terça-feira, 29 de maio de 2007

A outra resistência


O município de Melgaço inaugurou no passado 27 de Abril um espaço museológico dedicado a uma outra resistência à ditadura do Estado Novo – a da emigração clandestina por razões económicas. Os que saíram a “salto”, quer dizer através de redes de contrabandistas, para lá dos Pirinéus, à procura de melhores condições de vida, foram muitos milhões. Na periferia de Paris, em Champigny, criou-se uma cidade feita de improviso e de barracas soltas, que na década de 1960 acabou por se constituir na 3ª cidade portuguesa mais populosa. O jornalista Sérgio C. Andrade visitou o Museu Memória e Fronteira e dessa visita fez uma reportagem que saiu no Público de 28/5/07. Com a devida vénia aqui transcrevemos, para que não se esqueça quão vulgar e ordinário foi o fascismo do Estado Novo.

Visita guiada por um velho emigrante da terra

"Vou andando por terras de França
pela viela da esperança
sempre de mudança
tirando o meu salário."

José Mário Branco (do álbum Margem de Certa Maneira)

Saindo do centro de Melgaço, chega-se ao Museu Memória e Fronteira como quem atravessa uma fronteira. Vai-se por uma pequena ponte pedonal, uma réplica em ponto pequeno da ponte sobre o rio Minho que liga a fronteira Valença-Tui, caminho de tantas travessias, tantas aventuras, tantas miragens. Percorrendo a ponte sobre o ribeiro, surge-nos, à nossa esquerda, um espigueiro como aqueles que logo se avistam à entrada da Galiza (tão idênticos, afinal, aos do Minho). Ao fim da travessia, à direita, aí está o novo Museu Memória e Fronteira. É um edifício transparente, de betão, ferro e vidro.
À entrada, José Augusto Pereira, 76 anos, rosto redondo e expressão apaziguada de quem soube lidar com a vida, evoca as suas memórias para uma televisão galega. Este velho emigrante por terras de França (e muitas outras, como se verá) aceitou abandonar por momentos o lar que habita na pequena vila minhota para nos guiar numa visita ao novo museu que em Melgaço convoca as memórias da emigração (e também do contrabando).
José Augusto espera-nos no início do percurso que o museu propõe ao visitante sobre a história da emigração, numa região que foi das mais afectadas por este fenómeno durante a segunda metade do século XX. Ao lado, há um curso de água, metáfora da fronteira e lembrança dos múltiplos rios que os emigrantes tiveram de atravessar. E há também uma banda sonora cheia de sons do quotidiano desses tempos: passos em fuga, a música de um acordeão, o apito de um comboio ao longe...
"Até me arrepio de ouvir isto. É mesmo igualzinho ao apito do comboio que eu ouvia na minha terra, quando vinha o vento. E eu gostava de ouvir..."
José Augusto nasceu em Castro Laboreiro, em 1931. Tinha apenas 16 anos quando emigrou para França, ao encontro do pai, que no ano anterior se tinha estabelecido na Bretanha.
"Éramos dois. Arranjámos documentos - falsos, claro - em como éramos galegos, e fomos de comboio até Pamplona. Dali fomos a salto, pela montanha, para França." Para a travessia, José Augusto e o amigo tiveram de desembolsar 850 pesetas para os passadores. "Chegámos a França de manhã cedo, depois de dormirmos uma noite na montanha, era no mês de Julho, e apareceram-nos dois polícias - eram os gendarmes, o meu companheiro sabia umas palavrinhas de francês, mas eles também falavam espanhol..."
E o que aconteceu, depois - foram presos? "Não. Eles perguntaram-nos: "Cadê os outros?" Queriam mais, para nos levar a todos a Bayonne. Se fosssemos oito ou nove, os guardas que nos acompanhavam até lá poupavam dinheiro. Mas nós éramos dois. Dormimos ali mais uma noite." E José Augusto explica que, nessa altura, apenas dois anos após o final da Segunda Guerra Mundial, do que a França precisava era de mão-de-obra. A dificuldade estava em atravessar Espanha.
Melhorar a vida
O percurso do museu tem um posto de fronteira simulado. Há uma farda da guarda civil espanhola e a reprodução de uma "desgraçada notícia" num jornal da terra, que dava conta de homens baleados quando tentavam escapar de carro.
Assustava-o ver esta farda? José Augusto diz que não. "Isto é a guarda galega. Eu sou de Castro Laboreiro, estávamos ali a cinco quilómetros da fronteira, conhecíamos os galegos e eles conheciam-nos a nós; não estranhávamos nada."
Mas a sua história já tinha passado além-Pirinéus. Na viagem tinha também levado a sua "mala de cartão". Era mais pequena do que a que está no museu de Melgaço. "Era uma malinha pequena, em cartão duro, com umas cordinhas. Lá dentro tinha uma roupinha para a gente se mudar - mas eu nem sequer me lembro, aos anos que foi." Mas lembra-se, afinal, de ter "esfolado as costas" com ela. "Fez-se-me um buraco, e via-se a roupa e tudo."
Continuamos a subir a rampa para o primeiro piso do museu. Sucedem-se as fotografias documentando os vários passos da aventura da emigração, tanto a legal como a clandestina: os passaportes e registos de saída, uma vista da pequena ponte de madeira do rio Trancoso, na fronteira de S. Gregório. "Eu não fui por aí, fui a Orense, pela raia seca", recorda José Augusto. Volta a ouvir-se o comboio - o ex-emigrante emociona-se: "Ah. É mesmo igualzinho... Sobe por mim acima."
Outros seus contemporâneos, como os milhares que se lhes seguiram, viajaram de camioneta, com os inevitáveis garrafões na mão, ou de carro. Mas o barco também fez parte dos meios de viagem. José Augusto, de barco só andou nos estreitos do Bósforo e de Dardanelos, quando, anos mais tarde, em 1953, partiu de França para trabalhar na Pérsia (actual Irão), "para fazer campos de aviação". "Era tudo da Nato, sabe: depósitos de gasolina, tudo aquilo escondido. Estive lá quatro anos, depois ainda fui para a fronteira da Síria. Quando aquilo acabou, vim outra vez para França. E em 1960 fui para o Canadá."
Continuamos a subir no tempo. Imagens do quotidiano dos emigrantes já em França: o trabalho, as barracas, a hora das refeições - "dormíamos cada quatro, uma cama sobre a outra; e juntávamo-nos para fazer o comer - na mesma panela, saía mais barato para três". Mais à frente, um emigrante posa com a Torre Eiffel em fundo. "Acolá estive três vezes, lá no alto. Mas isso já foi mais tarde. E desci pelas escadas. O dinheiro, naquela altura, não se juntava muito."
E sai-lhe uma meditação sobre a emigração: "Era para melhorar a vida mais um bocadinho. Lá sempre havia mais dinheiro, não é?. E Portugal sempre foi um país de emigrantes".
Principais destinos
O Museu Memória e Fronteira também documenta essa história em gráficos. Nas primeiras décadas do século XX, o principal destino era o Brasil, com o registo de quase 80 mil emigrantes entre 1912-15. Os anos da Segunda Guerra Mundial fizeram atenuar o movimento, que recrudesceu logo a seguir, no caso de Melgaço, com o fim da exploração do volfrâmio e o abrandamento do contrabando. A partir da década de 1960, com a Guerra Colonial, aparecem novos picos de emigração, desta vez sobretudo virada para a Europa, e a França em particular: em 1966 foram registadas 8 mil saídas legais, mas no início da década de 1970 houve mais de 100 mil saídas clandestinas para França.
Não é que em Portugal não se pudesse levar a vida, retoma José Augusto. "Muitas vezes diz-se que era a miséria. Não era bem isso. Era a gente que queria ir buscar mais. Vinha um rapaz novo de lá, e chegava aos bailes com a carteira cheia de dinheiro. E eu dizia "Nah, eu também tenho que ir". Era assim."
José Augusto só regressou definitivamente a Portugal em 1983. Ainda tentou convencer o filho a abrir um negócio em Viana. Mas um problema de coração levou-o a desistir. Entretanto, viúvo, encontrou repouso num lar, com o dinheiro da reforma.
Os discos que se vêem na última sala , junto a um pequeno anfiteatro onde outros emigrantes desfiam as suas memórias no pequeno ecrã, já não lhe dizem muito.
O emigrante, de Manuel Dias, Triste despedida, de Nel Garcia, ou Desfolhada, de Simone de Oliveira, como 28º à l"ombre, de Jean-François Maurice, ou C"est la même chanson, de Claude François, já são mais para as gerações que se lhe seguiram.
Regressamos ao rés-do-chão pelo elevador: "Agora é tudo mais fácil. É como as viagens." E volta o apito do comboio. "Sobe por mim acima!".

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Formação e consolidação do salazarismo e do franquismo (anos de 1930 e 40)

É já na próxima semana que se realiza o III Encontro Luso-Espanhol de História Política, desta feita dedicado à «Formação e consolidação do salazarismo e do franquismo nas décadas de 1930 e 1940».
O encontro académico decorrerá na Universidade de Évora a 4 e 5/VI (sala 131 do Colégio do Espírito Santo), por iniciativa do seu centro de investigação CIDEHUS.
Para mais informações sobre as comunicações vd. o respectivo programa.

domingo, 27 de maio de 2007

Provedor da Arquitectura, Arqº Francisco Silva Dias - Intervenção na TSF

No seguimento do debate Espaços da Memória -contributo para um roteiro da memória e da resistência da cidade de Lisboa, onde foi referenciada a participação e o empenhamento do nosso Movimento na luta pela preservação da memória da antiga sede da PIDE na António Maria Cardoso (bem como os compromissos já assumidos pela CM Lisboa e pelo promotor imobiliário), e onde também foi reafirmada a importância e urgência da constituição do Museu Nacional da Liberdade e da Resistência, que são dois dos grandes objectivos do Não apaguem a memória!, entendeu o Provedor da Arquitectura -arqº Francisco Silva Dias - referir a importância deste assunto na TSF.
Este é um tema que interessa a cada vez mais cidadãos, e motiva em cada dia mais e maiores vontades.
Vale a pena ouvi-lo e reflectir:

Opinião
"Na Ordem do Dia" com Francisco Silva Dias
25-05-2007
Nasceu e ganha crescente dinamismo o movimento cívico denominado "Não Apaguem a Memória!". Francisco Silva Dias comenta em A Ordem do Dia:



  • Intervenção na TSF
  • sábado, 26 de maio de 2007

    Regresso à Azervadinha




    A história foi brevemente contada por Nuno Teotónio Pereira aos que com ele fizeram a romagem ao Couço, no passado 10 de Março, a propósito do papel da Mulher na Resistência. Contou ele, na paragem junto da igreja da Azervadinha, como aquele templo se transformara numa polémica da comunidae católica progressista contra o regime ditatorial do Estado Novo. Em breve, uma fraternidade de padres holalndeses tinha assumido o múnus pastoral daquela localidade e, também, da freguesia do Couço. Conceberam o projecto de erguer uma igreja comunitária na Azervadinha e pediram ajuda a Nuno Teotónio Pereira para que ele a projectasse. O projecto esbarrou com a oposição dos agrários locais, que impuseram a expulsão dos sacerdotes holandeses e a cosntrução do tempo segundo a traça convencional. Para salvaguardar a ordem, o próprio Américo Tomás, dito Presidente da República, foi assistir à benção da igreja.
    O jornalista Fernando Madaíl foi à procura desses padres holandeses e acabou por encontrar um deles, com quem falou. Desse encontro surgiu uma reportagem que publico no Diário de Notícias Gente, do passado 5 de Maio e que com a sua autorização aqui reproduzimos, com a pequena foto do padre Bart Reker, da autoria de Rodrigo Cabrita.

    Padre holandês expulso voltou a Portugal

    Lia o Diário de Notícias após as orações, a missa e o pequeno-almoço na manhã de 18 de Fevereiro de 1970. Ainda não tinha acabado o artigo que dava conta de um abaixo-assinado de dez mil padres católicos e pastores protestantes que, na Holanda, defendiam a saída de Portugal da NATO, alegando que o Governo de Lisboa usava meios militares da organização para massacrar as populações das suas colónias, quando um ruído lhe desviou a atenção do jornal, onde se dava conta de que a manifestação não passava de propaganda antiportuguesa - e ainda não se tinha dado o massacre de Wiriamu, a aldeia moçambicana arrasada pela nossa tropa (a fazer lembrar o massacre americano na vietnamita Mi Lai), em 1972, que levou à expulsão dos padres de Burgos e do Macuti.
    Bart Reker conta ao DN que reconheceu o carro que parou diante da janela do seu quarto, no seminário que a Congregação dos Sagrados Corações tinha em Santa Iria de Azóia, compreendendo logo que a PIDE (a polícia política) o ia buscar outra vez. O padre holandês seria novamente levado até à fronteira e convidado a sair do automóvel em Badajoz, com a indicação de ser uma pessoa indesejável no nosso país. A única diferença é que, dessa vez, pararam no Couço - freguesia com um proletariado rural explorado pelos latifundiários e vítima da repressão policial - para meter outros dois padres holandeses na viatura da polícia política. Esse episódio, pouco conhecido, foi recordado pela Associação Não Apaguem a Memória! numa deslocação ao concelho de Coruche.
    Mas enquanto Reker mantinha contactos com os católicos progressistas quase desde a chegada a Portugal, em 1963, os sacerdotes do Couço, Adriano Van der Ven e Jan (para os paroquianos, João) Dekker, apesar de serem também da congregação fundada por Pierre Coudrin - um conservador que se opunha à Revolução Francesa sem desconfiar que os seus seguidores iriam difundir a doutrina social da igreja -, eram só padres rurais na freguesia que o regime dizia ser comunista.
    Reker tinha estudado no Colégio Português em Roma e foi professor no Seminário dos Olivais, no Instituto de Serviço Social e no Instituto Superior Católico, dando aulas em cadeiras que abordavam as "realidades terrenas" numa visão cristã. Na década de 60, começaram a ganhar importância os sectores dos católicos progressistas, que se opunham à guerra colonial e defendiam o fim dos presos políticos.
    Na madrugada de 1 de Janeiro de 1969, um grupo de católicos realizou uma vigília na igreja de S. Domingos, na sequência do apelo do Papa Paulo VI, que declarou que essa data passaria a ser o Dia da Paz. "A carta pastoral do episcopado português indicava que essa meditação e oração pela paz deveria ser sobre a guerra do Vietname", recorda Reker à conversa com o DN. Naquela igreja, pelo contrário, até era lido um relatório com o número de mortos no Ultramar e divulgado um texto em que se defendia a solução pacífica para a questão colonial. A ousadia dessa madrugada, em que se cantaram também os versos de Sophia que Francisco Fanhais musicou - "Vemos, ouvimos e lemos,/ não podemos ignorar" -, não teria as consequências da vigília de 1972, na capela do Rato, onde os participantes foram presos.
    A 3 de Janeiro de 1969 morre a mãe de Reker e o padre vai ao funeral, mas, quando regressa da Holanda, não o deixam sair do aeroporto. Esteve duas horas a exigir falar com o Patriarcado. Levado para a sede da PIDE, falou com "um inspector de nome italiano", provavelmente Barbieri Cardoso, número dois na hierarquia. A polícia política terá ficado convencida de que o clérigo holandês louro que lera o rol dos mortos na guerra colonial tinha sido Bart Reker, quando de facto fora o seu compatriota Nicolau Poelman.
    Barbieri chamou os agentes que meteram Reker no carro que o levou até à praça central de Badajoz, onde saiu com as duas malas e se hospedou num hotelzito, antes de se mudar para um colégio católico, ficando meses à espera que a situação se alterasse. Contactou o superior da Congregação em Lisboa, o seu cúmplice Teotónio Pereira, o seu o advogado José Manuel Galvão Teles e a sua ex-aluna e filha de Miller Guerra - deputado da Ala Liberal, grupo que acreditou na chamada Primavera Marcelista. Deram-lhe a entender que a situação política iria mudar e, em Julho, recebeu um telegrama a dizer que podia regressar. As autoridades eclesiásticas sugeriam-lhe que tivesse cuidado, uma vez que tinha contactos com... comunistas. "Os tais comunistas", que afinal eram todos católicos mas anti-ditadura, "não eram nenhum perigo para a fé".
    Entretanto, no Couço, onde o ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, tinha uma quinta, Jan e Adriano tinham desenvolvido uma actividade pouco grata ao regime. O seu apostolado não se limitava à liturgia, pois também conviviam com o campesinato explorado pelos agrários e perseguido pelas greves contra o abaixamento dos pagamentos da jorna e pela jornada de oito horas de trabalho em vez de ser de sol a sol, com a PIDE a levar homens e mulheres para os seus calabouços.
    E se Adriano tinha desafiado o arquitecto Nuno Teotónio Pereira a desenhar uma igreja que fosse lugar de reunião e de catequese, Jan foi mais longe. Num funeral, lembrava que os ricos tinham obrigações que não se limitavam à esmola que davam aos pobres. Obviamente, mesmo sem estarem a ler o DN, entraram também no carro da PIDE rumo a Badajoz.

    quinta-feira, 24 de maio de 2007

    50 anos da Fuga do Aljube - madrugada de 25 para 26 de Maio de 1957

    Carlos Brito

    Na madrugada de 25 para 26 de Maio de 1957, três comunistas, presos políticos, fugiram da cadeia do Aljube: Carlos Brito, Américo de Sousa e Rolando Verdial.

    Em 1997, 40 anos depois, Carlos Brito, o único dos três que é ainda vivo, lembrou este fantástico feito da Resistência à Ditadura:

    "«Fuga audaciosa do Aljube», assim titulava o «Avante!», da primeira quinzena de Junho de 1957, a notícia da evasão de três comunistas daquela cadeia de Lisboa, consumada uns dias antes, na madrugada de 25 para 26 de Maio.
    Apesar de realmente audaciosa, como adiante se verá, esta é talvez, no notável historial das fugas dos comunistas portugueses, uma das menos conhecidas, nos seus pormenores.

    A espectacularidade, a margem de risco e a rigorosa preparação colectiva que rodearam esta fuga, além do indispensável apoio partidário, bem merecem ser divulgados, agora que se perfazem 40 anos sobre a sua realização.
    É o que, como único sobrevivente dos três evadidos de então, me proponho fazer na breve memória que se segue.
    Nos princípios de 1957, a PIDE concentrou um grande número de presos políticos na cadeia do Aljube de Lisboa, o que não era habitual, visto ser a cadeia usada sobretudo para manter os presos no período mais intenso de interrogatórios e torturas.
    A cadeia do Forte de Caxias, que funcionava como depósito de presos, tinha, entretanto, entrado em obras, mas a repressão e a prisão de oposicionistas à ditadura, especialmente de comunistas, não tinha parado.
    Vivia-se um momento importante da resistência antifascista.
    Os finais de 56 tinham sido marcados por lutas estudantis de uma certa envergadura, que culminaram, já em Janeiro de 1957, com uma manifestação em S.Bento, em frente da chamada Assembleia Nacional, de cerca de 3 mil estudantes, em protesto contra o decreto 40.900, que ameaçava de liquidação as Associações de Estudantes.
    Desenvolvia-se em numerosas empresas industriais, por todo o país, um surto de lutas operárias por aumento de salários e no Alentejo os assalariados agrícolas lutavam contra o desemprego e a fome.
    Os comunistas impulsionavam estas lutas, ao mesmo tempo que preparavam o V Congresso do PCP, que veio a realizar-se em Setembro.
    No plano legal e semi-legal havia também uma certa dinamização da acção democrática que conduziu à realização do I Congresso Republicano de Aveiro, em Outubro desse ano, e à intervenção de listas da oposição democrática na farsa eleitoral fascista para a chamada Assembleia Nacional, efectuada no mesmo mês.
    A anormal população do Aljube, decorrente da repressão destas actividades, deu força aos presos para iniciarem um processo de luta por melhores condições prisionais, em relação ao regime de visitas, à alimentação, à higiene e outras.
    A PIDE tentou conter este movimento com a sua táctica habitual de «isolar os cabecilhas» e assim transferiu das diferentes salas para o último da andar da cadeia - uma enfermaria desactivada - os presos considerados mais perigosos. Éramos oito no início, depois ficámos dez, quase todos funcionários do PCP e três membros do Comité Central - Francisco Miguel, Blanqui Teixeira e Américo de Sousa - todos eles grandes obreiros da fuga, embora só último tivesse fugido.

    Os preparativos
    Mal assentámos arraiais nas novas instalações, começámos a avaliar as possibilidade de fuga. Ao cabo de uma semana, não mais, de cogitações individuais e reflexões colectivas a resposta foi afirmativa: havia condições de fuga.
    Pretendíamos explorar a circunstância de nos encontrarmos num andar recuado e de um pouco abaixo das janelas gradeadas correr um estreito algeroz, que concebido para a remoção das águas nos podia conduzir à liberdade.
    Seria sempre um plano arrojado, pela altura, correspondente a um quinto andar, e o desamparo do percurso.
    Colocava-se, entretanto, um grande número de interrogações: - Qual a consistência do algeroz? Onde ia dar? A que distância ficava do prédio vizinho? Como passar dos telhados para a rua?
    Também pressupunha grandes dificuldades: para aceder ao algeroz era preciso serrar as grades de uma das janelas. Mais interrogações: - Onde arranjar a serra? Como fazê-la entrar na cadeia?
    Ainda outras: - Qual o comportamento dos guardas durante a noite? E especialmente, como faziam a vigilância das grades?
    Só reunindo respostas para todos estas interrogações se podia pensar em elaborar um plano de fuga minimamente consistente.
    Então o colectivo decidiu: toda a prioridade à fuga. E a partir daí a vida da sala ficou subordinada a este objectivo fundamental.
    Fez-se chegar ao Partido por meios ultra-clandestinos, naturalmente, o nossos propósitos e as nossas necessidades. Tomaram-se variadas medidas para a recolha de informações.
    Montámos a nossa própria vigilância à actividade nocturna da prisão. Durante toda noite ficavam dois presos acordados, em turnos de duas horas, que registavam tudo o que viam e ouviam, especialmente o comportamento dos guardas de serviço à sala.
    Para grande alegria nossa registámos que, tal como durante o dia, as rondas nocturnas faziam uma observação muito superficial às grades, limitando-se a examiná-las com um foco de lanterna.
    Um belo dia chegou-nos a resposta do Partido aprovando a fuga e prometendo os apoio pedidos. Pouco depois chegou-nos a serra dissimulada na prenda de anos para um de nós.
    Podíamos iniciar a tarefa decisiva de serrar as grades. Quando passámos à prática, embora contássemos com camaradas experientes na matéria, como o Francisco Miguel, logo se verificou que esta fase iria arrastar-se por muito tempo.
    O grande problema era aquele ruído inconfundível: um guincho penetrante que se ouvia longe e repercutia pelas paredes.
    Só nos momentos em que se sabia que o guarda de serviço estava ocupado com outras preocupações é que se podia trabalhar com relativa segurança. As sessões de corte eram, por isso, bastante curtas. E era preciso serrar quatro grades relativamente grossas, em cruz, para se poder passar.
    Em compensação, o disfarce da zona cortada, feito com miolo de pão pintado com aguarela da cor das grades, resultava em cheio. Os guardas miravam, miravam e parecia-lhes tudo bem.

    O plano
    Chegou-nos uma outra boa notícia: estava devoluto o último andar de um prédio vizinho, não o encostado à cadeia, mas o que se lhe segue naquela ala da Rua Augusto Rosa, exactamente o edifício onde viveu o actor e que está assinalado por uma lápide. Era uma informação da maior importância, pois podia resolver o problema de passar dos telhados para um andar que nos dava acesso à rua.
    Nesta altura já tínhamos amadurecido o plano da fuga que compreendia as seguintes fases: primeira, passar a grade para o algeroz; segunda, caminhar no algeroz uns dez metros; terceira, descer por corda, a pulso, uma altura de seis metros, entre o algeroz e o telhado do primeiro prédio; quarta, atravessar o telhado do primeiro prédio e passar ao telhado do segundo prédio; quinta, tentar passar do telhado do segundo prédio para o andar devoluto e daqui procurar saída para a rua.
    Era preciso fazer cordas para vencer os diferentes desníveis, os que conhecíamos e outros que podiam surgir. Os lençóis e os cobertores ofereceram bastante matéria prima.
    Houve finalmente que escolher quem fugia. Não podíamos ir todos e a natureza da fuga exigia certas aptidões físicas. Levaram-se em consideração as características acrobáticas do plano (completamente desaconselhado para quem, por exemplo, sofresse de vertigens), a situação jurídica (possibilidade de libertação, a mais ou menos, curto prazo) e a vontade de cada um.
    Ponderadas todas estas razões foram seleccionados: o Américo Sousa, na altura destacado membro do CC, que faleceu em Março de 1993; eu próprio que era funcionário do Partido e tinha então 24 anos; e Rolando Verdial, que chegou a ter tarefas de responsabilidade no Partido, mas que traiu na polícia anos mais tarde e que, ao que consta, morreu antes do 25 de Abril.
    O dia da fuga foi marcado em função do guarda de serviço, no que, aliás, nos enganámos, pois tinha havido uma mudança na escala.

    Prisão do Aljube

    A fuga
    Antes de iniciarmos a partida, depois da ronda das duas da madrugada, ainda havia algumas tarefas de grande melindre, como o último puxão para arrancar a cruz cortada nas grades. Tinha sido totalmente serrada em três hastes, ficando a quarta com uma espessura residual suficiente para manter no sítio a peça toda.
    Feito isto, começámos. O primeiro sair foi o Américo. Eu estava especialmente ansioso. Depois chegou a minha vez. Deitei-me de costas na mesa que tínhamos encostado à janela, para facilitar a saída. Fiquei então absolutamente calmo e totalmente concentrado em cada gesto. Passei os braços e depois a cabeça pelo espaço aberto nas grades. Trepei por estas até ficar totalmente de fora. Desci para o algeroz, reparei de relance na respeitável altura a que me encontrava e lá em baixo, ao fundo, no guarda da GNR. Caminhei de lado, inclinado para a frente e apoiado na parede, que era recoberta de telhas como nas águas-furtadas. Fui juntar-me ao Américo e ajudá-lo a amarrar a corda de lençóis numa janela que havia mais à frente, numa sala que nos servia de refeitório. Feita esta operação, continuámos, no mesmo jeito de caminhar, até à extremidade do algeroz que contornava a frontaria do edifício e acabava um meio metro depois, na parede lateral. Tinha uma sensação de completo desamparo, como se boiasse no ar sobre uma Lisboa nocturna, magnífica nas suas pistas iluminadas, até à mancha negra do rio. Lançámos a corda, que eu fixei no baixo parapeito do algeroz enquanto o meu companheiro da frente a descia a pulso. A corda era curta. A distância excedia os seis metros calculados. O Américo teve dificuldade em firmar os pés no telhado. Fez-se barulho. Entretanto, o terceiro da fuga chegou junto de mim. Agora fixava ele a corda, enquanto eu descia a pulso. Em baixo o Américo amparou-me, o que ambos fizemos a seguir ao Verdial, tornando a chegada ao telhado mais suave.
    Atravessámos o primeiro edifício, procurando a cumeeira do telhado onde as telhas ofereciam maior consistência. Passámos para o segundo edifício. O desnível ainda era grande mas não foi preciso corda. Avançámos até ao beiral. Estávamos sobre o andar devoluto. Sabíamos que era possível saltar para uma varanda e sabíamos que nesta alguém tinha deixado uma janela aberta para nos dar passagem. Tinha sido a camarada Deolinda Franco, que visitara a casa na véspera, como se a quisesse alugar, e que, além disso, desempenhou um importante papel em todo apoio exterior à fuga. Saltámos para a varanda com alguma dificuldade e algum ruído que ecoou pelas muralhas marmóreas da Sé.
    A janela estava realmente aberta, entrámos na casa, fomos à porta da escada, puxámos os trincos, podíamos sair. Foi, então, o momento de calçarmos os sapatos e vestir os casacos que trazíamos amarrados à cintura e também de compor o cabelo. Depois descemos as escadas como quaisquer cidadãos regressados de uma paródia nocturna. Chegámos à porta da rua que estava a uma distância de cinquenta metros da sentinela da Guarda Republicana de serviço à entrada do Aljube. O guarda fazia um pequeno passeio, para lá e para cá da porta da prisão.
    Aproveitámos o trajecto em que ia de costas para nos esgueirarmos até à esquina que era próxima, onde está hoje a Tasca da Sé. Depois caminhámos rápido. Seguimos uma rua onde devia estar um carro à nossa espera. Mas não estava. Foi o maior contratempo de todo o plano.
    Para grandes males grandes remédios, fizemos um galope até ao Largo da Graça onde apanhámos um táxi. Em breve estávamos a salvo.

    Muitos anos depois, numa das primeiras festas do «Avante!», um jovem dirigiu-se-me para me falar desta fuga. Ele morava, na altura, ainda criança, no último andar do prédio encostado ao Aljube, onde nós aterrámos quando descemos do algeroz. Acordou com o barulho e gritou para o pai que eram ladrões. «Quais ladrões?! São gatos, dorme rapaz!». Quando foi dado o alarme na prisão e a PIDE e a PSP apareceram em força, o pai explicou-lhe que tinha sido uma fuga de presos políticos, pessoas honestas que queriam o bem dos meninos como ele.

    Assim se faziam as vitórias da luta antifascista."

    Miguel Torga e a repressão cultural sob o Estado Novo

    Um livro que aqui anunciámos, sobre a perseguição da polícia política ao escritor Miguel Torga, vai ser lançado este sábado, contando com uma apresentação por Irene Pimentel.
    Aproveita-se para reproduzir a informação do convite:
    "As Edições Minerva Coimbra, o Director da Colecção Minerva História, o Autor e a Coordenadora Científica do CEIS20, convidam para o lançamento do livro Miguel Torga e a PIDE: a repressão e os escritores no Estado Novo, de Renato Nunes.
    A apresentação será feita pela Prof. Doutora Irene Flunser Pimentel. A sessão realiza-se no próximo dia 26 de Maio, pelas 16h30, na Livraria Minerva (Rua de Macau 52, Bairro Norton de Matos), em Coimbra.
    N.º 26 da Colecção Minerva História dirigida pelo Prof. Doutor Luís Reis Torgal.
    Segundo o Director da Colecção Minerva História, Luís Reis Torgal, «este será o primeiro livro desta colecção inteiramente dedicado ao estudo de um processo da PIDE, no contexto de uma série a que poderíamos chamar “A repressão e os escritores”. Seguir-se-ão livros sobre os casos de Aquilino Ribeiro e de Fernando Namora».
    Nesta obra o autor procura analisar os processos instruídos pela polícia política a um dos mais consagrados escritores portugueses do século XX - Miguel Torga, pseudónimo adoptado por Adolfo Correia da Rocha.
    Em anexo, o autor optou por apresentar, uma breve cronologia dos processos de Miguel Torga na polícia política e também alguns originais e, por vezes, surpreendentes documentos extraídos dos processos do escritor na PVDE/PIDE/DGS.
    «A presente obra é, pois, como o seu título indica, um estudo sobre um processo organizado pela PIDE (utilizamos apenas a sigla que se tornou tristemente célebre), que mostra como a nossa “ditadura” não teve, efectivamente, o carácter “original” e “benevolente” – imagem que o regime deu de si próprio – que se lhe quer por vezes atribuir, numa lógica “revisionista”. A literatura, como qualquer outra arte, ou qualquer forma de vida (incluindo o quotidiano de cada um, a vida de família, o domicílio, a correspondência…), era constantemente vigiada e violada.
    Na qualidade de historiador não poderemos omitir esta realidade objectiva que se nos depara com uma grande clareza quando consultamos o Arquivo da PIDE/DGS na Torre do Tombo. Os seus processos são de uma grande evidência, ao contrário de outras fontes ideológicas e de propaganda que mais facilmente encandeiam o juízo dos leitores, mesmo dos historiadores, mormente os cientistas sociais estrangeiros, apresentados muitas vezes como “paradigma científico”, mas que nem sempre conhecem bem a realidade portuguesa e que repetem de forma automática, ou com pressupostos de complexa (ou simplista) engenharia teórica, uma longa cadeia de testemunhos ideológicos e “científicos”, nem sempre, todavia, rigorosamente avaliados». Luís Reis Torgal
    Renato Nunes nasceu no dia 3 de Julho de 1980 em Lille (França), embora as suas origens estejam associadas ao concelho de Oliveira do Hospital. Licenciou-se em História, Ramo de Formação Educacional, em 2003, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Actualmente, lecciona na Escola Básica 2, 3 de Tondela. Colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20), tem vindo a estudar os processos de alguns escritores na polícia política do Estado Novo e na Direcção-Geral de Censura. Para além deste livro, que constitui a sua primeira publicação historiográfica, está a preparar uma outra obra sobre idêntico tema relativo a Aquilino Ribeiro."

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    Por teu livre pensamento – histórias de 25 ex-presos políticos portugueses


    O livro Por teu livre pensamento – histórias de 25 ex-presos políticos portugueses , já anunciado neste blogue, terá uma apresentação no auditório da Feira do Livro de Lisboa, no Sábado, dia 26 de Maio pelas 20H00.
    A apresentação contará com a presença dos autores e alguns dos Ex-presos políticos que figuram na obra.

    "Arte e Literatura na Guerra Civil de Espanha" de João Cerqueira


    Dia 24 de Maio, às 21:00, na Fundação Mário Soares, é apresentado o livro Arte e Literatura na Guerra Civil de Espanha de João Cerqueira.
    "Durante a Guerra Civil de Espanha e posterior regime franquista a
    arte e a literatura despontam como forma de resistência à opressão e à violência, encarnando um sentimento profundo de insubmissão e esperança. Uma intensa força espiritual compele artistas, escritores, cineastas, músicos, operários e camponeses a explorarem as suas potencialidades criativas para servir um ideal político-filosófico. Desse esforço desesperado resultou um número difícil de quantificar de obras literárias, artísticas, cinematográficas, teatrais e musicais. No embate com o tempo muitas não resistiram à carga de propaganda que lhes deu origem. Outras, devido ao carácter universal e intemporal, transcenderam o contexto histórico original, mantendo incólume a genialidade e o fulgor humanista na passagem pelo crivo dos anos."


    Nascido em Viana do Castelo a 23 de Outubro de 1964, João Cerqueira é licenciado e mestre em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e prepara um doutoramento sobre José de Guimarães.
    Foi convidado pela revista Arte Ibérica para efectuar a cobertura das exposições decorrentes durante o Porto 2001 Capital Europeia da Cultura e é colaborador da revista Idearte.
    De entre os livros de referência escolhe, como guia espiritual e manual de instruções para a sinuosa estrada da vida, O elogio da loucura de Erasmo de Roterdão.
    É membro da Amnistia Internacional e da Associação Raoul Follerau.

    Alberto Vilaça in memoriam

    O advogado antifascista Alberto Vilaça faleceu esta 2.ª feira, em Coimbra, sua cidade natal, aos 78 anos de idade.
    Vilaça era um dos mais antigos militantes do PCP em Coimbra, partido a que aderiu em 1949. Foi um activo associativista durante o Estado Novo, designadamente enquanto dirigente da Associação Académica de Coimbra, membro dos conselhos de redacção das revistas Via Latina e Vértice, presidente da assembleia-geral do Ateneu de Coimbra, e membro da Comissão Central do MUD-Juvenil e da Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática. Devido à sua intervenção política e cívica foi preso 6 vezes pela PIDE.
    Após a revolução de 1974, presidiu à Junta Distrital de Coimbra e foi representante à Assembleia Municipal de Coimbra durante sucessivos mandatos autárquicos. Foi um dos sócios fundadores da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo (localizado em Vila Franca de Xira). Foi agraciado com o grau de grande oficial da Ordem da Liberdade pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio.
    Fontes: Diário de Coimbra e Público; imagem de Vilaça retirada daqui.

    quarta-feira, 23 de maio de 2007

    Aivados – memória da resistência rural no Alentejo


    Inês Fonseca vai apresentar na livraria Ler Devagar, no próximo sábado, dia 26, às 18h, a sua obra sobre memórias e identidade de uma aldeia do Alentejo, Aivados, no concelho de Castro Verde. Uma povoação que pela posse igualitária da terra se envolveu na luta pela reforma agrária logo após a Revolução de Abril. O livro, com a chancela da Dinossauro Edições tem por título Aivados. Posse da Terra, Resistência e Memória no Alentejo e teve por base a tese de dissertação que apresentou no seu mestrado em Antropologia, em 1997, sob orientação dos Profs. Jorge Crespo e Paula Godinho.
    A obra abre com a apresentação geográfica da localidade e o seu povoamento. Daí parte para a inserção regional de Aivados no território do Baixo Alentejo e para as estruturas sociais que ali existiam e se formaram ao longo do século XX. “Movimentos sociais no contexto alentejano” é o título deste capítulo que se desenvolve depois, no capítulo seguinte, na epopeia da posse colectiva da terra, “naquele dia [em que] éramos todos iguais”.

    Evocação a Zeca Afonso - 24/05/2007 às 22:00 horas


    No seguimento do jantar comemorativo do 25 de Abril, realizado no Mercado da Ribeira, em Lisboa, Em Abril, de novo Esperanças mil, realiza-se uma evocação a Zeca Afonso dia 24/05, às 22:00 horas, no Bar do Espaço da Ribeira com Carlos Alberto Moniz e José Jorge Letria.

    segunda-feira, 21 de maio de 2007

    O Saudoso tempo do fascismo - 23/05/2007 - 19:00 horas no Biblioteca-Museu da República e Resistência



    O encenador e dramaturgo Hélder Costa é actualmente encenador do grupo de teatro “A Barraca”, e fundou em 1970 o Teatro Operário de Paris.

    Dirigiu cursos e participou em congressos e festivais em França, Alemanha, Suíça, Argentina, Cabo Verde, México, Chile, Colômbia, Venezuela, EUA, URSS, Bélgica, Itália, Macau, Nicarágua e Uruguai.

    Ao longo da sua carreira foi distinguido com diversos prémios nacionais e internacionais como: o Grande Prémio de Teatro da RTP; o prémio da Associação de Críticos; e o Prémio da Associação de Actores e Directores da Catalunha e 1º Festival da Ciudad de México.

    "Escrito naquele tom descontraído de quem domina a velha arte de contar histórias, O Saudoso Tempo do Fascismo é uma colectânea de relatos situados na fronteira entre o memorialístico, o pedagógico e o humorístico. Recortes do tempo que falam dos bailes e do «arame farpado», da emancipação das mulheres, das críticas à praxe coimbrã, das arrogâncias do poder e do seu escarnecimento, das experiências teatrais, da contestação à guerra colonial, das peripécias que rodearam um inevitável «salto» para Paris. Histórias contadas com uma deliciosa dose de humor e ironia. Veja-se o exemplo da tentativa de captura do autor pela PIDE – «15 gajos de metralhadoras, partiram os teus móveis, levaram tudo» – que Hélder Costa recorda do seguinte modo:

    Comecei a rir, a pensar no ódio dos Pides quando entraram no meu quarto. Eu tinha preparado um cenário para lhes fazer perder a paciência. Em cima da secretária, um livro aberto de Mao Tsé-Toung sobre tácticas de guerra, e em cima do guarda-fato tinha posto um pacote com a indicação «não mexer».
    Dentro do pacote estava um enorme caralho das Caldas, com um lacinho cor de rosa… coitados, é natural que me tivessem partido a mobília… um grupo de bons rapazes amantes da Pátria e tementes a Deus, católicos, apostólicos, Romanos, com certeza habituados a transportar o andor em Fátima, funcionários da toda impune, poderosa e terrífica Polícia de Investigação e Defesa do Estado, a serem gozados por um puto estudante de Direito!"


    Do Blogue "Passado/Presente a construção da memória no mundo contemporâneo"

    domingo, 20 de maio de 2007

    Encontros/Debates sobre a Ditadura do Estado Novo - 15, 22 e 29 de Maio de 2007

    Hugo Dias, da Universidade de Coimbra, deu-nos conta de um ciclo de Encontros/Debates sobre o Estado Novo:

    "Nos dias que correm, podemos dizer que é evidente na sociedade portuguesa, alguma falta de discussão do período da História tão próximo de nós, e que parece ao mesmo tempo tão distante – o período denominado "Estado Novo".

    Caracterizado por uma ditadura conservadora, retirou a liberdade e a democracia ao povo português e provocou um grande atraso do país, entre outras coisas.

    A recente polémica em torno da criação da casa – museu António de Oliveira Salazar é um exemplo da falta de discussão e de algumas clarificações que se faz sentir.

    Na sequência de uma conversa, um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra decidiu promover um ciclo de encontros/debate com o objectivo de promover a discussão do período da ditadura portuguesa."




    Estas conferências terão lugar no foyer do Teatro Académico Gil Vicente nos dias 15, 22 e 29 de Maio às 18h.

    Programa:

    Dia 15 de Maio 3ª feira
    18h00-Café-Teatro


    Da Primeira República ao Estado Novo, consolidação do Regime
    Com: Reis Torgal (Professor Catedrático de História da FLUC e investigador do Instituto de História e Teoria das Ideias e do CEIS 20) e Álvaro Garrido Professor Doutorado em História Económica e Social pela FEUC e investigador do CEIS 20) .

    Dia 22 de Maio 3ª feira
    18h-Café-Teatro


    Valores do Estado Novo na Arquitectura e no Cinema
    Com: José António Bandeirinha (Professor Doutorado em Arquitectura pelo Departamento de Arquitectura da FCTUC) e Paulo Cunha (Mestre em História pela FLUC e colaborador do CEIS 20) .

    Dia 29 de Maio 3ª feira
    18h00-Café-Teatro


    Juventude, Renovação Cultural, Movimento Estudantil
    Com: Rui Bebiano (Professor Doutorado em História Moderna e Contemporânea pela FLUC e investigador do Instituto de História e Teoria das Ideias e do Centro de Estudos Sociais) e Miguel Cardina (Mestre em História das Ideologias e Utopias Contemporâneas pela FLUC).

    Luuanda: prémio e castigo

    A 21 de Maio de 1965, o ministro da Educação Nacional determinou a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE). Na semana anterior, o Grande Prémio de Novelística fora atribuído a Luuanda, de Luandino Vieira. O premiado era membro do MPLA e estava preso no Tarrafal, acusado de atentar contra a «segurança do estado».
    Numa altura em que o regime de Salazar forçava o país a envolver-se acriticamente numa guerra colonial em três teatros de operações para defender a integridade da «Nação pluricontinental» portuguesa, a posição de independência assumida pelo júri e pela SPE fez temer a afirmação de uma «quarta frente». Com o beneplácito da Fundação Calouste Gulbenkian (que deixou de financiar o Prémio), o Governo pôs em marcha uma campanha de propaganda para denegrir e silenciar esses «traidores» que habitavam no «andar de baixo do mundo confuso das artes e das letras» (editorial do Diário da Manhã, de 22/05/1965).
    Luuanda foi publicado na capital angolana em Outubro de 1964, com o dinheiro do galardão Mota Veiga, e circulava em Lisboa desde o início de 1965, entre estudantes e intelectuais, em círculos próximos da Casa dos Estudantes do Império.
    Alexandre Pinheiro Torres, no suplemento “Vida Literária e Artística” do Diário de Notícias, foi o primeiro crítico a reconhecer em Portugal a qualidade literária das três histórias que formavam o livro. Em conformidade com esta posição, propôs, enquanto membro do júri do grande Prémio de Novelística, a entrada da obra no concurso.
    A 15 de Maio, o júri, também constituído por João Gaspar Simões, Manuel da Fonseca, Fernanda Botelho e Augusto Abelaira, reuniu-se para atribuir o prémio. Todos os jurados sabiam que Luandino estava preso no Tarrafal, mas não pensaram que a atribuição do prémio desse tanta polémica, levasse ao encerramento da SPE e à destruição da sua sede pela Legião e pela PIDE.
    A 22 de Maio, foram chamados a depor na António Maria Cardoso e ficaram presos, excepto Fernanda Botelho que conseguiu «escapar», por ser funcionária da Embaixada da Bélgica. Alexandre Pinheiro Torres, o último jurado a ser, preso, conseguiu ainda enviar para o Jornal do Fundão a notícia da atribuição do prémio, acompanhada de uma fotografia de Luandino Vieira. A publicação da notícia valeu àquele jornal a suspensão de 180 dias.
    Informação retirada de: Cláudia Castelo, “Prémio e Castigo”, Expresso, 20/05/1995, p. 98-105 [Revista]; imagem retirada daqui.

    sexta-feira, 18 de maio de 2007

    A Guerra Civil de Espanha no concelho de Barrancos


    "A terrífica guerra fratricida que marca a vida da Espanha entre 1936 e 1939 é, indubitavelmente, um acontecimento horrível que marca igualmente o nosso país e, em particular, os territórios que definem a fronteira entre os dois países."
    Miguel Rego

    "Quando em meados de Fevereiro de 1936 a Esquerda Republicana ganha as eleições por menos de 500 000 votos (4,5 milhões contra 4 milhões de votos dos partido de direita, não levando em conta os votos dos partidos radicais que rondaram o meio milhão), a Espanha torna-se um país bicéfalo e a abrir as portas a um conflito armado. O país tradicionalista e religioso não aceitou a derrota e a 18 de Julho, a partir das Canárias, o General Franco apela à sublevação “nacionalista” que o levará até ao norte de África onde inicia o Alzamiento (o levantamento militar) que o perpetuará no poder durante 30 anos.

    O conflito dura até 1939, transformando-se num campo de ensaios industriais e tecnológicos com fins militares, que servirá em particular para a Alemanha nazi preparar a II Guerra Mundial. O bombardeamento de Guernica, imortalizado por Picasso, é um dos mais violentos e mais paradigmáticos exemplos deste conflito sem regras em que se transformou esta guerra.

    Portugal viveu-a como se jogasse aí o seu futuro e, em particular, o futuro político do Estado Novo e do seu chefe António de Oliveira Salazar. Na realidade, o comportamento neutral que se exigia a um país como Portugal, e que tinha sido várias vezes pedido pela Sociedade das Nações, pois o novo Governo Republicano de Espanha havia sido legitimado pelo processo eleitoral legal e democrático de 16 de Fevereiro de 1936, nunca aconteceu. Portugal apoiou desde cedo a rebelião militar Nacionalista que se instala em Sevilha e, a partir daí, espalha o terror e a violência a todo o país.



    Naquela que se pensava ser uma guerra rápida, as tropas marroquinas chefiadas por Franco, procuram chegar a Madrid através de Badajoz e Mérida, ficando com a retaguarda salvaguardada e defendida pelos seus aliados portugueses. A fronteira foi então o palco privilegiado do conflito. Não só pela proximidade da guerra, cujos primeiros passos se dão junto ao território português, mas também por ser este o destino de fuga de todos aqueles que abalavam do medo e da violência do conflito armado.


    Pela sua localização geográfica, o concelho de Barrancos e, em particular, a Herdade da Coitadinha e as Russianas, uma e outra propriedade da família Fialho, encheram-se de fugitivos provenientes de Encinasola, Aroche, Higuera la Real, Fregenal de la Sierra, Valência del Mombuey, Oliva de la Frontera, Cala, Zafra, Zahinos, Almendro, Fuente de Cantos ou Segura de León, entre outras.

    Com uma facilidade inusitada, os falangistas rapidamente conquistam os territórios pobres desta região, depois da sua entrada em Badajoz a 15 de Agosto. Começam os mais terríficos atentados à vida humana relatados por alguns jornalistas que acompanharam a evolução do conflito, entre os quais o português Mário Neves, repórter do Diário de Lisboa, provavelmente o primeiro jornalista a entrar na cidade com as tropas nacionalistas.

    Paulo Barriga, no seu extraordinário trabalho “Campos de Concentração – O envolvimento português na Guerra Civil de Espanha”, editado pela Câmara Municipal de Barrancos, em 1999, dá conta de alguns relatos recolhidos na zona de Barrancos e que demonstram a violência que esteve imanente à evolução conquistadora das tropas de Franco. Francisco P., na altura com 75 anos, afirmou que as tropas falangistas às mulheres cortavam o cabelo e os seios, davam-lhes purgantes e passeavam-nas pelas ruas. Aos homens levavam-nos para os cemitérios e fuzilavam-nos”. Maria B. afirma que o purgante era feito “com pepino picado misturado com óleo de rícino. Ataram-lhes as saias à cintura, raparam-lhes a cabeça, deixando apenas uma mecha de cabelo (monha) onde prendiam uma fita encarnada. Depois passearam-nas pelas ruas a cantarem o hino da Falange”.


    Os relatos sucedem-se e cada um mais violento que o outro. Justificam-se as fugas, o terror, o medo que avassala as gentes esfomeadas das localidades fronteiriças. Os que podem fogem para Portugal. O território de Barrancos, onde a língua não é barreira e onde vivem muitos amigos e familiares destas gentes raianas, começa a ser o destino e a esperança para muitos dos fugitivos.



    A fronteira é agora um local ideal para as tropas falangistas capturarem “rojos” (como então se identificavam todos aqueles que defendiam a vitória da Esquerda nas eleições) e é ao longo da fronteira portuguesa que se repartem milhares de tropas com o intuito único de capturarem todos aqueles que andavam em fuga.


    Mas as gentes de Barrancos abriram os braços aos fugitivos, alguns familiares e amigos, no intuito de minorar a fome a todos eles e de dar tempo para que as tropas saíssem dali e cada um pudesse voltar aos seus lares. “São às centenas os relatos” que Paulo Barriga procurou obter destes momentos de solidariedade e que demonstram o espírito solidário que norteou o comportamento destas gentes raianas. “António M., 75 anos, recordava que: durante a guerra civil, éramos nós ainda pequenos, os meus pais estavam no campo. Um dia apareceu um homem fugido da guerra e os meus pais esconderam-no num monte de palha a ali permaneceu durante 40 dias. Só de noite é que nós lhe levávamos comida”.

    Entretanto, o estado português envia para a zona da fronteira reforços militares, com o receio de, na avalanche, alguns revolucionários portugueses procurarem derrubar o Estado Novo. São efectuadas batidas no sentido de precaver a existência de focos de revolta, mas as tropas portuguesas só encontram gente assustada, mulheres, crianças, velhos. O principal responsável pelo controlo desta fronteira é o Tenente Seixas, do Posto de Safara da Guarda-fiscal.


    Entre Agosto e Outubro de 1936, o responsável militar procura minorar a violência contra os foragidos e vai tentando salvaguardar a segurança daqueles que estão sob a sua alçada das mãos dos falangistas que por todos os meios tentam apanhar o maior número possível de “republicanos e rojos”. Sem grandes condições para manter os grupos separados, são criados dois “campos de concentração” (talvez o melhor termo seja o de campo de refugiados), onde se concentram mais de mil espanhóis. Os locais são a Herdade da Coitadinha, a cerca de 60 metros do monte, a montante do Poço da Ferradura, e na Almofadinha, junto à Choça do Sardinheiro. Os números exactos são de 1025 pessoas, aquelas que serão transferidas a partir de 8 de Outubro em camionetas para Moura e Beja e, finalmente, a partir de Lisboa, onde no navio Niassa chegarão ao Porto republicano de Tarragona, fugindo desta forma à fúria nacionalista que à época controlava toda a zona.

    Os relatos da altura falam do apoio dado em Beja pelas populações que forneceram água e víveres. E dos dois partos efectuados em Moura.


    A Herdade da Coitadinha vê-se desta forma associada à Guerra Civil de Espanha pela existência de um Campo de Concentração (talvez mais correcto seja a utilização do termo Campo de Refugiados), pela forma como todos aqueles que ali se encontravam, que funcionou durante quase três meses. A solidariedade manifestava-se pela alimentação que era fornecida, tanto pelos barranquenhos e, em particular, pelos proprietários, como pelo Estado português, pelas roupas que eram doadas, em particular às crianças, para além da segurança que estava imanente à sua presença ali.

    O campo era uma estrutura muito rudimentar em que uma das poucas construções efectuadas foi uma espécie de casa de banho dividida em duas partes, feita em chapas de zinco e troncos de azinheira, separando desta forma a área de utilização de mulheres e homens.


    Acoitados entre estevas e azinheiras, os refugiados viviam protegidos pela Brigada Fiscal de Safara, que para ali tinha sido destacada para proteger a zona da fronteira, bastante povoada do lado espanhol, e muito acicatada pelos militares falangistas que, quase sempre não faziam prisioneiros, mas mortos.

    Apesar de pouco divulgada esta estrutura marca bastante a memória da população de Barrancos, uma estrutura que tem ainda hoje como única referência física o Poço da Ferradura, e de onde se abasteciam os cerca de setecentos refugiados fugidos à violência das tropas que ocuparam as povoações espanholas da região de Barrancos.


    Na memória, serve sobretudo a coragem do Tenente Seixas que, desobedecendo aos seus superiores hierárquicos, assumiu a segurança de todos os espanhóis em fuga que entendiam ficar sobre o seu controlo e viu-se por isso castigado sendo compulsivamente reformado."


    Texto do Blogue Parque da Natureza de Noudar

  • Parque da Natureza de Noudar
  • A carta de adeus de Guy Môquet


    A primeira medida do recém-eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy, confessadamente de direita, foi no sentido de preservar a memória da resistência ao nazi-fascismo. Determinou que no início de cada ano lectivo se lesse a carta de despedida de um jovem de 17 anos, que o exército hitleriano fuzilou em Outubro de 1941. Vale como registo para a nossa Assembleia da República, que no final do mês se espera venha a votar a petição do Movimento.
    O compromisso político de Guy surgiu em 1939, quando o seu pai, deputado comunista, foi deportado para a Argélia. Tinha 16 anos e decidiu inscrever-se nas Juventudes Comunistas.
    Um ano mais tarde, com a França já invadida pelas tropas do III Reich, foi preso quando andava a distribuir em Paris comunicados clandestinos. Apesar de ter sido absolvido, foi considerado politicamente suspeito e, como tal, transferido para o campo de concentração de Châteaubriant (Loire-Atlantique).
    Guy Môquet foi fuzilado no dia 26 de Outubro de 1941, com mais 26 outros prisioneiros do campo, em atitude de represália pela morte de um oficial alemão. Antes de morrer, escreveu uma carta aos pais, onde expressa o sentimento de que a sua morte não venha a ser em vão.
    Após a libertação de Paris, em Agosto de 1944, a sua memória foi exaltada e o seu nome inscrito numa estação do metro parisiense.

    Para que não se esqueça, aqui fica a carta de adeus de Guy Môquet, transcrita de Le Monde do passado dia 17 de Maio.

    Mãezinha querida
    meu adorado irmãozinho
    meu amado paizinho
    Vou morrer! O que vos peço, em especial ti, mãezinha, é que sejas corajosa. Eu sou-o e quero sê-lo do mesmo modo que o foram outros antes de mim. Claro que preferia viver. Mas o que do mais fundo do coração desejo, é que a minha morte tenha um sentido. Não tive tempo de abraçar o Jean. Mas abracei os meus dois irmãos [de luta] Roger e Rino. Quanto ao verdadeiro, não o pude, hélas! Confio que todos os meus pertences vos sejam enviados, eles certamente ainda podem servir para o Serge, que estou certo se sentirá orgulhoso de os poder um dia usar. A ti, paizito, se te dei, assim que à mãezinha, não poucas preocupações, aqui fica esta minha derradeira saudação. Fica sabendo que fiz o melhor que pude para seguir a via que me traçaste.
    Um último adeus a todos os meus amigos, ao meu irmão de que gosto muito. Que ele estude com afinco para mais tarde ser um homem.
    17 anos e meio, a minha via foi curta, mas não alimento qualquer arrependimento, a não ser o ter de vos deixar. Vou morrer com Tintin, Michels. Mãe, o que te peço, o que quero que me prometas, é que serás corajosa e saberás ultrapassar o desgosto.
    Não posso escrever mais. Deixo-vos a todos, a todas, a ti mãezinha, a ti, Sérgio, a ti, pai, aqui vos fica o grande abraço com todo o carinho infantil que me banha o coração. Coragem!
    Do vosso Guy que tanto vos ama
    Guy

    Último pensamento: vós que ficais, sede dignos de nós, os 27 que vamos morrer!

    quinta-feira, 17 de maio de 2007

    ESPAÇOS DA MEMÓRIA - 16/05/2007


    Sala cheia!
    O Debate Espaços da Memória na Ordem dos Arquitectos foi um êxito e um momento muito importante para o Movimento.

    A dinamização dos espaços arquitectónicos da Memória anti-fascista é um projecto do Movimento e também da Ordem dos Arquitectos.

    O Não Apaguem a Memória!, representado na mesa do Colóquio por Fernando Vicente, expôs o fundamental dos nossos objectivos no que se refere a estes espaços, em particular, à sede da ex-PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.

    Foi lembrado que existe um compromisso da Câmara Municipal de Lisboa e do Promotor do empreendimento imobiliário para ali criar um espaço condigno que lembre aqueles que por lá passaram e sofreram as torturas da polícia política do Estado Novo, alguns, inclusivamente, com a própria vida.



    Helena Roseta e João Afonso, em nome da Ordem, saudaram e associaram-se aos objectivos do Movimento nesta luta pela Memória.

    José Bandeirinha falou da Penitenciária de Coimbra e do perigo em que se encontra a sua extinção.

    Nuno Teotónio Pereira, apresentou as ideias relativas a um Museu da Resistência, de que o Aljube é a principal referência, a um Memorial dos Resistentes anti-fascistas e, também, a ideia, bem acolhida, de uma subscrição pública que possa contribuir, de forma determinante, para que estes espaços não se percam da memórica colectiva.

    Seguiu-se um debate com a assistência que contribuiu, de forma decisiva, para que as ideias já existentes possam evoluir com propostas concretas para os objectivos a que nos propusemos aquando da elaboração da Carta de Princípios do Não Apaguem a Memória!.

    terça-feira, 15 de maio de 2007

    Edmundo Pedro na RTP África fala sobre o Tarrafal


    Hoje, 15 de Maio, pelas 21:00 horas, Edmundo Pedro fala na RTP África sobre o Campo de Concentração do Tarrafal e da importância que há em não permitir que o exemplo de heroísmo pessoal e colectivo da resistência anti-fascista se esvaia na nossa memória democrática.
    Edmundo Pedro é um sobrevivente deste Campo de Concentração de triste memória, onde esteve encarcerado durante 10 anos.

    segunda-feira, 14 de maio de 2007

    A Esperança - André Malraux


    Em Junho de 1936, o líder da oposição de direita é assassinado na Espanha, deflagrando uma revolta militar liderada pelo nacionalista Francisco Franco. A guerra civil que se seguiu durou três anos, opondo nacionalistas, religiosos e monarquistas, que controlavam o exército e eram apoiados pelos governos da Alemanha e da Itália, e as forças republicanas, que contavam com a polícia e os carabineiros, além de milícias operárias. Os legalistas eram apoiados pela União Soviética, Grã-Bretanha, México e França, e principalmente pelas Brigadas Internacionais, formadas por 35 mil voluntários de 50 países.
    Um desses voluntários era André Malraux, que, um mês após o início do conflito, organizou a esquadrilha España que, com menos de vinte aviões, participou de combates no vale do Tajo, em Toledo, Aragão e Málaga. Malraux, que não pilotava, participava das missões como observador e algumas vezes como artilheiro. Depois, passou a actuar como embaixador dos republicanos, inclusive com um périplo pelos Estados Unidos, discursando e recolhendo doações para hospitais espanhóis. Em Abril do ano seguinte, retornou à Europa para escrever A esperança, concluído em poucos meses e lançado em dezembro de 1937. O livro ainda daria origem a um filme, de mesmo título, lançado em 1939.
    Desde seu lançamento, A Esperança dividiu a crítica, indecisa entre tratar o livro como um romance ou como uma reportagem. Para Jean Lacouture, essa é uma questão menor, pois se a obra é um testemunho do engajamento de Malraux, a esperança do título vai além do episódio espanhol (ainda que crucial), para falar de todas as lutas travadas no século XX para mudar a condição humana. "Como se ele não devesse ser admirado por ser uma ‘reportagem’. Ademais, o que é um romance?".

    Nascido em Paris em 1901, escritor, ensaísta, crítico de arte, político, André Malraux participou activamente das grandes batalhas do século XX, desde o nacionalismo chinês até o combate ao nazismo, passando pela Guerra Civil espanhola. Militante de esquerda, ligado ao Partido Comunista Francês, permaneceu livre, porém, para se opor ao banimento de Trotski e se rebelar contra o regime ditatorial de Estalin na União Soviética. Entre 1958 e 1969, Malraux participou do governo do general Charles de Gaulle como ministro da Cultura. Morto em 1976, André Malraux é autor de numerosos romances e ensaios, entre eles, La Voie royale, Voix du silence, Les Conquérants e A condição humana, pelo qual ganhou o prêmio Goncourt.

    André Malraux visitou pela primeira vez Espanha apenas 2 meses antes do início da guerra civil, a convite do escritor José Bergamín. A sua participação no conflito começou logo em Agosto de 1936, data da constituição da esquadrilha aérea España. Esta força, com cerca de 20 aviões pilotados por um grupo de voluntários estrangeiros, teve um papel importante durante os primeiros meses de guerra, participando activamente nas frentes de Aragão, Toledo, Málaga e na batalha de Teruel, onde se confrontaram directamente com a Legião Condor alemã e conseguiram evitar a tomada da cidade pelas forças nacionalistas. Não sendo piloto, Malraux voou como observador em missões de reconhecimento e operou a metralhadora em missões de ataque, sendo ferido sem gravidade por 2 vezes.
    Com o fim da esquadrilha, em Fevereiro de 1937, terminou a participação activa de Malraux no conflito. Não deixou, contudo, de continuar a apoiar a causa republicana, participando em diversas actividades de recolha de fundos em França e nos Estados Unidos da América.
    Em Dezembro é publicado L’Espoir (A Esperança), romance baseado na sua experiência pessoal da guerra. Escrito antes do desenlace final do conflito, o livro termina cronologicamente com a vitória republicana na batalha de Guadalajara, num tom optimista que não se viria a confirmar. Entre 1938 e 1939, Malraux participa ainda na adaptação de alguns capítulos d’A Esperança para cinema. O filme é exibido pela primeira vez em 1939, sob o título Sierra de Teruel, mas só conhecerá circulação comercial depois da 2ª Guerra Mundial, desta vez com o mesmo título do romance em que se baseou.

    “Não se trata de ir combater em Madrid, em Barcelona ou no Pólo Norte. Nem de aceitar a vitória de Franco, com vinte anos de cagaço pela frente; todos à mercê da denúncia de uma puta, da vizinha ou do cura. Lembrem-se das Astúrias. A nossa aviação estará pronta dentro de alguns dias. Todo o país está conosco; e o país somos nós” (André Malraux, A Esperança)

    9 Citações:

    "A cultura, sob todas as formas de arte, de amor e de pensamento, através dos séculos, capacitou o homem a ser menos escravizado."

    "O comunismo destrói a democracia; mas a democracia também pode destruir o comunismo."

    "São precisos 60 anos e não 9 meses para fazer um homem."

    "O homem é aquilo que ele próprio faz."

    "A arte é um antidestino."

    "A Gioconda sorri porque todos os que lhe puseram bigodes estão mortos."

    "Os grandes artistas não são os copistas do mundo, são os seus rivais."

    "Se compreendêssemos, nunca mais poderíamos julgar."

    "Vi as democracias intervirem contra quase tudo, salvo contra os fascismos."


    ESPOIR/ Espoir-Sierra de Teruel
    de André Malraux
    com José Sempere, André Mejuto, Nicholas Rodriguez
    França, 1945 - 78 min

    Espoir, também conhecido como Sierra de Teruel, é um dos mais famosos filmes que tiveram por cenário a guerra civil de Espanha. Talvez o mais mítico e, seguramente, o mais comprometido, porque feito por alguém que a viveu, e filmado nos próprios locais durante o conflito. Inspirando-se no romance que escrevera e na sua experiência de combatente, André Malraux filmou o drama dos aviadores republicanos sobreviventes da queda do avião e o seu salvamento por civis, na serra de Teruel.