domingo, 22 de abril de 2007

Manifestação do 25 de Abril


Há dois anos, no 5 de Outubro de 2005, um grupo de cidadãos reuniu-se junto da antiga sede da PIDE-DGS em Lisboa para expressar o seu protesto pelo apagamento de qualquer referência à memória histórica daquele local.

Desse acto nasceu o Movimento Não Apaguem a Memória!.

Desse protesto surgiu igualmente a possibilidade de corrigir o erro: inserir no vasto condomínio em que se está a transformar a antiga sede da polícia política um espaço que testemunhe a coragem da resistência democrática à ditadura e ao fascismo vulgar.


Das conversas havidas até à data com as diversas partes implicadas (o nosso Movimento, a Câmara Municipal de Lisboa e o promotor da obra) estabeleceu-se algum consenso tendo em vista a criação de um espaço dessa Memória no edifício:

O Não Apaguem a Memória! criou um grupo técnico para estudar a melhor solução para a concretização desse espaço;

a Câmara Municipal de Lisboa designou um vereador para dialogar sobre a matéria;

o Promotor imobiliário dispôs-se a aceitar trabalhar com esta equipa técnica e designou duas arquitectas para acompanhar os estudos.

No entanto, o que parecia dever resolver-se num prazo de tempo que não iria além de meses, arrasta-se desde Maio de 2006, numa situação em que o estado de ingorvenabilidade camarária influencia o andamento da construção do Núcleo Museológico da António Maria Cardoso, resultando num arrastamento absurdo e inaceitável.

Por isso decidimos repor o assunto na praça pública.

Nada melhor para isso do que o desfile do 25 de Abril, que celebra a data em que a PIDE-DGS foi derrotada. Em sangue e raiva, acentue-se, recordando aqui os cidadãos anónimos que nesse dia ali caíram, vítimas da derradeira barbárie dos torcionários do sinistro regime do “Estado Novo”.

Do Rossio, onde termina o desfile do 25 de Abril, partiremos para a Rua António Maria Cardoso. Ali reforçaremos o protesto do 5 de Outubro de 2005.

É preciso que a CML e o promotor se entendam de uma vez por todas sobre a definição jurídico-administrativa ao espaço de memória a instalar no espaço da antiga prisão fascista.

É preciso que o memorial em homenagem às vítimas da PIDE-DGS se torne realidade.
Como Vladimir Jankélévitch, também dizemos: Os deportados, os massacrados, só nos têm a nós para pensar neles. Os mortos dependem inteiramente da nossa fidelidade (L’imprescriptible, Ed.du Seuil).

A Concentração do Movimento para a Manifestação é às 14,30 horas na Av. Duque Loulé.

A Concentração para o desfile para a António Maria Cardoso é junto ao Café Nicola, após a Manifestação.


O Grupo de Ligação

Diário do 25 de Abril - 22/04/1974


- Reunião em casa de Vítor Alves de um pequeno núcleo de oficiais do Exército, da Força Aérea e da Armada. Melo Antunes lê a primeira versão do programa político do Movimento, sendo por todos aprovada.
- Melo Antunes comunica que, por ironia do destino, em resultado de um pedido seu, deferido apenas naquela altura (!), irá partir nessa noite para Ponta Delgada, devido a ter sido colocado no Comando Territorial .....dos Açores (CTIA). Fica combinado o célebre telegrama em código que o irá informar do grande momento: "Tia Aurora segue dia...Um abraço António".

- O comandante Almada Contreiras acompanha Melo Antunes ao aeroporto, sendo apresentado por este a Álvaro Guerra, jornalista do República.

00h01 - A partir do início deste dia, todos os delegados do Movimento nas unidades entram em estado de alerta, preparados para receber o contacto do agente de ligação, portador das instruções finais. - A Escola Prática de Transmissões (EPTm), localizada em Sapadores, recebe autorização do Estado-Maior do Exército (EME), por proposta do tenente-coronel Garcia dos Santos, para o estabelecimento de uma linha directa com o RE 1, da Pontinha, numa extensão de 4 quilómetros. Inicia-se, sem demora, a sua instalação, efectuada por uma equipa comandada pelo furriel Cedoura, que ficará concluída em menos de 24 horas. Tal iniciativa viria a permitir ao Posto de Comando do MFA o acesso permanente às escutas das redes de transmissões militares e das forças de segurança, missão de apoio técnico cometida à primeira unidade militar, em que se destacaram os capitães Fialho da Rosa, Veríssimo da Cruz e Madeira.
c. 11H00 - O capitão FA Costa Martins contacta João Paulo Dinis, no Rádio Clube Português (R.C.P.), por incumbência de Otelo, que o tivera como subordinado no Comando Chefe na Guiné, com o objectivo de emitir um sinal radiofónico para desencadear o movimento. O radialista, que desconhecia o emissário, desconfia da sua identidade, mas aceita, depois de muito instado, aprazar um encontro entre os três, nessa noite, num bar lisboeta.
Noite - Reunião de Otelo, na Reboleira, com os grupos de comandos coordenados pelo major Jaime Neves.

Contactos do Movimento com elementos dos Emissores Associados de Lisboa e com a Rádio Renascença, para a transmissão de duas senhas através da rádio: «E depois do Adeus» de Paulo de Carvalho e «Grândola Vila Morena» de Zeca Afonso.

Junção do Anexo de Transmissões, elaborado por Garcia dos Santos, ao plano de operações do movimento militar.

(Estes textos foram retirados dos Sites da Associação 25 de Abril e Instituto Camões)

sábado, 21 de abril de 2007

Arraial do 25 de Abril


Arraial do 25 de Abril 2007

Lisboa - Largo do Carmo - 24 de Abril - das 18h ás 02h


O Arraial do 25 de Abril parte da iniciativa da Associação ABRIL, com a colaboração e participação de várias Associações e Grupos de carácter cívico e cultural e realiza-se na noite de 24 de Abril, no Largo do Carmo.

Um programa rico e diversificado, com ênfase na homenagem a José Afonso e com participações ao nível da música, poesia, artesanato, dança e gastronomia.

Esta Festa é também um apelo para que a chama dos ideais do 25 de Abril permaneça acesa no coração de todos.


Este evento conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, da Associação de Turismo de Lisboa, da Comunicasom e da Associação 25 de Abril.

O Movimento Não Apaguem a Memória! associa-se a este evento e, lá, terá uma pequena banca.

Diário do 25 de Abril - 21/04/1974


Encontro, na marginal em Oeiras, de Otelo e do major Moura Calheiros com os coronéis Rafael Durão (representante do general Spínola) e Fausto Marques, com vista a obter a adesão do Regimento de Caçadores Páraquedistas, comandado pelo último oficial, iniciativa que se revela inconclusiva.

(Este texto foi retirado do Site do Instituto Camões)

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Cartas a uma ditadura (ante-estreia)

O filme «Cartas a Uma Ditadura», de Inês de Medeiros, tem ante-estreia marcada para o próximo dia 23 de Abril, às 21h30, no Centro Cultural Malaposta (Odivelas).
A Malaposta solicita confirmação até dia 19 de Abril, visto a reserva estar sujeita à lotação da sala. Pode ser que ainda sobre algum bilhete...
«Cartas a Uma Ditadura» já foi exibido no DocLisboa de 2006 e dele já aqui falámos na altura. Fica aqui a sinopse do filme, a ficha técnica e contactos:
"Uma centena de cartas, escritas por mulheres portuguesas, em 1958, foram encontradas por acaso num alfarrabista que não as leu por achar que eram cartas de amor.
Respondem a uma circular enviada por um misterioso Movimento de apoio à ditadura do qual não há referência nos livros de história.
A circular a que respondiam nunca chegou a ser encontrada mas, pelas respostas que temos em mãos, percebe-se que era um convite para que as mulheres se mobilizassem em nome da paz, da ordem, e sobretudo em defesa do salvador da pátria: Salazar. Em todas as cartas, estas mulheres falam da gratidão e da admiração que têm pelo ditador.
Mas, como se a necessidade de falar fosse mais forte, por entre chavões e frases feitas, surgem por vezes o medo, a tristeza, o isolamento em que se vivia em Portugal nos anos 50. Uma costureira, muitas professoras primárias, donas de casa, algumas esposas de homens importantes do regime assinam as cartas.
Ao confrontar, hoje, estas mulheres com os fantasmas do passado, e graças a um material de arquivo inédito, Cartas a uma ditadura é um mergulho perturbador no obscurantismo que dominou Portugal por mais de 50 anos.

FICHA TÉCNICA:
Argumento e realização Inês de Medeiros
Ideia Original António Mendes Godinho / Sérgio Tréfaut
Consultora Histórica Irene Flunser Pimentel
Produtor Sérgio Tréfaut
(Portugal - Faux)
Co- Produtores Aurélien Bodinaux / Jean Christophe Zelis
(Bélgica – Néon Rouge Production)
Pascal Verroust
(França – ADR Production)
Música Original Anne Victorino D’Almeida
Montagem Inês de Medeiros / Dominique Pâris
Imagem Marta Pessoa / João Ribeiro
Som Raquel Jacinto / Armanda Carvalho
Narração Inês de Medeiros (Português e Francês)
Maria de Medeiros (Inglês)
Arquivos de imagem RTP – Radiotelevisão Portuguesa
ANIM – Arquivo Nacional das Imagens em Movimento
Arquivos de som RDP – Radiodifusão Portuguesa


Contactos de Imprensa:
Magda Gomes e Vera Almeida (Gabinete de Relações Públicas e Divulgação)
Centro Cultural Malaposta
Rua Angola
2620 - 492 Olival Basto
Telf.: 21 938 31 00"

Jantares comemorativos do 25 de Abril

Lembramos que hoje, dia 20, às 20h, no Espaço Ribeira (sito no Mercado da Ribeira) se realiza um jantar comemorativo do 25 de Abril. É a sua 5.ª edição e da Comissão Promotora fazem parte vários membros do movimento Não apaguem a Memória! (tels. de contacto: 213474098 - livraria do restaurante; 914548986 - Júlia Coutinho). A sessão contará com as intervenções públicas dos activistas do movimento arq.ª Helena Roseta e «capitão de Abril» Martins Guerreiro, além doutros membros da Comissão Promotora. José Afonso será evocado.

Diário do 25 de Abril - 20/04/1974


- Finalmente, na mais importante das reuniões, Otelo Saraiva de Carvalho distribui as missões aos delegados das unidades da Região Militar de Lisboa (Lima), na residência, então vaga, do pai do tenente Américo Henriques, em Cascais.

- Conclusão do essencial dos textos políticos (em cuja redacção, coordenada por Vítor Alves, participaram Franco Charais, Costa Brás, Vasco Gonçalves, Nuno Lopes Pires e Pinto Soares, pelo Exército; Vítor Crespo e Lauret, com a participação menos activa de Teles e Contreiras, pela Marinha e a ocasional presença do major Morais e Silva e do capitão Seabra).

- A partir desta data, Otelo, que também assegura a ligação com Spínola, passa a efectuar os contactos, por razões de segurança, através do major de cavalaria na reserva Carlos Alexandre de Morais. São da lavra do general algumas das modificações introduzidas, nomeadamente a designação de Movimento das Forças Armadas (MFA), em substituição da versão anterior de Movimento dos Oficiais das Forças Armadas (MOFA) e de Junta de Salvação Nacional (JSN) em alternativa à proposta de Directório Militar.

(Este texto foi retirado do Site do Instituto Camões)

quinta-feira, 19 de abril de 2007

O Centro Republicano Almirante Reis faz 96 anos

O Centro Escolar Republicano Almirante Reis (CERAR) celebra o seu 96.º aniversário a 21 de Abril, sábado. Ali se realizaram importantes encontros da Oposição ao Estado Novo, nomeadamente reuniões do MUD.
O programa das comemorações inclui uma palestra sobre a implantação da República (às 18h) e um jantar (às 20h). Estará patente ao público uma exposição sobre a história do CERAR no contexto da história contemporânea de Portugal.
A sede do CERAR fica na Rua do Benformoso, n.º 77, Lisboa (metro Martim Moniz). Todos os que se quiserem associar às comemorações devem dirigir-se à Associação República e Laicidade.




Heróis da Resistência


Foi inaugurada a 14 de Abril, na Galeria de Exposições do Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira, a mostra fotográfica Heróis da Resistência, de Rogério Pedro.

Esta exposição, que se insere nas comemorações do 33º aniversário da Revolução dos Cravos, vai estar patente até ao dia 29 de Abril.

A ditadura, o fascismo, as prisões, as torturas, a censura, a guerra colonial são alguns dos temas retratados na mostra Heróis da Resistência.

Os museus da resistência no mundo

Uma efectiva política da memória da resistência à ditadura e da luta pela democracia deve incluir uma componente museológica.
Este tem sido o caminho trilhado internacionalmente, tanto nos países europeus que se libertaram da opressão dos países do Eixo como nos países latino-americanos que tiveram ditaduras militares sob a Guerra Fria.
Aqui ficam alguns exemplos e respectivos links, por países.
A maioria dos museus são museus da resistência, da memória da perseguição aos judeus ou a activistas políticos, do Holocausto, ou ligados à denúncia da tortura.
Alemanha: é inevitável falar dos campos de concentração nazis: sobre os lugares de memória relativos aos campos de Buchenwald e Mittelbau-Dora vd. o labor da Fundação da Memória de Buchenwald e Mittelbau-Dora, que articula investigação com divulgação científicas. Também a Fundação da Topografia do Terror fornece informação sobre os crimes contra a Humanidade perpetrados pelo regime nazi.
Argentina: relativamente à Ditadura Militar argentina (1976-83), foi criado recentemente um Museu na sede do tenebroso campo de concentração e tortura Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA), de que demos conta aqui.
Brasil: quanto ao caso brasileiro, existem vários memoriais em homenagem às vítimas da Ditadura Militar local (1964-84), o mais importante dos quais é o Memorial da América Latina, concebido pelo arq. Óscar Niemeyer. Ignoro se existe algum museu específico. Existem várias associações activas, incluindo as relativas às lutas estudantis, que tiveram forte eco internacional, sobretudo a de 1968.
Chile: o caminho da memória da resistência à Ditadura militar de Pinochet (1973-90) tem sido mais difícil, e só possível graças à acção de associações cívicas como a Corporación de Promoción y Defensa de los Derechos del Pueblo, a qual foi fundada em plena Ditadura militar de Pinochet (1980), a Derechos Chile e o Proyecto internacional de Derechos Humanos, criado em Londres.
Espanha: em homenagem às vítimas da Guerra Civil (1936-39) foi criado o Museu da Paz, da Fundação Museu Guernica, no País Basco. Refira-se ainda a assumida criação do Centro Documental de la Memoria Histórica, por pressão da sociedade civil (vd. aqui e aqui), e a recente inauguração, em Madrid, de um memorial às vítimas do Holocausto, da autoria de Samuel Nahon (vd. Sofia Branco, «Parque de Madrid acolhe escultura em memória do Holocausto», Público, 16/IV, p. 15).
EUA: aqui os principais memoriais são relativos às guerras da Secessão e do Vietname. Ademais, existem inúmeras associações de defesa dos direitos cívicos, das minorias e do Holocausto; sobre estes vd. o excelente site The Holocaust History Project.
França: destaque para o Musée de la Résistance Nationale, com sede em Paris (Champigny-sur-Marne) e 7 núcleos dispersos pelo país (em Bourges, Champigny, Châteaubriant, Givors, Montluçon, Varennes-Vauzelles e Nice). Edita a revista Notre Musée. Este museu é juridicamente representado por uma federação, a Fédération Musée de la Résistance Nationale, que agrega 12 associações de amigos, parte delas responsáveis pelos núcleos museológicos referidos. É uma rede reconhecida oficialmente, pelos Musées et des Archives de France e pelo Ministère de la Jeunesse et des Sports. O núcleo museológico de Nice chama-se Musée de la Résistance Azuréenne. Menção especial ainda para o Centre d'Histoire de la Résistance et de la Déportation, um museu criado na ex-sede da Gestapo em Lyon. Nele existe, segundo informação de Helena Romão, um espaço para exposições temporárias sobre ditaduras/resistências (presentes ou passadas) em todo o mundo.
Holanda: a Casa de Anne Frank e o Dutch Resistance Museum Amsterdam são os locais obrigatórios para quem visita Amesterdão.
Hungria: dos países do ex-Leste comunista, refira-se o Museu da Casa do Terror.
Itália: aqui cabe mencionar o Museu Virtual do Anti-fascismo e da Resistência (da Província de Arezzo) e o labor do Istituto Nazionale per la Storia del Movimento di Liberazione in Italia, que tem ramificações por todo o país.
Japão: há vários museus relativos às vítimas da II Guerra Mundial, destacando-se o Museu da Paz de Hiroxima e o Peace Osaka, de que demos informação aqui.
Paraguai: destaque para a actividade da Coordinadora de Derechos Humanos, que desenvolve actividades por todo o país, inclusivé no Museu de Las Memorias, sedeado numa casa que funcionou como centro de tortura durante a Ditadura de Stroessner (1954-89) e que foi transformada em memorial do sofrimento, após muita luta das organizações de direitos humanos. Embora com material rico e interessante este museu conta só com o apoio da sociedade civil (vd. aqui).
Reino Unido: a especialidade britânica relaciona-se com a História oral, onde se evidencia o Refugee Communities History Project e o projecto Voices of the Holocaust do British Library. Saliente-se ainda a Exposição dedicada ao Holocausto patente no Imperial War Museum, que aí se mantém desde 2000, devido à grande procura.

Diário do 25 de Abril - 19/04/1974


MFA. Preparativos para a Acção:

Reunião de Otelo com delegados das unidades do Sul.


Otelo Saraiva de Carvalho distribui as missões aos delegados do Sector Sul (Sierra), em casa do major Fernandes da Mota.

(Estes textos foram retirados dos Sites da Associação 25 de Abril e Instituto Camões)

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Diário do 25 de Abril - 18/04/1974


Otelo Saraiva de Carvalho encontra-se com Alexandre Aragão, representante do Movimento em Bissau, a quem informa do plano previsto e com quem combina uma alternativa de acção, caso o Movimento venha a falhar em Lisboa. A alternativa consistia na execução do plano já preparado pelo MFA da Guiné, que previa a neutralização de todos os comandos que se opunham ao Movimento e a abertura de negociações com o PAIGC vinte e quatro horas depois da acção em Portugal.

Otelo Saraiva de Carvalho distribui as missões aos delegados do Sector Centro (Charlie), em sua casa, contando-se entre estes o capitão Correia Bernardo, em representação da Escola Prática de Cavalaria (Santarém).

(Estes textos foram retirados dos Sites da Associação 25 de Abril e Instituto Camões)

Para quando um guia das fontes?

Com este post queremos chamar a atenção para a necessidade de se proceder à elaboração de um guia das fontes de arquivo para a história da resistência ao Estado Novo. Esse guia podia ser um trabalho de equipa, que resultasse do contributo de todos os activistas do movimento «Não apaguem a Memória!» que quisessem disponibilizar informação.
Essas fontes fazem parte integrante de inúmeros fundos documentais públicos e privados, produzidos por pessoas individuais e colectivas, à guarda de arquivos, bibliotecas e centros de documentação públicos, de instituições particulares, de famílias e de indivíduos.
No Arquivo Nacional da Torre do Tombo encontram-se os principais fundos documentais produzidos pelo Estado Novo, a saber: o Arquivo Oliveira Salazar, o Arquivo Marcelo Caetano, o Arquivo da PIDE/DGS, o Arquivo do Ministério do Interior, o Arquivo dos Serviços de Coordenação e Centralização da Informação de Angola e o seu congénere de Moçambique, o Arquivo dos Serviços de Censura, os arquivos da Mocidade Portuguesa, da Mocidade Portuguesa Feminina, da Legião Portuguesa e da União Nacional. Também se encontram na Torre do Tombo, à guarda do Arquivo Distrital de Lisboa, os processos do Tribunal Plenário de Lisboa.
Na capital, há muitas outras instituições públicas com arquivos importantes para o estudo do Estado Novo, do colonialismo e das resistências antifascista e anticolonialista: o Arquivo Histórico-Militar, o Arquivo do Tribunal Militar Especial - Santa Clara, o Arquivo Geral do Exército, o Arquivo Geral da Marinha, o Arquivo Histórico Ultramarino, etc.
A Biblioteca Nacional (Lisboa) e o Centro de Documentação do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, dispõem de espólios literários de escritores e intelectuais antifascistas.
A Fundação Mário Soares tem vindo a acolher e a tratar dezenas de acervos particulares de opositores ao Estado Novo e ao colonialismo português.
O Centro de Documentação 25 de Abril (Universidade de Coimbra) disponibiliza um extenso guia de espólios, que lhe foram doados por particulares, relativos ao Estado Novo, à Oposição, ao Movimento Estudantil e ao 25 de Abril.
Por todo o país, diversos arquivos distritais e municipais têm à sua guarda documentação para a história local da oposição à ditadura e ao Estado Novo.
Há também um enorme manacial de informação no Arquivo do Partido Comunista Português (que urge divulgar), na posse de particulares e nas "arcas" da memória (para quando um arquivo virtual das gravações áudio ou vídeo com histórias de vida e testemunhos orais que historiadores e outros cientistas sociais têm, para trabalhos académicos, recolhido?).

Faltam 7 dias...

que a liberdade está (quase) a passar por aqui...

(foto de Eduardo Gageiro, retirada daqui)

terça-feira, 17 de abril de 2007

Conversas com a História


Conversas com a História é um projecto da revista História em parceria com a FNAC-Chiado.


Na próxima quinta-feira, dia 19 de Abril, às 18.30h, António Reis e Jorge Martins falarão sobre o 25 de Abril e o Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA.


No dia seguinte, sexta-feira, dia 20, é a vez de António Louçã e Sónia Almeida falarem sobre Revolução e Democracia.


Finalmente, no dia 2 de Maio, Irene Pimentel falará sobre a Polícia Política de Salazar.


Todas as tertúlias terão lugar no espaço café da FNAC-Chiado.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Diário do 25 de Abril - 17/04/1974


MFA. Preparativos para a Acção.
Início das reuniões de Otelo com delegados das unidades para distribuição das missões previstas no plano de operações (Unidades do Norte). Otelo Saraiva de Carvalho reúne-se com Eurico Corvacho e Gertrudes da Silva, aos quais distribui missões e fornece todos os elementos constantes da Ordem de Operações.

(Este texto foi retirado do Site da Associação 25 de Abril)

Fundação do Partido Socialista - 19/04/1973


No dia 19 de Abril de 1973, na cidade alemã de Bad Munstereifel, militantes da Acção Socialista Portuguesa idos de Portugal e de diversos núcleos no estrangeiro, reunidos em Congresso, aprovam, por 20 votos a favor e 7 contra, a transformação da ASP em Partido Socialista. Finda a votação, todos os congressistas aplaudiram de pé a deliberação. Eram 18 horas.

Fundadores:

António Macedo, Mário Soares, Tito de Morais, Francisco Ramos da Costa, Francisco Salgado Zenha, José Magalhães Godinho, Gustavo Soromenho, Raúl Rego, Joaquim Catanho de Menezes, Teófilo Carvalho dos Santos, José Ribeiro dos Santos, Vasco da Gama Fernandes, Mário Cal Brandão, Fernando Valle, Álvaro Monteiro, Albano Pina, Herculano Pires, António Carlos Campos, António Arnaut, Fernando Antunes Costa, Maria de Jesus Barroso, Arnaldo Cândido Veiga Pires, José Neves, Maria Emília Tito de Morais, Carlos José Queixinhas, Gil Francisco Ferreira Martins, Áurea Rego, Manuel da Costa Melo, Francisco Tinoco de Faria, Augusto Sá da Costa, Júlio Montalvão Machado, Manuel Belo, Luís Nunes da Ponte, Fernando Loureiro, João Sarmento Pimentel, Francisco Sarmento Pimentel, Pedro Coelho, Armando Nunes Diogo, Artur Cunha Coelho, Alfredo Barroso, Jaime Gama, José Luís Nunes, Rui Mateus, Carlos Candal, Alfredo Carvalho, Fernando Grade Silvestre, Sebastião Dantas Baracho, José Emídio Figueiredo Medeiros, Fernando Raposo, Eduardo Ralha, Carlos Torres d'Assunção, Firmino Silva, Abílio Mendes, Luís Roseira, Manuel Cabanas, Alberto Arons de Carvalho, Joaquim Lourenço Gago, Alfredo Costa Azevedo, Inácio Peres Fernandes, Paulo de Lemos, Adelino Cabral Júnior, Luís Castro Caseiro, Alberto Oliveira e Silva, António Coimbra Martins, Armando Cardoso Meireles, João Manuel Tito de Morais, Vítor Cunha Rego, Manuel Tito de Morais, Rodolfo Crespo, Dino Monteiro, Manuel António Garcia, Carlos Carvalho, Maria Carolina Tito de Morais P. de Oliveira, Augusto Pereira de Oliveira, Beatriz Cal Brandão, Joaquim Rocha e Silva, António Santos Cartaxo Júnior, Jorge Campinos, Armando Soares, Luís Gaspar da Silva, José Tiago de Oliveira, João da Costa Neves, Olindo Figueiredo, Júlio Carrapato, Fernando A. Borges, Mário Mesquita, Nuno Godinho de Matos, José Maria Roque Lino, Dieter Dellinger, Francisco Marcelo Curto, Maria Teresa Cunha Rego, Francisco Seruca Salgado, Mário Sottomayor Cardia, António Reis, Armando Bacelar, Bernardino Carmo Gomes, Liberto Cruz, Manuel Pedroso Marques, Jaime Vilhena de Andrade, José Rabaça, Lafayette Machado, Eduardo Jorge Santiago Campelo, Joaquim António Calheiros da Silveira, António Paulouro, António Neves Gonçalves, Álvaro Guerra, João Gomes, Augusto Duarte Roseira, João Lima, José Leitão, Francisco de Barros Calhapuz, Maia Cadete, Carlos Alberto Novo, António G. Pereira, Lucas do Ó.

Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira (1930-1971)


domingo, 15 de abril de 2007

Festejar Abril

Faltam 10 dias para o 25 de Abril!

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Visita à sede da PIDE no Porto

"O Núcleo do Porto do movimento cívico «Não apaguem a Memória!» vai realizar a 21 do corrente mês de Abril, entre as 15 e as 17 horas e 30 minutos, a segunda visita guiada por ex-presos políticos às instalações do actual Museu Militar do Porto, edifício onde funcionou uma delegação da polícia política do Estado salazarista, a PVDE/PIDE/DGS.
Com esta iniciativa, pretende-se afirmar a importância do edifício no roteiro dos locais de memória da resistência ao Estado Novo.
O núcleo do Porto deste movimento cívico plural e aberto tem efectuado diligências junto das autoridades administrativas locais e centrais visando a criação de um Museu da Resistência no edifício onde longamente esteve instalada delegação do Porto da PVDE/PIDE/DGS.
Espera-se que da convergência da acção cívica dos cidadãos e das cidadãs da área metropolitana do Porto, motivados pelo aprofundamento da educação histórica e pela defesa da preservação da memória histórica das lutas anti-fascistas, resulte uma renovada dinâmica de participação e de cidadania."
Nota de imprensa do Núcleo do Porto do movimento Não apaguem a Memória!

quarta-feira, 11 de abril de 2007

A cooperativa PRAGMA - há 43 anos


A Pragma foi fundada por um grupo de católicos em 11 de Abril de 1964, data propositadamente escolhida por nela se comemorar o primeiro aniversário da publicação da encíclica Pacem in Terris. Ao elegerem esta espécie de “patrocínio”, esses católicos deram um sinal do que os movia. A Pacem in Terris tinha sido para eles um reconforto, uma tábua de salvação. Passaria a ser também um meio de pressão.
Constituíram a Pragma como uma “Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária”, o que concretizou os objectivos que se propunham e, simultaneamente, permitiu que tirassem partido de uma lacuna legislativa: as cooperativas não tinham sido abrangidas pelas limitações impostas ao direito de associação e, por essa razão, nem os seus estatutos eram sujeitos a aprovação legal, nem a eleição dos seus dirigentes a ratificação pelas entidades governamentais. Forçando uma porta entreaberta por um lapso do poder, os fundadores da Pragma puseram mais uma peça no puzzle da oposição ao regime – cuidadosa e imaginativamente.»
«A história da Pragma é uma bela história. Ela ilustra bem alguns ambientes da última década do fascismo. Mobilizou muita gente, abriu horizontes, influenciou muitos jovens que foram chamados para combater na guerra colonial – alguns desertaram, outros tiveram um papel activo, como milicianos, na alteração de mentalidades, e na preparação do 25 de Abril.»

Excertos de A cooperativa Pragma – uma boa ideia e uma bela história, in Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória – Os Católicos Portugueses e a Ditadura, Âmbar, Lisboa, 2007, p.61 e p.79.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Tributos a Adriano (1942-1982)

O cantautor da resistência Adriano Correia de Oliveira é hoje homenageado na Marinha Grande, por ocasião da passagem do 65.º aniversário do seu nascimento (programa aqui).
A iniciativa parte dum grupo de amigos de Adriano e tem o apoio do município local e de várias personalidades.
Inicia-se pelas 21h15 com uma sessão solene de homenagem, na presença dos filhos Isabel e José Manuel Correia de Oliveira, do compositor José Niza e do poeta e deputado Manuel Alegre. Segue-se canto livre com Francisco Fanhais, Luísa Maio e João Miguel e o lançamento do disco «Adriano Sempre!», com temas interpretados por músicos de diversas gerações e áreas musicais. Neste dia é ainda inaugurada a exposição «Adriano Sempre!», dedicada à sua vida e obra.
A homenagem é retomada a 21 de Abril, com um espectáculo musical em que participam os músicos intervenientes no disco «Adriano Sempre!» (pav.º municipal de exposições da Marinha Grande, 22h).
Os Erva de Cheiro também editaram um disco de homenagem «Cantaremos Adriano» e dão espectáculos alusivos em Avintes (28/4, 21h30) e Loulé (30/4, 21h30, Cine-Teatro Louletano). O conjunto é formado por Alexandre Pinto, João Queiroz, Jorge Jordan, Nuno Faria, Paulo Cavaco, Rui Sousa e Vitor Sarmento. Para ouvir as músicas dos Erva de Cheiro e ter acesso a informação inédita sobre Adriano vd. o blogue Cantaremos Adriano.
Para uma biografia de Adriano vd. aqui ou aqui.
Sugere-se ainda a consulta dos sites Adriano Sempre! e Adriano Correia de Oliveira (da Esc.ª Sec.ª Emídio Navarro).

domingo, 8 de abril de 2007

3º Congresso da Oposição Democrática (1973)





Entre 4 e 8 de Abril de 1973 realizou-se o 3º Congresso da Oposição Democrática.


A Comissão Executiva era composta por:



Álvaro Seiça Neves (Advogado)
António Neto Brandão (Advogado)
António Pinho Regala (Estudante)
Carlos Candal (Advogado)
Flávio Sardo (Advogado)
João Sarabando (Publicista)
Joaquim da Silveira (Advogado)
Manuel Andrade (Advogado)
Mário Bastos Rodrigues (Estudante)

(E ainda, nos termos do artº 8º do regulamento, por dois delegados escolhidos por cada uma das Comissões Distritais)

Não podendo estar presente, por se encontar exilado no Brasil, Ruy Luis Gomes enviou (por telegrama) as palavras de abertura que foram lidas por Álvaro Seiça Neves:



"Profundamente sensibilizado convite presidir Congresso saúdo companheiros consciente da importância deste Congresso para objectivos centrais nossa luta liberdades democráticas povo português independência povos coloniais declaro aberta a sessão ".


CONCLUSÕES DO CONGRESSO:
Situação e perspectivas políticas, nos planos nacional e internacional

Declaração final
do III Congresso da Oposição Democrática aprovada na sessão de encerramento de 8 de Abril de 1973


1) – Os milhares de democratas presentes no III Congresso da Oposição Democrática, reunido em Aveiro de 4 a 8 de Abril de 1973, têm a consciência de que esta reunião – a que o Governo foi obrigado por pressão das condições internas e para tentar melhorar a sua imagem internacional – constituiu uma grande vitória das forças democráticas. A larga mobilização de democratas efectuada em todo o País em torno da organização dos trabalhos, da elaboração das teses e do debate dos problemas apresentados, veio no seguimento da movimentação democrática crescente, ao mesmo tempo que traduz o descontentamento cada vez maior da população portuguesa em face do constante agravamento dos problemas fundamentais do País.

2) – Manifestam os democratas em Congresso o seu firme e veemente protesto contra as múltiplas acções repressivas com que o Governo procurou intimidar, dificultar e impedir a sequência dos trabalhos. Tais acções vão desde as prisões de numerosos democratas quando em vários pontos do país colavam cartazes do Congresso, à proibição de sessões de trabalho preparatórias, desde o corte sistemático de noticias sobre o Congresso pela Censura, ao encerramento do parque de campismo em Aveiro para evitar o alojamento das camadas trabalhadoras e da juventude estudantil; desde a retenção de excursões do «rápido» em Avanca para identificação dos passageiros – tornando Aveiro uma cidade cercada – a criarão de um clima de inquietação, propalando notícias falsas sobre pseudo-violências em Aveiro e tudo culminando com a ferocidade com que as forças policiais atacaram a romagem dos democratas à campa de Mário Sacramento na manhã de domingo 8 de Abril, causando feridos. Reconhecendo ser a violência um direito dos oprimidos, o Congresso pretende que o exercício da violência pelas autoridades contra o povo pacífico e indefeso toma o nome de desumanidade e brutalidade.

3) – Realiza-se o Congresso num momento em que os problemas do povo português são cada vez mais graves e se verifica a total incapacidade das forças dominantes para os resolver.

Doze anos de guerra colonial representam um crime contra a Humanidade pela destruição de populações e culturas africanas e um sacrifício absurdo que tem sangrado o país em vidas e recursos, constituindo profunda causa de depressão das energias morais de um povo que precisa de as mobilizar para a construção do futuro.

0 crescente domínio do capital monopolista internacional e nacional agrava pesadamente as condições de trabalho e de vida das massas trabalhadoras, transfere para essas massas trabalhadoras o custo da inflação e das pseudo-medidas para a debelar, reduz ainda mais os direitos sindicais, transformando-os em meros simulacros, esconde a sua incapacidade para responder aos problemas e exigências reais com a proclamação de projectos de ensino, habitação, saúde e segurança social que nada resolvem e deixam intactas as verdadeiras causas da gravíssima situação de carência em todos esses domínios.

0 agravamento das contradições internas do regime e a limitação da sua base política de apoio tem levado o Governo, como resposta a essa agudização, a acentuar a escalada repressiva em todos os aspectos e sectores da vida nacional, criando uma situação em que para se ser acusado de subversão e receber os golpes de um poder que não conhece limites, e suficiente tomar consciência dos problemas do país e legitimamente procurar-lhes caminhos de solução.

4) – Perante este quadro, que foi pormenorizadamente analisado por cerca de duas centenas de teses e comunicações e em vinte e cinca longas e largamente participadas sessões de trabalho, os democratas presentes no III Congresso da Oposição Democrática concluem que os objectivos imediatos, possíveis de atingir através da acção unida das forças democráticas, são:

- Fim da guerra colonial;
- Luta contra o poder absoluto do capital monopolista;
- Conquista das liberdades democráticas.

A luta por objectivos parciais e imediatos, sendo nas actuais condições amplamente mobilizadora, não deve no entanto fazer-nos esquecer o objectivo final da conquista do socialismo, o qual é indispensável para a construção de uma sociedade justa e digna.

5) – Perante a expansão das forças democráticas e a sua crescente projecção no povo português, perante a radical oposição entre o movimento democrático e o regime na analise e nas linhas de solução dos problemas fundamentais do país, não resta outra alternativa ao Governo a não ser a repressão total da movimentação democrática ou o reconhecimento da realidade política nacional.

0 primeiro caminho, alem de ferir os direitos elementares de qualquer povo, revelar-se-ia inoperante como a experiência histórica demonstra.

Por isso, deve ser igualmente objectivo imediato de acção a conquista do reconhecimento da organização democrática e da sua plena liberdade de actuação.



Tal como se esperava, o Congresso sofreu a repressão das forças fascistas, não só contra os Congressistas, mas também contra os repórteres estrangeiros que faziam a sua cobertura:




A repressão sofreu o repúdio da imprensa estrangeira:

O protesto dos jornalistas estrangeiros contra a repressão (comunicado de 8.4.73)

Os correspondentes da imprensa estrangeira que se deslocaram à cidade de Aveiro para informar sobre o III Congresso da Oposição Democrática, acto perfeitamente legal e autorizado pelo governo português, desejam por este meio protestar da maneira mais enérgica contra a agressão brutal desencadeada pela polícia durante a manifestação realizada na manhã de hoje, domingo, 8 de Abril de 1973, durante a qual foram agredidos sem motivo algum duas jornalistas, uma delas de mais de 60 anos de idade, da imprensa suiça e alemã respectivamente, e um enviado especial do jornal italiano «Il Giorno» que foi derrubado e agredido selvaticamente por quatro polícias ao mesmo tempo, e a quem roubaram a máquina fotográfica. Também a um enviado especial do agência latino-americana Prensa Latina lhe foi roubado o filme que havia tomado dos acontecimentos.
Nós, jornalistas estrangeiros, somos trabalhadores da imprensa dos nossos países, e desempenhamos uma função estritamente profissional, cumprindo a nossa tarefa de informar a opinião pública.
Consideramos que a atitude da polícia em Aveiro violou os mais elementares princípios da liberdade de imprensa e, ao mesmo tempo, foi desnecessariamente brutal e agressiva, pelo que protestamos energicamente junto dos nossos colegas portugueses e perante a opinião pública deste país.

a) Ginninger ( « New York Times»); Rameier («AZ» de Viena de Áustria) ; Herrman ( imprensa suiça e alemã) ; Hora ( Agência Prensa Latina) ; Kesseber («Suddeutsche Zeitung», Munique- RFA) ; Haubrich (« Frankfurter Allgemeine Zeitung» - RFA); Muller («Sudwest Press» - RFA); Gerhardt ( Rádio Alemã); Ochetto («Il Giorno»-Itália) ; Goertz (« Die Welt» - RFA).

sábado, 7 de abril de 2007

Formação para professores

Curso para Professores em Lisboa (21-04 a 09-05) e Faro (28-04 a 26-05)
Portugal: Ditadura, Revolução, Democracia
A Associação 25 de Abril em parceria com a Associação de Professores de História, promove um curso de divulgação de História Contemporânea para professores dos ensinos Básico e Secundário.
Módulos:
1. O Estado Novo no pós-II Guerra Mundial (Professor Fernando Rosas e Professor António Reis)
2. A guerra colonial (Coronel Aniceto Afonso e Coronel Matos Gomes)
3. A conspiração e a acção militar do 25 de Abril (Coronel Vasco Lourenço)
4. A descolonização (General Pezarat Correia e Almirante Vítor Crespo)
5. A transição do poder revolucionário para o poder democrático (Coronel Vasco Lourenço, Almirante Martins Guerreiro e Coronel Rosado da Luz).
Programa e ficha de inscrição aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Por teu livre pensamento – histórias de 25 ex-presos políticos portugueses

Ainda no âmbito das comemorações do 25 de Abril, será lançado a 21 um novo livro com testemunhos de resistentes antifascistas, Por teu livre pensamento, de Rui Daniel Galiza e João Pina. Dada a relevância da obra aproveitamos para reproduzir a informação que amavelmente foi cedida pelos autores.
"A Assírio & Alvim promove no próximo dia 21 de Abril, pelas 16:00H, no Centro Português de Fotografia na cidade do Porto, o lançamento do livro «POR TEU LIVRE PENSAMENTO – Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses», de autoria de Rui Daniel Galiza e João Pina, obra prefaciada por S. Exa. o Presidente da Assembleia da República, Dr. Jaime Gama.
Este lançamento irá acontecer em simultâneo com a inauguração da exposição que reúne o trabalho fotográfico de João Pina, 55 provas distribuídas por duas salas e uma instalação multimédia, patente ao público de 21 de Abril a 24 de Junho de 2007.
Ambos os eventos irão decorrer no Centro Português de Fotografia, instituição situada no edifício da antiga cadeia da relação, local onde estiveram detidas várias figuras marcantes da cultura portuguesa, como são os exemplos de Camilo Castelo Branco e do ensaísta e professor universitário, Óscar Lopes, detido naquele estabelecimento pela polícia política. Está já confirmada a presença de vários dos ex-presos políticos que figuram na obra.
O livro e a exposição «POR TEU LIVRE PENSAMENTO» são o resultado de 25 entrevistas efectuadas a igual número de ex-presos políticos, por dois jovens sem qualquer memória pessoal do período em questão, que pela sua acção de luta contra o Estado Novo e em prol da implementação da Democracia em Portugal, viveram experiências de privação de liberdade e maus tratos nas prisões do fascismo.

Uma das lamentações que os nossos entrevistados mais transmitiram foi o facto de, na sua opinião, Portugal ser 'um país sem memória'. Se com este modesto contributo conseguirmos dar um pouco a conhecer o que era viver no Portugal de há poucos anos atrás, e lutar pela sua transformação num país melhor, a nossa tarefa está cumprida. Rui Daniel Galiza - Textos
Exactamente um ano, um mês e um dia antes de a 'Grândola Vila Morena' passar no Rádio Clube Português e os militares saírem à rua, morreu uma pessoa que marcou a minha vida, apesar de nunca o ter conhecido pessoalmente: o meu avô materno, Guilherme da Costa Carvalho. Ele foi o protagonista de várias histórias que ouvi, todas elas recheadas de detalhes das suas peripécias – as fugas de Peniche e Caxias, o paludismo que apanhou no Tarrafal, onde passou períodos na 'Frigideira'. João Pina – Fotografia

Disponível nas livrarias a partir de 18 de Abril, com um preço de capa de €30, «Por Teu Livre Pensamento» é um projecto que pretende dar maior visibilidade a factos e figuras da história recente de Portugal, factos e figuras essas que parecem simultaneamente tão próximas e tão distantes da memória colectiva de todos nós, principalmente das gerações que os sucederam, para quem a democracia e a liberdade são factos consumados.
Para que não se esqueça.

Para informações adicionais contactar, P.F.:
Vasco David –
vasco.david@assirio.pt
Duarte Azinheira –
duarte.azinheira@assirio.pt
Telef.: 21 3583030

Data: Sábado, dia 21 de Abril, às 16:00H.
Local: Centro Português de Fotografia
Antigo edifício da Cadeia da Relação
Campo Mártires da Pátria
4050-368 Porto
"

ADENDA- cabe tb. registar aqui a lista dos 25 ex-presos políticos antifascistas homenageados nesta obra:
AIDA MAGRO
ALBERTINA DIOGO
ANTÓNIO TERESO
CARLOS BRITO
CARLOS COUTINHO
CONCEIÇÃO MATOS
DIAS LOURENÇO
EDMUNDO PEDRO
EMÍDIO GUERREIRO
ERNESTO PEREIRA
EUGÉNIA VARELA GOMES
ILÍDIO ESTEVES
ISABEL DO CARMO
IVONE DIAS LOURENÇO
JOÃO VARELA GOMES
JOSÉ MÁRIO BRANCO
LIGIA CALAPEZ
MANUEL PEDRO
MANUEL SERRA
MARIA LUISA CABRAL
NUNO TEOTÓNIO PEREIRA
PEDRO BAPTISTA
SALDANHA SANCHES
SÉRGIO VILARIGUES
SOFIA FERREIRA

quinta-feira, 5 de abril de 2007

O saudoso tempo do fascismo - introdução ao riso e à memória

Este é decididamente um mês de boa colheita para a memória da luta pela liberdade.
Ainda a 10 de Abril será lançado o livro de memórias O saudoso tempo do fascismo - introdução ao riso e à memória, de Hélder Costa, na sede da Associação 25 de Abril, em Lisboa, às 18h30.
Em jeito de introdução à leitura do livro do dramaturgo, encenador e director do grupo de teatro A Barraca, deixa-se aqui um excerto do respectivo prefácio, por Urbano Tavares Rodrigues:
"Poderia ser quase uma autobiografia meio humorística, mas Hélder Costa preferiu falar da sua geração. (...)
E depois a Lisboa dos anos sessenta, as greves na Universidade, antecipando o Maio francês de 68, os primeiros passos de emancipação das raparigas, o erotismo em frente comum com a luta política. (...)
Neste livro convivem a todo o momento a crítica e a mofa, armas de ataque do autor, com a lembrança simples, por vezes à beira da emoção, de gestos heróicos levados a rir, em que a ideologia, a dignidade e adrenalina do risco se dão as mãos. Tudo isto numa galopada de juventude estudante, como no capítulo dedicado a Campo de Ourique ou em múltiplas referências à fraternidade desafiante, ao amor e à ternura que enchiam as algibeiras deste revolucionário andante, vozeador que, espalhando brasas, também colecciona a amizade".

Sob Céus Estranhos



O Livro Sob Céus Estranhos - Uma História de Exílio de Daniel Blaufuks tem o seu lançamento marcado para o próximo dia 10/04, às 18,30, na Fnac Chiado.

Após a apresentação do livro por Richard Zenith, será projectado o filme com o mesmo nome.

Daniel Blaufuks nasceu em Portugal em 1963.

A partir de 1987 frequentou o curso de Fotografia do Centro de Arte e Comunicação Visual (Ar.Co.) e, na década de 90, prosseguiu os seus estudos no Royal College of Art em Londres e no Watermill Center de Nova York.

Começando por exercer a sua actividade como freelancer em diversas publicações portuguesas, distanciou-se progressivamente do fotojornalismo.

Fez a sua primeira exposição individual na Galeria Ether depois de receber o “European Kodak Award”, em 1989.

Posteriormente, publicou um conjunto de Séries Fotográficas:

My Tangier, 1991
Cinema Paraíso, 1991
London Diaries, 1994
Uma viagem a São Petersburgo, 1998
Andorra, 2000
Lisboa, Pessoa, Exílio, Saramago, 2001

Já este ano, conquistou o Prémio BES Photo 2006, a maior distinção nacional para a Fotografia, com um trabalho realizado sobre o Campo de Concentração nazi Theresienstadt, hoje situado na República Checa.

Leo Spitzer, Professor de História do Darthmouth College, apresenta assim o Livro:

"Sob Céus Estranhos é uma meditação evocativa e poética sobre a experiência dos refugiados da Europa Central e sobre um sentimento de dispersão em trânsito na cidade de Lisboa e nos seus arredores.
É uma descoberta comovente, positivamente modesta e humana do espaço, do tempo e do desenraizamento, transmitidos de geração em geração, dos avós que partiram da Alemanha para Portugal, para os pais, para o neto. Poucos refugiados permaneceram em Portugal depois de a guerra acabar, mas os avós de Blaufuks, ao contrário de tantos outros, decidiram não seguir viagem nem voltar para a Alemanha.
Tendo crescido em Lisboa, no quinto andar do mesmo prédio onde moravam os seus avós, Daniel Blaufuks viveu a infância num universo de vestígios dessa experiência dos refugiados - um mundo de alusões, fotografias, alguns objectos, comidas, costumes e memórias que não eram as suas, mas que acabaram por o atrair e marcar de forma indelével.
Utilizando algumas dessas reminiscências, bem como filmes da época e de família, excertos de memórias e textos de refugiados, relatos de família e materiais de arquivos europeus e americanos, Blaufuks oferece-nos um vívido documento com uma bela imagem sobre um momento significativo da história do século XX.
O resultado - belo, delicado - é testemunho de uma importante, ainda que muitas vezes menosprezada, verdade. Apesar da sua natureza imperfeita, apesar da sua incapacidade para captar e comunicar a experiência através da memória, a transmissão entre gerações é envolta em valores e em lições que podem efectivamente passar de pessoa para pessoa, de geração para geração, através dos tempos."

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Na noite em que Salazar "ganhou", na votação, da televisão pública

Publicamos hoje um texto de Irene Pimentel, historiadora e activista do movimento Não apaguem a Memória!, que nos revela os bastidores do concurso da RTP1, «Os grandes Portugueses». Por ele ficamos a saber os pormenores rocambolescos deste programa de má memória. O registo, irónico, faz juz à boa tradição lusíada, e adequa-se que nem ginjas ao tema. Boa leitura!
"Caindo num logro, achei que tinha tido a 'sorte' de ser convidada para a «grande gala», onde “tudo” ficaria decidido: ou seja, ia-se decidir quem era o maior português de sempre (em 25/3/2007). Iria finalmente – pensava – contribuir para contraditar, nem que fosse um pouco, o pensamento único. Ingenuidade e omnipotência! É certo que, após muito hesitar – é verdade –, decidi que talvez valesse a pena intervir, nem que fosse durante 45 segundos, para lançar uns pós de contraditório. Já agora, de História, num programa sobre figuras históricas, que se caracterizou por evacuar precisamente… a História. Era um concurso, mas um concurso é um concurso, é um concurso…, na televisão pública.
Tive, porém, o cuidado, ao chegar ao estúdio, de me informar se iria realmente intervir. Foi-me assegurado que sim, fui à caracterização, e colocaram-me num determinado local. Primeiro aviso: tinha sido remetida para os “apoiantes” de Vasco da Gama. Vim, depois, a perceber, pela localização, que, sabendo que ele ficaria em último lugar, era o local de onde nem valeria a pena falar. É certo que devia ter percebido e ido embora. Afinal tinha sido convidada, para estar sentada (diga-se que muito inconfortavelmente), durante três horas, para assistir – caladinha – à grande decisão, qual personagem do filme Laranja Mecânica (do Kubrick), obrigada a ver tudo, impossibilitada de fazer zapping!
Reconheço que me deixei manipular pela RTP – televisão pública – para a qual, como todos os portugueses (que pagam impostos), desconto. Tinha sido abordada, há cerca de uns meses, para dar alguns depoimentos sobre personalidades públicas da História de Portugal, para um programa da RTP, que me pareceu, tal como me explicaram então, um programa em forma de concurso, que teria a oportunidade de divulgar figuras históricas portuguesas, ao grande público. Público tão arredado da História, para não falar da memória, relativamente a tempos mais recentes. Gravei depoimentos sobre Álvaro Cunhal, Oliveira Salazar, Humberto Delgado, José Afonso e Aristides de Sousa Mendes, se bem me lembro. Recordo-me de ter discutido então sobre a presença de Salazar (que estava programada) e de ter sido colocada a questão de ele poder ganhar. Mais uma razão – pensei –, para fazer um depoimento sobre ele (que realmente fiz).
Depois, surgiu, uma mini polémica, em resultado de ter havido da parte da RTP a ideia de não colocar Salazar e Caetano à votação, à semelhança do que havia acontecido na Alemanha e em França, respectiva e relativamente a Hitler e a Pétain. Pareceu-me estranho, pois eu própria tinha gravado um depoimento sobre o ditador português, e achei que dali resultava um efeito perverso – desejado ou não – que tinha o condão de fazer do omnipotente presidente do conselho de ministros uma vítima… da Censura, caso ele não fosse incluído nas personalidades que iriam ser sujeitas ao “voto” dos “portugueses”. Parece que houve uma mobilização de salazaristas e de apoiantes de Álvaro Cunhal!
Passou o tempo… Pensei que o concurso não tinha grande audiência, os debates eram mornos, cá fora pouco se falava dele, a não ser com alguns picos de excitação, regulada pelos métodos de marketing. Mesmo assim, era um concurso, um concurso… e, para não haver batota, haveria certamente contraditório. Eis que surgem, em Lisboa (não sei se pelo país) cartazes referendários, a branco e preto (não me refiro à cor, mas à tonalidade da mensagem), dicotómicos e destinados a excitar e a fazer sangue: «Salazar, ditador? Ou salvador». O primeiro adjectivo era um pleonasmo, o segundo não se percebia: salvador de quê? do seu próprio regime?
Cá fora, as pessoas começaram a estranhar, uns com maior ou menor revolta, a grande maioria com indiferença. Era um concurso, um programa de entretenimento, dizia-se, com a vantagem de difundir, ao grande público, personagens históricas. Uns davam o benefício da dúvida, outros consideravam o programa inócuo, uma vez que Salazar estava bem morto e enterrado. Muitos, entre os quais me incluo, desvalorizaram e enganaram-se. Outros acertaram e disseram que o programa era um disparate e passaram à frente.
Depois, foi a escolha de quem defendia as personagens. As mais polémicas ficaram a cargo de defensores, apoiantes ideológicos das mesmas. Tudo a bem do espectáculo, do circo e da dicotomia, para acentuar o voto militante. Vieram então os programas hagiográficos sobre as figuras. Tanto mais hagiográficas quanto se aproximavam dos tempos recentes. Ressalve-se o programa sobre Aristides de Sousa Mendes, cujo momento histórico teve cerca de uma semana, e com quantas consequências! Salvou vidas humanas. Devo dizer que não vi todos os documentários, por isso, só me posso referir aos relativos a Aristides, Cunhal e Salazar.
O elogio a Salazar tinha imagens de arquivos – conhecidas – e Jaime Nogueira Pinto, propagandeando, sem a criatividade estética de António Lopes Ribeiro, na Revolução de Maio, o regime salazarista. Todos os lugares comuns presentes: o homem que equilibrou as Finanças, que defendeu a nossa independência nacional, ao apoiar os golpistas militares em Espanha, e que nos salvou da II Guerra Mundial. Evidentemente omitindo que qualquer um equilibra as Finanças, eliminando toda a oposição, as greves, as manifestações, e ocultando-a através da Censura.
Mas o melhor estava para vir! Foi o espectáculo mais aborrecido ao qual jamais assisti! Felizmente, o que ia ouvindo contribuía para enervar bastante, para manter qualquer pessoa acordada. Havia um senhor que elogiava o facto de ele próprio gostar de mulheres. Alguém assegurava que Fernando Pessoa não era alcoólico nem homossexual. Um político da Direita portuguesa lamentava que o século XX português tivesse sido triste, talvez – só talvez – para revelar que não iria fazer a mesma coisa que Salazar. Entretanto, qualquer amante de história, atento aos anacronismos, sabe que Salazar só há um e que nada se repete da mesma forma.
Um falava das crueldades de antanho, reduzindo a Inquisição portuguesa à brandura dos nossos costumes. Um senhor jornalista da assistência defendia o primeiro rei de Portugal, arengando as massas a votarem nele, graças ao qual Portugal era este país extraordinário, de onde saíram os valorosos filhos que, na véspera, tinham goleado, por 4 a 0, outros – neste caso flamengos –, mostrando à Europa de que massa somos feitos.
Mais uma vez o melhor estava para vir. O defensor de Salazar, sem tempo para fazer o trabalho de casa, repetiu o que já havia dito no tal filme de propaganda, sem a estética estado-novista: que ele tinha sido um ditador, mas também um «líder», que, esse sim, tinha congregado toda a direita e domesticado as Forças Armadas (os quadros intermédios), que nunca tinha sido corrupto, que nascera e morrera pobre, num país seguro. Se houvesse contraditório, alguém poderia ter dito, entre outras coisas, que houve os ballets roses, que o ditador sabia bem que o que parece às vezes é, e que, por isso, basta instaurar a censura e, como por milagre, desaparecem todos os conflitos, a corrupção, os crimes, os suicídios. Que tivemos uma guerra colonial em três frentes, durante treze anos, sorvedoura de uma geração portugueses, forçados ao serviço militar obrigatório. Já agora…. Que dizer do argumento de Nogueira Pinto, segundo o qual se pode agradecer a Salazar ter feito uma guerra colonial em três frentes, pois contribuiu com isso a formar uma identidade nacional, que possibilitou a criação de países africanos?
A omissão, que é a arma dos mal-intencionados não parou aí. Não se ouviu, durante toda a noite, da parte do defensor do ditador, inúmeras palavras: por exemplo, PIDE/DGS, tortura, assassinato, despedimento por razões políticas, campos de concentração, miséria, falta de educação, «orgulhosamente sós», «viver naturalmente», a mordaça à criatividade, informadores da polícia, provincianismo. E sobretudo, hipocrisia e duplicidade! Perdão, para ser justa, o defensor encontrou um defeito no ditador: nos últimos anos do seu regime, não ouviu o povo! E, assim, se deu lugar à complexidade da personagem.
No programa, assistiu-se também à suprema ironia de o defensor de Salazar tentar eliminar, com batota (qualquer concurso a tem, pelos vistos), um adversário. E aqui, é mais grave, pois sai-se do terreno da ideologia, que qualquer um tem o direito de defender, em democracia, para a falsidade. Jaime Nogueira Pinto inventou o número de um milhão (porque não dois milhões, ou meio milhão, sempre era mais credível) de refugiados que Salazar teria salvo, durante a II Guerra Mundial. Então, porque puniu Sousa Mendes, acusando-o de desobedecer às suas ordens ao dar vistos a apenas alguns milhares de perseguidos do nacional-socialismo? Na realidade, o Estado Novo teve de deixar entrar, em Portugal, os refugiados com vistos de Sousa Mendes, porque a Espanha os recusou de volta. Houve fugidos ao nazismo, em Portugal, apesar de Salazar e porque, quando os destinos da guerra se viraram para o lado dos Aliados, o ditador viu o que tinha a ganhar com uma postura de neutralidade colaborante.
No final, não faltaram os analistas políticos, alguns dos quais surgiram no seio dos defensores. Um deles – defensor do Marquês de Pombal – aproveitou para dizer que Salazar “ganhou” porque tudo em Portugal estava muito mal. Embora não o dissesse, percebia-se que se referia ao próprio regime. Agora a sério: esse regime é o regime democrático. Com todos os seus erros, temo-lo, e é incomensuravelmente melhor que a ditadura. Até porque em democracia, podemos criticar, sugerir lutar contra o que não gostamos. No programa da RTP, houve vozes contra o regime democrático. É próprio da democracia. Mas também convém que alguém a defenda, num instrumento que é pago pela mesma.
Aproveitando o facto de ter estado 'calada' a assistir, vou relatar algumas coisas que vi. Odete Santos estava lá para gáudio dos espectadores. Num registo conhecido e inadequado – por isso terá sido escolhida –, interveio e foi gozada e achincalhada. Da bancada dos “salazaristas” (defensores de Salazar), havia risos ostensivos e achincalhantes de quem nem num concurso se sabe comportar. Prestou-se a isso, mas um mínimo que se exigia da televisão pública é que as pessoas convidadas não fossem alvo de chacota. Quando o defensor do Marquês de Pombal, exactamente no mesmo registo – melhor dito, mais num registo utilizado, em tempos, com mocas –, fez a sua “análise” final, ninguém pestanejou, talvez porque a sua intervenção tenha sido então considerada a de um “analista político”. Depois do final do programa, assisti a 'fogosos' jovens, 'amantes de história', na sua 'juventude' a gritarem palavras de ordem (gritavam «JSD», JSD», entre outras coisas), aproveitando mais uma vez… para dizer coisas sobre Odete Santos.
Ao meu lado, estavam muitos colaboradores do concurso, que com trabalho de qualidade intervieram no mesmo, e vi desânimo e desalento, até revolta, com o resultado final. Alguém, que fez, aliás, um excelente documentário, dizia «mais valia que não se tivesse feito este concurso». Pois é, foi uma irresponsabilidade da televisão pública do Estado, com a qual eu própria colaborei!
Irene Pimentel, historiadora
P.S. Já agora, também na televisão pública (por isso nem tudo está perdido), poder-se-á assistir a uma série de excelentes documentários, da autoria de António Barreto e de Joana Pontes. Foi também na RTPN (programa «Choque ideológico») que assisti, em 26 de Março, a uma excelente intervenção sobre este concurso, do advogado Carlos Abreu Amorim, acerca da forma como uma certa direita “liberal” se envolveu em blogues, na defesa do ditador anti-liberal, deixando cair a máscara. Sugiro ao Público que o entreviste. Foi até agora a melhor análise sobre como está a ser feita, por alguns, a História da I República Portuguesa e a ascensão de Salazar ao poder."

terça-feira, 3 de abril de 2007

Jantares-convívio do 25 de Abril

No âmbito das celebrações do 25 de Abril irão realizar-se na capital dois importantes jantares-convívio.
O 1.º é no próximo dia 20, às 20h, no Espaço Ribeira (sito no Mercado da Ribeira). É a sua 5.ª edição e da Comissão Promotora fazem parte vários membros do movimento Não apaguem a Memória! (tels. de contacto: 213474098 - livraria do restaurante; 914548986 - Júlia Coutinho). A sessão contará com as intervenções públicas dos activistas do movimento arq.ª Helena Roseta e «capitão de Abril» Martins Guerreiro, além doutros membros da Comissão Promotora. José Afonso será evocado.
O 2.º jantar-convívio é o da Associação 25 de Abril, que arranca às 19h do dia 24, na FIL- Parque das Nações (tel. 213241420; +contactos aqui).
Nb: para ver o programa do jantar-convívio é favor clicar na imagem.

No país da retórica maniqueísta

O pretexto deste post é a retórica como desporto favorito de certos espíritos sérios da praça.
Pacheco Pereira – já não é novidade, eu sei– saiu a terreiro no sábado para mais uma das suas investidas moralizantes da grei (vd. «Hábitos velhos e relhos», Público). Do alto dos pensamentos perfeitos e da mais fina retórica, o famoso dirigente do PSD resolveu equivaler o “salazarismo difuso” com o “politicamente correcto” de esquerda, onde se esforça por incluir todos os “«democratas»” (sic) que pensam de modo diverso do seu.
Diz Pereira que um cartaz racista e xenófobo do PNR não deve ser motivo de indignação e de reprovação, mesmo que a Constituição da República Portuguesa proíba organizações racistas e fascistas. Aduz que assim se lhe deu publicidade a mais, esquecendo-se que fez o mesmo com o seu artigo de opinião.
E parte daí para as suas habituais profissões de fé anti-esquerda, neoliberal e de americanismo primário, misturando alhos com bugalhos com o propósito retórico de tornar certas posições que lhe desagradam repulsivas.
Já do apoio parlamentar quase unânime dado na véspera à petição do movimento cívico Não apaguem a Memória! nem uma linha. Percebe-se: é que falar seriamente sobre políticas da memória, políticas museológicas, arquivísticas e científicas dá muito trabalho.
Ainda por cima quando a sua colega no hemiciclo, Zita Seabra, abalroou a ideia de preservar a memória da ditadura (e, de caminho, o consenso de vários países europeus), alegando uma suposta partidarização da memória, quando foi a própria que partidarizou a questão. Com efeito, o único deputado a opor-se foi Zita Seabra, assim ultrapassada pelo próprio CDS, que adoptou uma posição sensata. Seabra diz que o PCP usa esta memória para o jogo político, deixando passar a ideia (voluntariamente ou não) de que o Não apaguem a Memória! está ligado ao PCP, quando sabe perfeitamente que o movimento é apartidário. É claro que disto não convém a Pacheco Pereira falar. Mais vale dar umas piruetas e assobiar para o lado.
Deslocando a questão para um uso tenebroso da memória recente pelo PCP, este tipo de posicionamento esquiva-se a ter que indagar a falta de questionamento no trinténio democrático sobre o que foi a ditadura e que mensagem cívica, política e cultural pretendemos legar. E, deste modo, acaba por anular o próprio pluralismo de que se faz arauto defensor: é que há várias políticas da memória, várias memórias colectivas e também uma memória pública a construir resultante da mistura das restantes. Ora, apontar baterias numa direcção omitindo e/ou desvalorizando o que se passa à volta – tanto em termos de maus exemplos como de propostas válidas na mesa – não será um mau serviço prestado ao aprofundamento democrático, à pedagogia cívica, ao pensamento crítico e construtivo?

domingo, 1 de abril de 2007

Discussão da Petição do Movimento



Conforme previsto, foi feita no dia 30, na Assembleia da República, a discussão da nossa Petição.

Do que ocorreu no Plenário, transcrevemos um texto do nosso companheiro António Melo que resume o que lá se passou:

"A Petição apreciada na AR pelos deputados

A votação formal ainda não tem data marcada, mas as intervenções feitas pelas diversas bancadas parlamentares, ao fim da manhã da passada sexta-feira, deixam perceber que a Petição apresentada pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! vai ter um acolhimento esmagadoramente favorável, quiçá unânime por parte do parlamento.

Coube ao deputado socialista João Soares iniciar as intervenções e fê-lo começando por elogiar o autor do parecer que a Petição do Movimento mereceu à comissão de Direitos, Liberdades e Garantias. O trabalho do deputado Marques Júnior, dele se trata, à semelhança da Petição, teve referências elogiosas de todos os intervenientes, mesmo de Zita Seabra (PSD), a única a emitir reservas quanto à oportunidade política da celebração e preservação da memória da resistência, para lá do círculo reservado dos historiadores.
Ao longo das 25 páginas do parecer, Marques Júnior retraça, além do processo que deu origem à Petição, a própria história do Movimento, comentando com pormenor os seus objectivos. Nas conclusões, em que trata das recomendações ao Governo, realça a importância do apoio “a programas de musealização”, dando como exemplo “a constituição de um Museu da Liberdade e da Resistência”, provavelmente na antiga prisão do Aljube, no centro histórico de Lisboa, bem como “a constituição de Roteiro nacional dos lugares e de edifícios”, que têm um valor histórico e simbólico no combate da resistência antifascista.
De resto, convém desde já assinalá-lo, o próprio ministro Augusto Santos Silva, na intervenção final, acolheu estas recomendações e falou da importância da sua realização mesmo em termos de cumprimento da acção governativa.
Voltando ao deputado João Soares, este fez uma breve evocação do que foi a resistência, focando particularmente a repressão que se abateu sobre os seus militantes, mencionando vários deputados que tinham sofrido a tortura da PIDE/DGS e conhecido as prisões do Estado Novo. Neste ponto, endereçou uma saudação especial a um dos membros do Movimento, que na galeria dos visitantes assistia ao debate parlamentar – Edmundo Pedro.
A presença deste antigo tarrafalista foi também assinalada pelo deputado Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda, e, mais tarde, pelo ministro, quando recordou à câmara de deputados ali presente, que sem a coragem e determinação de resistentes como Edmundo Pedro, não seria possível eles lá estarem.
O deputado comunista Bernardino Soares, na intervenção que se seguiu, evidenciou o papel do PCP na resistência ao Estado Novo e sublinhou que foi o único partido que permaneceu íntegro, sem desfalecer, na causa da liberdade “durante os 48 anos da longa noite fascista”. Pôs em evidência as tentativas recentes, vindas de diversos sectores, de “branqueamento” desse tempo ditatorial e, por isso, enfatizou a importância de ao nível dos programas de ensino se desenvolver uma intervenção mais ousada e decidida, para que a juventude saiba o que foi a censura, a repressão policial, a miséria social desse período da história portuguesa do século XX.

Nota discordante de Zita Seabra

A única nota discordante, mais no tom do que na substância, no conjunto das declarações parlamentares, veio da deputada Zita Seabra, em representação do PSD. Depois de um período inicial em que louvou as “meritórias intenções” do Movimento bem como do parecer de Resolução em análise, acrescentou um “no entanto...”. A partir daí derivou para um registo subjectivo, de onde ressaltou a sua experiência como resistente clandestina na luta pelo derrube do Estado Novo, quando era militante comunista, para concluir que nessa matéria ninguém lhe poderia dar lições de heroísmo. Passou daí para um registo de reflexão pessoal sobre o exercício da memória, para concluir que era muito errado essa memória ser utilizada como “arma de arremesso político” pela esquerda contra a direita. Por tudo isso, ela entendia que as questões relacionadas coma memória histórica deviam confinar-se ao âmbito de estudo dos historiadores, mas sem explicar qual seria então o papel desses estudos e a quem eles se deviam dirigir.
O deputado centrista João Rebelo, que se lhe seguiu, também ele algo perplexo com esta intervenção sem conclusão, abriu com uma dupla mensagem de congratulação: para o Movimento e para a deputado Marques Júnior, autor do parecer, como se disse. Deixou claro que este parecer merecia o seu apreço pela maneira sóbria e factual com que fora redigido, não deixando de manifestar a sua discordância, em contrapartida, por algumas formulações da Petição, em concreto a de considerar que a preservação da memória podia ser impeditiva da construção de um novo edifício na Rua António Maria Cardoso, no espaço onde, durante algum tempo e num certo espaço existiu a sede da polícia política do Estado Novo. Mas, no conjunto, aceitou os princípios que presidem à acção do Movimento, sobretudo enquanto escola de democracia “e se tenha a noção de que a história não é propriedade de ninguém”.
Fernando Rosas, deputado e historiador, fez uma saudação à delegação do Movimento, presente nas galerias, com uma especial distinção para Edmundo Pedro. Falou do projecto que o Movimento veio suscitar nas suas várias vertentes de investigação, preservação e divulgação da resistência antifascista e do seu do papel libertador, social e político na sociedade portuguesa. Acrescentou que esse projecto mereceria, provavelmente, mais uma Lei-quadro do que uma simples recomendação, mas não deixou de apoiar o parecer de Resolução que estava em discussão.
O deputado dos “Verdes”, Francisco Madeira Lopes, afirmou o seu apoio de princípio à resolução e pôs a tónica na responsabilidade que cabe ao parlamento e ao governo na concretização dos objectivos que constam do parecer elaborado por Marques Júnior, na preservação da memória da resistência à ditadura.
O ministro Augusto Santos Silva encerrou o debate com uma intervenção de franco e favorável acolhimento da Resolução e da Petição. Esta última referência serviu-lhe para a situar historicamente na vida do Movimento, nascido com o dia da indignação – 5 de Outubro de 2005. Foi nesse dia que um grupo de cidadãos se reuniu na Rua António Maria Cardoso, em protesto contra o desaparecimento, sem qualquer registo de inscrição, da antiga sede da tenebrosa PIDE, substituída por um condomínio de luxo.
Numa intervenção que foi de resposta – senão de esclarecimento – à de Zita Seabra, explicou que essa indignação inicial dera lugar a uma reflexão sobre as intervenções necessárias junto dos poderes públicos e da sociedade em geral, para que a história dos que combateram a ditadura, entre os quais a própria deputada, não passasse de letra morta em livros de leitura distante. Pôs a tónica na necessária luta que a democracia tem em permanência contra a ditadura e lançou sobre os deputados de um parlamento democrático a responsabilidade dessa tarefa. “Sem o combate contra ditadura” a Assembleia da República não seria possível, recordou o ministro. Santos Silva advertiu contra o perigo de se generalizar uma experiência pessoal, com o que ela tem de subjectivo e dramático, arrastando nela juízos preconceituosos e datados por determinada conjuntura, que podem prejudicar o apoio a um projecto com o qual até se concorda.
Santos Silva não foi o único a interpelar, mesmo se indirectamente, a deputada Zita Seabra. Já antes Fernando Rosas, pegando na ideia de confinar o estudo da memória aos historiadores, se pronunciara sobre o erro de se defender uma “história neutra”, o que de algum modo seria defender um modelo de história oficial, que exclui o útil confronto de uma historiografia pluralista nas suas abordagens e perspectivas.
No final, ficou a impressão de que a intervenção da deputada Zita Seabra fora mais um ajuste de contas com fantasmas do seu passado político, do que uma posição do seu actual partido para com a Resolução, que se espera seja votada, sem abstenções, por todas as bancadas parlamentares.
"

O Não Apaguem a Memória!, deseja salientar o extraordinário trabalho realizado pelo deputado Marques Júnior, relator da Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias, que proporcionou esta discussão. Entre muitos aspectos, é de realçar o relato feito relativo às acções já realizadas pelo Movimento.

Aproveitamos para as relembrar:

Principais acções empreendidas – de Outubro 2005 a Março de 2007

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! nasceu de uma acção de protesto realizada no dia 5 de Outubro de 2005 por um grupo de cidadãos indignados com a demolição do antigo edifício-sede da polícia política fascista portuguesa, a PIDE, e sua substituição por um condomínio fechado, sem que nele figurasse uma adequada menção à memória do sofrimento causado aos portugueses pelo regime ditatorial que vigorou durante quase 50 anos.

Desta iniciativa cívica resultou um vasto movimento de cidadãos, democrático, plural e aberto, motivado pela exigência da salvaguarda, investigação e divulgação da memória da resistência antifascista, que considera ser a preservação condigna desta memória responsabilidade do Estado, do conjunto dos poderes públicos e da sociedade.

Um das primeiras iniciativas do Movimento foi a de organizar uma petição nacional, que alcançou o número de 6.007 subscritores (4.810 por subscrição directa do abaixo-assinado e 1.198 por adesão electrónica) – entre eles os antigos Presidentes da República, Jorge Sampaio e Mário Soares – e que foi entregue a 27 de Julho de 2006, na Assembleia da República por uma delegação do Movimento. A petição foi encaminhada pelo presidente da Assembleia da República à Comissão Parlamentar de Direitos Constitucionais – Direitos, Liberdades e Garantias, que a integrou nos seus trabalhos e nomeou o deputado Marques Júnior para seu relator.

De forma a poder apresentar os seus objectivos e concretizar projectos que configurem um Roteiro Nacional da Memória da Resistência e da Liberdade, o Movimento realizou audiências com todos os grupos parlamentares no sentido de os motivar para apoiar os objectivos contidos na Petição então apresentada.

Dentre as acções desenvolvidas deve ser citada a visita organizada ao Forte de Peniche, no dia 1º de Abril de 2006, outro dos presídios onde a ditadura do Estado Novo encerrava os seus opositores políticos no desrespeito absoluto aos mais elementares direitos humanos.

Assinale-se, ainda, a negociação em curso com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e com o promotor imobiliário da Rua António Maria Cardoso, que já manifestou, em carta enviada ao Movimento, a intenção de disponibilizar um espaço no condomínio, onde se inscreva a memória dos resistentes no seu combate pela liberdade e democracia e a referência histórica ao uso da repressão e tortura por parte da polícia política do regime. Foi dado conhecimento à CML da constituição de Grupo de acompanhamento do projecto museológico, formada pelo designer Henrique Cayatte, pelos arquitectos Nuno Teotónio Pereira, Raul Hestnes Ferreira e Rui Pimentel, pelo engenheiro Fernando Vicente e pela historiadora Irene Pimentel.

Merece, também, destaque a acção realizada pelo Movimento, no dia 1º de Julho de 2006 junto ao antigo presídio do Aljube, que reuniu mais de 200 pessoas e contou com a presença de muitos antigos presos políticos. O presídio do Aljube é dos principais paradigmas da repressão exercida sobre a população portuguesa pela PVDE/PIDE/DGS. Pelos “curros” do Aljube passaram, anos a fio, os cidadãos que apenas lutavam pela conquista dos direitos democráticos.

Por tal razão, entende o Movimento que este é um local de eleição para aí ser instalado um Museu da Resistência e Liberdade. A audiência havida com o ministro da Justiça, Alberto Costa – ele próprio um antigo preso político – abre perspectivas promissoras neste sentido.


Justifica-se, também, mencionar a audiência havida com o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, que se realizou no dia 10 de Agosto de 2006. O ministro evidenciou a disponibilidade do Governo para dar seguimento à Resolução que a Assembleia da República vier a aprovar, na sequência do debate parlamentar, sobre a Petição apresentada pelo Movimento (debate que teve lugar no passado dia 30 de Março). Santos Silva afirmou ainda a vontade governamental em acompanhar as iniciativas do Movimento, designadamente sempre que a propriedade dos imóveis fosse do Estado. Deu como exemplos o Tribunal da Boa-Hora e o Aljube, em Lisboa, o Forte de Peniche, nesta cidade litoral, e a antiga sede da PIDE/DGS, no Porto.


Não pode deixar de ser igualmente referido o Manifesto do Núcleo do Movimento no Porto, o qual, entre os objectivos que estabelece em prol da salvaguarda da memória da luta antifascista, coloca a criação de um Museu da Resistência ao Fascismo, a ser instalado na antiga sede da delegação do Porto da PVDE/PIDE/DGS. A saída do Museu Militar, noticiado pela imprensa, que actualmente ocupa essas instalações, cria, por certo, condições facilitadoras para concretizar este projecto.

Importa, ainda, referir o primeiro objectivo histórico alcançado pelo Movimento, com a afixação, no dia 6 de Dezembro de 2006, de uma lápide no Tribunal da Boa Hora, evocativa do que foi a ignomínia e iniquidade dos “tribunais plenários”.

No início deste ano o Movimento empreendeu algumas iniciativas, dentre as quais cabe destacar a organização do Festival “Vozes ao Alto” momento de celebração das canções da resistência.
A 8 de Março, para assinalar o Dia Internacional da Mulher, teve lugar um colóquio sobre o tema “ A Mulher e a Resistência", com a participação de antigas resistentes, seguido de romagem a Coruche e ao Couço, a 10 de Março.

Para finalizar, lembremos as próximas iniciativas previstas:
- Colóquio na Ordem dos Arquitectos, na 1ª quinzena de Abril,
- Colóquio na Ordem dos Advogados, na 1ª quinzena de Junho, ambos para debater a temática relacionada com o espaço de memória a preservar na antiga sede da PIDE-DGS, na Rua António Maria Cardoso
- Participação no desfile do 25 de Abril, seguido da manifestação de protesto e apelo à preservação da memória na Rua António Maria Cardoso.

O Movimento Não Apaguem a Memória! consciente de que devem ser mobilizados todos os esforços para tornar exequíveis os projectos referidos, pese embora o seu carácter cívico, plural e autónomo, tem procurado manter diálogo com diversas entidades que prosseguem finalidades similares, tais como a Associação 25 de Abril (na qual o Movimento tem a sua sede), a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) e a Fundação Mário Soares.

Março de 2007