quinta-feira, 15 de março de 2007

Blogues temáticos na Almedina

A formação de uma opinião pública em Portugl começou por fazer-se através dos jornais, na senda da revolução liberal de 1820. Agora o processo é mais complexo, existem os jornais, mas também existem as televisões e, a partir da última década, o ciberespaço, onde a blogosfera se afirma cada vez mais como um espaço de criação de públicos.
O nosso Movimento, com o site Mais Memória, o blog Não Apaguem a Memória! as redes tod@s e info é disso um exemplo. Sem esse meio que é a Internet seríamos menos coesos, menos homogéneos, em resumo, menos informados das iniciativas, tendências e projectos do Movimento. É certo que tudo se decide nos plenários, mas a formação da opinião para essas decisões processa-se em boa parte pelos meios virtuais das nossas redes.
Vem isto a propósito da sessão que hoje, dia 15, decorre na Livraria Almedina, Átrio Saldanha, em Lisboa, a partir das 19h, promovida por José Carlos Abrantes, especialista dos media e antigo provedor dos leitores no Diário de Notícias. O blog do Movimento vai ser apresentado por Daniel Melo, em paralelo com dois outros blogues: o dinamizado por Pedro Mexia, Estado Civil, e o de Leonel Vicente, Memória Virtual.
Vai ser, certamente, uma discussão rica de ensinamentos, mesmo se na sua vertente teórica. Por isso aqui fica a informação do evento, para todos os interessados.

Avançando com pistas para o debate, aqui se inserem excertos de D. Dayan e José Tengarrinha, sobre a noção de públicos e a formação da opinião pública.

Para esclarecer o conceito de público vale pena recorrer a Daniel Dayan:

“A palavra público pode apresentar-se como um substantivo ou como um adjectivo. O substantivo pressupõe que existam públicos. Reenvia idealmente a uma ‘substância’ pública, a identidades relativamente reconhecíveis, eventualmente efémeras, mas suficientemente estáveis para serem descritas. Reflictamos, agora, sobre a dimensão adjectiva da palavra público. Fala-se então de comportamentos ou de opiniões públicas em relação a outras que dele seriam privados (isto é, privados de publicidade). Parece-me essencial ter em conta esta dimensão adjectiva da palavra pública, em tudo o que nela liga a noção de público à noção de ‘esfera pública’. A noção de público é, de facto, uma noção reflexiva.
O público do século XVIII constitui-se, diz-nos John Peters, à força de ler e discutir jornais, onde o assunto é o público. A noção de público consiste não apenas em ver, mas em ser visto. Todo o público reenvia assim para um outro público que o observa. Existem ‘maneiras de estar em público’, como existem maneiras de estar à mesa. É de modo ostensivo que os públicos se constituem, diferenciando-se de outros públicos. Noutros termos, ser um público é entregar-se a uma performance. Esta performance pode ser consensual ou polémica, mas não pode ser invisível. Não são, pois, públicos que se materializem contra vontade, ao dispor de uma meia dúzia de especialistas. Os públicos não irrompem do reino das sombras, eles não precisam de pitonisas para se exprimir.
O adjectivo público introduz, assim, uma distinção essencial face à passividade do recenseamento. Marca a vontade de proceder a uma apresentação de si próprio. Noutros termos, um público assume sempre, seja de que modo for, a pose. Um público sabe-se, e quer-se, observado.
[Daniel Dayan, “Televisão: das Audiências aos Públicos”, Livros Horizonte, 2006]

Sobre a formação de uma opinião pública em Portugal cita-se José Tengarrinha

Saber, por exemplo, quando é que em Portugal se formou uma opinião pública abalizada? Que flutuações sofreu ela ao longo dos tempos? Houve opinião pública durante o Estado Novo? Pode haver uma opinião pública em regimes ditatoriais?
As respostas dá-as aqui Tengarrinha, assente numa argumentação sólida, onde as referências históricas balizam a interpretação sociológica.
É bom saber que formação de uma opinião pública pode fazer-se em regimes ditatoriais, de resto é até fundamental para um regime desse tipo induzir uma opinião que lhe seja fiel e serviçal, ou como definiu o Estado Novo, “a bem da Nação”. Foi o tempo das fórmulas de reverência, sem outra referência que não fosse a expressão do “respeitinho” por quem manda: “venerando e obrigado, de Vª Exª, atenciosamente…” assim se terminavam as exposições, requerimentos e demais papelada, elaborada por escrivães “a rogo” de quem era analfabeto.
O Estado Novo quis criar um “bloco autoritário” que lhe desse uma legitimidade pública, que a ausência de um grande partido de massas lhe negava, como era o caso na Itália fascista ou na Alemanha nazi. O controle dos grandes meios difusores, através de uma legislação que basicamente se manteve de 1936 até à sua queda, em 1974, controlada por um serviço de censura rígido, foi o instrumento criado por Salazar e de que Marcello Caetano tentou aproveitar-se, com menor êxito.
Mas a existência de uma outra opinião pública, à margem dos media institucionais, e até clandestina, condicionou as ambições deste regime autoritário, que nunca conseguiu impor uma opinião pública única, mesmo se em certos momentos históricos, por exemplo no início da guerra colonial, em 1961, andou por lá perto.
[José Tengarrinha, “Imprensa e Opinião Pública em Portugal”, Ed Minerva, 2006]

A OPOSIÇÃO POLITICO-MILITAR AO ESTADO NOVO NO INÍCIO DO 3ª QUARTEL DO SÉCULO XX

No âmbito do projecto "CONFERÊNCIAS DA COOPERATIVA MILITAR" vai realizar-se o COLÓQUIO DE HISTÓRIA VIVA :

A OPOSIÇÃO POLITICO-MILITAR AO ESTADO NOVO NO INÍCIO DO 3º QUARTEL DO SÉCULO XX, patrocinado e coordenado pela COMISSÃO PORTUGESA de HISTÓRIA MILITAR.

As sessões têm lugar nas instalações do IASFA (Antiga Cooperativa Militar) Rua de S.José nº 24, em Lisboa, nos dias 20, 22, 27 e 29 de Março, pelas 17h e 30.
A entrada é livre.

A sessão de abertura, no dia 20, dedicada ao denominado "GOLPE da SÉ", será presidida pelo Sr. General Alexandre Sousa Pinto, Presidente da Comissão Portuguesa de História Militar, prevendo-se a apresentação de comunicações por parte dos seguintes participantes: Coronel Vicente da Silva, Comandante Belmarço da Costa Santos, Manuel Serra e Coronel Setas Domingues.

A segunda sessão, a realizar no dia 22, será presidida pelo Sr General Francisco Cabral Couto e abordará os acontecimentos denominados por "ABRILADA de1961".

A terceira sessão, a realizar no dia 27, será presidida pelo Sr General Gonçalves Ribeiro e terá como tema dominante o "ASSALTO AO QUARTEL DE BEJA" prevendo-se apresentação de comunicações dos participantes: Coronel João Varela Gomes, Manuel Serra e Edmundo Pedro.

A quarta sessão, no dia 29, consistirá na realização de um PAINEL, prevendo-se a participação dos seguintes elementos convidados: Prof. Luis Moita, Prof. António da Costa Pinto, Dr.António Louçã, Prof António Brotas, Prof António Reis.

Neste dia 29 de Março o debate procurará incentivar uma ampla intervenção dos especialistas conjuntamente com os participantes sobre os acontecimentos históricos em análise.

quarta-feira, 14 de março de 2007

A memória da II Guerra Mundial e do colonialismo no Japão actual

Tal como referimos em post anterior, o Le Monde Diplomatique inclui 2 textos sobre o Japão, onde se aborda a II Guerra Mundial e o papel da memória histórica: «O santuário Yasukuni ou a memória selectiva do Japão» (de Tetsuya Takahashi) e «Ambiguidades nipónicas, ambiguidades europeias» (de Émilie Guyonnet).
Neste último texto fala-se das ambiguidades nipónicas quanto ao papel do Japão durante aquele conflito bélico, as quais se espelham nas distintas orientações museológicas: por um lado, o Museu da Paz de Hiroxima e o Peace Osaka vão no sentido duma memória histórica exigente e crítica acerca do Japão dos anos 1930-40, preocupando-se com a contextualização nacional e internacional e dando espaço tanto às vítimas de guerra como à política belicista nipónica de então; por outro lado, museus como o Showakan apenas se detêm na reconstituição do difícil quotidiano dos japoneses durante a guerra e o pós-guerra, sem qualquer contextualização e apesar da mensagem pacifista, de «nunca mais». Émilie Guyonnet também aborda o lugar da história nos manuais escolares, a propósito da polémica internacional gerada pela tentativa dos nacionalistas nipónicos em retirar daqueles a visão crítica sobre o passado imperalista nipónico.
Em suma, a tendência geral é a duma "mensagem pacífica mais centrada nas vítimas da guerra do que nas suas causas", para o que contribuiu a perpectiva do Tribunal de Tóquio e dos Aliados, que atribuíram as responsabilidades pelo militarismo apenas a um "pequena clique de militares" usurpadores do poder, como nota a jornalista Guyonnet. Nesse sentido, apenas 0,29% da população foi afastada dos cargos públicos (contra 2,5% nas zonas ocupadas pelos EUA na Alemanha desnazificada) e vários dirigentes voltaram às altas chefias.
O texto do investigador Tetsuya Takahashi tem tons mais pessimistas, o que se deve ao tema: o aproveitamento político-ideológico do santuário Yasukuni e a amnésia selectiva. Este recinto xintoísta foi erigido em 1839 em honra dos militares japoneses do período Meiji. Ficou como um lugar de celebração do nacionalismo japonês. Após a II Guerra Mundial foi separado do Estado, mas recentemente os sectores nacionalistas nele homenagearam os 14 criminosos condenados à morte pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente (mais conhecido como Tribunal de Tóquio), em 1948, e que aí estão sepultados. Tal deu origem a uma polémica diplomática internacional, tendo cessado as visitas oficiais.
Para este autor a questão é mais abrangente e complexa: o passado belicista e as agressões cometidas contra outros povos nesse contexto recuam ao séc. XIX e ao colonialismo nipónico, mas há uma tendência para a história oficial se centrar no crescimento e afirmação do Japão enquanto potência nacional. Por condenarem o imperialismo japonês e por acharem que o colonizado não tinha o mesmo estatuto de vítima do colono, descendentes de soldados taiwaneses e coreanos forçados a combater no exército colonial nipónico pediram que os seus antepassados fossem retirados da «celebração comum» feita no santuário. Tal foi-lhes recusado pelos responsáveis do santuário, sob a alegação de todos terem a nacionalidade japonesa. Outros casos ensombram este santuário: dos 2,4 milhões de mortos aí celebrados, 2 milhões devem-se à guerra do Pacífico, tendo a maioria morrido em massacres ou à fome. Agora, o actual governo quer nacionalizar o santuário para também aí poder homenagear os eventuais mortos do exército que o Japão voltou a formar, ao fim de 50 anos de desmilitarização.
Nb: imagens do Osaka Peace, ou Osaka Internacional Peace Center.

terça-feira, 13 de março de 2007

Blogues temáticos na Almedina

O Não Apaguem a Memória!, blog do Movimento vai estar em evidência no debate da próxima quinta-feira, dia 15, promovido por José Carlos Abrantes, docente universitário, especialista dos media e antigo provedor dos leitores no Diário de Notícias. Vamos estar representados por Daniel Melo, e em paralelo com dois outros blogues: o dinamizado por Pedro Mexia, Estado Civil, e o de Leonel Vicente, Memória Virtual. O colóquio decorre na Livraria Almedina, a partir das 19h, e insere-se num ciclo que vai na sua segunda edição, com assinalável êxito junto do (já) público da blogosfera, que se propõe à sociedade como espaço de intervenção e de alternativa aos media tradicionais.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Crónica da romagem a Coruche e ao Couço

Albertina Diogo e Maria Madalena, duas resistentes antifascistas, que se conheceram em 1961 na prisão de Caxias e passados 40 anos voltaram a abraçar-se no Couço [foto de Artur Pinto]
Os 40 participantes na romagem do passado sábado, dia 10, a Coruche e ao Couço deixaram um voto: a experiência é para repetir. Por isso, citando Zeca Afonso, que acabou por ser, também ele, um dos homenageados desta iniciativa, para a próxima venham mais cinco.
A romagem prolongou o colóquio de 8 de Março, que decorreu na Biblioteca-Museu da República e Resistência, em Lisboa, dedicado ao tema “a Mulher na Resistência”. A excursão tinha por finalidade manifestar a solidariedade dos participantes às mulheres do Couço, símbolo da resistência rural ao fascismo do Estado Novo.
O autocarro arrancou de Lisboa quase dentro do horário previsto e cumpriu a hora de chegada. Às 10h estavam todos no Museu Municipal de Coruche, onde uma amável guia, Eugénia, organizou três grupos para proceder a visitas guiadas à exposição permanente, que retrata a realidade histórica e etnográfica de Coruche, desde os tempos remotos do paleolítico. A mão e o que ela fabrica é o fio condutor desta exposição, que tem um prefácio e um posfácio de pendor didáctico. Na entrada recorda-se a origem do homem na Terra e, no final, fica a mensagem que esta criatura, saída deste ventre, deve cuidar da natureza, que também é sua.
A sessão de boas-vindas, que se seguiu, decorreu no auditório José Labaredas, e foi presidida pelo nosso anfitrião, Dionísio Mendes, presidente do município ribatejano. Na mesa, a seu convite, tomaram lugar Maria Barroso, que se associou à iniciativa do Movimento e, pelo Movimento, Paula Godinho e Ana Gaspar.
Maria Barroso falou desse tempo de resistência, a partir de exemplos pessoais vividos no distrito escalabitano. Recordou como na década de 1950, num sarau cultural em que interveio para recitar poesia, foi o próprio governador-civil, que presidia quem a veio a denunciar à PIDE, considerando que os poetas escolhidos, José Gomes Ferreira, Rui Namorado, Armindo Rodrigues e Sidónio Muralha, pertenciam às fileiras da oposição democrática, sendo o sarau um estratagema para realizar uma sessão política contra o Estado Novo. Daí resultou um processo que pesou na sua expulsão do Teatro Nacional D. Maria II, onde fazia parte da companhia de Amélia Rey Colaço. Falou, igualmente, das pessoas boas que souberam resistir com coragem e abnegação à abjecção da delação e da submissão. Realçou uma mulher do Couço, Maria Rosa Viseu (?), que em 1969, no curto mês em que se permitia fazer a campanha eleitoral, se dirigiu de braços abertos a Maria Barroso, que integrava a lista da oposição democrática, para nesse abraço testemunhar a solidariedade e o apoio de quem fora torturada e humilhada pela PIDE, no seguimento da campanha presidencial de 1958.
O presidente da Câmara aproveitou o local onde nos acolheu – auditório José Labaredas – para recordar o resistente das lutas do Couço que lhe deu o nome. Para nos apresentar o concelho, fez seu um texto dele: “Sopa Rica de Município à Vale do Sorraia” (Ed. Assírio e Alvim):
“Tome-se um concelho de bom tamanho, com dimensão nunca inferior a mil e cem quilómetros quadrados de superfície (...) Povoe-se de gente lhana e louçã, com o quantum satis do que é normalmente a condição do espírito humano: dignidade e orgulho (mas que este não sobrepuje os limites que devem ter todas as coisas boas, simples e gratuitas). Juntem-se-lhe, em proporções exactas os seguintes ingredientes: De firmeza, quatro arráteis, um alqueire de verticalidade, um bom punhado de generosidade em grão, de amor pela labuta duas mãos cheias e espírito solidário à vontade (...) Enquanto o preparado repousa, saia-se, campos fora, por uma manhã de Abril, leda e soalheira e colham-se das papoilas mais rubras um ramalhete viçoso; quando se chegue a um velho sobreiral, procure-se a clareira mais chã e solar e nela se colham doze pés de rosmaninho (...)” (p. 201).
Convém dizer que à entrada do auditório o presidente do município presenteou cada um dos participantes da romagem com duas obras de antologia etnográfica: o citado livro de José Labaredas, “Coruche à Mesa”, e a tese de doutoramento de Paula Godinho, “Memórias da Resistência Rural no Sul” (Ed. Celta).
Foi Paula Godinho quem recordou que o sindicalismo rural português do final do século XIX e período republicano nasceu naquelas lezírias entre Alentejo e Ribatejo. Depois, com o esmagamento das liberdades cívicas pelo Estado Novo, na década de 1930, foi-se esbatendo, para voltar em meados da década seguinte, com as marchas da fome, a cobrir o concelho e a expressar o seu protesto junto à Câmara. Do Couço, 30 km a pé, por campos e estrada, vieram as mulheres, numa das primeiras manifestações em que participaram, vestidas de negro e já possuidoras daquela determinação que não mais as abandonaria até à liberdade de Abril de 1974.
Recordou o episódio de 6 de Junho de 1958, quando o Couço foi palco de um comício de apoio à candidatura de Humberto Delgado. Realçou as dificuldades inúmeras que foi preciso vencer para obter em Santarém, no Governo-Civil, a autorização para o realizar. Destacou a atitude da população que, em peso, foi até à garagem dos Olímpios, com capacidade para não mais de 200 pessoas, e, por isso, ficou apinhada. Deu conta do relatório dos agentes da PIDE, que ficaram impressionados com a manifestação de acolhimento aos oradores do comício, que encheu de povo a Rua do Comércio (ou da jorna) e anotaram a presença de “umas duas a três mil pessoas” na garagem. Exagero, como se constata do relato de uma das participantes desse comício histórico, Maria Custódia Chibante, que calculou em não mais de 200 pessoas as que estiveram nessa noite na garagem dos Olímpios (entretanto demolida). “A verdade basta”, foi a sua expressão. Não que não houvesse gente cá fora, até para dar conta das manobras da GNR, que tinha deslocado uma força para o Couço. Temia-se uma carga policial à saída e, num acto de auto-defesa, cada um levou no bolso uma pedra.
O receio pelas consequências de uma tal atitude repressiva, aguçou o bom senso do comandante da força da GNR e impediu esse confronto. À saída, os participantes no comício, vendo que o ambiente estava sossegado, foram tirando do bolso as pedras e deixaram-nas à esquina da rua.
No dia seguinte fizeram uma estranha peregrinação em direcção a um monte de pedras, cujo significado passou de todo despercebido aos agentes da polícia política que vigiavam a localidade.
A repressão veio depois das eleições, onde a lista de Humberto Delgado recolheu 76% dos votos. Em finais de Junho, no pino sazonal dos trabalhos de campo, os agrários deram ordem aos capatazes para baixar o preço da jorna. Foi o desencadear de uma greve que juntou os que tinham participado no comício, com os poucos que se tinham alheado daquela manifestação. Houve prisões e repressão. O nome de João Camilo, personagem ímpar na então aldeia do Couço, foi por diversas vezes citado. Sempre que alguma agitação social percorria o concelho era certo a PIDE prendê-lo e levá-lo para interrogatórios na “António Maria Cardoso”.
João Camilo foi preso, com mais três companheiros, no dia 23 de Junho de 1958 e encarcerado no posto da GNR (que entretanto deu lugar a uma residência), à espera que de Lisboa chegasse a brigada da PIDE. Levantou-se o povo em revolta, cercou o posto e clamou a sua indignação. Exigiu, e obteve, a libertação dos seus concidadãos.
Nestas lutas as mulheres estiveram sempre na primeira linha e quando em 1961/62 se levantou a luta pelas oito horas de trabalho, foram elas, em muitos locais, quem deu o sinal para a greve de zelo.
Face à oposição dos agrários em respeitar as oito horas de trabalho, mantendo que o dia era de sol a sol, o pessoal decidiu, por ele próprio, fazer cumprir o horário. Pegavam às 7h, pois bem largavam à 15h. Foram as mulheres que trabalhavam no regadio do canal do Sorraia quem impôs esta forma de luta, que acabou por se alargar a toda a freguesia e, depois, ao concelho de Coruche e ao resto do Alentejo.
Destas lutas e do seu significado pela liberdade e um trabalho digno, falou Paula Godinho, a guia da excursão na visita ao Couço.
Ana Gaspar, em nome do Movimento, fechou a sessão no auditório José Labaredas, dando conta aos participantes e ao nosso anfitrião dos justos agradecimentos que merecia, pela disponibilidade que revelara no acolhimento que nos dava. Dionísio Mendes agradeceu, dizendo que esperava que o Movimento retribuísse participando na sessão comemorativa dos 33 anos do 25 de Abril, o que foi aprovado com uma salva de palmas.
Depois de uma visita à magnífica exposição de evocação do José Afonso, patente no antigo edifício dos CTT, presentemente integrado no Museu Municipal, fez-se um passeio até a um ex-libris da gastronomia local, “O Farnel”, para aí provar um dos pratos que merece distinção no livro de José Labaredas: “o bacalhau à Farnel”.
Foi uma longa pausa de quase duas horas, regada por um macio vinho e com muita conversa dispersa e bem disposta.

Às 15h30 fez-se a segunda paragem diante da igreja da Azervadinha, onde Nuno Teotónio Pereira e Dionísio Mendes fizeram a história daquele templo que, diz a placa no cimo da porta de entrada, foi aberto ao culto com “a assistência do PR Américo Tomaz”, em meados da década de 1960. Esta “assistência” testemunha uma perturbação do regime ditatorial, que desfez a comunidade eclesiástica, dirigida por dois padres holandeses, por ela seguir demasiado perto o Evangelho cristão e frequentar pouco as casas dos agrários. Os padres holandeses foram expulsos do país, o templo comunitário reestruturado arquitectonicamente, de modo a retomar a traça tradicional das igrejinhas de aldeia que o Estado Novo propagandeava.
Teotónio Pereira, primeiro proponente desta romagem, sublinhou ainda o seu significado, pondo em evidência o papel que as mulheres desempenharam na resistência à ditadura e a necessidade de o tornar historicamente mais visível.


A visita ao Couço principiou na Cooperativa “Conquista do Povo”, onde Joaquim Canejo, figura áurea do período da reforma agrária, nos deu as boas-tardes, dessedentando-nos e desejando-nos uma boa visita.
No logradouro arrelvado que lhe fica em frente, Paula Godinho fez as últimas observações sobre o contexto antropológico do Couço e falou das vivências das suas mulheres, após o que partimos para a actual Rua do Comércio. É a antiga praça da jorna, onde ainda perduram, nas quatro esquinas, quatro restaurantes, marcas de antigas tabernas, onde se fazia a “molhadura”, ou seja, o assentamento do contrato selava-se com um copo de vinho.
O passeio durou uma boa meia-légua – para alguns pés mais doridos foi mesmo uma légua bem medida – e deu para cumprimentar a D. Maria Madalena, viúva de Joaquim Castanhas, pesados 83 anos de vida de provações e de luta permanente por conservar a dignidade dos resistentes de sempre.
A merenda, para aqueles a quem o passeio despertou o apetite, fez-se numa mesa da Cooperativa, com chouriço, pão e queijo, comprados na mercearia, e vinho servido pelo sempre irónico e bem disposto Joaquim Canejo.
O regresso para Lisboa fez-se às 18h15, como previsto, infelizmente sem que nos tivesse sido possível avistar-nos com o presidente da Junta de Freguesia, Luís Alberto Ferreira. Não teve qualquer disponibilidade para o fazer, já o dissera à delegação do Movimento que no passado 27 de Fevereiro se deslocou ao Couço, para lhe dar conta da nossa romagem.

domingo, 11 de março de 2007

Memórias do antifascismo ibérico

O Le Monde Diplomatique de Março tem ainda 2 textos sobre a memória antiditatorial, um dedicado parcialmente à Lei da Memória Histórica espanhola («A Espanha atormentada pelo seu passado», de José Manuel Fajardo) e uma recensão ao livro sobre Flausino Torres (do neto Paulo Torres Bento), do qual demos informação em post específico aquando do seu lançamento. A obra chama-se Flausino Torres (1906-1974) - Documentos e fragmentos biográficos de um intelectual antifascista e a recensão é assinada por José Neves, membro do movimento Não apaguem a Memória!.
No jornal vêm também 2 textos sobre o Japão, de que se dará conta em post futuro.
PS: o livro sobre Flausino Torres foi também recenseado por Filomena Cabral, cujo texto pode ler-se aqui.

sábado, 10 de março de 2007

Rompendo grilhetas com o legado colonial

O n.º de Março do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) dedica uma parte do seu dossier ao colonialismo português. O dossier intitula-se «Do indígena ao imigrante» e pretende contribuir para um exame crítico do legado colonial e do modo como este é pensado na contemporaneidade.
Os textos do dossier que tratam esta temática são os de Miguel Bandeira Jerónimo e Nuno Domingos («"O grémio da civilização": do indígena ao imigrante»), de Cláudia Castelo («O luso-tropicalismo: um mito persistente») e de Alfredo Margarido («A lusofonia, outra forma de colonialismo»).
O jornal integra ainda 3 recensões a livros sobre esta temática: Portugal não é um país pequeno (org. de Manuela Ribeiro Sanches), Revoltas escravas (de João Pedro Marques) e As côres do Império (de Patrícia Ferraz de Matos). Os recenseadores são, respectivamente, José Mapril, Carlos Silva e Nuno Dias.

sexta-feira, 9 de março de 2007

“A Mulher e a Resistência” – exemplos para não esquecer

[Foto de operárias de Almada na década de 1960]

O Movimento Não Apaguem a Memória! promoveu ontem, 8 de Março, na Biblioteca-Museu República Resistência, e da em Lisboa, uma homenagem às mulheres portuguesas que lutaram contra o Estado Novo. Através de dois painéis distintos – um que reunia investigadoras com pesquisas centradas na ditadura e no papel das mulheres no seu combate, outro que trouxe a voz das protagonistas dessa luta, complementado com um filme de Susana Sousa Dias – a resistência feminina emergiu nas suas várias cambiantes.
No painel da manhã, depois da apresentação das razões do colóquio, a cargo de Nuno Teotónio Pereira, seu proponente, três investigadoras sociais apresentaram comunicações que permitiram contextualizar o que foi o papel da mulher na resistência antifascista ao Estado Novo.
Irene Pimentel, investigadora com vasta bibliografia publicada sobre a repressão salazarista e marcelista, reflectiu sobre as características da resistência feminina à ditadura, centrando-se sobre a situação prisional das mulheres, que foram “mulheres rebeldes” e não apenas “mulheres de rebeldes”, na especificação do Código Penal de 1867, em vigor até 1967.
Vanessa Almeida, com uma tese em curso sobre as mulheres das casas clandestinas do Partido Comunista Português, traçou o que era a vida das mulheres que as mantinham, do modo como se foram afirmando dentro da organização do PCP, criando meios de comunicação próprios, como foi o caso do jornal “A Voz das Companheiras”. Aludiu à repressão crescente, que a partir da década de 1960 as colocou, nos interrogatórios feitos pela PIDE/DGS, em situação de tortura do sono, de estátua, violência física, num processo homólogo ao tratamento que era dado aos “clandestinos”.
Sónia Ferreira, antropóloga, autora de “Mulheres de Desaparecidos do Chile”, mostrou como se desenvolveu, na conjuntura dos anos ’40, a resistência das mulheres operárias em Almada e a sua inserção no movimento grevista de luta, dando realce ao quotidiano dessas lutas inseridas no trabalho nas fábricas conserveiras e corticeiras .
A encerrar o painel da manhã e antes do debate, falou Manuela Tavares, da UMAR, que trouxe à colação o papel da censura no Estado Novo. Ilustrou a sua dissertação com o livro “As Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Teresa Horta, Maria Barreno e Maria Velho da Costa. Enquanto o processo que lhes foi instruído em Portugal foi totalmente censurado em toda a comunicação social, um extraordinário movimento de solidariedade internacional, que passou pelo francês “Le Monde” e pela revista norte-americana “Time”.
De tarde, após a projecção do filme de Susana Sousa Dias, sobre o estatuto das enfermeiras no Estado Novo (2000), obrigado ao celibato, por imposição legal, apresentado pela realizadora, seguiu-se um debate.
As duas protagonistas do documentário, Isaura Borges Coelho e Hortênsia Campos Lima, foram as duas irmãs que no início da década de 1960 puseram a circular um abaixo-assinado solicitando a Salazar o fim do que era considerado uma violência legal pela quase totalidade das enfermeiras: a obrigação do celibato. Para elas era uma atitude espontânea e de revolta legítima. Foram presas. Recordaram que a PIDE as considerou perigosas subversivas, ligadas PCP. Foram submetidas a pesados interrogatórios, com situações absurdas, como a que ocorreu com a jovem Hortênsia, então com 20 anos, que na sua agenda tinha anotado “Aniversário do meu P[rimeiro] B[eijo]”, que foi entendido como “Aniversário do meu P[artido] B[olchevique]” e, a partir daí, interrogada sobre que iniciativas estavam previstas para assinalar tal evento.
O testemunho destas resistentes em legalidade foi complementado por outros, como da Maria de Jesus Barroso, que recordou o papel de Isabel Aboim Inglez, madrinha da sua filha, e de quem recordou um conselho muito seguido pelas oposicionistas do regime autoritário: “Na PIDE sorri-se muito, fala-se pouco e mente-se sempre”. Também, Estela Piteira Santos deu testemunho do que foram esses tempos em que a polícia política irrompia alta madrugada pelas casas dentro, para prender, bater e ameaçar.
A vida das clandestinas foi recordada por Albertina Diogo, presa em Novembro de 1960 e que foi condenada a seis anos de prisão, acusada de ser funcionária do PCP e de no seu apartamento de Benfica, em Lisboa, acolher as reuniões da comissão política do partido ilegalizado.
Domicilia Coreia da Costa recordou a sua vida na clandestinidade, dos sete aos 21 anos, e acentuou que como ela muitas outras jovens tiveram que passar por esse modo de vida dissimulado em mil um disfarces.
Nas casas clandestinas, as mulheres asseguraram um trabalho de sombra que manteve viva a resistência, escrevendo e protegendo essas instalações, aí vendo dolorosamente crescer os filhos, de que geralmente eram precocemente separadas, fosse para que pudessem estudar, fosse porque a prisão as atingia. Envolvidas em tarefas políticas de risco eminente, nas condições da ditadura salazarista-marcelista, a prisão tornou-se-lhes familiar. Sob duras condições de tortura, foram espancadas, sofreram a estátua, aviltaram-nas na sua feminilidade. Quando os companheiros eram presos ou quando só eles “mergulhavam” (passavam à clandestinidade), cabia-lhes assegurar sós a vida familiar e dar o suporte material e emocional de que necessitavam de forma acrescida.
Pelo movimento estudantil, que a partir da crise de 1961/62 desempenhou um papel importante no trabalho de oposição legal à ditadura, falou Sara Amâncio, que, em remate, deixou uma proposta: Não se recriminem os jovens por eles se mostrarem alheados desta realidade que fez o quotidiano dos portugueses durante 48 anos e que hoje lhes parece uma história medieval. Recrimine-se quem tenta apagar da memória actual esse tempo ainda tão próximo.
Sobre a resistência em meio rural discorreu a antropóloga Paula Godinho, tomando por referência o caso das mulheres do Couço, que nas décadas de 1950 e 60 foram submetidas a vagas de prisões sucessivas. Precisamente para testemunhar esse papel de heroicidade e resistência, o colóquio prolonga-se amanhã, sábado, numa romagem a Coruche e ao Couço, para testemunhar a solidariedade com essas mulheres e, de um modo mais geral, com todos e todas as que, em condições de sobrevivência mínima, souberam resistir com grande dignidade e total abnegação ao terror da polícia política do Estado Novo.
Através das mulheres presentes, do seu exemplo de dedicação à luta por uma sociedade justa e livre da opressão, fazendo face aos constrangimentos do seu género, que as subalternizavam, nas duras condições da ditadura, as comunicações e depoimentos feitos no colóquio, permitiu lembrar a gesta de todas as que sofreram e não vergaram, pagando até com a vida a sua atitude.
A jornada do 8 de Março terminou com um convívio na Associação 25 de Abril, onde amavelmente a Ler Devagar instalou uma banca de livros, alusivos ao tema da mulher na resistência, em que Vítor Sarmento e Jorge Jourdan, membros do grupo Erva de Cheiro, fizeram a festa, com um canto livre, que despertou a vontade e a vocação de cantar em várias das pessoas presentes.

terça-feira, 6 de março de 2007

Foi você que pediu um museu Salazar?

Um contributo extremamente lúcido e pertinente para reflexão sobre o projectado museu Salazar na terra natal do ditador foi publicado no Público de hoje. Trata-se do editorial assinado por Amílcar Correia, do qual reproduzimos aqui um excerto:
"Ser favorável à criação de um museu em Santa Comba Dão não significa que se seja igualmente favorável ao ideário do Estado Novo, como parece, por vezes, transparecer dos argumentos da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses. O que deve ser exigido à Câmara Municipal de Santa Comba Dão é que a utilização de dinheiros públicos não se confunda com a transformação do local num santuário para fanáticos skinheads e nostálgicos do salazarismo, onde o regime seja abordado de forma acrítica ou panegírica e sem o respectivo contraponto político e histórico. [...] Mas este museu jamais terá a credebilidade necessária, caso não se associe a um centro de investigação sobre a temática, capaz de integrar o personagem e o seu hediondo e mesquinho regime no devido contexto histórico, para que a História também aqui não se apague. Sem caução científica não teremos um museu, mas sim o santuário de que falam os opositores à sua instalação. A função cívica de um museu com estes contornos não pode ser hipotecada em qualquer caso."
Nada parece indicar que as condições de rigor científico prescritas por Amílcar Correia venham a estar reunidas pela Autarquia de Santa Comba Dão. É isso que nos preocupa e reclama a nossa vigilância.
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Imagem: Paula Rego, "Salazar a vomitar a Pátria", 1960, óleo, FCG.

segunda-feira, 5 de março de 2007

8 de Março – A Mulher e a Resistência

Programa
O Movimento vai promover no dia 8 de Março um colóquio subordinado ao tema “A Mulher e a Resistência”. Vai decorrer na Biblioteca-Museu República e Resistência e desenvolver-se-á em duas partes, reservando para a noite uma sessão de convívio, a decorrer na Associação 25 de Abril:

Manhã – 10h:
Abertura por Nuno Teotónio Pereira, em representação do Movimento.
Contextualização histórica do período ditatorial do Estado Novo, por Irene Pimentel.
Comunicações de Vanessa Almeida sobre “As mulheres das casas clandestinas”;
e de Sónia Ferreira, sobre “Resistência feminina em Almada”
Apresentação das outras instituições promotoras do colóquio:
Sindicato dos Professores da Grande Lisboa
Associação 25 de Abril
UMAR – Manuela Tavares

Tarde – 14h30:
Projecção de um documentário sobre o papel das mulheres na resistência, no caso o estatuto das enfermeiras, centrado na figura da Isaura Borges Coelho, da autoria de Susana Sousa Dias.
Seguem-se depoimentos, em breves intervenções de 5 minutos, a partir do próprio auditório, com testemunhos do cárcere e da vida de resistência, das mulheres presas pela PIDE/DGS no período ditatorial do Estado Novo.
Para uma melhor articulação da sessão e evitar quebras de ritmo, ordenam-se os testemunhos em quatro grupos:
Clandestinas: Albertina Diogo; Domicília Correia da Costa; Ivone Dias Lourenço; Georgete Ferreira; Sofia Ferreira; Teresa Dias Coelho.
Resistência legal: Isaura Borges Coelho; Hortênsia Campos Lima; Isabel do Carmo; Helena Pato; Luísa Irene Dias Amado; Maria Eugénia Varela Gomes; Maria Purificação Araújo; Maria Jesus Barroso; Estela Piteira Santos.
Movimento estudantil: Gina Azevedo; Maria Emília Neves; Maria João Gerardo; Sara Amâncio.
Mulheres do Couço: Maria Custódia Chibante.

Encerramento das actividades do colóquio na Biblioteca-museu República e Resistência às 17h30

Reabertura das actividades às 19h, na Associação 25Abril

Inauguração da banca de livros alusiva ao tema, com apoio da Ler Devagar, e preparação da sala da A25A para o convívio da noite.

Noite:
Convívio com poesia, música e canções, no átrio da Associação 25 de Abril, com o Vítor Sarmento e companheiros do Erva de Cheiro, um jogo de jograis, a cargo da Maria Emília Neves.

domingo, 4 de março de 2007

Nostalgia salazarenta à custa de fundos públicos

Por denúncia da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) soube-se que há uma entidade pública, a Câmara Municipal de Santa Comba Dão, que pretende financiar com dinheiros públicos a criação dum museu dedicado ao ditador Salazar. Em hora oportuna tal denúncia foi feita, pois a ideia subjacente não é a de criar um pólo museológico com uma perspectiva crítica da ditadura (basta atentar no corpus museológico em perspectiva: objectos usados pelo ditador) mas sim a de criar um espaço saudosista e, involuntariamente ou não, reabilitador dum ditador e do seu regime anti-democrático. No sábado passado, a URAP organizou naquela vila uma sessão pública de crítica a estas intenções, e os seus representantes tiveram que ouvir palavras de ordem e gestos de teor fascista e salazarista, ao arrepio dos valores constitucionais em vigor (vd. notícias e imagem com saudação nazi aqui).
Neste momento, está na Internet uma petição a exortar os poderes públicos para que não permitam um novo vexame aos valores democráticos deste país.
Aproveita-se para reproduzir o teor da petição, sendo que a sua subscrição implica a ida a este site ligado à URAP.
"Petição contra a concretização do Museu Salazar em Santa Comba Dão
Excelentíssimo Senhor
Presidente da Assembleia da República
Os cidadãos abaixo assinados vêm, por intermédio desta petição, solicitar a V. Exª e à Assembleia da República que tenham em devida conta os seguintes factos.
A Câmara Municipal de Santa Comba Dão, como é público e resulta de declarações do seu Presidente e de documentos assinados entre a Autarquia e um dos herdeiros de Oliveira Salazar, prepara-se para concretizar na casa onde viveu o falecido «Presidente do Conselho» da ditadura fascista, um Museu Salazar, ou do Estado Novo.
Este projecto assume o objectivo de materializar um pólo de saudosismo fascista e de revivalismo do regime ilegal e opressor, derrubado pelo 25 de Abril de 1974.
O Museu Salazar, se por hipótese absurda e inadmissível alguma vez se viesse a concretizar, não seria um factor de efectivo desenvolvimento do concelho, nem o pagamento de qualquer dívida de Santa Comba Dão a um «filho da Terra», porque esta nada lhe deve senão opressão e atraso económico e social, como aliás todo o país. E não seria um organismo «meramente científico», mas sim, objectivamente, uma organização centrada na propaganda do regime corporativo-fascista do «Estado Novo» e do ditador Salazar.
A Constituição da República proclama no seu preâmbulo: «A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista. Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início duma viragem histórica da sociedade portuguesa».
A mesma Constituição, no seu Artigo 46.º, n.º 4, proíbe as «organizações que perfilhem a ideologia fascista» e a Lei 64/78 define-as como as que «... mostrem ... pretender difundir ou difundir efectivamente os valores, os princípios, os expoentes, as instituições e os métodos característicos dos regimes fascistas ..., nomeadamente ... o corporativismo ou a exaltação das personalidades mais representativas daqueles regimes ...», proibindo-lhes o exercício de toda e qualquer actividade.
A esta luz, os cidadãos abaixo assinados, consideram que o Museu Salazar, ou do Estado Novo, não pode concretizar-se, porque constituiria uma afronta a todos os portugueses que se identificam com a democracia e o seu acto fundador do 25 de Abril e, por isso, solicitam à Assembleia da República – em defesa do Regime Democrático Constitucional e da Lei – que condene politicamente o processo em curso, que visa materializar o Museu Salazar, e tome as medidas que julgue adequadas para impedir esse intento."

sábado, 3 de março de 2007

A mulher e a resistência


Realçar o papel da mulher portuguesa na resistência ao fascismo é o objectivo do colóquio que no próximo dia 8 de Março o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! promove na Biblioteca-Museu República e Resistência, em Lisboa. Destina-se, como é óbvio, a assinalar o Dia Internacional da Mulher e a trazer à memória actual o que foi a luta das mulheres pelo fim da ditadura. Combates de sofrimento e, também, de alegria, mas, sobretudo, combates pelo nascimento de um mundo livre e igual. Uma sociedade livre da brutalidade das forças repressivas do Estado Novo, vivendo dentro de padrões de dignidade cívica.
Para quem se ocupa destes temas – e o dossiê que se segue assim o confirma – é frequente dizer que o apelo das mulheres para entrar nesse trilho de privações e sacrifícios foi, sobretudo, afectivo. Ao invés do que se passou com os homens, que geralmente chegaram à resistência através de um processo político de consciencialização – da sua classe social ou por opção intelectual. Razão dupla para saudar essa atitude: de completo desprendimento de si e do legítimo direito a uma vida familiar confortável, por um lado; de dedicação sem limites à causa do companheiro, do pai ou do irmão, por outro. O caso de Catarina Eufémia (na foto) é também disso um exemplo.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

10º Plenário do Movimento - 1 de Março

Um ano e meio após a sua criação, o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! marcou presença na sociedade portuguesa, cresceu e consolidou-se.
Não foi por acaso. O Movimento veio indiscutivelmente responder a um anseio de muitas portuguesas e portugueses que se identificaram com a natureza cívica deste Movimento que foi capaz de chamar a si activistas e apoiantes dos mais distintos quadrantes políticos conseguindo, desta forma, mobilizar inúmeras pessoas em torno de uma causa nacional.
Aos poucos o Movimento ganhou credibilidade, conseguiu criar condições favoráveis para divulgar os seus objectivos, tanto no foro parlamentar, quanto no âmbito do Governo e sobretudo na opinião pública. Progressivamente ganhou força a ideia de um “dever de memória” que viesse dignificar e fazer justiça à coragem de tantos resistentes antifascistas.
Por isso, a Petição apresentada pelo Movimento para a preservação desta memória está na ordem do dia do debate parlamentar.
Assim sendo, é importante, em termos de organização do Movimento, divulgar as finalidades e as responsabilidades dos grupos existentes – sejam eles de carácter temático, geográfico ou de articulação das actividades – porque precisamos reforçar o Movimento aumentando o número de activistas. Mas, sobretudo, é indispensável uma participação activa e responsável. A adesão ao Movimento supõe acordo quanto aos princípios estabelecidos na Carta e a adesão aos métodos de trabalho adequados para o alcance dos fins perseguidos. A organização do Movimento repousa no plenário de activistas e no trabalho dos grupos acima referidos. E, conforme o âmbito e alcance das decisões, as questões são livremente discutidas, as propostas são apresentadas, debatidas e democraticamente votadas em plenário. Uma vez aprovadas por uma maioria, as deliberações do Plenário devem ser executadas.

Para abordar estes temas a Ordem de Trabalhos do 10º Plenário do Movimento Não Apaguem a Memória! que se realiza dia 1 de Março às 21 horas na Associação 25 de Abril, é a seguinte:

1. Leitura da Acta do plenário anterior.
2. Proposta para a Organização do Movimento.
3. Participação nas Listas TODOS e INFO.
4. Próximas actividades:
4.1. Dia 8 de Março – Colóquio de homenagem ao papel da mulher na resistência.
4.2. Início de Abril – Colóquio, na Ordem dos Arquitectos, para apresentação do projecto museológico realizado pelo grupo de arquitectos, designers, engenheiros e historiadores que nos apoiam, núcleo a ser criado no edifício ex-sede da PIDE/DGS, em Lisboa.

Vamos participar!

domingo, 25 de fevereiro de 2007

As Vidas dos Outros














Fui hoje ver o filme alemão As Vidas dos outros do realizador alemão Florian Henckel von Donnersmarck.

O filme retrata a evolução de um polícia da STASI, a polícia política da ditadura na RDA, que, tendo como missão espiar um famoso dramaturgo, acaba por encobrir o seu acto “subversivo” de ter escrito um artigo para uma revista da Alemanha Ocidental.

A história começa nos meados dos anos 80 e termina já depois da reunificação da Alemanha.
Um famoso dramaturgo alemão, admirador de Brecht, vê-se confrontado, sem o saber, com o desejo do Ministro da Cultura pela sua namorada, uma actriz famosa, admirada pelos amantes de teatro.
Disposto a tudo fazer para encontrar motivos políticos para a prisão do referido autor, ordena à STASI que o vigie. É a partir daqui que o polícia encarregue da sua vigilância começa um percurso de interrogações que o vão levar a acabar numa cave da STASI como funcionário menor.

O dramaturgo da história, homem com interrogações quanto ao regime mas que nunca o pôs verdadeiramente em causa, é confrontado com o suicídio de um amigo que fora, entretanto, colocado na lista negra do regime.
Resolve então escrever o referido artigo na Alemanha Ocidental sobre os suicídios na RDA, escondidos na estatística como homicídios.

Confrontado com as verdadeiras razões por que está a desempenhar aquela missão (o capricho sexual de um ministro) e assistindo, ao longo de vários dias, aos sentimentos, diálogos e razões dos que espia, o oficial da polícia acaba, também ele, por interrogar-se sobre o regime que o faz vasculhar “As vidas dos outros”. Acaba por sacrificar a sua vida profissional salvando o dramaturgo da prisão, mas não consegue impedir mais um suicídio – o da namorada que acaba por denunciar o dramaturgo, quando presa pela STASI e ameaçada com a destruição da sua vida, apesar de ter confiado no polícia que a quis salvar. Infelizmente, este não conseguiu fazê-la compreender a tempo a sua cumplicidade.

É um filme de esperança, pois que os homens pensam e, ao pensarem, podem alterar a vida - a sua e a dos outros.
É também um filme de e com Memória.

Vão vê-lo.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Somos nós os teus cantores

Como já noticiámos, este é um ano rico de tributos ao cantautor Zeca Afonso. Aproveita-se para registar aqui alguns dos eventos ainda por vir:
>22/2: documentário da RTP1 «José Afonso 20 anos depois... (0h30, mesa-redonda c/Otelo, José Jorge Letria, Cristina Branco, Viriato Teles e Rui Vieira Nery, além de vários depoimentos gravados);
>23/2: exp. «O que faz falta» (org. Mundo da Canção, 18h) e espectáculo «O Menino de Oiro» (21h30), uma teatralização da vida e obra de José Afonso dirigida por Gil Filipe (org. CMGuimarães); espectáculo «O andarilho das bruxas - uma homenagem a José Afonso», c/Fátima Santos, Jorge Quaresma, José Luis Iglésias, Luis Manuel, Sila Santos, Paula Seca, Jennifer Vincent e Todd Isler (8:30pm, org. Sport Club Português, 51-55 Prospect Street, Newark, NJ, EUA, programa aqui); exposição e colóquio sobre a sua vida e obra (org. da CMLoures; CMOdivelas); exp. «No tempo do Zeca Afonso» e concerto de João Afonso (org. CMEntroncamento); concerto c/Cantadores da Rusga, Jorge Jordan, Mingo Rangel, Rogério Charraz e poesia de Jorge Castro (Lx., org. Mercado da Ribeira, 22h30).
>24/2: concerto com a Banda Militar do Norte (15h30), seguido de debate com Hélder Costa, José Mário Branco, José António Gomes, Alípio de Freitas e Mário Barradas (17h30), concerto do grupo ARDENTÍA, e espectáculo «Maio, maduro Maio», com Amélia Muge, João Afonso e José Mário Branco (21h30; org. CMGuimarães); espectáculo/colóquio de homenagem a Zeca Afonso (Gal.ª de Arte do Convento Espírito Santo), debate sobre a sua vida e obra e concerto do grupo Ecos de Coimbra (org. CMLoulé); concerto (org. CMLoures, em parceria com a Assoc. de Moradores de St. Ant.º Cavaleiros); conc. do Quinteto de Jazz de Lisboa (org. CM Lajes do Pico, Açores).
>27-2: 21.30H homenagem a Zeca Afonso, concerto c/Afonso Dias e Francisco Fanhais (org. Clube Farense, apoio da CMFaro);
>?-2: espectáculo musical «A formiga no carreiro - 25 canções para Abril» (Viseu, org. Companhia De Mente).
Em Março há mais comemorações; serão então noticiadas.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Cartas de IWO JIMA


A Memória da Guerra pela Paz
Cartas de IWO JIMA




Quando se fala de nazi-fascismo, a guerra do Pacífico, entre os Estados Unidos da América e o Japão, tornou-se um ícone de filmes em que o inimigo japonês aparece como algo de diabólico, torturador dos americanos, sem piedade, como que anti-humano.
O regime fascista japonês enviou para a guerra o melhor da sua Juventude para combater por uma causa de crueldade e de terror.

O filme de Clint Eastwood, Cartas de IWO JIMA, mostra-nos que, na guerra, como em tudo na vida, os homens são apenas homens.

De uma beleza estética própria de uma obra de arte, Cartas de IVO JIMA, mostra-nos o lado de um Povo que sofreu tanto com a guerra como todos os outros. Os japoneses, com uma cultura muito própria, viveram a guerra, morreram pela sua Prátia, sofreram a vida e a morte.

Obra maior do cinema americano, Cartas de IWO JIMA, celebra a vida na morte, demonstra que os homens são todos iguais, são fruto do amor, da família, do sofrimento feito terror, da solidão feita das emoções da tristeza e da revolta, do medo.

Nesta Obra Maior, Clint Eastwood dá uma lição de humanismo e solidariedade face ao sofrimento da guerra combatida por soldados anónimos e mostra-nos que a Memória da guerra pode ser um hino à Paz.
A não perder.

Fernando Ruiz Vergara: crónica de uma perseguição política

Por sugestão da Paula Godinho, deixada na caixa de comentários do post dedicado a Dionísio Pereira, reproduzimos a seguir as informações que Dulce Simões nos fez chegar sobre o cineasta Fernando Ruiz Vergara, o qual foi, tal como aquele historiador galego, julgado em tribunal simplesmente porque fez um documentário em que denunciava crimes do franquismo. Aí foi condenado e se proibiu a exibição do seu filme «El Rocio» (1980). Aproveita-se ainda para deixar aqui um texto de enquadramento de Germinal e uma resenha crítica ao filme.
"Fernando Ruiz Vergara realizou nos finais dos anos 70 um documentário denominado «Rocio», que para além da famosa romaria de Huelva, aludia à guerra civil em Almonte e à repressão franquista, identificando as vítimas e os principais responsáveis pela repressão. Como consequência, a família Reales destruiu-lhe a vida, a película foi censurada e proibida em Espanha, e Fernando Ruiz Vergara foi condenado a dois anos e meio de prisão, a uma multa de 50.000 ptas., e ao pagamento de dez milhões de pesetas de indemnização à família Reales. Isto ocorreu durante a transição da UCD para a maioria absoluta do PSOE, em 1982. Arruinado, destroçado e deprimido Fernando Ruiz Vergara ficou só, e o advogado apenas conseguiu livrá-lo da prisão. 25 anos passados, outra «família Reales» mantém o Poder de destruir a vida de um historiador que, como Fernando Ruiz Vergara, apenas lutava pela recuperação da memória histórica. No site http://www.rojoynegro.info/2004/article.php3?id_article=13282 podem aceder ao movimento de solidariedade para com Dionisio Pereira, encetado por um grupo de historiadores espanhóis. 17 de Fevereiro de 2007."
Dulce Simões

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

O arquivo da PIDE, a propósito de «A vida dos outros»

Seguindo a sugestão de um companheiro de outro blogue, fui ver o filme «A vida dos outros» («Das Leben der Anderen», Alemanha, 2006) do jovem realizador Florian Henckel von Donnersmarck sobre a Stasi – a polícia política da República Democrática Alemã – e o sistema de controlo e vigilância a que foi submetido o seu meio cultural sob o regime comunista. A acção passa-se em Berlim Leste, em três períodos distintos: 1984-85, 1989 (logo após a queda do muro de Berlim) e 1991, depois da reunificação da Alemanha. O filme coloca-nos perante várias questões: o totalitarismo, a perseguição política, os interrogatórios, a tortura, o medo, o poder discricionário, a acção policial a soldo de paixões mesquinhas, as fraquezas humanas, o suicídio, a resistência, a liberdade de expressão...
Por deformação profissional, o filme também me interessou pelo que nos transmite sobre os arquivos. «A vida dos outros» põe em evidência o duplo poder dos arquivos já teorizado, nomeadamente, por Eric Ketellar, Professor de Arquivística na Universidade de Amesterdão: "The archives have a two-fold power: being evidence of oppression and containing evidence required to gain freedom, evidence of wrong-doing and evidence for undoing the wrong" (Archival Temples, Archival Prisons: Modes of Power and Protection. Archival Science. 2:3-4 (2002), 231). Os arquivos podem ser instrumentos de hegemonia mas também de resistência; de opressão e de liberdade; de poder e de contrapoder. Os mesmos arquivos que serviram regimes autoritários ou totalitários podem servir propósitos democráticos, como sejam a reparação de injustiças e a restituição de direitos violados. Nas transições políticas para a democracia, os arquivos jogam um papel decisivo: conservam, tratam e comunicam a prova documental das acções (arbitrárias) do passado e conservam, tratam e comunicam a prova documental de acções (escrutináveis) do presente.
No filme, o dramaturgo Georg Dreyman, que durante a vigência do regime comunista foi alvo da vigilância cerrada da Stasi (escutas em todas as divisões da sua casa e observação quotidiana da sua intimidade), apenas porque o ministro da Cultura cobiçava a sua mulher, pôde, após a instauração da democracia, aceder ao arquivo produzido pela polícia secreta. Pôde ainda saber o verdadeiro nome do agente que o vigiava e elaborava os relatórios diários da sua vida privada: Hauptmann Gerd Wiesler, com o n.º de código HGW XX/7.
Na Alemanha, ao invés do que acontece em Portugal, as vítimas da polícia política têm o direito de conhecer a identidade dos agentes policiais e dos informadores que as espiaram ou denunciaram. Após a reunificação alemã, o arquivo da Stasi transformou-se num instrumento de ressarcimento das vítimas e de reposição da verdade.
A jovem democracia portuguesa decidiu que o acesso público ao arquivo da PIDE/DGS não devia incluir o conhecimento da identidade dos agentes e informadores da polícia política. O nome dos agentes da PIDE e qualquer elemento que os possa identificar são expurgados dos processos que vão à consulta na Torre do Tombo (seguindo-se uma interpretação questionável da alínea 2 do art.º 17 do regime geral dos arquivos – decreto-lei n.º 16/93, de 23 de Janeiro). Considero que assim o arquivo da PIDE/DGS continua a não cumprir integralmente os propósitos que os arquivos de instituições autoritárias ou totalitárias devem cumprir, após transições democráticas. Afinal, a dificuldade em lidar com a verdade histórica e o conformismo de muitos continua a tolher-nos a acção e a perturbar o discernimento colectivo.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Vozes ao Alto!




Decorreu ontem, 17/02, no Forum Lisboa, o anunciado Festival Vozes ao Alto.
A preservação da Memória da Resistência passa também por lembrar a Música e a Poesia que, durante o Estado Novo, lutou pela Liberdade e pela Democracia. O Vozes ao Alto quis lembrar todos aqueles que o fizeram, nomeadamente Zeca Afonso, expoente máximo dessa luta, agora que passam 20 anos da sua morte.
Cerca de 350 pessoas cantaram e aplaudiram os artistas que se quiseram juntar ao Não Apaguem a Memória nesta noite.
O espectáculo foi apresentado por Helder Costa.

Helder Costa













Júlia Lelo, Ângela Pinto e Jorge Castro disseram Poesia:

Júlia Lelo


Ângela Pinto


Jorge Castro















A Música da Resistência foi lembrada por Pedro Branco, Erva de Cheiro, Zé Pinho e Zé Manel Ésse, Carlos Alberto Moniz, Rui Curto, Bartolomeu Dutra e João Pimentel.

Pedro Branco


Erva de Cheiro


Zé Pinho e Zé Manel Ésse


Carlos Alberto Moniz


Rui Curto, Bartolomeu Dutra e João Pimentel


O "Canto da Guitarra e da Poesia" mostrou que o Fado de Coimbra foi também um Resistente à ditadura. Acabaram com a assistência a cantar em coro "Trova do vento que passa":


Canto da guitarra e da poesia











A viola de Mingo Rangel encantou todos como um canto de amor e poesia:


Mingo Rangel










Os "Chuflage" trouxeram a memória da Juventude. Com o seu Rap demonstraram que os jovens sabem que é preciso preservar a Memória que os faz hoje cantar temas que são também gritos de revolta e protesto:


Os "Chuflage"











Tino Flores também trouxe Memória. A dos exilados e emigrantes que se juntavam em Paris a ouvir os cânticos da Resistência:


Tino Flores














Antes do final, Fernando Tordo trouxe-nos as memórias dos Festivais da Canção antes do 25 de Abril onde ele e tantos outros, como Ary dos Santos, levaram o protesto, e as canções que, depois de Abril, fizeram tanta gente cantar:


Fernando Tordo











Por fim o Coro Fernando Lopes Graça com "Vozes ao Alto".
Homenagem ao grande Maestro que fez da sua vida Resistência.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Festival Vozes ao alto!

No próximo dia 17, realiza-se o festival Vozes ao alto!, organizado pelo movimento Não apaguem a Memória!, em tributo à música de resistência e seus intérpretes. Terá lugar no Fórum Lisboa, às 21h.
O nome Vozes ao alto! pretende homenagear as Canções Heróicas, musicadas por Fernando Lopes Graça a partir de poemas de José Gomes Ferreira (sobre Lopes Graça demos, oportunamente, conta das celebrações do seu centenário natal aqui).
Este espectáculo de canto livre será apresentado e conduzido por Hélder Costa e Maria do Céu Guerra, ambos do grupo teatral A Barraca.
A lista de convidados está praticamente fechada, podendo já anunciar-se a presença dos seguintes artistas: Ângela Pinto, António Toscano, Bartolomeu Dutra, Camacho Vieira, Carlos Alberto Moniz, Carlos Carranca, Carlos Couceiro, Clara Branco, Chullage (grupo de hip-hop), Coro Lopes Graça, Erva de Cheiro, Fado de Coimbra, Fernando Tordo, Francisco Fanhais, João Pimentel, Jorge Castro, Jorge Mendes, Júlia Lello, Mingo Rangel, Pedro Branco, Rui Curto, Teotónio Xavier, Tino Flores, Zé Manuel Esse e Zé Pinho.
Os bilhetes de entrada estão disponíveis na portaria da Associação 25 de Abril, agradecendo-se apenas um donativo de 5 euros para custear as despesas com a organização do evento.
Nb: informação tb. disponível no site do Movimento; este post foi originalmente publicado a 5/II, tendo sido transferido para hoje por razões de visibilidade informativa.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

O que faz falta é lembrar a malta!

O Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) realiza hoje um debate sobre «Os silêncios da História», em torno do dossier do seu n.º de Fevereiro. Terá início às 21h30, no novo espaço da Livraria Ler Devagar (R. da Rosa, 145, no Bairro Alto, a antiga rua das tipografias e jornais..).
Irene Pimentel escreveu nesse n.º sobre a memória pública da ditadura e da repressão, no qual salienta o contributo do movimento Não apaguem a Memória! para o reavivar do debate sobre o lugar da memória na pedagogia democrática. José Sobral reavaliou a importância da memória colectiva das comunidades rurais do Portugal salazarista. Sérgio Godinho evocou Zeca Afonso. Mais detalhes neste post anterior, dedicado exclusivamente ao último dossier do Diplô.
Aqui fica o convite a todos para uma boa ocasião de se debater e reflectir sobre a nossa memória histórica recente. Porque, e parafraseando Zeca Afonso, o que faz falta é recordar a malta!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Em defesa de Dionísio Pereira, por uma memória histórica livre

O historiador galego Dionísio Pereira, especialista do franquismo, será hoje julgado em tribunal por ter firmado num livro de História (A IIª República e a represión franquista no concello de Cerdedo) os nomes dalguns algozes da repressão franquista. A situação é grave, e está a ser denunciada pela opinião pública. Esperemos que prevaleça o bom senso em tribunal e que a sentença dê antes um aviso aos acusadores de que quem cometeu crimes não pode ver esses crimes limpos pela amnésia forçada.
Uma carta aberta do Dionisio Pereira foi transcrita aqui pelo Daniel Lanero Táboas, outro historiador galego que já colaborou neste blogue. Aqui fica registado como tudo começou, em tradução livre dum texto original da Unión Libertaria reproduzido pela Indymedia Galiza:
"A 12 de agosto de 2006, Verbo Xido, Asociación Ecoloxista e Cultural da Terra de Montes, organizou umas jornadas de recuperação da Memória. Falaram várias associações, apresentou-se um livro de Dionisio Pereira, organizou-se uma rota por lugares da repressão, e descerrou-se uma placa, colocada sobre uma formosa pedra talhada por um canteiro local, em memória de dois homens, Francisco Arca e Secundino Bugallo, canteiros e da CNT, torturados e assassinados a 13 de agosto de 1936 numa cuneta de Pedre. Não se sabe se os assistentes e as assistentes à homenagem choravam de emoção ou pelo fumo, pois ali mesmo alguém ateara fogo no monte há pouco tempo, e parecia provocado, pois atearam fogo em solo queimado, que ali já ardera há dois dias, como parte da vaga de incêndios deste Verão. Mais tarde alguém arrancou a placa de homenagem, que Verbo Xido repôs outra vez em novo acto, no mês de Novembro. Parece continuação destes actos que a Corporación Municipal de Cerdedo revira e anulara, de jeito não muito regular, um acordo prévio que exigia a retirada da placa com o nome dum edil implicado na repressão. E agora apresentaram duas denúncias contra Dionisio Pereira, por este parágrafo do seu livro sobre a repressão fascista na comarca de Cerdedo: «Persoas sinaladas pola súa presunta participación en diversas manifestacións da represión: Angel, Luis e Manuel Gutiérrez Torres (xefe da Falange, alcalde de Cerdedo nos anos 40 e 50), Eligio e Francisco Nieto (falanxistas)....», e por outro parágrafo semelhante nas Actas do Congreso de Memoria de Narón. Dionisio Pereira está citado a comparecer no Julgado de Paz de Cerdedo esta quinta dia 15, às 11 e às 12. Pedem-lhe que se retracte, coisa que Dionisio não pensa fazer (como pode retractar-se alguém dum trabalho de investigação?) e que indemnize os familiares."

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Com José Afonso - 20 anos de caminho

O Clube Literário do Porto (CLP) e a Associação José Afonso (Núcleo do Norte) lançaram hoje um programa de 4 dias dedicado a Zeca Afonso. Chama-se «Com José Afonso - 20 anos de caminho» e decorre até sáb.º na sede do CLP, sito na R. Nova da Alfândega, 22, Porto. Eis o programa completo:
14/2, 21h30> inauguração de exposição temática sobre José Afonso;
14/2, 22h> debate «José Afonso - testemunhos», com a participação de Alípio de Freitas e Benedicto Garcia Villar;
15/2, 21h30> tertúlia «O prazer do texto», com intervenções poéticas e musicais a decorrer no Piano-Bar do CLP (música e poesia de José Afonso);
16/2, 21h30m> debate «José Afonso - a lírica», com a participação de José António Gomes e Elfriede Engelmayer
17/2, 21h30m> debate «José Afonso - a música», com a participação de Francisco Fanhais e José Mário Branco.
Nb: para mais inf. sobre tributos a Zeca Afonso vd. o blogue da AJA.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Para que a memória não se apague


“Vítimas de Salazar”, um volumoso trabalho de registo histórico feito por três historiadores, João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha, editado pela Esfera dos Livros, foi lançado na passada quarta-feira, dia 7, no lugar altamente simbólico do antigo “tribunal plenário”, na Boa-Hora. Foi apresentado pelo antigo presidente da República, Mário Soares e pelo prefaciador da obra, o catedrático Fernando Rosas. Recorde-se que no 6 de Dezembro do ano passado, por iniciativa do Movimento, foi neste local descerrada uma lápide “à dignidade dos homens e das mulheres aqui julgados por se terem oposto ao regime da ditadura”. [Foto de Álvaro Fernandes: João Madeira, coordenador da obra, resume o que foi a realização da obra; Luís Farinha e Irene Pimentel, os outros co-autores, são os primeiros, a contar da direita]
Na sua intervenção – e recorrendo aqui ao relato o jornalista José Pedro Castanheira (cf Expresso on line de 8/2/07) –, Mário Soares realçou a importância de se proceder ao julgamento histórico do fascismo, considerando que esse é e foi o melhor método para “exautorar a moralidade e o crédito do regime salazarista”. Fernando Rosas apontou o seu protesto para uma certa suavidade de costumes que trata o passado sem distinções éticas, metendo vítimas e carrascos na mesma esmaecida fotografia. É o processo de “banalização do regime salazarista”, contra o qual se insurgiu e cuja denúncia pública e política, defendeu, continua actual.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Sérgio Vilarigues (1914-2007): «recordista da clandestinidade»

Faleceu na passada quinta-feira, aos 92 anos, Sérgio Vilarigues, um dos refundadores do Partido Comunista Português, militante antifascista envolvido durante várias décadas na luta contra o Estado Novo (32 anos na clandestinidade). Na qualidade de antigo tarrafalista, participara recentemente, em Cabo Verde, nas cerimónias que assinalaram os 70 anos da abertura do campo de concentração do Tarrafal.
Notícia retirada da TSF Online:
"O Partido Comunista Português retrata este antigo dirigente como um dos mais destacados exemplos da resistência ao fascismo e da luta pela liberdade e pela democracia. Logo em meados da década de 1930, Vilarigues foi detido e passou por diversas prisões, antes de ser enviado para a prisão do Tarrafal. Em 1942, no entanto, converteu-se à clandestinidade, uma condição em que manteve até ao 25 de Abril de 1974, altura em que caiu a ditadura de Salazar. Durante as sete décadas de militância no Comunismo, Vilarigues foi membro do Comité Central, da Comissão Politica e do Secretariado, mas, em 1988, deixou de pertencer a estes organismos, passando a integrar a Comissão Central de Controlo e Quadros. Carlos Brito, ex-líder parlamentar do PCP, recorda o antigo colega como um «dos reorganizadores do partido em 1941», ainda antes de Álvaro Cunhal, e um dos militantes mais jovens a ser preso, já que foi para a prisão do Tarrafal com apenas 17 anos. O ex-líder parlamentar do PCP lembra ainda Sérgio Vilarigues como um «recordista da clandestinidade» e uma pessoa com muita «confiança» e que sempre o apoiou.Também o resistente antifascista Edmundo Pedro recorda Vilarigues como um homem de força, que atravessou os piores anos da prisão do Tarrafal, o chamado «período agudo», e um dos poucos que se conseguiu manter de pé nessa altura".
Conforme informa o site do PCP, o corpo de Sérgio Vilarigues está em câmara ardente na Casa Mortuária da Igreja de S. Francisco de Assis, Avenida Afonso III (junto ao Cemitério do Alto de S. João), a partir das 11h de hoje, realizando-se o funeral às 18h, para o cemitério dos Olivais, onde o corpo será cremado.
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Foto de Jorge Caria, na entrevista de Sérgio Vilarigues ao jornal Avante! (8.3.2001).

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Repensando a memória colectiva

Já saiu o n.º de Fevereiro do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa). O dossier português é sobre «Os silêncios da História», e pretende contribuir para a reflexão sobre a nossa memória histórica recente.
O dossier abre com o texto de José Sobral sobre «Os Sem-História», dedicado às comunidades rurais do Portugal salazarista omitidas pela História oficial, reservada que estava esta às grandes figuras 'nacionais' e às elites locais. Tal quadro teve a sua extensão simbólica na concepção urbanística da Belém ribeirinha: aos Jerónimos associaram-se os espaços de poder e leitura da História da ditadura (Padrão dos Descobirmentos, praças do Império e do Ultramar, Museu de Arte Popular) e da democracia (Centro Cultural de Belém, futuro Museu da Língua e dos Descobrimentos).
Os encobrimentos feitos pela História oficial e a memória oficial são vários. O texto de Irene Pimentel («A memória pública da ditadura e da repressão») revê criticamente como foram avaliados o salazarismo e a sua repressão ditatorial no trinténio democrático, do ponto de vista político e social. Demonstra o défice de justiça quanto ao aparelho repressivo, apresentando dados globais sobre as reduzidas condenações de agentes da PIDE. Refere ainda as entidades que, a contra-corrente duma imposta amnésia selectiva, pugnaram pela preservação da memória pública desse período, começando com a Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas, a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses, a Comissão do Livro Negro do Regime Fascista e o Tribunal Cívico Humberto Delgado, e detendo-se, por fim, no contributo do movimento Não apaguem a Memória!.
O dossier encerra com uma vibrante evocação de Zeca Afonso por Sérgio Godinho. Na data em que se celebram 20 anos do passamento do grande cantautor da resistência, um dos seus mais talentosos discípulos revê o mestre reescrevendo uma de suas músicas sob a forma de viva confidência a propósito do legado que dele recebeu.

Hélder da Assunção Costa in memoriam (1927-2007)

O operário antifascista Hélder Costa faleceu recentemente. Armando Teixeira, do Não Apaguem a Memória!, evocou a sua vida e exemplo em texto publicado no jornal da terra de ambos, o Barreiroweb. Tomamos a liberdade de aqui publicar o trecho inicial.
"Homenagem a Hélder da Assunção Costa
A morte do nosso amigo e camarada Hélder Costa, despedaçou-nos o coração. Significa uma perda enorme para o Barreiro de gente honrada e séria, de que fez da coragem da resistência ao salazarismo e às estruturas e regime fascista, a bandeira de uma vida de luta, sacrifício e exílio, sempre norteada pela integridade de carácter e de princípios, e pela modéstia de uma enorme envergadura intelectual.
Hélder Costa foi um trabalhador honesto, democrata e sonhador pela liberdade na terra que o viu nascer em 1927, na zona do Largo Rompana, no Barreiro Velho. Filho de pai operário preso e violentado nas extraordinárias greves de 1943, ainda adolescente correu pelas ruas do Barreiro ocupado militarmente, entre selváticos espancamentos e prisões arbitrárias, para levar o almoço ao progenitor, detido com centenas de outros barreirenses nos armazéns do Teodoro Rúbio, por detrás da Bonfim, pelo «crime nefando» de terem feito greve e protestaram na vila, contra os salários de miséria e a falta de géneros alimentares, nas grandiosas «marchas da fome».
Hélder Costa ganhou nas ruas do Barreiro, a consciência da injustiça e da força brutal – a mando do próprio Salazar, perante as reticências do ministro do Interior, que tinha receio de tamanho complexo industrial!.. - de um regime terrorista que mais tarde, por ser activista do MUD Juvenil e do MUD (Movimento de Unidade Democrática) o haveria de encarcerar durante quase seis meses, sem culpa formada e sem motivos, porque valentemente assumiu na polícia politica que lutar pela liberdade e pela democracia não é crime!"

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Auschwitz, 27 de Janeiro de 1945

Elie Wiesel, prémio Nobel da Paz, que retratou a sua vivência de sobrevivente dos campos de extermínio num livro para não esquecer, “Noite” (Ed Texto), ao referir-se um dia aos carrascos nazis de Auschwitz-Birkenau, disse:
“Deus, não tenhas compaixão para com aqueles que criaram este lugar; não perdoes aqueles que assassinaram milhares de crianças judias que aqui estiveram; lembra-te das procissões de crianças e mais crianças...”
Luís Ramos publicou no Expresso on line do passado 27 de Janeiro uma reportagem audiovisual que é igualmente inesquecível. Foi a Júlia Coutinho quem no-la indicou: http://expresso.clix.pt/Multimedia/Interior.aspx?content_id=376422 e consideramos um dever de memória divulgá-la.
A talhe de foice, fica também aqui um breve resumo do que foi Auschwitz, o campo da morte mais demente e horroroso do totalitarismo nazi, recorrendo às notas de um jornalista da France Presse, Hille Van Elst

Quando o mundo descobriu os campos nazis
No dia 27 de Janeiro de 1945, os soldados do 60º corpo do Exército Vermelho entravam no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, no sul da Polónia. Aí encontraram sete mil deportados num estado de agonia indescritível.
Os nazis deixaram aqueles sete mil moribundos sem água nem mantimentos, por acharem que o estado em que se encontravam não permitia, de modo algum, a sua evacuação para outro campo. Os restantes 60 mil prisioneiros foram conduzidos em marcha acelerada para campos situados a Oeste. Foi a “marcha da morte” – a maioria morreu por cansaço, fome ou de tiro, em desesperadas tentativas de fuga.
O III Reich instalou em Auschwitz a maior fábrica de morte, das várias que montou entre a Alemanha e a Polónia. Aí, entre 1942 e 1945, foram asfixiadas com gás Zyclon B, depois queimados em fornos crematórios, um milhão de judeus vindos dos países ocupados pela Alemanha. Havia ainda prisioneiros de guerra polacos (80 mil) e soviéticos (15 mil), ciganos (20 mil) e 12 mil de diversas nacionalidades. Auschwitz, pela sua descomunal dimensão, tem o triste registo de maior cemitério da História.
Os alemães criaram o campo pouco depois da invasão da Polónia (Setembro de 1939). A construção começou no Verão de 1940, a partir de um antigo quartel em Oswiecim (nome polaco de Auschwitz). Inicialmente destinava-se aos opositores polacos, mas a partir de 20 de Janeiro de 1942 a sua finalidade passou a ser outra. A reunião do estado-maior nazi, que se realizou em Wannsee, decidiu proceder a partir dali à “solução final do problema judeu”.
O campo foi-se alargando, até chegar a Birkenau e ocupava uma área de mais de 200 hectares. Em 1941 foi utilizado para prisioneiros de guerra soviéticos e resistentes capturados na Jugoslávia, França, Áustria e na própria Alemanha. Funcionava como reservatório de mão-de-obra para a indústria alemã. Esta sua função nunca deixou de ser utilizada, mas a partir de meados de 1942 foi também a principal unidade de liquidação dos povos judeu e cigano – considerados “degenerados”.
As levas de deportados eram tríadas à chegada: idosos e crianças para um lado, adultos para outro; homens para uns barracões e mulheres para outros. As crianças, os idosos e os deportados de condição física débil eram conduzidos para as câmaras de gás, disfarçadas de chuveiros. Às vezes, se o campo tivesse capacidade para isso, eram liquidadas no próprio dia em que chegavam.
Auschwitz passou a ser igualmente um “espaço científico” experimental. Josef Mengele, nomeado médico-chefe do campo em 1943, desenvolveu aí um projecto de investigação de gémeos uniovulares, utilizando cobaias humanas.
Foi no Verão de 1942 que o campo se alargou até Birkenau e equipado com fiadas de fornos crematórios, ficando Auschwitz reservado para a recepção dos detidos e para os prisioneiros destinados a trabalhos forçados.
A indústria da morte aperfeiçoou-se e atingiu o seu clímax em 1943, com 20 mil pessoas a serem liquidadas diariamente nas câmaras de gás e cremadas em seguida nos fornos. Comboios vindos dos vários extremos da Europa ocupada pelos nazis, da França à Grécia, da Bélgica aos países bálticos, chegavam em cadência crescente, pois tinham prioridade sobre qualquer outro transporte, incluindo o militar. Traziam levas de seres humanos que descarregam no cais do campo de Auschwitz, onde, sob força militarizada, se processava à separação, segundo a idade e o sexo.
Os últimos meses de vida no campo foram particularmente lancinantes, à medida que a derrota nazi se avizinhava. Antes de abandonar o campo, os nazis tentaram destruir as câmaras de gás e os fornos. Não o puderam fazer na totalidade porque as ordens que vinham de Berlim eram de continuar até ao último momento com a “solução final”.
As tropas do Exército soviético aceleraram a marcha e há precisamente 53 anos ocuparam o campo. Foi o estupor que esta realidade provocou junto dos soldados que levou a que os campos de morte nazis se transformassem rapidamente em lugares de memória.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

A Revolução de Fevereiro de 1927 (continuação)

Reproduz-se neste post um excerto da Contribuição para uma cronologia dos factos económicos e sociais: Portugal, 1926-1985, de João Morais e Luís Violante (Lisboa, Livros Horizonte, 1986, p. 27).
"6 [Fevereiro de 1927] - Em Lisboa, grupos de civis provocam agitação, sendo reprimidos pela Polícia e pela GNR. O Café Brasileira é encerrado, por ser um recinto de comícios revolucionários. No Arsenal, marinheiros revoltam-se e civis armados assaltam a Brigada do Alfeite. Em Faro, revoltara-se a guarnição da canhoeira «Bengo», mas sem consequências. No Barreiro os ferroviários do Sul e Sueste declaram a greve geral, paralisando o tráfego de comboios a sul do Tejo a que o Governo responde com a ocupação militar das instalações ferroviárias.
- No Porto, Jaime de Morais atravessa o Douro de olhos vendados e tenta negociar a rendição, em Gaia, em troca da liberdade para os revoltosos. Passos e Sousa [ministro da Guerra] é inflexível: ou a rendição total ou bombardeamento da cidade.
7 - As forças revoltosas rendem-se no Porto.
Durante este período haverá também adesão à revolta de forças militares em outros pontos do País: Vila Real (Infantaria 13), Guimarães (batalhão de Metralhadoras 2), Lamego (infantaria 9), Guarda e Régua.
- Inicia-se um movimento militar em Lisboa sob o comando de Mendes dos Reis e Agatão Lança, com forças da GNR e da Marinha, apoiados por grupos de civis.
São assaltados o Depósito de Material de Guerra e a Fábrica das Armas, enquanto o Arsenal da Marinha adera à revolta. Os insurrectos controlam o triângulo Rato-Bairro Alto-Arsenal e são ocupados vários edifícios públicos.
Contudo, as unidades do Exército não aderem, como Artilharia 3, Infantaria 5, Caçadores 5, Infantaria 1, 7, 21 e 22."
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Imagens: 1) Parlamentários dos revoltosos, o comdt. Jaime Morais e o major Severino, vendados, a caminho do quartel-general do Ministro da Guerra, ten.-cor. Passos e Sousa, instalado num prédio da Avenida das Devezas; 2) Barricada na Rua da Escola Politécnica.
Fotógrafo não identificado. Fevereiro de 1927. Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, Colecção Revolução de Fevereiro de 1927.

Vítimas de Salazar

Lançamento do livro:

Vítimas de Salazar
Estado Novo e Violência Política

de Irene Pimentel, João Madeira e Luís Farinha

4.ª feira, 7 de Fevereiro, 18h30
(Sala do Plenário do Tribunal da Boa-Hora)
Apresentação por Mário Soares
Nb: este post foi originalmente publicado a 31/I, tendo sido transferido para hoje por razões de visibilidade informativa.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

A revolta digna da Invicta

Faz hoje 70 anos que se iniciou no Porto a 1.ª revolta contra a Ditadura Militar, que derrubara a I República a 28 de Maio do ano anterior.
Este movimento republicano, sob o comando do gen. Sousa Dias, teve início na Invicta com as movimentações das tropas de Caçadores 9 e foi apoiado por grupos de civis liderados por José Domingues dos Santos, ex-presidente do Ministério e dirigente do Partido da Esquerda Democrática. Foram ocupadas instalações civis e militares e nas ruas ergueram-se barricadas. São presos os ministros do Comércio e Comunicações e da Instrução Pública. Do lado dos revoltos participam ainda as forças da GNR, efectivos da Póvoa de Varzim, Penafiel e Amarante. Foi distribuído pela Invicta um manifesto «Ao povo português», subscrito pelo Comité Militar Revolucionário, formado pelo gen. Sousa Dias, pelo cmdt. Jaime de Morais, pelo cap.-médico Jaime Cortesão, pelo cap. Sarmento Pimentel e pelo ten. Pereira de Carvalho.
A resposta oficial é violenta, mas só a 7 de Fevereiro consegue vergar a revolta portuense. Nesse mesmo dia inicia-se em Lisboa um movimento idêntico, de que falarei em próximo post.
Nb: como sugestão de leitura recomenda-se Luís Farinha, O reviralho, Lisboa, Estampa, 1998.
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Imagem: confrontos entre as ruas de Santa Catarina e de 31 de Janeiro (Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, Colecção Revolução de Fevereiro, fotógrafo não identificado, Fev. 1927).