sexta-feira, 15 de junho de 2007

Na sombra da História

«Na sombra da História» é o nome dum novo programa do Rádio Clube Português, que "recorda os grandes personagens esquecidos pelo pó dos tempos...". Estreou a 26 de Maio passado com uma homenagem ao jornalista e poeta Fernando Assis Pacheco. Seguiram-se-lhe as evocações de Maria de Lourdes Pintasilgo e de Luís de Sttau Monteiro, autor da célebre peça anti-salazarista «Felizmente há Luar». O programa passa aos sábados (13-14h) e é da autoria de Nuno Domingues e Rogério Rodrigues. A uma mesa juntam pessoas que conviveram de perto com os homenageados e a conversa desenrola-se à volta de certas etapas biográficas.

“A defesa dos direitos humanos e a Resistência ao fascismo” - Colóquio na Ordem dos Advogados, dia 20/6/2007, pelas 21:00 horas

No seguimento das accções realizadas pelo Movimento relativas à Memória daqueles que, durante a ditadura fascista em Portugal, foram "julgados" à revelia dos mais elementares direitos, nomeadamente a lápide descerrada a 6 de Dezembro de 2006 no Tribunal da Boa-Hora, realiza-se no próximo dia 20 de Junho, pelas 21H00, no Salão Nobre da Sede da Ordem dos Advogados (Largo de S. Domingos, nº 14-2º, junto ao Palácio da Independência, em Lisboa) um colóquio da iniciativa conjunta da Ordem dos Advogados e do Movimento Cívico Não apaguem a memória!, subordinado ao tema “A defesa dos direitos humanos e a Resistência ao fascismo”.

Intervirão como oradores, para além de Rogério Alves, Bastonário da Ordem dos Advogados, José Augusto Rocha, como ex-Advogado de presos políticos, Carlos Brito, como ex-preso político, Catarina Prista em representação do Movimento e Luís Farinha como historiador.

Gravura de José Dias Coelho

A propósito deste debate e do que ele vai recordar, lembramos aqui excertos de um artigo de António Valdemar sobre os Tribunais Plenários:

"Os tribunais plenários, juntamente com a PIDE, as forças Armadas, a censura, a banca, a esmagadora maioria do episcopado português e outros elementos da hierarquia da Igreja Católica foram os principais sustentáculos da ditadura que se prolongou de 28 de Maio de 1926 a 24 de Abril de 1974.

Data de 1945 a criação dos tribunais plenários de Lisboa e do Porto. Destinavam-se a julgar acusações e delações contra a segurança do Estado e, ainda, processos de liberdade de imprensa, não apenas circunscritos a matéria editada em jornais e revistas mas também em livros e outras publicações.

Logo que foi implantada a ditadura militar de 28 de Maio de 1926, restringiram-se as liberdades constitucionais, estabeleceu-se a censura, preparou-se uma polícia política. Sob a alçada do foro militar ficaram os processos políticos. Quando Salazar ascendeu, a 5 de Julho de 1932, a chefe do Governo, também são criados em Lisboa e Porto, em Dezembro de 1932, os tribunais militares especiais para os crimes políticos.

Surgia, em 1933, a PVDE, nome mais tarde tristemente célebre pela designação PIDE. Também lhe competia a elaboração do processo que decorria sem qualquer assistência jurídica. Os autos de declarações, obtidos, muitas vezes, através de espancamentos, violações, chantagens e outras torturas físicas e psicológicas, faziam fé em julgamento.

O pós-guerra levou Salazar a procurar um novo rosto político para o Estado. Fez uma operação de cosmética jurídica. Em 20 de Outubro de 1945 acabaram os tribunais militares especiais. Deram lugar aos tribunais plenários de Lisboa e do Porto. Dois dias depois da institucionalização, outro decreto-lei atribuía à PIDE a exclusiva competência para a instrução dos processos. Continuava a recorrer aos mesmos métodos e a aperfeiçoá-los para extorquir e forjar confissões. O cérebro da PIDE era então o subdirector, José Catela, mas o director, o capitão Agostinho Lourenço, posara numa foto ao lado de Kramer, um dos instaladores dos campos de concentração nazis. Na mesma altura em que Salazar tinha no gabinete de trabalho a fotografia de Mussolini.

Para completar a aliança da justiça com a polícia política, haviam sido, igualmente, decretadas medidas de segurança, que a PIDE (por sua iniciativa ou através do Ministério do Interior) propunha, os tribunais plenários deferiam, a PIDE, a seguir, executava e prorrogava arbitrariamente. Milhares de presos políticos em Caxias, no Aljube, em Peniche, no Porto, no Tarafal, no Forte de S. João Baptista (Angra do Heroísmo, nos Açores), no campo de S. Nicolau (Angola), na Machava (Moçambique), depois de cumpridas as penas, voltavam a ficar presos por tempo indeterminado.

Mais de 90 por cento das testemunhas nos processos são pides. Para a defesa dos arguidos, os advogados também indicavam como testemunhas de defesa os inspectores, chefes de brigada e agentes da PIDE que haviam feito a investigação. Todavia, nunca compareciam no julgamento, sob a alegação de estarem ausentes em serviço urgente.

As audiências eram, praticamente, vedadas ao público. Antes de começar o julgamento, nos lugares da sala do plenário sentavam-se elementos da PIDE. A pretexto da lotação estar esgotada, a PSP, à porta, impedia o acesso a familiares, amigos e jornalistas..."

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Ciência, tecnologia e fascismo


O Workshop «Science, Technology and Fascism» decorre esta 5.ª e 6.ª feiras no ICS-UL (aud.º Sedas Nunes). O evento, organizado por Tiago Saraiva e outros especialistas de História da Ciência, abordará as temáticas da ciência e da tecnologia no contexto dos regimes autoritários de direita do século XX. O respectivo resumo e programa podem ser consultados aqui.

domingo, 10 de junho de 2007

À memória dos judeus da Europa assassinados: monumento e centro de informação

Em Berlim, próximo da Porta de Brandeburgo, foi construído entre 2003 e 2005 um monumento radical à memória dos judeus da Europa assassinados, baseado nos planos do arquitecto Peter Eisenman. O monumento, que abdica de qualquer simbolismo, é composto por 2.711 estelas de betão e está estruturado em grelha. O visitante pode percorrê-lo a pé, segundo o seu critério aleatório e pessoal, a qualquer hora do dia ou da noite. Por baixo do monumento, que ocupa toda uma praça, encontra-se um centro de informação subterrâneo, concebido por Dagmar von Wilcken.
A visita ao centro de informação tem início num corredor onde se apresenta uma cronologia da política de perseguição nacional-socialista entre 1939 e 1945, não só aos judeus mas também a outros grupos de vítimas. Sucedem-se 4 salas: a sala das dimensões, que acolhe 15 testemunhos auto-biográficos escritos por mulheres e homens judeus durante a perseguição (o registo individual é complementado por uma linha contínua que menciona o número de vítimas nos países europeus mais afectados); a sala das famílias, que apresenta diversos ambientes sociais, nacionais, culturais e religiosos, com base no destino de 15 famílias judias que viveram na Europa antes do Holocausto; a sala dos nomes, onde se ouve em registo audio os nomes e breves biografias de judeus assassinados e desaparecidos, originários de toda a Europa (simultaneamente são projectados o nome, o ano de nascimento e o ano da morte das vítimas nas quatro paredes da sala); e a sala dos lugares, que remete para a extensão geográfica do assassinato dos judeus (através de filmes e fotografias são mostrados, a título de exemplo, 200 lugares de perseguição e extermínio dos judeus e de outros grupos de vítimas). A visita ao centro de informação termina no portal dos locais de memória. Aí podemos obter informação sobre ocorrências actuais em locais históricos e sobre instituições de pesquisa em toda a Europa.
As visitas são gratuitas.
Horário: 3ª feira a domingo das 10 às 20 h. Encerrado nos dias 1 de Janeiro, 24 a 26 de Dezembro e 31 de Dezembro.
Mais informação em português aqui.
O movimento cívico Não apaguem a Memória! tem neste centro de informação um óptimo exemplo de como construir, de forma inteligente e complexa, representações da memória, em contexto museológico.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

MEMÓRIA SUBVERSIVA - Anarquismo e Sindicalismo em Portugal 1910-1975


Dia 9 de Junho no Salão Brazil em Coimbra, passa o documentário de José Tavares e Stephanie Zoche MEMÓRIA SUBVERSIVA - Anarquismo e Sindicalismo em Portugal 1910-1975

José Tavares, um dos autores, apresenta-nos assim o filme:

Nas primeiras décadas do século XX a ideia anarquista e particularmente o sindicalismo anarquista foram uma força pujante em Portugal.
A CGT (Confederação Geral do Trabalho – anarco-sindicalista) era a única Central Sindical que existia no País. A sua publicação, A Batalha, chegou a ser o terceiro diário de maior circulação no País.
Memória Subversiva é o único documentário sobre este movimento, reunindo os testemunhos de vinte e um activistas anarquisas e sindicalistas. Falam sobre greves insurrecionais e agitação social nos anos vinte, do confronto com o fascismo, da Guerra Civil espanhola, da repressão e clandestinidade, do Campo de Concentração do Tarrafal, do 25 de Abril de 1974…
O vídeo revela o forte humanismo e autodidatismo, características essenciais das actividades anarquistas e sindicalistas. Temas como o anti-militarismo, sexualidade, ecologia e pedagogia moderna estão também presentes como parte integrante de um mesmo combate.
Numerosos documentos e filmes de arquivo ilustram o anarquismo e sindicalismo em Portugal e o seu contexto histórico, desde a primeiraRepública portuguesa até 1975.

Pela sua originalidade é de ver!

O Estado Novo e a Memória do Neo-Realismo segundo Eduardo Lourenço

Emília Cerqueira chamou-nos a atenção sobre uma entrevista de Eduardo Lourenço na Pública (suplemento do Jornal Público) de 13 de Maio.

Lembramos a biografia desse grande pensador português:



"Eduardo Lourenço (São Pedro de Rio Seco, 23 de Maio de 1923) é um ensaísta, professor universitário, filósofo e intelectual português.
Oriundo de uma pequena aldeia e de uma família conservadora, estudou no Colégio Militar em Lisboa. Encontra em Coimbra um ambiente mais aberto e propício a uma reflexão cultural que sempre haveria de prosseguir. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas (1946), permaneceu na Universidade de Coimbra como assistente de Filosofia, entre 1947 e 1953. É nesse período que publica o primeiro livro Heterodoxia (1949). Foi professor de Cultura Portuguesa entre 1954 e 1955 na Alemanha (em Hamburgo e Heidelberg), exercendo depois a mesma actividade na Universidade de Montpellier (1956-58). Após um ano passado na Bahia ensinando Filosofia, viveu, a partir de 1960, em França, leccionando nas Universidades de Grenoble (até 1965) e de Nice (1965-1987).
Influenciado pela leitura de Husserl, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Sartre ou pelo conhecimento das obras de Dostoievski, Franz Kafka ou Albert Camus, foi associado de um certo modo ao existencialismo, sobretudo por volta dos anos cinquenta, altura em que colaborou na Árvore e se tornou amigo de Vergílio Ferreira. Nunca se deixou enfeudar, todavia, a qualquer escola de pensamento, já que, embora favorável a ideias de esquerda, nunca abandonou uma atitude crítica perante essa esquerda.
Com uma clara autoridade moral, foi-lhe atribuída a Ordem de Santiago da Espada em 1981, o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon (concedido em 1988 por ocasião da sua obra Nós e a Europa ou as Duas Razões) no ano em que foi colocado em Roma como adido cultural português.
Crítico e ensaísta literário, virado predominantemente para a poesia, assinou ensaios polémicos como Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português? n' O Comércio do Porto (1960) ou um particular estudo sobre o neo-realismo intitulado Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista (1968). Aproximou-se da modernidade, da obra de Fernando Pessoa, a propósito da qual deu à estampa o volume Pessoa Revisitado (1973), ou Fernando Rei da Nossa Baviera (1986). Indiferente à sucessão de correntes teóricas, e fugindo tanto ao historicismo como a pretensas análises objectivas, a perspectiva de Lourenço influenciou já outros autores, como por exemplo Eduardo Prado Coelho e encontra-se enunciada num livro central, Tempo e Poesia (1974).
Em 1996 recebe o Prémio Camões e em 2001 o Prémio Vergílio Ferreira da Universidade de Évora.
Intérprete maior das questões da cultura portuguesa e universal, Eduardo Lourenço é tido como um dos mais prestigiados intelectuais europeus." (da Wikipédia) .

Pelo interesse que tem, aqui fica o link para essa entrevista fundamental:

  • Retrato de um pensador errante
    Luís Miguel Queirós (texto) e Nelson Garrido (fotos)
  • quarta-feira, 6 de junho de 2007

    Oradour-sur-Glane


  • Oradour


  • A caminho de Samis, na região do Limousin, passamos por Oradour-Sur-Glane, proclamada aldeia martírio após a Segunda guerra mundial.

    A 10 de Junho de 1944, em represália contra os Resistentes franceses e as populações cúmplices, os Waffen SS alemães designaram uma aldeia como bode expiatório: o objectivo era intimidar todos aqueles que se opunham à força de ocupação. Calhou em Oradour-sur-Glane, aldeia pacata, a poucos quil­ómetros de Limoges. Liquidaram, em poucas horas, toda a aldeia em condições bárbaras: as mulheres e as crianças fechadas na igreja foram asfixiadas, metralhadas e finalmente queimadas dentro do edifício religioso. Os homens, divididos em vários grupos, foram abatidos com rajadas de metralhadoras em três recintos fechados da aldeia. Finalmente, toda a aldeia foi destruída pelas chamas dos diversos incêndios ateados pelos alemães que deitaram os corpos calcinados numa fossa para impedir a identificação dos cadáveres.

    O general De Gaulle decidiu conservar a aldeia conforme estava para que a memória daquela hedionda tarde nunca mais fosse esquecida. Hoje, podemos circular pelas ruas desertas, pelas casas vazias onde algumas máquinas de costura ou carros roidos pelas chamas, pela corrosão do tempo vão apodrecendo. As casas despovoadas, sem portas, sem janelas, sem telhado, escancaradas, à chuva, ao vento testemunham da intrusão brutal e criminosa de ideologias perversas e de forças militares abusivas nos lares dos humildes. Famílias inteiras foram eliminadas, uma aldeia inteira foi riscada do mapa.

    A visita da igreja onde centenas de mulheres e de crianças foram executadas é particularmente comovente assim como o memorial em que os nomes dos aldeãos estão gravados. Obviamente, uma visita a Oradour-sur-Glane não se pode comparar com uma visita a um museu ou a um passeio pedestre com âmbito turístico. Esta visita assume contornos de catarse, de reflexão, de perpetuação da memória. Que um homem isolado seja capaz de cometer um acto hediondo pode-se entender mas que grupos de homens, populações inteiras, participem em crimes em tão grande escala, em número como em horror, não tem cabimento. Estes massacres questionam-nos sobre o Homem, sobre a Humanidade e, por conseguinte, sobre nós mesmos. O número de pessoas envolvidas nestas chacinas indagam-nos forçosamente sobre a nossa natureza.

    Texto do Blogue Fala Barato

  • Fala Barato
  • 6 deJunho de 1944 - Dia D


    O dia 6 de Junho de 1944 entrou para a história como o Dia "D". Neste dia, os aliados ocidentais iniciaram a ofensiva contra as tropas alemãs no Canal da Mancha. Foi a maior operação de desembarque da história militar.

    Durante anos, a decisão de uma grande ofensiva sobre o Canal da Mancha foi motivo de fortes controvérsias entre os aliados ocidentais. Inicialmente, não houve consenso quanto à proposta da União Soviética de abrir uma segunda frente de batalha na Europa Ocidental, a fim de conter as perdas russas nos violentos combates contra as Forças Armadas alemãs. Somente no final de 1943, decidiu-se em Teerão planear para a Primavera seguinte a chamada Operação Overlord - a maior operação aeronaval da história militar.

    Nos meses seguintes, mais de três milhões de soldados norte-americanos, britânicos e canadianos concentraram-se no sul da Inglaterra para atacar os alemães na costa norte da França. Além disso, dez mil aviões, sete mil navios e centenas de tanques anfíbios e outros veículos especiais de guerra foram preparados para a operação.

    Operação anunciada pelo rádio

    A 6 de Junho de 1944, foi anunciada pelo rádio a chegada do "Dia D" - o Dia da Decisão. A operação ainda tinha sido adiada por 24 horas, devido ao mau tempo no Canal da Mancha e, por pouco, não fora suspensa. Antes do amanhecer, pára-quedistas e caças aéreos já tinham bombardeado trincheiras alemãs e destruído vias de comunicação. Uma frota de aproximadamente 6500 navios militares atracou num trecho de cerca de 100 quilômetros nas praias da Normandia, no nordeste da França.

    No final do primeiro dia da invasão, mais de 150 mil soldados e centenas de tanques tinham alcançado o continente europeu. Graças à supremacia aérea dos aliados, foi possível romper a temível "barreira naval" de Hitler e estabelecer as primeiras cabeceiras de pontes. As perdas humanas - 12 mil mortos e feridos - foram menores do que as esperadas, visto que o comando militar alemão foi surpreendido pelo ataque.



    Alemães esperavam adiamento da operação

    Os nazis previam uma invasão, mas não sabiam onde ela ocorreria. Também não chegaram a um consenso sobre a melhor maneira de enfrentá-la. Por causa do mau tempo, esperavam que a operação fosse adiada para o verão europeu. Em função de manobras simuladas pelos aliados, Hitler concentrara o 15º exército na parte mais estreita do Canal da Mancha, onde previa ser atacado. As demais tropas alemãs permaneceram no interior do país, em vez de serem estacionadas na costa, como havia pedido inutilmente o marechal-de-campo Erwin Rommel. Graças a esses erros estratégicos, os aliados escaparam de uma violenta contra-ofensiva alemã.

    Apesar disso, o avanço das tropas aliadas enfrentou forte resistência. A cidade de Caen, que os ingleses pretendiam libertar já no dia do desembarque, só foi entregue pelos alemães no dia 9 de Junho, quase toda destruída. As defesas nazis, no interior da França, só foram rompidas a 1 de Agosto, uma semana depois do previsto.

    O "Dia D", comandado pelo general Dwight D. Eisenhower, foi o ataque estratégico que daria o golpe mortal nas forças nazis. "A hora da libertação chegou", profetizou o próprio Eisenhower, a 2 de Junho.

    Paris foi libertada a 25 de Agosto, Bruxelas, a 2 de Setembro. A fronteira alemã anterior ao início da guerra foi cruzada pelos aliados em Aachen a 12 de Setembro, ao mesmo tempo em que eram realizados bombardementos aéreos contra cidades industriais alemãs. No início de 1945, os soviéticos (pelo leste) e os norte-americanos (pelo oeste) fizeram uma verdadeira corrida para ver quem chegava primeiro a Berlim, para comemorar a vitória definitiva sobre a Alemanha nazi.

    Fotografias de Robert Capa

    terça-feira, 5 de junho de 2007

    Centenário de António Aniceto Monteiro


    O centenário do nascimento do matemático e exilado político António Aniceto Monteiro foi evocado pela Universidade de Lisboa com um Colóquio (4-5/6) e a Exposição António Aniceto Monteiro / Portugaliae Mathematica. Esta mostra, organizada pela Sociedade Portuguesa de Matemática, abriu a 31/V e decorre até 31/VII, no Museu de Ciência da FCUL.
    Mais informações no blogue dedicado a António Aniceto Monteiro.
    Na imagem: capa da recente fotobiografia dedicada ao matemático.

    quinta-feira, 31 de maio de 2007

    Lágrimas fascistas: construindo a vitimização na Espanha franquista

    O historiador espanhol Antonio Cazorla-Sanchez (Trent University, Ontário, Canadá) profere esta 6.ª feira uma conferência sobre a construção da vitimização dos vencedores sob o franquismo, no âmbito do Seminário de Investigação CEHCP/ICS.
    Intitulada «Fascist tears: constructing victimhood in Franco's Spain», a palestra decorrerá às 13h30, na sala de aulas 2 do ICS-UL (Av. Prof. Aníbal de Bettencourt, 9; estação de metro Entrecampos). A organização cabe a António Costa Pinto (ICS-UL) e Luís Nuno Rodrigues (CEHCP-ISCTE).
    Pode-se ter uma ideia do fio condutor da comunicação pela leitura de 2 textos saídos no El País: «Qué hacer con nuestra guerra» (4/IV/2005) e «El secuestro del dolor» (27/XI/2005).
    Cazorla-Sanchez é autor, entre outros livros, de Las políticas de la victoria: la consolidación del nuevo estado franquista (1938-1953), Madrid, Marcial Pons, 2000.

    quarta-feira, 30 de maio de 2007

    Comunismo e Guerra Civil de Espanha

    O Centro de Estudos de História Contemporânea do ISCTE, por iniciativa de João Arsénio Nunes e do companheiro do NAM José Neves, realiza esta 5.ª feira uma conferência alusiva à Guerra Civil de Espanha e ao papel dos comunistas numa das maiores tragédias do século XX, da qual emergeria a ditadura franquista. Aproveita-se para respigar o texto relativo à palestra do historiador Daniel Kowalsky:
    "No âmbito do seminário permanente que tem vindo a decorrer desde o mês passado dedicado ao tema Comunismos: História, Poética, Política e Teoria, tem lugar na próxima quinta-feira, no auditório B203 do ISCTE (edifício novo), às 17,30h., a sessão dedicada ao tema «Comunismo na guerra civil de Espanha».
    O conferencista é desta vez DANIEL KOWALSKY, Professor da Queen’s University de Belfast e actualmente um dos mais reputados especialistas mundiais sobre este tema. A sua tese de doutoramento realizada na Universidade de Wisconsin, Stalin and the Spanish Civil War, mereceu o American Historical Association's Gutenberg-e Prize em 2001. Actualmente desenvolve também pesquisa sobre cinema espanhol na época da transição para a democracia e é ainda o editor da série respeitante à União Soviética da publicação oficial dos Documentos Britânicos de Política Externa. Tem orientado seminários de investigação na Sorbonne e na London School of Economics, bem como em Espanha e nos EUA.
    Em conclusão da sua tese, defende que «em todas as facetas do envolvimento soviético nas questões espanholas durante a guerra civil, a posição de Estaline nunca foi de força, mas antes de fraqueza». A iniciativa conta com o apoio do British Council e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia."
    Nb: imagem retirada daqui.

    Golpe de Estado - 28 de Maio de 1926 - Arranque para uma ditadura



    O movimento do 28 de Maio

    O golpe de estado de 28 de Maio de 1926 iniciou-se como mais um levantamento, dos muitos que já tinham surgido no seio da Primeira República Portuguesa, coincidindo com um momento crítico para o governo presidido por António Maria da Silva. Embaraçado pela crónica má gestão do monopólio dos tabacos, um problema que já afligia os governos portugueses desde a fase final da monarquia constitucional, o governo decidira a 25 de Maio deixar de representar-se na Câmara dos Deputados, cortando os últimos laços com a legitimidade parlamentar. Como afirma um observador da política da época: o governo, inegavelmente, saía mal ferido da contenda, porque diminuído no seu prestígio. Mas o parlamento dir-se-ia quisera suicidar-se.
    No ambiente de frenética intriga política que se vivia, os boatos de golpe desde há muito que corriam, sendo seguro que existiam múltiplos convites ao general Gomes da Costa para este dirigir um golpe, como sempre regenerador, que salvasse a Pátria.
    Como entretanto em Braga se preparava para o dia 28 de Maio um Congresso Mariano, que congregaria naquela cidade as principais figuras do conservadorismo católico, entre as quais Cunha Leal, quando se soube que Gomes da Costa tinha para ali partido, ficou claro que o golpe estava eminente e que o seu epicentro seria naquela cidade.
    Preparando o terreno, Cunha Leal logo no dia 27 organiza em Braga um almoço com apoiantes e discursa no Bom Jesus, criticando severamente o Partido Democrático que acusa de outrora ser obediente à ameaça do chicote de nove rabos do Dr. Afonso Costa, mas que então já nem sequer tinha um chefe e é um instituto tresmalhado. Quanto ao que restava do campo nacionalista, afirma que nem toda a mole ambição do sr. Ginestal Machado, nem todas as intrigas do sr. Pedro Pita, nem todo o maquiavelismo do sr. Tamagnini Barbosa são susceptíveis de inspirar confiança à nação, sendo um mero organismo parasitário. É neste dia, depois deste discursos inflamado, que chega à cidade, pelas 22:00 horas, o general Gomes da Costa, vindo expressamente para assumir o comando do golpe.
    Conforme havia sido acordado, logo no dia imediato, 28 de Maio de 1926, pelas 6:00 da madrugada, inicia-se a sublevação militar, com acompanhamento e apoio civil, incluindo do operariado da região, organizando-se uma coluna que parte sobre Lisboa. Coincidência, ou talvez não, na organização e na forma de mobilização há muitos traços comuns com a marcha sobre Roma, que a 28 de Outubro de 1922, pouco mais de três anos antes, levara à institucionalização do fascismo em Itália.
    Seguindo o tradicional modelo do golpismo militar português, a partir de um pronunciamento na periferia, neste caso em Braga, o movimento repercute-se por todo o país com um grande número de unidades militares a proclamar logo nesse dia e ainda maior número no dia seguinte, 29 de Maio, a sua adesão ao golpe. Em Lisboa, verdadeiro alvo do movimento, uma Junta de Salvação Pública lança um manifesto que Mendes Cabeçadas se apressa a entregar a Bernardino Machado, o cada vez mais isolado Presidente da República.
    Logo a 29 de Maio, a guarnição de Lisboa adere em massa ao golpe de Gomes da Costa, já sob a liderança de Mendes Cabeçadas, que com Armando Humberto da Gama Ochoa, Jaime Baptista e Carlos Vilhena formam a revolucionária Junta de Salvação Pública. Nesse mesmo dia os sublevados obtêm o apoio de Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, o temido comandante da polícia da capital. Nessa tarde, isolado e sem meios ou vontade de resistência, o governo de António Maria da Silva apresenta a sua demissão a Bernardino Machado.
    Consumada a demissão do governo, a 30 de Maio Bernardino Machado convida Mendes Cabeçadas a formar governo. Este aceita e assume as funções de presidente do Ministério, acumulando interinamente todas as outras pastas. Igualmente nesse dia, Francisco Joaquim Ferreira do Amaral é nomeado governador civil de Lisboa, consolidando a tomada efectiva do poder na capital. Perante a estabilidade conseguida e ultrapassado o risco de confrontos, Gomes da Costa dá ordem a todas as forças militares golpistas disponíveis para avançarem sobre Lisboa. Estava concluída a fase militar do pronunciamento.
    A vertente civil prosseguiu com igual celeridade: nomeado o governo, a 31 de Maio Mendes Cabeçadas manda expedir, significativamente através da secretaria do Ministério da Guerra, a ordem para se encerrar o Congresso da República Portuguesa. Era o fim oficial do parlamentarismo português. Perante a afronta, isolado e sem meios de resistência, nesse mesmo dia Bernardino Machado resigna, entregando a chefia do Estado a Mendes Cabeçadas.
    Nesse mesmo dia, numa declaração que retrata bem o espírito que se instalara em Lisboa, o major Ribeiro de Carvalho, apelava na imprensa a que se repetisse o modelo da Regeneração de 1851, com uma política ampla e de generosa conciliação nacional, ao mesmo tempo que salientava que a vitória da revolução é, antes de mais nada, um triunfo da opinião pública. Os revoltosos venceram porque ninguém estava disposto a sacrificar-se por um governo que não traduzia os votos da nação.
    Aparentando não ter um projecto claro de tomada do poder, o general Gomes da Costa, ainda em Coimbra na sua marcha sobre Lisboa, anuncia a 1 de Junho a formação de um triunvirato por si presidido, incluindo Mendes Cabeçadas e Armando Humberto da Gama Ochoa. Contudo, numa primeira cisão, Gama Ochoa retira-se, recusando a solução.
    Entretanto, de vulgar golpe militar, o movimento iniciado a 28 de Maio tinha-se transformado numa vastíssima coligação mestiça de republicanos conservadores, monárquicos e nacionalistas revolucionários com um núcleo de jovens oficiais, apoiado e aceite por todos os sectores sociais e pela esmagadora maioria dos portugueses. A 3 de Junho as tropas de Gomes da Costa chegaram a Sacavém de comboio e entraram em Lisboa sem sabotagens, nem resistência. Gomes da Costa prefere aguardar a formação de governo estável e a preparação de uma marcha triunfal antes de entrar em Lisboa e dirige-se para a Amadora, onde permanece com o seu estado-maior.
    Entretanto, nesse mesmo dia 3 de Junho, em Lisboa Mendes Cabeçadas organiza o novo governo, entregando a Gomes da Costa as pastas da Guerra e interino da Marinha e Colónias. Para as Finanças escolhe António de Oliveira Salazar, para a Instrução Pública, Joaquim Mendes dos Remédios, para a Agricultura, Ezequiel Pereira de Campos e para a Justiça, Manuel Rodrigues Júnior. Três dos ministros escolhidos (Mendes dos Remédios, Manuel Rodrigues e Oliveira Salazar) são professores da Universidade de Coimbra, tendo por isso ficado jocosamente conhecidos pela Tuna de Coimbra.
    Mas a incerteza é grande, estando cada vez mais clara que a solução bicéfala Gomes da Costa-Mendes Cabeçadas é insustentável. Daí que os ministros da Tuna de Coimbra decidam, a 4 de Junho, fazer uma primeira paragem na Amadora, onde permanece Gomes da Costa, para conhecerem a real intenção do novo poder. Desse encontro resulta que Mendes dos Remédios e Manuel Rodrigues prosseguem para Lisboa e tomam posse, mas Oliveira Salazar, mais timorato, volta para Coimbra no dia seguinte.
    Preparado cenário, a 7 de Junho o general Gomes da Costa toma posse das pastas para que fora nomeado e comanda um impressionante desfile militar de vitória ao longo da Avenida da Liberdade. Desfilam 15 000 homens perante o aplauso de centenas de milhar de pessoas. Está terminada a marcha sobre Lisboa e o novo poder está completo nas suas vertentes militar e civil.

    A estabilização no poder e as lutas internicinas

    As consequências da estrutura bicéfala do poder e excessiva abrangência da coligação mestiça não permitiam uma agenda comum. O governo presidido por Mendes Cabeçadas, que era simultaneamente o chefe de Estado, já que fora nele que resignara Bernardino Machado, não era compatível com a liderança real, ou pelo menos esperada, do general Gomes da Costa, o herói do 28 de Maio e o comandante da Parada da Vitória que tinha percorrido a Avenida da República a 7 de Junho. Daí que as tensões e as lutas fratricidas entre os novos senhores do poder não se fizessem esperar.
    Desde logo Mendes Cabeçadas, revolucionário de uma linha moderada, julgava ainda ser possível constituir um governo que não pusesse em causa o regime constitucional, mas apenas livrasse Portugal da nefasta influência do Partido Democrático. No entanto, os demais líderes do movimento, entre os quais Gomes da Costa e Óscar Carmona, julgavam-no como sendo incapaz de liderar a desejada regeneração e, no fundo, o último vestígio do regime constitucional da Primeira República. Foi assim que após uma reunião dos revoltosos no seu quartel-general em Sacavém, realizada a 17 de Junho de 1926, o comandante Mendes Cabeçadas foi forçado a renunciar às funções de Presidente da República e de Presidente do Ministérios a favor do general Gomes da Costa. Era um golpe palaciano que punha fim à bicefalia do novo regime e dava novo passo em direcção à direita conservadora, afastando-o mais da herança parlamentar o regime anterior. Mendes Cabeçadas parte para o exílio.
    Nesse mesmo dia 17 de Junho Gomes da Costa toma posse como Chefe de Estado e como Presidente do Ministério, assumindo interinamente todas as pastas. Estas solução leva a que logo a 19 de Junho seja formado um novo Ministério, presidido por Gomes da Costa, tendo como ministros no Interior, António Claro, nas Finanças, Filomeno da Câmara de Melo Cabral, na Marinha e Colónias, Gama Ochoa, na Instrução Pública, Artur Ricardo Jorge, na Justiça, Manuel Rodrigues Júnior e nos Negócios Estrangeiros, António Óscar de Fragoso Carmona.
    Apesar da constituição de novo governo e do afastamento de Mendes Cabeçadas, a instabilidade cresce e logo a 6 de Julho dá-se uma remodelação do gabinete, com Gomes da Costa a assumir a pasta do Interior, Martinho Nobre de Melo a dos Negócios Estrangeiros, e, por apenas algumas horas, João de Almeida na Marinha e Colónias. A remodelação falha e cria-se um corrupio de nomeações e demissões que leva algumas horas mais tarde, a nova recomposição, com a substituição de António Claro, Óscar Carmona e Gama Ochoa, logo substituídos por Gomes da Costa, Martinho Nobre de Melo e João de Almeida.
    Esta trapalhada governativa leva a que os ministros não atingidos pela recomposição, à excepção de Filomeno da Câmara, se declarem solidários com os restantes e o governo efectivamente colapsa. As forças mais conservadoras, agora lideradas por Óscar Carmona, assumem a liderança e a 8 de Julho o general Gomes da Costa é feito prisioneiro no Palácio de Belém, sendo posteriormente transferido para Caxias e Cascais, onde aguarda, sob prisão, a sua deportação para Angra do Heroísmo, nos Açores. A revolução acabava de destruir o seu principal obreiro e criador.
    A 9 de Julho é a vez de António Óscar Fragoso Carmona formar governo, no qual acumula a Presidência do Conselho com a pasta da Guerra. Pouco mais de um mês depois da revolta, o 28 de Maio encontra finalmente uma linha de força no grupo conservador e nacionalista liderado por Óscar Carmona. A coligação mestiça entra num processo de rápida perda de abrangência e começam a predominar os que sonham imitar a experiência de Primo de Rivera e o fascismo mussoliniano. Apesar disso, tudo ainda era possível: desde um regresso mais ou menos musculado à ordem republicana até à própria instauração de um novo regime, já que o regime ainda se resumia a uma ditadura militar periclitante, à mercê de todas as conspirações e golpes.A primeira intentona dá-se a 11 de Julho, a partir de Chaves, com a sublevação do capitão Alfredo Chaves, a qual foi prontamente jugulada. No mesmo dia, Gomes da Costa parte para o exílio em Angra do Heroísmo. Fechava-se o ciclo, e o a partir daí o regime caminharia inevitavelmente para a direita, para a censura e para a progressiva supressão das liberdades cívicas que ainda sobreviviam. Os democratas e a esquerda radical ficavam reduzidos ao reviralho e aí permaneceriam até 1974.
    Wikipédia

    terça-feira, 29 de maio de 2007

    Gernika



    Em 26 de Abril de 1937, a força aérea nazi de Hitler, através da sua Legião Condor, bombardeava a cidade basca de Gernika. Aliás, não se limitou a bombardear; em verdade tentou dizimar toda a cidade. Na altura ao serviço das forças fascistas de Franco, o ataque a Gernika não teve quaisquer intentos militares, teve o objectivo de destruir tudo e todos em Gernika. Para a História ficou uma pequena árvore no centro da cidade que sobreviveu, sendo hoje um símbolo da cidade.

    O ataque a Gernika foi um dos mais sinistros e simbólicos ataques das forças nazi-fascistas, durante a Guerra Civil de Espanha.

    Em Paris, dias depois, desfolhando o jornal comunista L'Humanité, Pablo Picasso vê a notícia e as fotos do ataque a Gernika. É então que o Governo Republicano de Espanha lhe encomenda o quadro. Um notável quadro nasce. Actualmente o quadro encontra-se no Museu de Arte Reina Sofia em Madrid, ainda que envolto em polémica, pois o País Basco tem repetidamente pedido o repatriamento do quadro para o colocar em Bilbau, sendo recusado alegadamente por "fragilidade da obra".

    A outra resistência


    O município de Melgaço inaugurou no passado 27 de Abril um espaço museológico dedicado a uma outra resistência à ditadura do Estado Novo – a da emigração clandestina por razões económicas. Os que saíram a “salto”, quer dizer através de redes de contrabandistas, para lá dos Pirinéus, à procura de melhores condições de vida, foram muitos milhões. Na periferia de Paris, em Champigny, criou-se uma cidade feita de improviso e de barracas soltas, que na década de 1960 acabou por se constituir na 3ª cidade portuguesa mais populosa. O jornalista Sérgio C. Andrade visitou o Museu Memória e Fronteira e dessa visita fez uma reportagem que saiu no Público de 28/5/07. Com a devida vénia aqui transcrevemos, para que não se esqueça quão vulgar e ordinário foi o fascismo do Estado Novo.

    Visita guiada por um velho emigrante da terra

    "Vou andando por terras de França
    pela viela da esperança
    sempre de mudança
    tirando o meu salário."

    José Mário Branco (do álbum Margem de Certa Maneira)

    Saindo do centro de Melgaço, chega-se ao Museu Memória e Fronteira como quem atravessa uma fronteira. Vai-se por uma pequena ponte pedonal, uma réplica em ponto pequeno da ponte sobre o rio Minho que liga a fronteira Valença-Tui, caminho de tantas travessias, tantas aventuras, tantas miragens. Percorrendo a ponte sobre o ribeiro, surge-nos, à nossa esquerda, um espigueiro como aqueles que logo se avistam à entrada da Galiza (tão idênticos, afinal, aos do Minho). Ao fim da travessia, à direita, aí está o novo Museu Memória e Fronteira. É um edifício transparente, de betão, ferro e vidro.
    À entrada, José Augusto Pereira, 76 anos, rosto redondo e expressão apaziguada de quem soube lidar com a vida, evoca as suas memórias para uma televisão galega. Este velho emigrante por terras de França (e muitas outras, como se verá) aceitou abandonar por momentos o lar que habita na pequena vila minhota para nos guiar numa visita ao novo museu que em Melgaço convoca as memórias da emigração (e também do contrabando).
    José Augusto espera-nos no início do percurso que o museu propõe ao visitante sobre a história da emigração, numa região que foi das mais afectadas por este fenómeno durante a segunda metade do século XX. Ao lado, há um curso de água, metáfora da fronteira e lembrança dos múltiplos rios que os emigrantes tiveram de atravessar. E há também uma banda sonora cheia de sons do quotidiano desses tempos: passos em fuga, a música de um acordeão, o apito de um comboio ao longe...
    "Até me arrepio de ouvir isto. É mesmo igualzinho ao apito do comboio que eu ouvia na minha terra, quando vinha o vento. E eu gostava de ouvir..."
    José Augusto nasceu em Castro Laboreiro, em 1931. Tinha apenas 16 anos quando emigrou para França, ao encontro do pai, que no ano anterior se tinha estabelecido na Bretanha.
    "Éramos dois. Arranjámos documentos - falsos, claro - em como éramos galegos, e fomos de comboio até Pamplona. Dali fomos a salto, pela montanha, para França." Para a travessia, José Augusto e o amigo tiveram de desembolsar 850 pesetas para os passadores. "Chegámos a França de manhã cedo, depois de dormirmos uma noite na montanha, era no mês de Julho, e apareceram-nos dois polícias - eram os gendarmes, o meu companheiro sabia umas palavrinhas de francês, mas eles também falavam espanhol..."
    E o que aconteceu, depois - foram presos? "Não. Eles perguntaram-nos: "Cadê os outros?" Queriam mais, para nos levar a todos a Bayonne. Se fosssemos oito ou nove, os guardas que nos acompanhavam até lá poupavam dinheiro. Mas nós éramos dois. Dormimos ali mais uma noite." E José Augusto explica que, nessa altura, apenas dois anos após o final da Segunda Guerra Mundial, do que a França precisava era de mão-de-obra. A dificuldade estava em atravessar Espanha.
    Melhorar a vida
    O percurso do museu tem um posto de fronteira simulado. Há uma farda da guarda civil espanhola e a reprodução de uma "desgraçada notícia" num jornal da terra, que dava conta de homens baleados quando tentavam escapar de carro.
    Assustava-o ver esta farda? José Augusto diz que não. "Isto é a guarda galega. Eu sou de Castro Laboreiro, estávamos ali a cinco quilómetros da fronteira, conhecíamos os galegos e eles conheciam-nos a nós; não estranhávamos nada."
    Mas a sua história já tinha passado além-Pirinéus. Na viagem tinha também levado a sua "mala de cartão". Era mais pequena do que a que está no museu de Melgaço. "Era uma malinha pequena, em cartão duro, com umas cordinhas. Lá dentro tinha uma roupinha para a gente se mudar - mas eu nem sequer me lembro, aos anos que foi." Mas lembra-se, afinal, de ter "esfolado as costas" com ela. "Fez-se-me um buraco, e via-se a roupa e tudo."
    Continuamos a subir a rampa para o primeiro piso do museu. Sucedem-se as fotografias documentando os vários passos da aventura da emigração, tanto a legal como a clandestina: os passaportes e registos de saída, uma vista da pequena ponte de madeira do rio Trancoso, na fronteira de S. Gregório. "Eu não fui por aí, fui a Orense, pela raia seca", recorda José Augusto. Volta a ouvir-se o comboio - o ex-emigrante emociona-se: "Ah. É mesmo igualzinho... Sobe por mim acima."
    Outros seus contemporâneos, como os milhares que se lhes seguiram, viajaram de camioneta, com os inevitáveis garrafões na mão, ou de carro. Mas o barco também fez parte dos meios de viagem. José Augusto, de barco só andou nos estreitos do Bósforo e de Dardanelos, quando, anos mais tarde, em 1953, partiu de França para trabalhar na Pérsia (actual Irão), "para fazer campos de aviação". "Era tudo da Nato, sabe: depósitos de gasolina, tudo aquilo escondido. Estive lá quatro anos, depois ainda fui para a fronteira da Síria. Quando aquilo acabou, vim outra vez para França. E em 1960 fui para o Canadá."
    Continuamos a subir no tempo. Imagens do quotidiano dos emigrantes já em França: o trabalho, as barracas, a hora das refeições - "dormíamos cada quatro, uma cama sobre a outra; e juntávamo-nos para fazer o comer - na mesma panela, saía mais barato para três". Mais à frente, um emigrante posa com a Torre Eiffel em fundo. "Acolá estive três vezes, lá no alto. Mas isso já foi mais tarde. E desci pelas escadas. O dinheiro, naquela altura, não se juntava muito."
    E sai-lhe uma meditação sobre a emigração: "Era para melhorar a vida mais um bocadinho. Lá sempre havia mais dinheiro, não é?. E Portugal sempre foi um país de emigrantes".
    Principais destinos
    O Museu Memória e Fronteira também documenta essa história em gráficos. Nas primeiras décadas do século XX, o principal destino era o Brasil, com o registo de quase 80 mil emigrantes entre 1912-15. Os anos da Segunda Guerra Mundial fizeram atenuar o movimento, que recrudesceu logo a seguir, no caso de Melgaço, com o fim da exploração do volfrâmio e o abrandamento do contrabando. A partir da década de 1960, com a Guerra Colonial, aparecem novos picos de emigração, desta vez sobretudo virada para a Europa, e a França em particular: em 1966 foram registadas 8 mil saídas legais, mas no início da década de 1970 houve mais de 100 mil saídas clandestinas para França.
    Não é que em Portugal não se pudesse levar a vida, retoma José Augusto. "Muitas vezes diz-se que era a miséria. Não era bem isso. Era a gente que queria ir buscar mais. Vinha um rapaz novo de lá, e chegava aos bailes com a carteira cheia de dinheiro. E eu dizia "Nah, eu também tenho que ir". Era assim."
    José Augusto só regressou definitivamente a Portugal em 1983. Ainda tentou convencer o filho a abrir um negócio em Viana. Mas um problema de coração levou-o a desistir. Entretanto, viúvo, encontrou repouso num lar, com o dinheiro da reforma.
    Os discos que se vêem na última sala , junto a um pequeno anfiteatro onde outros emigrantes desfiam as suas memórias no pequeno ecrã, já não lhe dizem muito.
    O emigrante, de Manuel Dias, Triste despedida, de Nel Garcia, ou Desfolhada, de Simone de Oliveira, como 28º à l"ombre, de Jean-François Maurice, ou C"est la même chanson, de Claude François, já são mais para as gerações que se lhe seguiram.
    Regressamos ao rés-do-chão pelo elevador: "Agora é tudo mais fácil. É como as viagens." E volta o apito do comboio. "Sobe por mim acima!".

    segunda-feira, 28 de maio de 2007

    Formação e consolidação do salazarismo e do franquismo (anos de 1930 e 40)

    É já na próxima semana que se realiza o III Encontro Luso-Espanhol de História Política, desta feita dedicado à «Formação e consolidação do salazarismo e do franquismo nas décadas de 1930 e 1940».
    O encontro académico decorrerá na Universidade de Évora a 4 e 5/VI (sala 131 do Colégio do Espírito Santo), por iniciativa do seu centro de investigação CIDEHUS.
    Para mais informações sobre as comunicações vd. o respectivo programa.

    domingo, 27 de maio de 2007

    Provedor da Arquitectura, Arqº Francisco Silva Dias - Intervenção na TSF

    No seguimento do debate Espaços da Memória -contributo para um roteiro da memória e da resistência da cidade de Lisboa, onde foi referenciada a participação e o empenhamento do nosso Movimento na luta pela preservação da memória da antiga sede da PIDE na António Maria Cardoso (bem como os compromissos já assumidos pela CM Lisboa e pelo promotor imobiliário), e onde também foi reafirmada a importância e urgência da constituição do Museu Nacional da Liberdade e da Resistência, que são dois dos grandes objectivos do Não apaguem a memória!, entendeu o Provedor da Arquitectura -arqº Francisco Silva Dias - referir a importância deste assunto na TSF.
    Este é um tema que interessa a cada vez mais cidadãos, e motiva em cada dia mais e maiores vontades.
    Vale a pena ouvi-lo e reflectir:

    Opinião
    "Na Ordem do Dia" com Francisco Silva Dias
    25-05-2007
    Nasceu e ganha crescente dinamismo o movimento cívico denominado "Não Apaguem a Memória!". Francisco Silva Dias comenta em A Ordem do Dia:



  • Intervenção na TSF
  • sábado, 26 de maio de 2007

    Regresso à Azervadinha




    A história foi brevemente contada por Nuno Teotónio Pereira aos que com ele fizeram a romagem ao Couço, no passado 10 de Março, a propósito do papel da Mulher na Resistência. Contou ele, na paragem junto da igreja da Azervadinha, como aquele templo se transformara numa polémica da comunidae católica progressista contra o regime ditatorial do Estado Novo. Em breve, uma fraternidade de padres holalndeses tinha assumido o múnus pastoral daquela localidade e, também, da freguesia do Couço. Conceberam o projecto de erguer uma igreja comunitária na Azervadinha e pediram ajuda a Nuno Teotónio Pereira para que ele a projectasse. O projecto esbarrou com a oposição dos agrários locais, que impuseram a expulsão dos sacerdotes holandeses e a cosntrução do tempo segundo a traça convencional. Para salvaguardar a ordem, o próprio Américo Tomás, dito Presidente da República, foi assistir à benção da igreja.
    O jornalista Fernando Madaíl foi à procura desses padres holandeses e acabou por encontrar um deles, com quem falou. Desse encontro surgiu uma reportagem que publico no Diário de Notícias Gente, do passado 5 de Maio e que com a sua autorização aqui reproduzimos, com a pequena foto do padre Bart Reker, da autoria de Rodrigo Cabrita.

    Padre holandês expulso voltou a Portugal

    Lia o Diário de Notícias após as orações, a missa e o pequeno-almoço na manhã de 18 de Fevereiro de 1970. Ainda não tinha acabado o artigo que dava conta de um abaixo-assinado de dez mil padres católicos e pastores protestantes que, na Holanda, defendiam a saída de Portugal da NATO, alegando que o Governo de Lisboa usava meios militares da organização para massacrar as populações das suas colónias, quando um ruído lhe desviou a atenção do jornal, onde se dava conta de que a manifestação não passava de propaganda antiportuguesa - e ainda não se tinha dado o massacre de Wiriamu, a aldeia moçambicana arrasada pela nossa tropa (a fazer lembrar o massacre americano na vietnamita Mi Lai), em 1972, que levou à expulsão dos padres de Burgos e do Macuti.
    Bart Reker conta ao DN que reconheceu o carro que parou diante da janela do seu quarto, no seminário que a Congregação dos Sagrados Corações tinha em Santa Iria de Azóia, compreendendo logo que a PIDE (a polícia política) o ia buscar outra vez. O padre holandês seria novamente levado até à fronteira e convidado a sair do automóvel em Badajoz, com a indicação de ser uma pessoa indesejável no nosso país. A única diferença é que, dessa vez, pararam no Couço - freguesia com um proletariado rural explorado pelos latifundiários e vítima da repressão policial - para meter outros dois padres holandeses na viatura da polícia política. Esse episódio, pouco conhecido, foi recordado pela Associação Não Apaguem a Memória! numa deslocação ao concelho de Coruche.
    Mas enquanto Reker mantinha contactos com os católicos progressistas quase desde a chegada a Portugal, em 1963, os sacerdotes do Couço, Adriano Van der Ven e Jan (para os paroquianos, João) Dekker, apesar de serem também da congregação fundada por Pierre Coudrin - um conservador que se opunha à Revolução Francesa sem desconfiar que os seus seguidores iriam difundir a doutrina social da igreja -, eram só padres rurais na freguesia que o regime dizia ser comunista.
    Reker tinha estudado no Colégio Português em Roma e foi professor no Seminário dos Olivais, no Instituto de Serviço Social e no Instituto Superior Católico, dando aulas em cadeiras que abordavam as "realidades terrenas" numa visão cristã. Na década de 60, começaram a ganhar importância os sectores dos católicos progressistas, que se opunham à guerra colonial e defendiam o fim dos presos políticos.
    Na madrugada de 1 de Janeiro de 1969, um grupo de católicos realizou uma vigília na igreja de S. Domingos, na sequência do apelo do Papa Paulo VI, que declarou que essa data passaria a ser o Dia da Paz. "A carta pastoral do episcopado português indicava que essa meditação e oração pela paz deveria ser sobre a guerra do Vietname", recorda Reker à conversa com o DN. Naquela igreja, pelo contrário, até era lido um relatório com o número de mortos no Ultramar e divulgado um texto em que se defendia a solução pacífica para a questão colonial. A ousadia dessa madrugada, em que se cantaram também os versos de Sophia que Francisco Fanhais musicou - "Vemos, ouvimos e lemos,/ não podemos ignorar" -, não teria as consequências da vigília de 1972, na capela do Rato, onde os participantes foram presos.
    A 3 de Janeiro de 1969 morre a mãe de Reker e o padre vai ao funeral, mas, quando regressa da Holanda, não o deixam sair do aeroporto. Esteve duas horas a exigir falar com o Patriarcado. Levado para a sede da PIDE, falou com "um inspector de nome italiano", provavelmente Barbieri Cardoso, número dois na hierarquia. A polícia política terá ficado convencida de que o clérigo holandês louro que lera o rol dos mortos na guerra colonial tinha sido Bart Reker, quando de facto fora o seu compatriota Nicolau Poelman.
    Barbieri chamou os agentes que meteram Reker no carro que o levou até à praça central de Badajoz, onde saiu com as duas malas e se hospedou num hotelzito, antes de se mudar para um colégio católico, ficando meses à espera que a situação se alterasse. Contactou o superior da Congregação em Lisboa, o seu cúmplice Teotónio Pereira, o seu o advogado José Manuel Galvão Teles e a sua ex-aluna e filha de Miller Guerra - deputado da Ala Liberal, grupo que acreditou na chamada Primavera Marcelista. Deram-lhe a entender que a situação política iria mudar e, em Julho, recebeu um telegrama a dizer que podia regressar. As autoridades eclesiásticas sugeriam-lhe que tivesse cuidado, uma vez que tinha contactos com... comunistas. "Os tais comunistas", que afinal eram todos católicos mas anti-ditadura, "não eram nenhum perigo para a fé".
    Entretanto, no Couço, onde o ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, tinha uma quinta, Jan e Adriano tinham desenvolvido uma actividade pouco grata ao regime. O seu apostolado não se limitava à liturgia, pois também conviviam com o campesinato explorado pelos agrários e perseguido pelas greves contra o abaixamento dos pagamentos da jorna e pela jornada de oito horas de trabalho em vez de ser de sol a sol, com a PIDE a levar homens e mulheres para os seus calabouços.
    E se Adriano tinha desafiado o arquitecto Nuno Teotónio Pereira a desenhar uma igreja que fosse lugar de reunião e de catequese, Jan foi mais longe. Num funeral, lembrava que os ricos tinham obrigações que não se limitavam à esmola que davam aos pobres. Obviamente, mesmo sem estarem a ler o DN, entraram também no carro da PIDE rumo a Badajoz.

    quinta-feira, 24 de maio de 2007

    50 anos da Fuga do Aljube - madrugada de 25 para 26 de Maio de 1957

    Carlos Brito

    Na madrugada de 25 para 26 de Maio de 1957, três comunistas, presos políticos, fugiram da cadeia do Aljube: Carlos Brito, Américo de Sousa e Rolando Verdial.

    Em 1997, 40 anos depois, Carlos Brito, o único dos três que é ainda vivo, lembrou este fantástico feito da Resistência à Ditadura:

    "«Fuga audaciosa do Aljube», assim titulava o «Avante!», da primeira quinzena de Junho de 1957, a notícia da evasão de três comunistas daquela cadeia de Lisboa, consumada uns dias antes, na madrugada de 25 para 26 de Maio.
    Apesar de realmente audaciosa, como adiante se verá, esta é talvez, no notável historial das fugas dos comunistas portugueses, uma das menos conhecidas, nos seus pormenores.

    A espectacularidade, a margem de risco e a rigorosa preparação colectiva que rodearam esta fuga, além do indispensável apoio partidário, bem merecem ser divulgados, agora que se perfazem 40 anos sobre a sua realização.
    É o que, como único sobrevivente dos três evadidos de então, me proponho fazer na breve memória que se segue.
    Nos princípios de 1957, a PIDE concentrou um grande número de presos políticos na cadeia do Aljube de Lisboa, o que não era habitual, visto ser a cadeia usada sobretudo para manter os presos no período mais intenso de interrogatórios e torturas.
    A cadeia do Forte de Caxias, que funcionava como depósito de presos, tinha, entretanto, entrado em obras, mas a repressão e a prisão de oposicionistas à ditadura, especialmente de comunistas, não tinha parado.
    Vivia-se um momento importante da resistência antifascista.
    Os finais de 56 tinham sido marcados por lutas estudantis de uma certa envergadura, que culminaram, já em Janeiro de 1957, com uma manifestação em S.Bento, em frente da chamada Assembleia Nacional, de cerca de 3 mil estudantes, em protesto contra o decreto 40.900, que ameaçava de liquidação as Associações de Estudantes.
    Desenvolvia-se em numerosas empresas industriais, por todo o país, um surto de lutas operárias por aumento de salários e no Alentejo os assalariados agrícolas lutavam contra o desemprego e a fome.
    Os comunistas impulsionavam estas lutas, ao mesmo tempo que preparavam o V Congresso do PCP, que veio a realizar-se em Setembro.
    No plano legal e semi-legal havia também uma certa dinamização da acção democrática que conduziu à realização do I Congresso Republicano de Aveiro, em Outubro desse ano, e à intervenção de listas da oposição democrática na farsa eleitoral fascista para a chamada Assembleia Nacional, efectuada no mesmo mês.
    A anormal população do Aljube, decorrente da repressão destas actividades, deu força aos presos para iniciarem um processo de luta por melhores condições prisionais, em relação ao regime de visitas, à alimentação, à higiene e outras.
    A PIDE tentou conter este movimento com a sua táctica habitual de «isolar os cabecilhas» e assim transferiu das diferentes salas para o último da andar da cadeia - uma enfermaria desactivada - os presos considerados mais perigosos. Éramos oito no início, depois ficámos dez, quase todos funcionários do PCP e três membros do Comité Central - Francisco Miguel, Blanqui Teixeira e Américo de Sousa - todos eles grandes obreiros da fuga, embora só último tivesse fugido.

    Os preparativos
    Mal assentámos arraiais nas novas instalações, começámos a avaliar as possibilidade de fuga. Ao cabo de uma semana, não mais, de cogitações individuais e reflexões colectivas a resposta foi afirmativa: havia condições de fuga.
    Pretendíamos explorar a circunstância de nos encontrarmos num andar recuado e de um pouco abaixo das janelas gradeadas correr um estreito algeroz, que concebido para a remoção das águas nos podia conduzir à liberdade.
    Seria sempre um plano arrojado, pela altura, correspondente a um quinto andar, e o desamparo do percurso.
    Colocava-se, entretanto, um grande número de interrogações: - Qual a consistência do algeroz? Onde ia dar? A que distância ficava do prédio vizinho? Como passar dos telhados para a rua?
    Também pressupunha grandes dificuldades: para aceder ao algeroz era preciso serrar as grades de uma das janelas. Mais interrogações: - Onde arranjar a serra? Como fazê-la entrar na cadeia?
    Ainda outras: - Qual o comportamento dos guardas durante a noite? E especialmente, como faziam a vigilância das grades?
    Só reunindo respostas para todos estas interrogações se podia pensar em elaborar um plano de fuga minimamente consistente.
    Então o colectivo decidiu: toda a prioridade à fuga. E a partir daí a vida da sala ficou subordinada a este objectivo fundamental.
    Fez-se chegar ao Partido por meios ultra-clandestinos, naturalmente, o nossos propósitos e as nossas necessidades. Tomaram-se variadas medidas para a recolha de informações.
    Montámos a nossa própria vigilância à actividade nocturna da prisão. Durante toda noite ficavam dois presos acordados, em turnos de duas horas, que registavam tudo o que viam e ouviam, especialmente o comportamento dos guardas de serviço à sala.
    Para grande alegria nossa registámos que, tal como durante o dia, as rondas nocturnas faziam uma observação muito superficial às grades, limitando-se a examiná-las com um foco de lanterna.
    Um belo dia chegou-nos a resposta do Partido aprovando a fuga e prometendo os apoio pedidos. Pouco depois chegou-nos a serra dissimulada na prenda de anos para um de nós.
    Podíamos iniciar a tarefa decisiva de serrar as grades. Quando passámos à prática, embora contássemos com camaradas experientes na matéria, como o Francisco Miguel, logo se verificou que esta fase iria arrastar-se por muito tempo.
    O grande problema era aquele ruído inconfundível: um guincho penetrante que se ouvia longe e repercutia pelas paredes.
    Só nos momentos em que se sabia que o guarda de serviço estava ocupado com outras preocupações é que se podia trabalhar com relativa segurança. As sessões de corte eram, por isso, bastante curtas. E era preciso serrar quatro grades relativamente grossas, em cruz, para se poder passar.
    Em compensação, o disfarce da zona cortada, feito com miolo de pão pintado com aguarela da cor das grades, resultava em cheio. Os guardas miravam, miravam e parecia-lhes tudo bem.

    O plano
    Chegou-nos uma outra boa notícia: estava devoluto o último andar de um prédio vizinho, não o encostado à cadeia, mas o que se lhe segue naquela ala da Rua Augusto Rosa, exactamente o edifício onde viveu o actor e que está assinalado por uma lápide. Era uma informação da maior importância, pois podia resolver o problema de passar dos telhados para um andar que nos dava acesso à rua.
    Nesta altura já tínhamos amadurecido o plano da fuga que compreendia as seguintes fases: primeira, passar a grade para o algeroz; segunda, caminhar no algeroz uns dez metros; terceira, descer por corda, a pulso, uma altura de seis metros, entre o algeroz e o telhado do primeiro prédio; quarta, atravessar o telhado do primeiro prédio e passar ao telhado do segundo prédio; quinta, tentar passar do telhado do segundo prédio para o andar devoluto e daqui procurar saída para a rua.
    Era preciso fazer cordas para vencer os diferentes desníveis, os que conhecíamos e outros que podiam surgir. Os lençóis e os cobertores ofereceram bastante matéria prima.
    Houve finalmente que escolher quem fugia. Não podíamos ir todos e a natureza da fuga exigia certas aptidões físicas. Levaram-se em consideração as características acrobáticas do plano (completamente desaconselhado para quem, por exemplo, sofresse de vertigens), a situação jurídica (possibilidade de libertação, a mais ou menos, curto prazo) e a vontade de cada um.
    Ponderadas todas estas razões foram seleccionados: o Américo Sousa, na altura destacado membro do CC, que faleceu em Março de 1993; eu próprio que era funcionário do Partido e tinha então 24 anos; e Rolando Verdial, que chegou a ter tarefas de responsabilidade no Partido, mas que traiu na polícia anos mais tarde e que, ao que consta, morreu antes do 25 de Abril.
    O dia da fuga foi marcado em função do guarda de serviço, no que, aliás, nos enganámos, pois tinha havido uma mudança na escala.

    Prisão do Aljube

    A fuga
    Antes de iniciarmos a partida, depois da ronda das duas da madrugada, ainda havia algumas tarefas de grande melindre, como o último puxão para arrancar a cruz cortada nas grades. Tinha sido totalmente serrada em três hastes, ficando a quarta com uma espessura residual suficiente para manter no sítio a peça toda.
    Feito isto, começámos. O primeiro sair foi o Américo. Eu estava especialmente ansioso. Depois chegou a minha vez. Deitei-me de costas na mesa que tínhamos encostado à janela, para facilitar a saída. Fiquei então absolutamente calmo e totalmente concentrado em cada gesto. Passei os braços e depois a cabeça pelo espaço aberto nas grades. Trepei por estas até ficar totalmente de fora. Desci para o algeroz, reparei de relance na respeitável altura a que me encontrava e lá em baixo, ao fundo, no guarda da GNR. Caminhei de lado, inclinado para a frente e apoiado na parede, que era recoberta de telhas como nas águas-furtadas. Fui juntar-me ao Américo e ajudá-lo a amarrar a corda de lençóis numa janela que havia mais à frente, numa sala que nos servia de refeitório. Feita esta operação, continuámos, no mesmo jeito de caminhar, até à extremidade do algeroz que contornava a frontaria do edifício e acabava um meio metro depois, na parede lateral. Tinha uma sensação de completo desamparo, como se boiasse no ar sobre uma Lisboa nocturna, magnífica nas suas pistas iluminadas, até à mancha negra do rio. Lançámos a corda, que eu fixei no baixo parapeito do algeroz enquanto o meu companheiro da frente a descia a pulso. A corda era curta. A distância excedia os seis metros calculados. O Américo teve dificuldade em firmar os pés no telhado. Fez-se barulho. Entretanto, o terceiro da fuga chegou junto de mim. Agora fixava ele a corda, enquanto eu descia a pulso. Em baixo o Américo amparou-me, o que ambos fizemos a seguir ao Verdial, tornando a chegada ao telhado mais suave.
    Atravessámos o primeiro edifício, procurando a cumeeira do telhado onde as telhas ofereciam maior consistência. Passámos para o segundo edifício. O desnível ainda era grande mas não foi preciso corda. Avançámos até ao beiral. Estávamos sobre o andar devoluto. Sabíamos que era possível saltar para uma varanda e sabíamos que nesta alguém tinha deixado uma janela aberta para nos dar passagem. Tinha sido a camarada Deolinda Franco, que visitara a casa na véspera, como se a quisesse alugar, e que, além disso, desempenhou um importante papel em todo apoio exterior à fuga. Saltámos para a varanda com alguma dificuldade e algum ruído que ecoou pelas muralhas marmóreas da Sé.
    A janela estava realmente aberta, entrámos na casa, fomos à porta da escada, puxámos os trincos, podíamos sair. Foi, então, o momento de calçarmos os sapatos e vestir os casacos que trazíamos amarrados à cintura e também de compor o cabelo. Depois descemos as escadas como quaisquer cidadãos regressados de uma paródia nocturna. Chegámos à porta da rua que estava a uma distância de cinquenta metros da sentinela da Guarda Republicana de serviço à entrada do Aljube. O guarda fazia um pequeno passeio, para lá e para cá da porta da prisão.
    Aproveitámos o trajecto em que ia de costas para nos esgueirarmos até à esquina que era próxima, onde está hoje a Tasca da Sé. Depois caminhámos rápido. Seguimos uma rua onde devia estar um carro à nossa espera. Mas não estava. Foi o maior contratempo de todo o plano.
    Para grandes males grandes remédios, fizemos um galope até ao Largo da Graça onde apanhámos um táxi. Em breve estávamos a salvo.

    Muitos anos depois, numa das primeiras festas do «Avante!», um jovem dirigiu-se-me para me falar desta fuga. Ele morava, na altura, ainda criança, no último andar do prédio encostado ao Aljube, onde nós aterrámos quando descemos do algeroz. Acordou com o barulho e gritou para o pai que eram ladrões. «Quais ladrões?! São gatos, dorme rapaz!». Quando foi dado o alarme na prisão e a PIDE e a PSP apareceram em força, o pai explicou-lhe que tinha sido uma fuga de presos políticos, pessoas honestas que queriam o bem dos meninos como ele.

    Assim se faziam as vitórias da luta antifascista."

    Miguel Torga e a repressão cultural sob o Estado Novo

    Um livro que aqui anunciámos, sobre a perseguição da polícia política ao escritor Miguel Torga, vai ser lançado este sábado, contando com uma apresentação por Irene Pimentel.
    Aproveita-se para reproduzir a informação do convite:
    "As Edições Minerva Coimbra, o Director da Colecção Minerva História, o Autor e a Coordenadora Científica do CEIS20, convidam para o lançamento do livro Miguel Torga e a PIDE: a repressão e os escritores no Estado Novo, de Renato Nunes.
    A apresentação será feita pela Prof. Doutora Irene Flunser Pimentel. A sessão realiza-se no próximo dia 26 de Maio, pelas 16h30, na Livraria Minerva (Rua de Macau 52, Bairro Norton de Matos), em Coimbra.
    N.º 26 da Colecção Minerva História dirigida pelo Prof. Doutor Luís Reis Torgal.
    Segundo o Director da Colecção Minerva História, Luís Reis Torgal, «este será o primeiro livro desta colecção inteiramente dedicado ao estudo de um processo da PIDE, no contexto de uma série a que poderíamos chamar “A repressão e os escritores”. Seguir-se-ão livros sobre os casos de Aquilino Ribeiro e de Fernando Namora».
    Nesta obra o autor procura analisar os processos instruídos pela polícia política a um dos mais consagrados escritores portugueses do século XX - Miguel Torga, pseudónimo adoptado por Adolfo Correia da Rocha.
    Em anexo, o autor optou por apresentar, uma breve cronologia dos processos de Miguel Torga na polícia política e também alguns originais e, por vezes, surpreendentes documentos extraídos dos processos do escritor na PVDE/PIDE/DGS.
    «A presente obra é, pois, como o seu título indica, um estudo sobre um processo organizado pela PIDE (utilizamos apenas a sigla que se tornou tristemente célebre), que mostra como a nossa “ditadura” não teve, efectivamente, o carácter “original” e “benevolente” – imagem que o regime deu de si próprio – que se lhe quer por vezes atribuir, numa lógica “revisionista”. A literatura, como qualquer outra arte, ou qualquer forma de vida (incluindo o quotidiano de cada um, a vida de família, o domicílio, a correspondência…), era constantemente vigiada e violada.
    Na qualidade de historiador não poderemos omitir esta realidade objectiva que se nos depara com uma grande clareza quando consultamos o Arquivo da PIDE/DGS na Torre do Tombo. Os seus processos são de uma grande evidência, ao contrário de outras fontes ideológicas e de propaganda que mais facilmente encandeiam o juízo dos leitores, mesmo dos historiadores, mormente os cientistas sociais estrangeiros, apresentados muitas vezes como “paradigma científico”, mas que nem sempre conhecem bem a realidade portuguesa e que repetem de forma automática, ou com pressupostos de complexa (ou simplista) engenharia teórica, uma longa cadeia de testemunhos ideológicos e “científicos”, nem sempre, todavia, rigorosamente avaliados». Luís Reis Torgal
    Renato Nunes nasceu no dia 3 de Julho de 1980 em Lille (França), embora as suas origens estejam associadas ao concelho de Oliveira do Hospital. Licenciou-se em História, Ramo de Formação Educacional, em 2003, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Actualmente, lecciona na Escola Básica 2, 3 de Tondela. Colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20), tem vindo a estudar os processos de alguns escritores na polícia política do Estado Novo e na Direcção-Geral de Censura. Para além deste livro, que constitui a sua primeira publicação historiográfica, está a preparar uma outra obra sobre idêntico tema relativo a Aquilino Ribeiro."

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    Rua de Macau, 52
    3030-059 Coimbra
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    tlm.: 917640027; tel: 239 701117 / 239 716204
    fax: 239 717267; e-mail: minervacoimbra@gmail.com

    Por teu livre pensamento – histórias de 25 ex-presos políticos portugueses


    O livro Por teu livre pensamento – histórias de 25 ex-presos políticos portugueses , já anunciado neste blogue, terá uma apresentação no auditório da Feira do Livro de Lisboa, no Sábado, dia 26 de Maio pelas 20H00.
    A apresentação contará com a presença dos autores e alguns dos Ex-presos políticos que figuram na obra.