, 3 de abril de 2007

Jantares-convívio do 25 de Abril

No âmbito das celebrações do 25 de Abril irão realizar-se na capital dois importantes jantares-convívio.
O 1.º é no próximo dia 20, às 20h, no Espaço Ribeira (sito no Mercado da Ribeira). É a sua 5.ª edição e da Comissão Promotora fazem parte vários membros do movimento Não apaguem a Memória! (tels. de contacto: 213474098 - livraria do restaurante; 914548986 - Júlia Coutinho). A sessão contará com as intervenções públicas dos activistas do movimento arq.ª Helena Roseta e «capitão de Abril» Martins Guerreiro, além doutros membros da Comissão Promotora. José Afonso será evocado.
O 2.º jantar-convívio é o da Associação 25 de Abril, que arranca às 19h do dia 24, na FIL- Parque das Nações (tel. 213241420; +contactos aqui).
Nb: para ver o programa do jantar-convívio é favor clicar na imagem.

No país da retórica maniqueísta

O pretexto deste post é a retórica como desporto favorito de certos espíritos sérios da praça.
Pacheco Pereira – já não é novidade, eu sei– saiu a terreiro no sábado para mais uma das suas investidas moralizantes da grei (vd. «Hábitos velhos e relhos», Público). Do alto dos pensamentos perfeitos e da mais fina retórica, o famoso dirigente do PSD resolveu equivaler o “salazarismo difuso” com o “politicamente correcto” de esquerda, onde se esforça por incluir todos os “«democratas»” (sic) que pensam de modo diverso do seu.
Diz Pereira que um cartaz racista e xenófobo do PNR não deve ser motivo de indignação e de reprovação, mesmo que a Constituição da República Portuguesa proíba organizações racistas e fascistas. Aduz que assim se lhe deu publicidade a mais, esquecendo-se que fez o mesmo com o seu artigo de opinião.
E parte daí para as suas habituais profissões de fé anti-esquerda, neoliberal e de americanismo primário, misturando alhos com bugalhos com o propósito retórico de tornar certas posições que lhe desagradam repulsivas.
Já do apoio parlamentar quase unânime dado na véspera à petição do movimento cívico Não apaguem a Memória! nem uma linha. Percebe-se: é que falar seriamente sobre políticas da memória, políticas museológicas, arquivísticas e científicas dá muito trabalho.
Ainda por cima quando a sua colega no hemiciclo, Zita Seabra, abalroou a ideia de preservar a memória da ditadura (e, de caminho, o consenso de vários países europeus), alegando uma suposta partidarização da memória, quando foi a própria que partidarizou a questão. Com efeito, o único deputado a opor-se foi Zita Seabra, assim ultrapassada pelo próprio CDS, que adoptou uma posição sensata. Seabra diz que o PCP usa esta memória para o jogo político, deixando passar a ideia (voluntariamente ou não) de que o Não apaguem a Memória! está ligado ao PCP, quando sabe perfeitamente que o movimento é apartidário. É claro que disto não convém a Pacheco Pereira falar. Mais vale dar umas piruetas e assobiar para o lado.
Deslocando a questão para um uso tenebroso da memória recente pelo PCP, este tipo de posicionamento esquiva-se a ter que indagar a falta de questionamento no trinténio democrático sobre o que foi a ditadura e que mensagem cívica, política e cultural pretendemos legar. E, deste modo, acaba por anular o próprio pluralismo de que se faz arauto defensor: é que há várias políticas da memória, várias memórias colectivas e também uma memória pública a construir resultante da mistura das restantes. Ora, apontar baterias numa direcção omitindo e/ou desvalorizando o que se passa à volta – tanto em termos de maus exemplos como de propostas válidas na mesa – não será um mau serviço prestado ao aprofundamento democrático, à pedagogia cívica, ao pensamento crítico e construtivo?

domingo, 1 de abril de 2007

Discussão da Petição do Movimento



Conforme previsto, foi feita no dia 30, na Assembleia da República, a discussão da nossa Petição.

Do que ocorreu no Plenário, transcrevemos um texto do nosso companheiro António Melo que resume o que lá se passou:

"A Petição apreciada na AR pelos deputados

A votação formal ainda não tem data marcada, mas as intervenções feitas pelas diversas bancadas parlamentares, ao fim da manhã da passada sexta-feira, deixam perceber que a Petição apresentada pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! vai ter um acolhimento esmagadoramente favorável, quiçá unânime por parte do parlamento.

Coube ao deputado socialista João Soares iniciar as intervenções e fê-lo começando por elogiar o autor do parecer que a Petição do Movimento mereceu à comissão de Direitos, Liberdades e Garantias. O trabalho do deputado Marques Júnior, dele se trata, à semelhança da Petição, teve referências elogiosas de todos os intervenientes, mesmo de Zita Seabra (PSD), a única a emitir reservas quanto à oportunidade política da celebração e preservação da memória da resistência, para lá do círculo reservado dos historiadores.
Ao longo das 25 páginas do parecer, Marques Júnior retraça, além do processo que deu origem à Petição, a própria história do Movimento, comentando com pormenor os seus objectivos. Nas conclusões, em que trata das recomendações ao Governo, realça a importância do apoio “a programas de musealização”, dando como exemplo “a constituição de um Museu da Liberdade e da Resistência”, provavelmente na antiga prisão do Aljube, no centro histórico de Lisboa, bem como “a constituição de Roteiro nacional dos lugares e de edifícios”, que têm um valor histórico e simbólico no combate da resistência antifascista.
De resto, convém desde já assinalá-lo, o próprio ministro Augusto Santos Silva, na intervenção final, acolheu estas recomendações e falou da importância da sua realização mesmo em termos de cumprimento da acção governativa.
Voltando ao deputado João Soares, este fez uma breve evocação do que foi a resistência, focando particularmente a repressão que se abateu sobre os seus militantes, mencionando vários deputados que tinham sofrido a tortura da PIDE/DGS e conhecido as prisões do Estado Novo. Neste ponto, endereçou uma saudação especial a um dos membros do Movimento, que na galeria dos visitantes assistia ao debate parlamentar – Edmundo Pedro.
A presença deste antigo tarrafalista foi também assinalada pelo deputado Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda, e, mais tarde, pelo ministro, quando recordou à câmara de deputados ali presente, que sem a coragem e determinação de resistentes como Edmundo Pedro, não seria possível eles lá estarem.
O deputado comunista Bernardino Soares, na intervenção que se seguiu, evidenciou o papel do PCP na resistência ao Estado Novo e sublinhou que foi o único partido que permaneceu íntegro, sem desfalecer, na causa da liberdade “durante os 48 anos da longa noite fascista”. Pôs em evidência as tentativas recentes, vindas de diversos sectores, de “branqueamento” desse tempo ditatorial e, por isso, enfatizou a importância de ao nível dos programas de ensino se desenvolver uma intervenção mais ousada e decidida, para que a juventude saiba o que foi a censura, a repressão policial, a miséria social desse período da história portuguesa do século XX.

Nota discordante de Zita Seabra

A única nota discordante, mais no tom do que na substância, no conjunto das declarações parlamentares, veio da deputada Zita Seabra, em representação do PSD. Depois de um período inicial em que louvou as “meritórias intenções” do Movimento bem como do parecer de Resolução em análise, acrescentou um “no entanto...”. A partir daí derivou para um registo subjectivo, de onde ressaltou a sua experiência como resistente clandestina na luta pelo derrube do Estado Novo, quando era militante comunista, para concluir que nessa matéria ninguém lhe poderia dar lições de heroísmo. Passou daí para um registo de reflexão pessoal sobre o exercício da memória, para concluir que era muito errado essa memória ser utilizada como “arma de arremesso político” pela esquerda contra a direita. Por tudo isso, ela entendia que as questões relacionadas coma memória histórica deviam confinar-se ao âmbito de estudo dos historiadores, mas sem explicar qual seria então o papel desses estudos e a quem eles se deviam dirigir.
O deputado centrista João Rebelo, que se lhe seguiu, também ele algo perplexo com esta intervenção sem conclusão, abriu com uma dupla mensagem de congratulação: para o Movimento e para a deputado Marques Júnior, autor do parecer, como se disse. Deixou claro que este parecer merecia o seu apreço pela maneira sóbria e factual com que fora redigido, não deixando de manifestar a sua discordância, em contrapartida, por algumas formulações da Petição, em concreto a de considerar que a preservação da memória podia ser impeditiva da construção de um novo edifício na Rua António Maria Cardoso, no espaço onde, durante algum tempo e num certo espaço existiu a sede da polícia política do Estado Novo. Mas, no conjunto, aceitou os princípios que presidem à acção do Movimento, sobretudo enquanto escola de democracia “e se tenha a noção de que a história não é propriedade de ninguém”.
Fernando Rosas, deputado e historiador, fez uma saudação à delegação do Movimento, presente nas galerias, com uma especial distinção para Edmundo Pedro. Falou do projecto que o Movimento veio suscitar nas suas várias vertentes de investigação, preservação e divulgação da resistência antifascista e do seu do papel libertador, social e político na sociedade portuguesa. Acrescentou que esse projecto mereceria, provavelmente, mais uma Lei-quadro do que uma simples recomendação, mas não deixou de apoiar o parecer de Resolução que estava em discussão.
O deputado dos “Verdes”, Francisco Madeira Lopes, afirmou o seu apoio de princípio à resolução e pôs a tónica na responsabilidade que cabe ao parlamento e ao governo na concretização dos objectivos que constam do parecer elaborado por Marques Júnior, na preservação da memória da resistência à ditadura.
O ministro Augusto Santos Silva encerrou o debate com uma intervenção de franco e favorável acolhimento da Resolução e da Petição. Esta última referência serviu-lhe para a situar historicamente na vida do Movimento, nascido com o dia da indignação – 5 de Outubro de 2005. Foi nesse dia que um grupo de cidadãos se reuniu na Rua António Maria Cardoso, em protesto contra o desaparecimento, sem qualquer registo de inscrição, da antiga sede da tenebrosa PIDE, substituída por um condomínio de luxo.
Numa intervenção que foi de resposta – senão de esclarecimento – à de Zita Seabra, explicou que essa indignação inicial dera lugar a uma reflexão sobre as intervenções necessárias junto dos poderes públicos e da sociedade em geral, para que a história dos que combateram a ditadura, entre os quais a própria deputada, não passasse de letra morta em livros de leitura distante. Pôs a tónica na necessária luta que a democracia tem em permanência contra a ditadura e lançou sobre os deputados de um parlamento democrático a responsabilidade dessa tarefa. “Sem o combate contra ditadura” a Assembleia da República não seria possível, recordou o ministro. Santos Silva advertiu contra o perigo de se generalizar uma experiência pessoal, com o que ela tem de subjectivo e dramático, arrastando nela juízos preconceituosos e datados por determinada conjuntura, que podem prejudicar o apoio a um projecto com o qual até se concorda.
Santos Silva não foi o único a interpelar, mesmo se indirectamente, a deputada Zita Seabra. Já antes Fernando Rosas, pegando na ideia de confinar o estudo da memória aos historiadores, se pronunciara sobre o erro de se defender uma “história neutra”, o que de algum modo seria defender um modelo de história oficial, que exclui o útil confronto de uma historiografia pluralista nas suas abordagens e perspectivas.
No final, ficou a impressão de que a intervenção da deputada Zita Seabra fora mais um ajuste de contas com fantasmas do seu passado político, do que uma posição do seu actual partido para com a Resolução, que se espera seja votada, sem abstenções, por todas as bancadas parlamentares.
"

O Não Apaguem a Memória!, deseja salientar o extraordinário trabalho realizado pelo deputado Marques Júnior, relator da Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias, que proporcionou esta discussão. Entre muitos aspectos, é de realçar o relato feito relativo às acções já realizadas pelo Movimento.

Aproveitamos para as relembrar:

Principais acções empreendidas – de Outubro 2005 a Março de 2007

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! nasceu de uma acção de protesto realizada no dia 5 de Outubro de 2005 por um grupo de cidadãos indignados com a demolição do antigo edifício-sede da polícia política fascista portuguesa, a PIDE, e sua substituição por um condomínio fechado, sem que nele figurasse uma adequada menção à memória do sofrimento causado aos portugueses pelo regime ditatorial que vigorou durante quase 50 anos.

Desta iniciativa cívica resultou um vasto movimento de cidadãos, democrático, plural e aberto, motivado pela exigência da salvaguarda, investigação e divulgação da memória da resistência antifascista, que considera ser a preservação condigna desta memória responsabilidade do Estado, do conjunto dos poderes públicos e da sociedade.

Um das primeiras iniciativas do Movimento foi a de organizar uma petição nacional, que alcançou o número de 6.007 subscritores (4.810 por subscrição directa do abaixo-assinado e 1.198 por adesão electrónica) – entre eles os antigos Presidentes da República, Jorge Sampaio e Mário Soares – e que foi entregue a 27 de Julho de 2006, na Assembleia da República por uma delegação do Movimento. A petição foi encaminhada pelo presidente da Assembleia da República à Comissão Parlamentar de Direitos Constitucionais – Direitos, Liberdades e Garantias, que a integrou nos seus trabalhos e nomeou o deputado Marques Júnior para seu relator.

De forma a poder apresentar os seus objectivos e concretizar projectos que configurem um Roteiro Nacional da Memória da Resistência e da Liberdade, o Movimento realizou audiências com todos os grupos parlamentares no sentido de os motivar para apoiar os objectivos contidos na Petição então apresentada.

Dentre as acções desenvolvidas deve ser citada a visita organizada ao Forte de Peniche, no dia 1º de Abril de 2006, outro dos presídios onde a ditadura do Estado Novo encerrava os seus opositores políticos no desrespeito absoluto aos mais elementares direitos humanos.

Assinale-se, ainda, a negociação em curso com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e com o promotor imobiliário da Rua António Maria Cardoso, que já manifestou, em carta enviada ao Movimento, a intenção de disponibilizar um espaço no condomínio, onde se inscreva a memória dos resistentes no seu combate pela liberdade e democracia e a referência histórica ao uso da repressão e tortura por parte da polícia política do regime. Foi dado conhecimento à CML da constituição de Grupo de acompanhamento do projecto museológico, formada pelo designer Henrique Cayatte, pelos arquitectos Nuno Teotónio Pereira, Raul Hestnes Ferreira e Rui Pimentel, pelo engenheiro Fernando Vicente e pela historiadora Irene Pimentel.

Merece, também, destaque a acção realizada pelo Movimento, no dia 1º de Julho de 2006 junto ao antigo presídio do Aljube, que reuniu mais de 200 pessoas e contou com a presença de muitos antigos presos políticos. O presídio do Aljube é dos principais paradigmas da repressão exercida sobre a população portuguesa pela PVDE/PIDE/DGS. Pelos “curros” do Aljube passaram, anos a fio, os cidadãos que apenas lutavam pela conquista dos direitos democráticos.

Por tal razão, entende o Movimento que este é um local de eleição para aí ser instalado um Museu da Resistência e Liberdade. A audiência havida com o ministro da Justiça, Alberto Costa – ele próprio um antigo preso político – abre perspectivas promissoras neste sentido.


Justifica-se, também, mencionar a audiência havida com o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, que se realizou no dia 10 de Agosto de 2006. O ministro evidenciou a disponibilidade do Governo para dar seguimento à Resolução que a Assembleia da República vier a aprovar, na sequência do debate parlamentar, sobre a Petição apresentada pelo Movimento (debate que teve lugar no passado dia 30 de Março). Santos Silva afirmou ainda a vontade governamental em acompanhar as iniciativas do Movimento, designadamente sempre que a propriedade dos imóveis fosse do Estado. Deu como exemplos o Tribunal da Boa-Hora e o Aljube, em Lisboa, o Forte de Peniche, nesta cidade litoral, e a antiga sede da PIDE/DGS, no Porto.


Não pode deixar de ser igualmente referido o Manifesto do Núcleo do Movimento no Porto, o qual, entre os objectivos que estabelece em prol da salvaguarda da memória da luta antifascista, coloca a criação de um Museu da Resistência ao Fascismo, a ser instalado na antiga sede da delegação do Porto da PVDE/PIDE/DGS. A saída do Museu Militar, noticiado pela imprensa, que actualmente ocupa essas instalações, cria, por certo, condições facilitadoras para concretizar este projecto.

Importa, ainda, referir o primeiro objectivo histórico alcançado pelo Movimento, com a afixação, no dia 6 de Dezembro de 2006, de uma lápide no Tribunal da Boa Hora, evocativa do que foi a ignomínia e iniquidade dos “tribunais plenários”.

No início deste ano o Movimento empreendeu algumas iniciativas, dentre as quais cabe destacar a organização do Festival “Vozes ao Alto” momento de celebração das canções da resistência.
A 8 de Março, para assinalar o Dia Internacional da Mulher, teve lugar um colóquio sobre o tema “ A Mulher e a Resistência", com a participação de antigas resistentes, seguido de romagem a Coruche e ao Couço, a 10 de Março.

Para finalizar, lembremos as próximas iniciativas previstas:
- Colóquio na Ordem dos Arquitectos, na 1ª quinzena de Abril,
- Colóquio na Ordem dos Advogados, na 1ª quinzena de Junho, ambos para debater a temática relacionada com o espaço de memória a preservar na antiga sede da PIDE-DGS, na Rua António Maria Cardoso
- Participação no desfile do 25 de Abril, seguido da manifestação de protesto e apelo à preservação da memória na Rua António Maria Cardoso.

O Movimento Não Apaguem a Memória! consciente de que devem ser mobilizados todos os esforços para tornar exequíveis os projectos referidos, pese embora o seu carácter cívico, plural e autónomo, tem procurado manter diálogo com diversas entidades que prosseguem finalidades similares, tais como a Associação 25 de Abril (na qual o Movimento tem a sua sede), a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) e a Fundação Mário Soares.

Março de 2007

sábado, 31 de março de 2007

Biografia de Soeiro Pereira Gomes

O livro A passagem. Uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, de Manuela Câncio Reis, acaba de ser lançado pela Editorial Caminho. A autora é víuva do escritor biografado e foi compositora musical.
Aproveitamos a ocasião para reproduzir as palavras de apresentação da obra pela sobrinha do biografado, Isabel Câncio Reis Nunes:
"Através da ternura das gentes de Alhandra, Joaquim Soeiro Pereira Gomes acompanhou a minha vida de menina. Conheci-o nas ruas e... nas gentes de Alhandra... e conheci as ruas... e as gentes... de Alhandra pelos olhos do tio Joaquim. Manuela leva-nos aqui ao encontro não só de Soeiro, o político, o autor, o humanista mas também de Joaquim, rapaz alegre e brincalhão, o irmão, o amigo, o cunhado... o marido; o Quinzinho de Gestaçô; o Joaquim das guitarradas, dos despiques, das baladas e outras estudantices de Coimbra.
Tal como Consuelo Saint-Éxupery, muitos anos depois de o criador de O Pequeno Príncipe ter desaparecido, Manuela Câncio Reis oferece-nos uma jóia da memória - a biografia de um Homem. Estou-lhe grata pelo privilégio de me ter entreaberto a porta da sua intimidade.
Não conheci Soeiro Pereira Gomes, não conheço Soeiro Pereira Gomes. Só conheço o tio Joaquim, o meu primeiro Herói!"

sexta-feira, 30 de março de 2007

TRIGO LIMPO FARINHA DESAMPARO

Cela da Prisão de Caxias


Ainda a indignação. Não apaguem a Memória!

Este texto de Regina Guimarães a propósito do Concurso da RTP "O maior português de sempre", foi por ela escrito "de rajada", como diz, no momento em que soube que Salazar tinha ganho o referido concurso.
Porque reflecte o pensamento e a indignação de muitos portugueses, entendemos transcrevê-lo:

"Salazar foi eleito, via tv-telemóvel, o «melhor português de sempre». Democraticamente, facto que ele não teria, tanto quando se sabe, apreciado.
Aqueles que defendem a utilidade pública do instrumento televisivo talvez (ou talvez não) encontrem aqui matéria de reflexão.
Certo é que, facto inédito desde 25 de Abril de 1974, o nosso ditador (e, atrás dele, os seus semi-ocultos acólitos) beneficiou de um longo «tempo de antena», sendo que as consequências dessa legitimação já se fazem sentir em contextos tão diferentes quanto a pintura de um mural na Faculdade de Letras de Lisboa (e destruição sistemática de todo o material impresso de protesto antifascista afixado nessa instituição) ou o eufórico apadrinhamento de um museu dedicado ao avô cavernoso em Santa Comba Dão. A aura de self-made man – vindo do nada e, a pulso, chegado a um top lugar de chefia – tem porventura algum peso na «adesão» que a sinistra figura suscita entre os jovens (aqueles que não levaram com meio século de obscurantismo e infâmia), num quadro socio-político em que a precarização generalizada ameaça tornar ainda mais eficazes os mecanismos de selecção social (através da escola, por exemplo).
É pena que no Portugal profundo e profundamente sinistrado (do qual a Beira e Santa Comba Dão fazem parte) não se elevem vozes esclarecidas e capazes de explicar o processo de desertificação do interior do país (decorrente de obtusas políticas agrícolas do Sr. Esteves, como dantes lhe chamavam), o êxodo rural e a emigração em massa (potenciados pela guerra colonial e pela porca miséria ali então reinante).
É pena que nunca se tenha preenchido com discussão pública esse enorme hiato histórico que resultou do derrame migratório (para Áfricas, Américas, Araganças, Franças, Germânias, etc.) – como, de resto, também não se julgou indispensável, em terra de brandos costumes, tornar do conhecimento geral as actividades dos repressores profissionais da PIDE/DGS, secundados por uma horda de amadores, ditos «bufos», para quem a vida do próximo e do vizinho não valia um caracol – com a bênção, ora pois, da Santa Madre Igreja. (Já agora, para quando a definitiva separação Igreja/Estado, a começar pela extinção das aulas de Religião e Moral - com este ou outro nome - nos estabelecimentos de ensino público, causa tida como «menor» tal como menores foram sendo tidas as mais nobres causas políticas, por parte de largas camadas da intelectualidade e da burguesia instruída - em quê? - portuguesa?).
Este silêncio de macacos bem comportados há-de custar-nos couro, cabelo e massa encefálica. A menos que achemos pitoresca a perspectiva de voltar a viver no país do medo, da tristeza e da saudade difusa, num país em que «o negro é cor» – assim era Portugal apresentado à estranja, por um célebre slogan turístico do tempo da «outra senhora». A menos que se nos afigure pacífico oferecer lugares ao sol aos que, na sombra, reedificam ideais autoritários e práticas repressoras, reclamando a liberdade de acabar com a liberdade.
A menos que ansiemos pelo «come e cala» neste nosso reino à beira-mar estrumado e chamuscado.
A menos que, ciosos da nossa identidade pseudo-lusa, incolor e inodora, prefiramos, ao caos e ao conflito (que são a própria matéria da vida real e sonhada) um rosário de praças do «lá vem um», onde urgirá dispersar ajuntamentos de três pessoas, multiplicar analfabetos e purgar os que também pensam com as vísceras.
Para que serve uma Escola dirigida por gente que, insanamente divorciada do estudo das violências que dilaceram o tecido social, da necessidade de teorização crítica sobre as muitas formas de mutismo e afasia que afectam os novos danados da terra, se furta ao primeiro dever do trabalhador intelectual: transformar o pensamento em acção?
É neste modelo de Escola que um reitor se escusa a tomar medidas contra a escalada da extrema-direita no seio do seu estabelecimento, argumentando confiança no «bom senso» dos estudantes... É neste modelo de Escola que impera, portanto, o tique e o vício de raciocínio que milénios de esforço pensante e muitas gerações de apaixonados pelo conhecimento denunciaram e tentaram (em vão?) combater."

quarta-feira, 28 de março de 2007

Dia 30 de Março - 11,15 horas - A nossa Petição vai ser discutida

É já dia 30/03, sexta-feira, que a Petição do Movimento Não Apaguem a Memória vai ser discutida na Assembleia da República.

Pela importância de que se reveste depois da luta por nós travada e pelo seu significado histórico, a presença do Movimento nas galerias da Assembleia da República deverá ficar marcado por uma forte presença.
A todos os que possam lá estar, informamos que o ponto de encontro é à porta de entrada para as galerias, cerca das 10.30 horas.


A Petição, apoiada por mais de 6.000 cidadãos, teve o seguinte agendamento:

“Petição n.º 151/X/1.ª (Movimento Cívico «Não apaguem a memória») - Reclamam a criação de um espaço público nacional de preservação e divulgação pedagógica da memória colectiva sobre os crimes do chamado Estado Novo e a resistência à ditadura, condenam a conversão do edifício da sede da PIDE/DGS em condomínio fechado e apelam a todos os cidadãos e organizações para preservarem, de modo duradouro, a memória colectiva dos combates pela democracia e pela liberdade em Portugal.
Tempos: 5 minutos a cada Grupo Parlamentar e ao Governo” .



Para que todos se lembrem - esta é a Petição pelo Dever da Memória:

"No passado dia 5 de Outubro, um conjunto de cidadãos reuniu-se junto à antiga Sede da PIDE/DGS, reafirmando o protesto público contra a conversão daquele edifício em condomínio fechado e contra o apagamento da memória do fascismo e do sofrimento causado aos portugueses. No local, ficou então uma faixa com os nomes de muitos dos que foram assassinados pela ditadura que oprimiu Portugal durante quase 50 anos. É finalidade desta iniciativa cívica continuar essa acção, convertendo-a no impulso simbólico dum vasto movimento de cidadãos, plural e aberto, de exigência da salvaguarda, investigação e divulgação da memória do fascismo e da resistência, como responsabilidade do Estado, do conjunto dos poderes públicos e da sociedade. 1. Reclamamos dos poderes públicos que, mais de 30 anos passados sobre o 25 de Abril, assumam a responsabilidade de constituir um espaço público nacional de preservação e divulgação pedagógica da memória colectiva sobre os crimes do chamado Estado Novo e a resistência à ditadura, que aproveite os espaços emblemáticos dessa realidade como são o Aljube, o Forte de Peniche, Caxias, a sala do plenário da Boa-Hora, a sede central da PIDE/DGS e a sua Delegação do Porto, e que coordene a sua acção com o valioso trabalho desenvolvido neste domínio por diversas instituições; 2. Condenamos a conversão do edifício da sede da PIDE/DGS em condomínio fechado e exigimos a criação de um espaço e de um elemento memorial naquela área, que assegurem a memória e a homenagem ao sofrimento de muitos portugueses e a condenação dos crimes cometidos pela polícia política do fascismo, que constituiu um dos principais pilares da ditadura; 3. Apelamos a todos os cidadãos e organizações que multipliquem, partilhem e tomem nas suas mãos, pelas formas e iniciativas que entenderem, a preservação duradoura da memória colectiva dos combates pela democracia e pela liberdade em Portugal, como elemento indispensável à construção de um futuro melhor. Porque sem memória não há futuro.

Outubro de 2005 "

O Grupo de Comunicação

Exemplos inspiradores: o caso argentino (um livro, um site e um museu)

Luís Mateus, membro do Movimento, propôs que se aprofundasse o conhecimento sobre casos de repressão ditatorial no século XX similares aos do regime salazarista (retomando informações que já houvera dado sobre o caso argentino). Esta é uma via preciosa para se consolidar a reflexão e debate em Portugal sobre uma política museológica e da memória que reflicta sobre o passado ditatorial.
Aproveito então o repto para dar dados sobre 3 iniciativas: um livro, um site e um museu.
O livro intitula-se Memoria en construcción: el debate sobre la ESMA, foi escrito por Marcelo Brodsky em 2003, e pretende devolver-nos o que foi o antigo centro de detenção da Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA), campo de tortura e extermínio da Ditadura militar argentina (1976-1983). Para o efeito recorre a fotos dos presos, plantas do edifício, reconstruções de «salas de tortura» e de celas dos presos, textos do historiador Felipe Pigna, da jornalista María Seoane, dos sociólogos Horacio González e Alejandro Kaufman, do forense Maco Somigliana e da ex-presa Lila Pastoriza. O livro mostra ainda obras de 65 artistas alusivas a este tema., contém documentos vários e algumas das propostas de uso desse complexo. Recensão de Patricia Kolesnicov em «Las caras del horror: un libro con fotos tomadas dentro de la ESMA» (Clarín, 14/XI/2005).
O site chama-se Zona Abierta, e pretende ser uma "selección inicial y fragmentada de ideas y propuestas, reflexiones y comentarios, pensamientos y publicaciones referentes a diversas problemáticas que hacen a la memoria del pasado reciente en general y a la ESMA en particular, como disparos al infinito para ser alcanzados como legados en el tiempo por vivir".
O museu, designado por Espacio para la memoria y para la promoción y defensa de los derechos humanos, foi criado em 2003, resulta dum acordo entre Estado central e autarquia da capital e funcionará na ESMA. As propostas para o espaço vieram de várias associações cívicas e dos governos locais e nacionais (vd. aqui). Para consultar a legislação entretanto aprovada vd. aqui.
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Nb: imagens retiradas do site e do jornal Clarín.

Centenário do nascimento de Miguel Torga (1907-1995)

Comemora-se este ano o centenário do nascimento do médico Adolfo Rocha (1907-1995), mais conhecido como Miguel Torga, seu pseudónimo literário. A efeméride está a ser evocada por todo o país. Das várias iniciativas em andamento, destaque-se por ora 5 delas.
Em 1.º lugar, o Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo lançou agora on-line partes do processo do escritor na PIDE (vd. aqui; nb: infelizmente o acesso aos documentos digitalizados parece necessitar dum software específico que não é referido).
Em 2.º lugar, o historiador Renato Nunes vai lançar brevemente o livro Miguel Torga e a PIDE - a repressão e os escritores no Estado Novo, da editora coimbrã Minerva, com prefácio de Clara Rocha (filha de Torga) e a ser apresentado por Luís Reis Torgal. Este livro inaugura uma colecção de pesquisas do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX destinada a divulgar processos similares a este, como os de Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro e Fernando Namora.
Em 3.º lugar, o jornalista Sérgio C. Andrade publica hoje no Público um cuidado dossier dedicado ao assunto, intitulado «Já está na net a devassa da PIDE à vida de Torga» (sup. P2) e donde se retirou grande parte da informação aqui disponibilizada.
Em 4.º lugar, a Biblioteca Municipal de Arganil colocou em linha um núcleo dedicado ao escritor, com a sua biografia, bibliografia activa e muito material iconográfico.
Por fim, a Delegação Regional de Cultura do Norte prepara uma exposição com os referidos documentos, a inaugurar em Outubro, em Vila Real.
Para Renato Nunes, o processo de Torga documenta "o interesse quase obsessivo da PIDE pelos vários domínios da vida do escritor", patente em todas as dimensões da sua vida pessoal: "as violações sistemáticas da correspondência, o registo das suas viagens, dos encontros com amigos, até os rendimentos da sua actividade como médico".
Como refere ainda Sérgio C. Andrade, foi "uma vida devassada até à intimidade". Sobre essa violência escreveu o próprio escritor no seu Diário XII (1975), quando tomou conhecimento do processo: "Vista através daquele registo laborioso e tenaz de gusanos inexoráveis, a minha vida era a própria imagem da desolação. Descarnada de qualquer substância anímica, mais objectivamente exacta do que a biografia que porventura aflora à tona do que escrevi, parecia o relato de uma autópsia".
O escritor Miguel Torga foi preso em 1939 pelas ideias expressas no livro O quarto dia da creação do mundo, e toda a sua vida foi vigiado de perto pela PIDE. Sobre a sua passagem pelos cárceres do Aljube escreveram Artur Pinto e Margarida Sousa Reis o texto «Miguel Torga e o Aljube».
O autor de Novos contos da montanha foi também perseguido pelos Serviços de Censura, que lhe apreenderam vários dos seus livros e lhe censuraram inúmeros escritos seus na imprensa.
PS: uma biografia de Torga contendo bibliografia passiva seleccionada pode ser lida aqui.

terça-feira, 27 de março de 2007

"Há quem prefira ser escravo a ser livre"

É, é verdade que foi uma farsa, mas mesmo assim foi à custa do erário público e houve 50 mil chamadas (7 mil das quais para o ditador). E as 2 sondagens entretanto feitas, pela Marktest e a Eurosondagem, colocam o tirano no 4.º e 7.º lugares das preferências dos inquiridos, respectivamente, o que já dá mais que pensar (vd. P2, 27/III, p. 4-5). Por tudo isto, vale a pena meditar na imagem de Zé Dalmeida (intitulada «A morte saiu à rua... numa RTP assim», do seu blogue Pitecos) e na análise de José Vitor Malheiros («A única eleição que Salazar ganhou»), de que aqui fica um excerto relevante:
"Salazar no top diz-nos que a sociedade autoritária, repressiva, retrógrada, machista, fechada, pobre, colonialista e de guerra criada pelo ditador de Santa Comba se transformou na memória de muitos num paraíso de ordem, respeito e honestidade, gerido com bonomia por um burguês paternal de fato de três peças. O que nos lembra que a história se reescreve todos os dias, que as lições da história nem sempre se aprendem, que a democracia é frágil e que, por muito que isso nos repugne aceitar, há quem prefira ser escravo a ser livre.
Diga-se que há algo no formato do concurso que é desagradável em si e é lamentável que a estação pública de televisão tenha querido ser o seu promotor. O formato dos Grandes Portugueses e a eleição do «maior» de todos eles (com o repugnante slogan «Só há lugar para um!», à maneira da pior cultura popular americana), não se pode considerar que exalte os valores da cidadania. O formato escolhido (como, aliás, as escolhas feitas noutros países demonstram) já aponta à partida para alguém que se alcandorou a um lugar cimeiro, um lugar onde um ditador se sente certamente mais à vontade do que um escritor. Salazar sentir-se-ia (sentiu-se) à vontade neste lugar de «maior português de todos os tempos». Se lhe tivessem proposto o título, Fernando Pessoa engasgar-se-ia de riso, Luís de Camões de fúria e Aristides de Sousa Mendes sairia discretamente pela porta do fundo. É por isso que ocupam os lugares que ocupam. Que não precisam de epítetos".
(in Público, 27/III, p. 45)
Nb: outros textos específicos de José Leite Pereira, Cláudia Castelo e Daniel Melo.

segunda-feira, 26 de março de 2007

A vigília da capela do Rato

A iniciativa mais emblemática levada a cabo por católicos, contra a ditadura do Estado Novo e a guerra colonial é a vigília da capela do Rato, realizada há 35 anos. A comemoração do Dia Mundial da Paz, proposta pelo Papa Paulo VI, dá o mote à acção VI. O acontecimento é preparado por católicos ligados ao Boletim Anti-Colonial (Nuno Teotónio Pereira, Luís Moita, Isabel Pimentel, Conceição Moita) e por estudantes (João Cordovil, Galamba de Oliveira, António Matos Ferreira), sendo a ligação entre os dois grupos estabelecida por Francisco Cordovil. Sábado, dia 30 de Dezembro de 1972, na missa das 19 e 30 da capela da JEC, na Calçada da Rocha Cabral, ao Rato, um grupo de cristãos surpreende o celebrante, Pe. João Seabra Dinis, ao declarar publicamente que tenciona realizar na capela uma jornada de 48 horas de «greve da fome» e de reflexão acerca da guerra colonial. Apela a cristãos e não-cristãos para que se juntem à iniciativa. Entretanto, vários petardos colocados pelas Brigadas Revolucionárias, em diversos pontos da capital e arredores, espalham panfletos apelando à solidariedade com os grevistas da fome no largo do Rato. O texto denuncia a guerra colonial como uma causa de miséria do povo português e um instrumento de dominação.
Na capela, várias centenas de pessoas prosseguem a reflexão, cerca de vinte delas em jejum voluntário. À noite, o Pe. Alberto, o responsável da capela que não pudera celebrar a missa por estar doente, com uma pneumonia, faz saber que ignora a iniciativa mas não se opõe a ela.
No domingo de manhã, dia 31, celebram-se as missas das 11 e 12 e 30, durante as quais os participantes são informados do que se passa. Simultaneamente, são distribuídas em várias Igrejas de Lisboa comunicados sobre o acontecimento que apelam à adesão de mais pessoas à vigília ou a outras acções com os mesmos objectivos: «1. Romper com o silêncio acerca do problema da Guerra em Angola, Moçambique e Guiné. Procurar a paz.//2. Declarar solidariedade com as vítimas da Guerra».
À tarde, a reflexão continua. Cerca de 300 pessoas aprovam uma moção que parte de cinco «considerandos» que se podem sintetizar numa frase: a guerra contra os povos de Angola, Moçambique e Guiné é injusta e também vitimiza o povo português. Por esta razão, repudiam vigorosamente a política do Governo português; denunciam a atitude de cumplicidade da Hierarquia da Igreja Católica; condenam a repressão sobre os trabalhadores e jovens que se manifestam contra a guerra; solidarizam-se com os povos das colónias em luta e com os portugueses empenhados na construção de uma sociedade justa; apelam a todas as pessoas conscientes que se unam na luta contra a exploração e opressão do povo trabalhador. Chega à capela do Rato uma mensagem de católicos do Porto que se solidarizam com a reunião. Por volta das 19 horas, as forças policiais começam a concentrar-se à volta da capela. Às 20 e 30 o local está cercado por dez carrinhas com polícia de choque e cães, além de viaturas de outras polícias. O trânsito é controlado e a zona encontra-se isolada. É a hora de jantar e algumas pessoas abandonam a capela para ir a casa. Por volta das 20 e 45, um comissário da PSP entra na capela e dá aos presentes ordem de evacuação no prazo de dez minutos. Segundo o relatório do comissário, as pessoas não acatam a ordem e começam a cantar em coro «Perdoai-lhes Senhor que eles não sabem o que fazem». Esgotado o tempo, a polícia diz aos participantes na vigília para se retirarem imediatamente. Os intimados protestam e querem saber se a PSP possui uma autorização do Patriarcado para entrar na capela. Alguns, entre as quais Pereira de Moura, permanecem sentados e resistem à ordem. A polícia arrasta-os. Cerca de 60 pessoas são levadas para a vizinha esquadra da PSP do Rato. Os suspeitos de serem líderes são conduzidos para os calabouços do Governo Civil e mais tarde para o forte de Caxias, onde ficam incomunicáveis. Deste grupo fazem parte Nuno Teotónio Pereira, José Luís Galamba de Oliveira, Maria Benedita Galamba de Oliveira, Francisco Pereira de Moura, Homero Cardoso, Luís Moita, Manuel Coelho Carvalho, João Cruz Morais Camacho, João da Fonseca Quá, Francisco Louçã, Hermenegildo José Carmo Lavrador, Jorge Wemans, João Pimentel e Miguel Teotónio Pereira.
Entretanto, pelas 22 horas o Pe. António Janela comparece na capela do Rato com a finalidade de preparar a missa da meia-noite. É informado pela empregada que a polícia exigia o encerramento da capela. Esta informação é confirmada pelo Pe. Janela no Comando geral da PSP: a capela devia permanecer fechada durante toda a noite e o dia 1 de Janeiro. De volta ao local de culto, o padre coloca a par da situação os católicos que tinham aparecido para participar na eucaristia. Uma vez que nenhum deles recebera qualquer indicação do Cardeal Patriarca no sentido de acatar a ordem policial, decidem celebrar a missa, encostando a porta. No dia 1 de Janeiro, pela manhã, D. António Ribeiro é posto ao corrente do que se passa e pronuncia-se pela continuação dos actos de culto habituais. Após a celebração da última missa da manhã, um oficial e um comissário da PSP intimam o Pe. António Janela a acompanhá-los. O Pe. Armindo Garcia, que se identificara espontaneamente, também é conduzido à sede da DGS.
D. António Ribeiro envia o seu secretário para exigir a libertação de ambos os sacerdotes. O Pe. Armindo Garcia é libertado, mas o Pe. António Janela continua preso e é interrogado. O Cardeal Patriarca vai à sede da DGS e recusa-se a sair enquanto o padre não for solto. Aguarda uma hora. Entretanto a capela fora evacuada e fechada pela polícia que se mantém de guarda à porta.
Rapidamente se multiplicam as edições policopiadas com relatos e comentários aos acontecimentos, a transcrição da moção aprovada e do comunicado à população. As reacções ao encarceramento dos participantes na vigília sucedem-se: são enviados ao Governo português telegramas de três comissões sindicais solidarizando-se com Luís Moita (na altura técnico sindical) e uma carta da Direcção do Sindicato dos Arquitectos dirigida ao Ministro do Interior protestando contra a prisão do arquitecto Nuno Teotónio Pereira. São entregues exposições de protesto ao Presidente do Conselho (mais de 600 assinaturas) e ao Patriarca de Lisboa (cerca de 400 assinaturas).
A demissão pelo Governo de 12 funcionários públicos acusados de participarem na vigília leva à criação, logo em Janeiro de 1973, de um novo tipo de acção solidária contra a «repressão económica», em complemento da já praticada pela Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. O objectivo é reunir fundos para pagar as cauções dos presos, os vencimentos aos funcionários demitidos e as multas aplicadas aos arguidos. Além disso, pretende-se arranjar novas colocações para os funcionários demitidos. Em Março de 1973 já se tinha encontrado emprego para nove dos doze funcionários demitidos e um décimo estava colocado temporariamente. O êxito da iniciativa acaba por ser posto em causa pelo decréscimo do entusiasmo inicial e pelo aumento da vaga repressiva – em Maio prendem-se cerca de duzentas pessoas.
O Professor Francisco Pereira de Moura é demitido do Instituto Superior de Economia, acto que causa indignação no meio académico. Este redige um texto acerca das condições em que é preso (dez dias incomunicável) e demitido, o qual é divulgado em edição policopiada.
Uma nota do Patriarcado analisa o acontecimento em 10 de Janeiro. Apesar da prudência da nota e da desautorização da vigília, pela primeira vez o Cardeal Patriarca condena uma acção repressiva concreta do Estado Novo.
As repercussões da vigília da capela do Rato obrigam o Presidente do Conselho a intervir em público, reagindo num longo discurso (37 minutos) feito na rádio e televisão, e acabam por atingir a Assembleia Nacional. Em 27 de Fevereiro, Miller Guerra trava uma discussão tornada célebre com Casal-Ribeiro em que admite discutir a presença de Portugal em África. Miller Guerra acaba por se demitir da Assembleia Nacional, juntamente com Francisco Sá Carneiro: é o golpe de misericórdia no sonho formado por equívocos e ilusões da «ala liberal» acerca da possibilidade de uma «transformação por dentro» da ditadura em democracia.
No meio católico, a vigília da capela do Rato dá um novo fôlego ao empenhamento cívico dos católicos que se traduz na criação de um movimento Justiça e Paz em Lisboa.