Organizado pela Associação da Galiza de Vítimas do Genocídio Franquista, realiza-se de 8 a 12 de Outubro, em Ferrol, o O Congresso Internacional A Resistência da Galiza ao Franquismo:
PROGRAMA:
Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007
MANHÃ
9,30: Acto de Abertura com personalidades convidadas.
10,00: CONFERÊNCIA: Ferrol Derrota o Golpe de Mola: Os Cabos Republicanos da Armada.
10,45: Comunicações e Colóquio.
11,00: Pausa
11,15: CONFERÊNCIA: Benjamim Balboa.
12,00: Comunicações e Colóquio.
12,15: Pausa.
12,30: CONFERÊNCIA: Acontecimentos no «Libertad», «Cervantes», «Jaime I»: os Protagonistas.
13,15: Comunicações e Colóquio.
TARDE
16,00: CONFERÊNCIA: A Batalha de Ferrol, dias 20, 21 e 22 de Julho de 1936.
16,45: Comunicações e Colóquio.
17,00: Pausa.
17,15: CONFERÊNCIA: Ferrol franquista decissivo para a derrota da República.
18,00: Comunicações e Colóquio.
18,15: Pausa.
18,30: CONFERÊNCIA: os Verdugos Franquistas em Ferrol.
19,15: Comunicações e Colóquio.
19,30: CONCLUSÕES.
Terça-feira, 9 de Outubro de 2007
MANHÃ
10,00: CONFERÊNCIA: A Participação da Alemanha de Hitler na Guerra contra a República (tropas, frota, aviação, artilharia, blindados, Legião Côndor, etc.).
10,45: Comunicações e Colóquio.
11,00: Pausa
11,15: CONFERÊNCIA: Ferrol, Vigo, A Crunha, a Galiza bases nazistas durante uma década, 1936-46.
12,00: Comunicações e Colóquio.
12,15: Pausa.
12,30: CONFERÊNCIA: A Participação da Itália de Mussolini na Guerra contra a República.
13,15: Comunicações e Colóquio.
TARDE
16,00: CONFERÊNCIA: A Participação do Portugal Salazarista na Guerra contra a República.
16,45: Comunicações e Colóquio.
17,00: Pausa.
17,15: CONFERÊNCIA: A Participação dos EUA, GB, França, etc. na Guerra contra a República: financiamento, combustível, transporte, etc.; o Comité de Não Intervenção.
18,00: Comunicações e Colóquio.
18,15: Pausa.
18,30: CONFERÊNCIA: Franco desencadeia a II Guerra Mundial ?
19,15: Comunicações e Colóquio.
19,30: CONCLUSÕES.
Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007
MANHÃ
10,00: CONFERÊNCIA: A Solidariedade Internacional Não Governamental: as Brigadas Internacionais.
10,45: Comunicações e Colóquio.
11,00: Pausa
11,15: CONFERÊNCIA: A Solidariedade Internacional Governamental: URSS, México, etc.
12,00: Comunicações e Colóquio.
12,15: Pausa.
12,30: CONFERÊNCIA: O Tribunal Militar Internacional de Nuremberga (Mercedes Nunhez).
13,15: Comunicações e Colóquio.
TARDE
16,00: CONFERÊNCIA: O Tribunal Militar Internacional de Nuremberga: o Caso da Áustria.
16,45: Comunicações e Colóquio.
17,00: Pausa.
17,15: CONFERÊNCIA: O Tribunal Militar Internacional de Nuremberga: o Caso da Checoeslováquia.
18,00: Comunicações e Colóquio.
18,15: Pausa.
18,30: CONFERÊNCIA: O Tribunal Militar Internacional de Nuremberga: o Caso da República espanhola.
19,15: Comunicações e Colóquio.
19,30: CONCLUSÕES.
Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007
MANHÃ
10,00: CONFERÊNCIA: A Resistência Popular da Galiza.
10,45: Comunicações e Colóquio.
11,00: Pausa
11,15: CONFERÊNCIA: A Resistência Armada da Galiza (1936-1965).
12,00: Comunicações e Colóquio.
12,15: Pausa.
12,30: CONFERÊNCIA: A Resistência Política da Galiza.
13,15: Comunicações e Colóquio.
TARDE
16,00: CONFERÊNCIA: A Resistência Diplomática da Galiza.
16,45: Comunicações e Colóquio.
17,00: Pausa.
17,15: CONFERÊNCIA: A Resistência à Espoliação Económica da Galiza.
18,00: Comunicações e Colóquio.
18,15: Pausa.
18,30: CONFERÊNCIA: A Resistência Linguística e Cultural da Galiza.
19,15: Comunicações e Colóquio.
19,30: CONCLUSÕES.
Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007
10,00: A VOZ DAS VÍTIMAS DO FRANQUISMO e actos poético-musicais.
12,00: Roteiro em auto-carro pela cidade: Cantão, Arsenal, Escola Obreira, Ponte das Cabras, Alcampo, Trincheira, as Pedras de Carança, Vilar Quinte e Serantes com homenagem.
13,30: Entrega de Diplomas.
14,30: Comida-Festa de Fraternidade.
domingo, 23 de setembro de 2007
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Arte, poder e propaganda sob o autoritarismo europeu
O Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL vai realizar o seu XVII Curso de Verão, este ano subordinado ao tema «Arte e poder» (19-22/IX). No encontro, que decorrerá no auditório 1 da FCSH, serão abordados temas como «Fascismos e cultura (anos 30 e 40): culturas de Estado entre a modernidade e a rejeição da modernidade» (por Manuel Loff, FLUP: 19, 15h45) e «A criação musical nos regimes autoritários europeus no séc. XX» (por Manuel Deniz Silva, UNL: 21, 10h15). A programação pode ser consultada aqui.Paralelamente, ocorrerá o Seminário «Encontros a Sul», este ano dedicado às «Retóricas do poder - arte e propaganda nos fascismos da Europa do Sul» (20-22/IX), também na FCSH. Neste encontro internacional serão abordados assuntos como as «Políticas sociais e políticas de 'xénero' no franquismo: propaganda, control social e busca do consentimento» (por Daniel Lanero Táboas, Univ. Santiago de Compostela: 21, 18h20) e «Análisis del discurso de los delatores en los 'procesos judiciales' de la represión franquista» (por Angel Rodríguez Gallardo, Univ. Vigo: 21, 19h). A programação pode ser consultada aqui.
NB: a comunicação de Angel Rodríguez Gallardo foi antecipada de sábado para 6.ª feira.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Chile - 11 de Setembro de 1973
Salvador AllendeA 11 de Setembro de 1973 o regime democrático chileno caiu e uma sangrenta ditadura foi instaurada.
Augusto Pinochet, o rosto da ditadura militar responsável pela morte de mais de 3.000 pessoas e um número ainda não apurado de desaparecidos, morreu no final de 2006.
Passados estes 34 anos, publicamos um notável artigo da Revista brasileira Veja sobre os acontecimentos.
A nossa Memória também se faz com a Memória dos outros:
Violência e golpe em Santiago
Como a sangrenta subida ao poder dos militares chilenos liquidou Allende e seu socialismo
"Tencha, a situação tornou-se grave. A Marinha se sublevou."
(Telefonema de Allende a sua mulher, "Tencha", às 7h40 de terça-feira, em Santiago.)
"Ramón, a situação é gravíssima."
(Telefonema de Allende ao embaixador do Chile em Buenos Aires, Ramón Huidobro, às 10h30 de terça-feira.)
Pela razão ou pela força, ensina a divisa do emblema nacional do Chile. "Como é claro e azul teu céu", canta o Hino Nacional. Finalmente, após três anos de inviabilidade política, 45 dias de paralisação econômica e a exaustão de todas as combinações partidárias que ainda seria possível imaginar, os símbolos do país conduziram ao golpe. Na manhã da última terça-feira, o céu brilhava claro e azul em Santiago, e a razão nada mais podia. Restava a força, e ela foi empregada com uma severidade inédita na história recente da América Latina. A gravidade que o presidente Salvador Allende anunciava em seus últimos e dolorosos telefonemas não poderia ter sido mais verdadeira. Pouco depois ele estava morto, a sua "experiência socialista" no Chile sepultada, e o continente, em estado de choque, assistia ao que foi provavelmente seu golpe militar mais violento desde a derrubada de Perón na Argentina, dezoito anos atrás.
"Não vou renunciar. Pagarei com a minha vida a liberdade do povo. Tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão. Este é o meu testamento político." Do Palacio de la Moneda, no coração de Santiago, cercado por tanques, soldados e carabineiros, a voz cansada de Allende falava pela última vez aos chilenos, pelas ondas da Radio Magallanes, a emissora comunista. Era quase meio-dia, relata a enviada especial de VEJA a Santiago, Dorrit Harazim, e os jatos da Fach, a Força Aérea Chilena, que acabariam reduzindo a escombros os salões presidenciais, já roncavam nos céus da capital. Selava-se, nesse instante, o destino de Allende e de seu Chile socialista, com uma furiosa explosão de violência que em 48 horas de fogo cerrado pulverizou o governo de esquerda e deixou milhares de mortos através do país.
Augusto PinochetNo final da semana, com os últimos focos de resistência aparentemente postos fora de combate, a Junta Militar que deu o golpe e rege com poderes praticamente absolutos os destinos de 10 milhões de chilenos dava mostras de estar solidamente entrincheirada no poder. Na falta de um palácio presidencial - o existente não oferece condições de habitabilidade, depois do tratamento que recebeu terça-feira - a Junta instalou-se no Ministério da Defesa para um governo de duração ainda desconhecida. Seus quatro membros - general Augusto Pinochet, do Exército, o chefe supremo, almirante Toribio Merino, da Marinha, brigadeiro Gustavo Leigh, da Aeronáutica, e general Cesar Mendoza, do Corpo de Carabineiros - e seu Ministério de seis generais - dois contra-almirantes, um vice-almirante, dois coronéis, um brigadeiro e dois civis - contam, basicamente, com um compromisso: incinerar todos os vestígios possíveis do falecido governo da Unidade Popular.
CARRO TROCADO - O regime esquerdista, asfixiado por uma lenta agonia, entraria finalmente em coma na manhã da terça-feira da semana passada. Desde o início, o dia não prometia nada de bom para Salvador Allende. Às 7 horas ele deixou sua casa no número 200 da rua Tomás Moro, no bairro de Las Condes, mas não conseguiu completar o trajeto até o Palacio de la Moneda no seu Fiat 600, placa BF-80: no meio do caminho, por razões de segurança, teve de trocar de condução, passando para um tanque preto e branco do Corpo de Carabineiros. A precaução, motivada por rumores de uma iminente rebelião na Marinha, logo se revelaria bem fundamentada. As 7h30, 10 minutos após o seu marcial desembarque no palácio, Allende recebia a confirmação da notícia - num momento em que, por via das dúvidas, já estava escrevendo um discurso para denunciar o assédio ao governo.
O levante tinha ocorrido no porto de Valparaíso, a partir da base naval comandada pelo truculento almirante Merino, e Allende iniciou imediatamente um discurso pelo rádio, com a esperançosa declaração de que em Santiago as tropas "estavam aquarteladas". Na verdade, já se tratava do feroz movimento que iria depô-lo algumas horas mais tarde, e o presidente, após concordar com alguns assessores que seu governo estava à "beira do precipício", telefonou para sua mulher Hortencia "Tencha" Bussi proibindo-a de sair de casa: "Eu vou ficar aqui. Você permanece em Tomás Moro".
Pouco depois das 8 horas Allende faria sua última aparição em público. Apressado, parecendo tão curioso com a crescente movimentação militar em torno de La Moneda quanto os surpresos transeuntes que começavam a se concentrar nas redondezas, o presidente emergiu na janela de sua sala de despachos para espiar rapidamente os tanques que ronronavam a seus pés, na Plaza de la Constitución. A última imagem de Allende em vida ficou gravada em poucas fotos e alguns pés de filme: de casaco esporte, sem gravata, ele deu um aceno para os poucos que estavam na praça e sumiu no interior do palácio, de onde só sairia morto.
'TENDO EM CONTA...' - A essa altura, contingentes inteiros em farda de combate eram despejados do prédio do Ministério da Defesa, vizinho a La Moneda, soldados começavam a tomar posição nos jardins da Plaza Bulnes e outras ruas adjacentes, e os tanques apertavam seu cerco em torno do palácio. Por volta das 8h30 finalmente a população tomou conhecimento pela primeira vez da existência de uma Junta Militar de governo.
Uma voz que se tornaria extraordinariamente familiar para toda a nação, no decorrer das 48 horas seguintes, anunciou pelo rádio o "bando" número 1, primeiro comunicado de uma prolífica série enumerada e expedida pela Junta. O tom era inconfundível. "Tendo em conta a gravíssima crise..." "...as Forças Armadas e os Carabineiros decidem que o presidente deve entregar imediatamente seu cargo às Forças Armadas e aos Carabineiros".
Pelo manual latino-americano do golpe de Estado a história poderia ter perfeitamente acabado aí: o presidente, sem cacife militar para continuar no jogo, toma o rumo do exílio, e os golpistas se instalam no palácio. Desta vez, entretanto, nada correu de acordo com esses consagrados usos e costumes. Allende tomou a raríssima decisão de não se entregar, e o golpe deixou a órbita do folclore para encaixar-se no das grandes tragédias políticas. Enquanto a Junta tratava de se apoderar rapidamente de todas as rádios disponíveis e motoristas retiravam com manobras apressadas os carros que acabavam de estacionar no centro da cidade, o presidente chileno começava a viver o ato final de seu governo e de sua existência.
De fato, às 10h30 em ponto - após ter silenciado um discurso de Allende pelo rádio, feito vôos rasantes sobre La Moneda e ocupado os principais pontos de Santiago -, a Junta anunciou um ultimato: se o presidente não se rendesse em 30 minutos o palácio seria bombardeado pela Força Aérea. As 11 horas, quando vencia o prazo, o vasto portão principal de La Moneda foi aberto sob a mira dos tanques instalados na Plaza de la Constitución. E os jornalistas que testemunhavam a cena pelas frestas de janelas do Hotel Carrera - posteriormente transformado em ímã para todo tipo de tiros - viram surgir, silenciosamente, os primeiros pares de braços levantados, com um lenço branco de rendição nas mãos.
Ao todo, foram 27. E, entre eles, estava o infeliz general José María Sepúlveda, derrubado pelo levante militar de seu cargo de diretor-geral do Corpo de Carabineiros. Como seus companheiros de rendição, Sepúlveda não carregava o passaporte do golpe: um lenço cor de laranja distribuído nas primeiras horas da madrugada a todos os membros do Exército, para evitar que esquerdistas se infiltrassem em suas fileiras, usando uniformes roubados nos dias anteriores.
PIQUES PRECISOS - "Mas Salvador Allende não se encontrava entre as figuras quietas, dramáticas, que desfilavam com a cabeça erguida pelo asfalto da rua Teatinos, até desaparecerem de nossas vistas", relata Dorrit Harazim, uma das testemunhas instaladas no Hotel Carrera. A voz do presidente ainda seria ouvida mais uma vez, na última transmissão clandestina da Radio Magallanes. Pouco depois, ao meio-dia, com 60 minutos de atraso sobre o ultimato e quando já se começava a descartar a possibilidade de sua execução, dois jatos Hawker Hunter da Fach surgiram sobre Moneda e, em piques precisos, lançaram as primeiras duas bombas de 50 quilos sobre o palácio presidencial.
Nos prédios vizinhos, relata a enviada especial de VEJA, a terra tremeu, as vidraças se estraçalharam, os lustres despencaram do teto. Através da fumaça e da poeira que os dois jatos deixaram em seu rastro, contudo, podia-se ver La Moneda ainda intacto. Segundos depois, com meticulosidade cronométrica, seguiram-se uma segunda, uma terceira, uma quarta dose de bombas de 50 quilos. Apenas na quinta vez o cinzento, maçudo palácio construído em 1786 se rendeu a fogo.
E às 12h30, completada a missão de quinze bombardeios, as chamas finalmente se apossavam de todos os cinco janelões da ala direita, enquanto as primeiras labaredas rompiam o teto e passavam a arder em céu aberto.
Último símbolo de um Chile em extinção, a bandeira hasteada no mastro central do palácio ainda sobrevivia intacta. Mas não por muito tempo. No lugar dos bombardeios aéreos, catorze tanques e dezenas de canhões, bazucas, morteiros, metralhadoras e fuzis passaram a atirar ferozmente contra o palácio, em salvas que se alternavam a cada 2 ou 3 minutos. Como não se pôde perceber, em momento algum, qualquer resistência vinda de dentro do palácio, todo esse dilúvio de fogo foi se tornando progressivamente incompreensível. E pouco antes das 14 horas, com o que restava da bandeira colado ao metal derretido do mastro, o portão frontal lembrando uma caverna, os balcões iluminados pelo fogo e o miolo do palácio às claras com o desabamento parcial do teto, era impossível imaginar que houvesse sobreviventes.
PONCHO BOLIVIANO - Havia sobreviventes, mas não o principal deles - ao entrarem finalmente no palácio, os soldados encontraram o corpo de Salvador Allende caído sobre um divã no segundo andar, ao lado de uma poça de sangue e uma metralhadora com a inscrição: "A seu amigo e companheiro de luta Salvador, Fidel Castro". Quatro horas e meia depois, às 18h30, colocado numa maca e coberto por um modesto poncho boliviano, o cadáver do presidente era carregado para fora de La Moneda e desaparecia numa autópsia militar (um pedido de autópsia regular, feito pelo Partido Democrata Cristão, foi sumariamente ignorado pela Junta) e numa cerimônia semi-secreta de sepultamento no dia seguinte, na vizinha estância balneária de Viña del Mar.
Como morreu Allende? Até a sexta-feira os fatos ainda estavam nebulosos, mas nesse dia um relato da Agência Latina, obtido junto às quinze últimas pessoas que viram Allende vivo, indicava que o presidente tinha se suicidado e esclarecia as dramáticas 7 horas vividas em La Moneda entre 7 da manhã e 2 da tarde da última terça-feira. Segundo este relato, Allende teria recusado quatro ofertas de rendição feitas pelos militares através do telefone - na primeira delas, inclusive, o general Pinochet teria lhe garantido um avião e salvo-condutos para ele, sua família e assessores. "Não faço acordo com traidores", disse Allende a Pinochet, no primeiro telefonema, por volta de 9 horas. Com um capacete de aço na cabeça, calças escuras e um suéter branco, o presidente se empenharia nas horas seguintes em afastar para fora do palácio o maior número possível de pessoas - especialmente um grupo de mulheres, entre as quais sua filha Beatriz. Ao ponderar que cairia em poder dos golpistas ao deixar o palácio, podendo tornar-se assim um instrumento de chantagem para a rendição, Beatriz ouviu do pai a frase solene: "Se você for feita refém, serei eu quem pedirá que a matem. Não vou me render".
POR ÚLTIMO - Mas Beatriz não foi feita refém, nem executada - juntamente com sua irmã Isabel e sua mãe "Tencha", acabou encontrando refúgio na Embaixada do México, de onde seguiria para Cuba, após ter saído de La Moneda. Dentro do palácio, Allende vivia seus instantes finais. Às 11h30 recusou uma última oferta do insistente general Pinochet e suportou em silêncio com um pequeno grupo de amigos e guardas pessoais o bombardeio aéreo e terrestre que arrasava o prédio. Às 13 horas o secretário de Imprensa Augusto Olivares resolveu matar-se com um tiro na cabeça. Pouco depois um grupo de quatro sitiados saiu para negociar sem sucesso uma suspensão do fogo (os militares, alegando a presença de franco-atiradores nas redondezas, não aceitaram a proposta). Às 13h45, encerrado finalmente o bombardeio, um pelotão de infantaria conquistou o palácio, entrando pela porta da rua Morande, número 80.
Enquanto os soldados davam seus primeiros passos dentro de La Moneda, Allende dava suas últimas ordens como presidente da República. Instalado no segundo andar, ele mandou que seus remanescentes companheiros descessem e se entregassem ao pelotão, a essa altura já no andar de baixo. "Deixem as armas, levantem as mãos e rendam-se ao Exército", disse Allende. "Eu vou sair por último." Por volta das 14 horas, quando começavam a descer a escadaria para render-se, os guardas pessoais ouviram um disparo de metralhadora no andar de cima: Allende, conclui o relato, acabava de se suicidar.
CASA SAQUEADA - A partir daí, um novo mistério - o destino dado ao corpo do desafortunado presidente - viria se somar à espessa nuvem de dúvidas que envolveu Santiago nas primeiras 48 horas após o golpe. A questão acabaria sendo respondida na sexta-feira por Hortencia "Tencha" Allende, ao relatar a saga que viveu desde o momento em que recebeu o primeiro telefonema de seu marido, na manhã de terça-feira, até asilar-se na Embaixada do México, no fim do dia seguinte. "Tencha", cujas relações com o marido andavam atribuladas nos últimos tempos - segundo o comentário corrente em Santiago, os dois continuavam a viver juntos mais para manter as aparências - mal tivera tempo de retornar de uma viagem ao exterior quando se viu envolvida no drama que a deixaria viúva e quase lhe custava a própria vida.
A mulher de Allende voltara no domingo do México e, por volta de 11h30 de terça-feira, após três horas de angústia na sua residência da rua Tomás Moro, começou a viver uma aventura inédita: aviões passaram a bombardear sistematicamente a casa, que depois de semidestruída acabou sendo saqueada. "Os aviões lançavam seus foguetes e depois voltavam às suas bases para reabastecer", contou Hortencia Allende. "Havia cheiro de pólvora, fumaça, destruição..." Numa interrupção dos ataques, ela conseguiu fugir da casa através de um colégio de freiras que existe no fundo e dali, sem ser seguida, correu para esconder-se na casa do economista Felipe Herrera, morador das vizinhanças. Era o momento em que, em La Moneda, Salvador Allende se preparava para morrer.
No dia seguinte, "Tencha" teve de enfrentar a dura prova do sepultamento. Convocada inicialmente a um hospital militar, recebeu os pêsames de um general e em seguida foi levada à base aérea militar do Grupo 7, onde um avião estava à sua espera. "Imaginem o que vi", relatou Hortencia Allende. "Um ataúde, no meio do avião, coberto com uma manta militar..." Acompanhada de dois sobrinhos, uma cunhada e diversos oficiais, "Tencha" voou então para Viña del Mar, onde seria realizado o sepultamento de Allende, no jazigo familiar do cemitério Santa Inês. O avião pousou na Base Aérea de Quinteros, o esquife foi colocado num furgão e o pequeno grupo rumou apressadamente para o cemitério.
Em nenhum momento, contou a mulher de Allende, os militares deixaram que ela visse o corpo de seu marido alegando, sem maiores detalhes, que o caixão estava soldado. "Salvador Allende não pode ser enterrado de forma tão anônima", gritou ela a um dos oficiais. Mas foi. "Tencha" não pôde fazer mais do que jogar umas flores sobre o ataúde, para logo ser embarcada de volta a Santiago e a um asilo na Embaixada mexicana. Nas últimas horas tinha ficado viúva, sua filha Beatriz partira para Cuba e sua casa era um monte de ruínas.
CORDÕES - Além da residência de Allende, houve outros alvos de bombardeios. A Embaixada de Cuba, onde teria morrido, ao tentar asilar-se, o líder mais radical e polêmico do Partido Socialista, Carlos Altamirano, também foi atacada. A sede do Partido Comunista foi arrombada e invadida a tiros, e presos seus 23 ocupantes. E segundo uma lista publicada no "El Mercurio" de quinta-feira - único jornal a circular, juntamente com o tablóide "La Tercera de la Hora" - até as 16 horas do dia anterior as Forças Armadas haviam ocupado mais de vinte pontos esquerdistas de Santiago, em grande parte para "reduzir extremistas armados". Enfim, havia alguma resistência.
No dia do golpe e nos dois seguintes, ainda se ouvia o matraquear de metralhadoras e dos disparos de fuzis dos soldados tentando liquidar franco-atiradores instalados nos telhados de edifícios de vários pontos da capital. O distante som de bombardeios prolongados em locais diferentes indicava que havia combates mais duros. Houve batalhas de uma violência desconhecida pelos chilenos, nas tomadas da Universidade do Chile e da gigantesca fábrica de tecidos Sumar, estatizada por Allende e um dos bastiões principais da militância governista. Mas uma resistência generalizada, proporcional ao poderio militar empregado pelas Forças Armadas, jamais existiu.
A combatividade de uns poucos, na verdade, esbarrou na força dos canhões e dos tanques. Mais que isso, os "cordões allendistas" não contavam realmente senão com raros e esparsos elos.
No Chile, além dos protagonistas da resistência vã, poucos acreditavam nela. No exterior, porém, jornais afirmavam em manchetes que o general Carlos Prats, ex-comandante do Exército, apóstolo da legalidade, amigo pessoal de Allende e esperança derradeira das esquerdas, assumira o comando da resistência e marchava do sul para Santiago. Na sexta-feira, o próprio Prats, de paletó esporte e gola rulê, rosto abatido e mãos sob a mesa, afirmava na televisão jamais ter participado de atividades públicas desde que se afastou do comando do Exército e do Ministério da Defesa. E revelou sua intenção de abandonar o Chile, o que fez no sábado, quando se retirou para a Argentina.
COMUNICADOS - A primeira noite do Chile sob nova tutela acabou sendo de insônia nacional. Todas as comunicações com o exterior estavam cortadas. As fronteiras com o Peru e a Argentina, fechadas. E as contas bancárias dos residentes no país, congeladas por tempo indeterminado, dificultando ainda mais eventuais tentativas de fuga. A normalmente escassa comida praticamente desapareceu. Coroando tudo, reinava a mais absoluta ignorância do que se passava no país, nas cidades, na casa vizinha. Na quarta-feira, o "El Mercurio" e "La Tercera", embora tivessem rodado na noite anterior, não puderam circular, pois a Junta Militar se esqueceu de que, por causa do rigor exigido no acatamento ao toque de recolher, os dois jornais não poderiam ser distribuídos. E, se o fossem, não poderiam ser comprados.
A sucessão contínua de comunicados oficiais, longe de esclarecer, desconcertava ainda mais. Quando, durante o toque de recolher, rádio e televisão anunciavam que os parentes daqueles que morreram estavam autorizados a dirigir-se a um lugar determinado para cuidar dos sepultamentos, a incerteza quanto ao número de mortos crescia. No sábado, defronte ao Ministério da Defesa uma fila dava volta ao quarteirão. Era pessoas tentando obter notícias sobre mortos e desaparecidos. "A cifra de 10.000 mortos é exagerada", disse um funcionário. De qualquer forma, soa como bastante sintomática.
Por outro lado, ao ser transmitida a ordem de apresentação às autoridades militares para 23 estrangeiros radicados no país - entre eles dois brasileiros e um jornalista boliviano morando em Buenos Aires há mais de seis meses - instalou-se o pânico entre as comunidades estrangeiras mais comportadas, e não apenas entre os 14.000 latino-americanos (dos quais 1.200 brasileiros) residentes no Chile. O pânico não era injustificado. Em sua determinação de "extirpar o câncer marxista", a Junta advertiu que as empresas jornalísticas que divulgassem informações não confirmadas pelo novo governo seriam "inapelavelmente destruídas". A caça aos seguidores de Allende começou imediatamente, com os militares apelando à população para denunciar a existência de arsenais clandestinos e solicitando colaboração para a captura de dirigentes da Unidade Popular.
REALISMO - Alguns, como o ex-ministro da Defesa e do Interior, José Tohá, o ex-chanceler Clodomiro Almeyda e seu irmão, Jaime, ex-ministro da Agricultura, e Orlando Letellier, ex-embaixador nos EUA, foram intimados a apresentar-se às autoridades militares. A não-apresentação, dizia a intimação divulgada pelo rádio, significaria "uma transgressão, com as conseqüências fáceis de se prever". Tohá e Almeyda acataram a ordem imediatamente. Outros demoraram algumas horas. Talvez nenhum tenha sido de realismo mais surpreendente do que o líder comunista Jorge Godoy. Numa entrevista televisionada, ele declarou, ainda na noite de quarta-feira: "Sou casado, tenho quatro filhos, fui dirigente sindical durante vários anos e ocupei até este momento, por 58 dias, o Ministério do Trabalho. Espero que o país, neste momento tão grave, possa normalizar sua vida".
Logo começaram, também, as manifestações de apoio incondicional por parte do Partido Nacional, da Confederação dos Transportes e Cargas, agricultores, comerciantes, pequenos e médios industriais, médicos, advogados e engenheiros. O presidente da Corte Suprema, Enrique Urrutia Manzano, manifestou sua "mais íntima satisfação" em nome da administração da Justiça "pelo propósito do governo militar de respeitar as decisões do Poder Judiciário".
Apesar da guerra, e do conceito que os chilenos fazem de si mesmo, de que não são "tropicales", o tropicalismo transpareceu em alguns episódios. Numa boate em que quatro jovens marxistas confessas ficaram retidas durante 52 horas devido ao toque de recolher, os soldados que intermitentemente surgiam à procura de esquerdistas eram recebidos com rodadas de presunto, pão e café. A uma delas, inconformada com essa extemporânea manifestação de coexistência pacífica e dizendo-se "inimiga dos golpistas até a morte", um soldado respondeu: "Respeito seus ideais, senhorita, mas lhe asseguro que este golpe de Estado é para o bem de todos".
SEMI-REMORSOS - A violência com que foi desfechado o golpe, contudo, causava espanto até mesmo entre os adversários do governo deposto. O próprio senador Eduardo Frei, líder da linha mais conservadora da Democracia Cristã e favorável a uma intervenção militar, confidenciou a um alto funcionário das Nações Unidas em Santiago, ao ver as coisas consumadas, que jamais teria suspeitado que o golpe ocorreria de maneira tão brutal.
Esses semi-remorsos, porém, não impediram que, ainda na noite de terça-feira, seu partido, juntamente com o Nacional, manifestasse total apoio à Junta, sob o argumento de que "as Forças Armadas não buscaram o poder, e sua tradição garante que tão logo terminem as tarefas por elas assumidas devolverão o poder ao povo soberano". E o episcopado chileno, se não aprovou, também não reprovou o golpe, manifestando pesar pelo sangue derramado, pedindo "moderação com relação aos vencidos" e esperando "que não haja represálias desnecessárias".
Assim, em meio às manifestações de apoio das principais forças do país, e à resistência de franco-atiradores e operários em algumas fábricas ocupadas, o novo governo começou a tomar suas primeiras medidas, além das repressivas. Imediatamente rompeu relações diplomáticas com Cuba - providência complementada com a expulsão dos 170 membros da volumosa delegação cubana no país - e anunciou a decisão de não mantê-las também com "alguns Estados socialistas".
CONVERSAS, ROUPAS, ARMAS - No campo interno, os passos iniciais consistiram em estabelecer um pouco de ordem no campo de batalha. Foram então concedidos, já a partir de quinta-feira, salvo-condutos para os interessados em sepultar seus mortos, enquanto se pedia à população para colaborar na tarefa de limpar as paredes de todo tipo de propaganda política. Em sucessivos comunicados garantindo que as conquistas dos trabalhadores seriam mantidas, as autoridades militares pediam que todos retornassem ao trabalho. As categorias em greve durante os últimos dias do governo de Unidade Popular - médicos, engenheiros, comerciantes, enfermeiros, dentistas, técnicos, químicos e farmacêuticos - disseram-se dispostas a atender ao apelo, de resto prejudicado pelo toque de recolher.
O presidente da Confederação dos Transportes Rodoviários, Juan Jara, depois de registrar sua "satisfação com a libertação da pátria", conclamou na quarta-feira os motoristas de caminhão, cujo locaute de três quinzenas praticamente paralisou o País, a retornarem às atividades. Até o final da semana isso não ocorrera, em parte devido à confusão geral e em parte pelo compreensível temor dos motoristas de sofrerem ataques de esquerdistas. As Juntas de Abastecimento e Preços, instrumento com o qual a Unidade Popular controlava a distribuição de alimentos ao nível dos consumidores, foram dissolvidas, como o Congresso Nacional.
Outra providência da Junta foi exibir na televisão um filme mostrando o interior da casa de Allende, com a despensa repleta de conservas, armários cheios de roupas, móveis enfeitados com valiosos objetos de arte e, principalmente, grande quantidade de armas, "todas de fabricação soviética". Ainda no terreno psicológico, o acesso ao coração de Santiago, compreendido pela Plaza de la Constitución e ruas próximas, permaneceu proibido até a manhã de sexta-feira. A Junta parecia querer adiar o choque da população ao ver o Palacio de la Moneda, um dos mais antigos monumentos históricos do país, parcialmente em escombros.
UM TELEGRAMA - Como de hábito, a opinião pública européia manifestaria o seu espanto. As capitais da Europa, como algumas latino-americanas, onde foi decretado luto nacional por três dias pela morte de Allende, transformaram-se em palcos de manifestações de hostilidade aos militares chilenos. Os ingleses, por exemplo, ficaram ainda mais chocados na sexta-feira, quando o adido naval chileno em Londres, contra-almirante Oscar Buzeta, ocupou a embaixada em nome da Junta Militar e proibiu a entrada do embaixador Álvaro Bunster. Da capital britânica sairia também uma das mais extravagantes manifestações de repulsa ao novo regime. Um obscuro cônsul-geral panamenho, Jaime Padilha Beliz, enviou um telegrama ao general Pinochet, em que dizia: "A humanidade se envergonha de ter em suas fileiras uma besta como o senhor".
DOIS MODELOS - Passados os momentos de entusiasmo ou de depressão de partidários do governo de Allende, a América Latina, Pelo menos, tem desde a semana passada razões mais fortes para refletir na experiência chilena. Até terça-feira, a "via chilena para o socialismo", com malogros ou não, tinha seus adeptos no continente. O trágico desfecho da aventura, seja qual for o rumo que imporão ao Chile os militares, restringe a somente dois os "modelos" que na América do Sul substituíram recentemente as tradicionais fórmulas da democracia liberal: o "brasileiro" e o "peruano".
Nessa perspectiva, a Argentina, que tinha no Chile um eventual parceiro para a nebulosa experiência do "socialismo nacional" peronista, talvez tenha sido a mais prejudicada. Não faltarão, por exemplo, as queixas de que, com o fim do "socialismo à chilena" se fechou mais o "cerco" da Argentina pelo Brasil. O certo é que o estreitamento de vínculos políticos e econômicos com o Chile, seja qual for o regime que o governe, é uma premissa admitida como necessária por quase todos os setores de atividade da Argentina e pelas Forças Armadas em primeiro lugar. Apesar disso, as manifestações de repúdio ao golpe brotaram como cogumelos por todo o país na semana passada.
Entretanto, a Junta recebeu também outro tipo de manifestações. No final da semana, o Brasil, o Uruguai e o Paraguai já a haviam reconhecido. Uma nota do serviço diplomático chileno, enviada a todos os países com os quais Santiago tem relações e expressando o desejo de continuar mantendo "firmes laços de amizade", estava sendo estudada calmamente no sábado por diversos governos. O pedido causava algum embaraço especialmente nos Estados Unidos, onde, na quarta-feira, o "Washington Post" afirmou em manchete de oito colunas que o Departamento de Estado fora informado do golpe pelos militares rebelados com dezesseis horas de antecedência. Algumas especulações chegaram a brotar da repentina viagem a Washington no dia 7 passado do embaixador americano em Santiago, Nathaniel Davis, que lá não se demorou mais do que um dia e meio.
O reconhecimento externo, que mais cedo ou mais tarde infalivelmente virá, não é porém o suficiente para garantir um futuro tranqüilo ao novo governo. As forças da esquerda foram derrotadas mas não extintas no Chile e só poderão ser neutralizadas com uma repressão férrea e permanente. Principalmente porque, desencantadas com a experiência legal, serão tentadas a desviar-se para movimentos clandestinos.
Por outro lado, o alto nível de violência atingido nas primeiras horas do movimento talvez venha a se constituir numa barreira para a normalização da situação. Na verdade, é possível que, se os militares chilenos continuarem por muito tempo no mesmo nível de repressão, venham a encontrar-se em situação semelhante à dos militares argentinos, com enormes dificuldades para devolver o poder aos civis.
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Encontros em lugares de Memória da Resistência
"O núcleo do Porto do movimento Não Apaguem a Memória!, movimento cívico que visa a preservação da memória histórica das lutas de resistência à ditadura, promove os Encontros em Lugares de Memória da Resistência, esperando que as histórias contadas pelos protagonistas das acções de resistência antifascista venham enriquecer a nossa memória colectiva do fascismo.Contando com os testemunhos dos que participaram nas lutas informais e nas actividades promovidas por associações de todo o tipo, como colectividades culturais, entidades cooperativas, organizações de jovens trabalhadores e associações estudantis, o movimento Não Apaguem a Memória! convida todos quantos frequentaram os lugares simbólicos dessas acções.
Iniciando-se este ciclo de tertúlias com o encontro no "Piolho", o emblemático Café Âncora d' Ouro, apelamos à participação na tertúlia na tarde de sábado, 29 de Setembro, pela presença activa nesse lugar de memória da resistência juvenil no Porto.
O núcleo do Porto do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!"
APAREÇA E APRESENTE O SEU TESTEMUNHO!
LOCAL: “Piolho" (Café Âncora d'Ouro)
DATA: 29 de Setembro – 15.30 h
domingo, 16 de setembro de 2007
Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional
Dia 19 de Setembro, quarta-feira, os restos mortais do escritor Aquilino Ribeiro (1885-1963) terão honras de Panteão Nacional. O assunto tem dado polémica, devido ao seu alegado envolvimento no regicídio. No entanto, convém não esquecer que o autor de O Malhadinhas foi um activista político persistente e destemido a favor da liberdade e da democracia, um republicano que lutou desde a primeira hora contra a Ditadura Militar (participou na revolta de 7 de Fevereiro de 1927, em Lisboa). Na sequência desta acção, esteve exilado em Paris. De regresso a Portugal, fez oposição ao Estado Novo, aderiu ao MUD (1945) e empenhou-se na defesa e difusão da causa democrática, nomeadamente, em textos publicados na imprensa diária, apoiou a campanha presidencial de Norton de Matos (1948), integrou a Comissão Promotora do Voto, militou na candidatura de Humberto Delgado à presidência da República (1958). Deixou uma obra literária vasta, diversificada e de qualidade reconhecida, tendo sido candidato ao Prémio Nobel da Literatura (1959). O romance Quando os lobos uivam foi apreendido e alvo de processo-crime, supostamente por "desacreditar as instituições vigentes" (1959). A candidatura ao Nobel e as pressões em defesa do escritor levaram a que o governo recuasse na perseguição judicial a Aquilino, que seria amnistiado a 12-11-1960, dias antes de ir a julgamento. [Informação biográfica e bibliográfica por Serafina Martins aqui; sobre o processo movido a Quando os lobos uivam ver: Clara Crabbé Rocha, "Ribeiro, Aquilino", in Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Dicionário de História do Estado Novo, vol. 2, 1996, p. 841-842].
Esta ocasião deveria, por isso, ser aproveitada para dar a conhecer a obra literária e o activismo político e cívico de Aquilino Ribeiro.
Esta ocasião deveria, por isso, ser aproveitada para dar a conhecer a obra literária e o activismo político e cívico de Aquilino Ribeiro.
Na Biblioteca Museu República e Resistência (CML) está, desde a semana passada, patente uma mostra de livros de Aquilino Ribeiro autografados e dedicados ao jornalista e escritor republicano Carlos Ferrão (1898-1979) e que integram a "Biblioteca Dulce Ferrão".
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sábado, 15 de setembro de 2007
Música contra o colonialismo
José Adelino Barceló de Carvalho nasceu em 1943, em Kipiri (província do Bengo, a norte de Luanda, Angola). O seu gosto pela música remonta à infância, em Luanda. O atletismo foi, desde cedo, outra das suas paixões. Com 23 anos vem viver para Portugal, para se continuar a dedicar ao atletismo, agora em moldes semi-profissionais, sagrando-se campeão e recordista dos 400 metros pelo Benfica. Após o início da luta de libertação nacional, Bonga foi um apoiante da independência. Vigiado pela PIDE, veio a exilar-se na Holanda. Neste país, lança o seu primeiro álbum "Angola 72", no qual canta contra a dominação colonial. Adopta o nome de Bonga Kuenda que significa "aquele que vê, aquele que está à frente e em constante movimento". Tem mais de três dezenas de discos.Recordamos aqui o poema "Poeira", do CD Kaxexe (2003) que remete para o traumatismo que a violência do colonialismo provoca num miúdo e inclui uma referência directa às rusgas, uma das formas instituídas pela administração colonial de espalhar o medo pelas zonas suburbanas ou pelas povoações indígenas. Tratava-se de perseguir pessoas sem caderneta indígena ou com documentos irregulares, desempregados, «vadios», fugidos ao contrato, relapsos ao pagamento do imposto, fabricantes de bebidas alcóoólicas, etc. Na maioria das vezes, as rusgas escondiam a intenção de obter trabalhadores para obras públicas prioritárias, para o chibalo ou para as roças de São Tomé.
"Poeira
Era - A poeira do posto
Poeira na rua
Para nos kua tar.
Vento - Era empoeirdado
Ventava os cubicos
Nos empobrecer.
Poeira - Com impureza
Sempre levantou
E nos bofocou.
Roda - Sai do rodopio
Que o chefe do posto
Vai te zangular.
Lembro
Era eu kanuku
Fugia da cerca
Para Sal vaguardar
Me lembro
Toda essa desgraça
Negros transpirados
Da rusga fugir."
[vd. biografia aqui e aqui.]
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quinta-feira, 13 de setembro de 2007
12º Plenário do Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória!"
O próximo Plenário do Movimento está convocado para a próxima 4ª feira, 19 de Setembro/2007, às 21.00h na Associação 25 de Abril (Rua da Misericórdia, 95, em Lisboa) com a seguinte Ordem de Trabalhos:
1. Aprovação da Acta do plenário anterior
2. Informações:
2.1. Resolução parlamentar sobre a Petição do NAM.
2.2. Outros
3. Organização do Movimento: debate sobre o texto/proposta do GL.
4. Marcação da data do próximo Plenário.
Contamos com todos!
1. Aprovação da Acta do plenário anterior
2. Informações:
2.1. Resolução parlamentar sobre a Petição do NAM.
2.2. Outros
3. Organização do Movimento: debate sobre o texto/proposta do GL.
4. Marcação da data do próximo Plenário.
Contamos com todos!
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Centenário de Miguel Torga: a exposição
A Exposição comemorativa do nascimento do escritor Miguel Torga (1907-1995) foi inaugurada ontem na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa.A mostra foi organizada pela Delegação Regional da Cultura do Norte (DRCN) e faz parte das comemorações oficiais. Estará patente até 12 de Outubro. No âmbito do seu programa comemorativo, a DRCN também organizou concursos de fotografia e de literatura. Para mais informações, incluindo eventos promovidos por outras entidades, vd. DRCN e NAM.
Ainda a propósito deste resistente antifascista, saiu no último n.º do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa uma recensão crítica ao livro Miguel Torga e a PIDE, da autoria de Daniel Melo. O livro é de Renato Nunes e já aqui tinha sido referido, aquando do seu lançamento.
domingo, 9 de setembro de 2007
PCP reconhece o direito dos povos das colónias à independência
Em Setembro de 1957, realizou-se no Estoril o V Congresso do Partido Comunista Português (III ilegal). Nesse congresso foi reconhecido o direito dos povos das colónias portuguesas à independência, sendo aprovada a seguinte declaração:
«O V Congresso do PCP considera que estão hoje criadas as condições necessárias para que os povos das colónias de África dominados por Portugal conquistem a sua liberdade e independência, independentemente das modificações que se possam operar na situação política de Portugal. O Congresso considera que a ajuda que o Partido e o povo português prestarem ao movimento libertador dos povos coloniais traduzir-se-á objectivamente numa ajuda à luta da classe operária e ao povo de Portugal pela sua própria libertação.» [citação retirada daqui]
Sobre a relação do PCP com a questão colonial, vejam-se os seguintes trabalhos:
*MADEIRA, João (2003), "O PCP e a Questão Colonial - dos fins da guerra ao V Congresso (1943-1957)", Estudos do Século XX, 3.
*MANYA, Judith (2004), Le Parti Communiste Portugais et la question coloniale (1921-1974), Thèse de doctorat en Science politique, Universidade de Toulouse. [Prémio Fundação Mário Soares, 2005]
*NEVES, José Manuel Viegas (2006), "On Communisme and the Nation - Notes from the history of the colonial question in the Portuguese Communist Party", e-Journal of Portuguese History, vol. 4, nº 1. [Texto integral disponível aqui]
Faltam trabalhos sobre a evolução do posicionamento da oposição republicana face ao colonialismo português.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Portugal e a 2ª Guerra Mundial

A 1 de Setembro de 1939, as Forças Armadas Alemãs deram início à invasão da Polónia, também conhecida como Operação Fall Weiss, marcando o início da Segunda Guerra Mundial.
A invasão culminaria no domínio completo do país a 6 de Outubro do mesmo ano. A operação foi iniciada como resposta a um suposto ataque polaco a uma estação de rádio, o que depois foi comprovado como um ardil dos nazis para justificar a invasão. Durante a operação, a 17 de Setembro, a União Soviética, seguindo uma cláusula secreta do Pacto Molotov-Ribbentrop, também declarou guerra à Polónia e deu início à invasão da parte leste do país. A 3 de Setembro, em resposta às hostilidades, a França e o Reino Unido, seguidos pelo Canadá, Nova Zelândia e Austrália, entre outros, declararam guerra contra a Alemanha nazi.
Da Wikipédia
Começava a II Guerra Mundial e todos os horrores que se seguiram.
No dia 2, o Governo de Salazar emitia o seguinte comunicado:
«Apesar dos incansáveis esforços de eminentes chefes de governo e da intervenção directa dos chefes de muitas nações, eis que a paz não pôde ser mantida e a Europa mergulhada, de novo em dolorosa catástrofe. Embora se trate de teatro de guerra longínquo, o facto de irem defrontar-se na luta algumas das maiores nações do nosso continente - nações amigas e uma delas aliada - é suficiente para o grande relevo do acontecimento e para que dele se esperem as mais graves consequências: Não só se lhe não pode ficar estranho pelo sentir, como há-de ser impossível evitar as mais duras repercussões na vida de todos os povos.
Felizmente, os deveres da nossa aliança com a Inglaterra, que não queremos eximirmos a confirmar em momento tão grave, não nos obrigam a abandonar nesta emergência a situação de neutralidade.
O governo considerará como o mais alto serviço ou a maior graça da Providência poder manter a paz para o povo português, e espera que nem os interesses do país, nem a sua dignidade, nem as suas obrigações lhe imponham comprometê-la.
Mas a paz não poderá ser para ninguém desinteresse ou descuidada indiferença. Não está no poder de homem algum subtrair-se e à Nação às dolorosas consequências de guerra duradoura e extensa. Tendo a consciência de que aumentaram muito os seus trabalhos e responsabilidades, o Governo espera que a Nação com ele colabore na resolução das maiores dificuldades e aceite da melhor forma os sacrifícios que se tornarem necessários e se procurará distribuir com equidade possível.
A todos se impõe viver a sua vida, mas agora com mais calma, trabalho sério, a maior disciplina e união; nem recriminações estéreis nem vãs lamentações, porque em muito ou pouco fique prejudicada a obra de renascimento a que metemos ombros. Diante de tão grandes males, faz-se mister ânimo forte para enfrentar as dificuldades: e da prova que ora derem, sairá ainda maior a Nação.»
O Governo
Fonte: "Jornal de Notícias", edição de 2 de Setembro de 1939
Portugal na Guerra
Oficialmente Portugal declarou, em 1939, a neutralidade, apesar da Aliança Luso-Britânica de 1373, sendo mantido o estado de neutralidade até ao final das hostilidades.
O Estado Português, em Março de 1939, assina um Tratado de Amizade e Não Agressão com a Espanha nacionalista, representada pela Junta de Burgos e pelo Nuevo Estado dirigido por Franco, recusando o convite do embaixador italiano, em Abril do mesmo ano, para aderir ao Pacto Anti-Komintern, aliança da Alemanha, Itália e Japão contra a "ameaça comunista".
Em Agosto de 1939, a Grã-Bretanha assina um acordo de cooperação militar com Portugal, aceitando apoiar directamente o esforço de rearmamento e modernização das forças armadas portuguesas. Todavia, o acordo só começará a ser cumprido a partir de Setembro de 1943.
No dia 29 de Junho de 1940, Espanha e Portugal assinam um protocolo adicional ao Tratado de Amizade e Não Agressão.
Em 1941, o Japão invade Timor-Leste, e ocupa as ilhas de Lapa, São João e Montanha pertencentes à República da China e divide a administração com o Governo Português de Macau.
Com o virar da guerra, Portugal assina um Acordo Luso-Britânico, em Agosto de 1943, concedendo à Grã-Bretanha, a base das Lajes nos Açores, e em 1944 aos Estados Unidos.
No final da guerra, o governo de Salazar decretou luto oficial de três dias pela morte de Hitler aquando da sua morte, em 1945, tendo iniciado então uma série de reformas políticas de fachada após a derrota das ditaduras, para se manter no poder.
Em Portugal, a repressão anti-fascista continuou como dantes.
A esperança que a derrota nazi-fascista trouxe aos portugueses saldou-se por mais 30 anos de ditadura e sofrimento.
Polémica em Coruche: dados sobre Luís Alberto de Oliveira (1880-1956)
Em resposta à interpelação de António Marcelo, que num comentário ao post anterior alude a uma polémica em torno da proposta de homenagem a Luís Alberto de Oliveira, reproduzo a informação que tenho à mão relativa àquele militar e político, a entrada biográfica, assinada por Luís Nuno Rodrigues, publicada no Dicionário de História do Estado Novo (vol. II, dir. Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, p. 686-687):
"OLIVEIRA, Luís Alberto de (1880-1956) - Oficial do Exército, nasceu em Coruche. Integrou o Corpo Expedicionário Português em França e em África, durante a Primeira Guerra Mundial, e foi, depois, governador civil de Coimbra entre Agosto de 1918 e Fevereiro de 1919. Desde Dezembro de 1930 até Dezembro de 1937, altura em que passou à reserva, foi comandante do Batalhão de Caçadores 5, tendo interrompido essas funções para assumir a pasta da Guerra entre Abril de 1933 e Outubro de 1934. Na altura ocupava o posto de major. Esteve directamente envolvido nos problemas sentidos entre Oliveira Salazar e a alta oficialidade militar republicana e conservadora em 1934, na sequência das quais, aliás, abandonou as suas funções ministeriais. As suas divergências com Oliveira Salazar foram manifestas e, por vezes, expressas publicamente. Em 15.4.1934 o então ministro da Guerra protagoniza o descontentamento de alguns sectores do exército para com Salazar através de um discurso efectuado no quartel de Caçadores 5. Algumas unidades terão inclusivamente estado de prevenção por ordens suas. Oliveira Salazar apresentou então a demissão colectiva do Governo, acabando por retirá-la depois de Carmona lhe reiterar publicamente a sua confiança. Luís Alberto Oliveira acabaria por abandonar a pasta da Guerra em Outubro desse ano, na sequência de novos rumores de conspiração contra Oliveira Salazar dirigida pelo próprio ministro da Guerra".
No livro de Luís Farinha, O Reviralho: Revoltas Republicanas contra a Ditadura e o Estado Novo (1926-1940) (Lisboa, Editorial Estampa, 1998, p. 223), também podemos ler:
"No campo do Estado Novo, Salazar aparecia como o definitivo vencedor, depois da crise aberta (que não será a última neste ano), entre ele e Carmona, pelos generais republicanos conservadores que tinha[m] demorado [a] acomodar-se à nova situação(1) [(1) A crise desencadeada em Abril, prolongar-se-á até Outubro, altura em que é substituído o ministro Alberto de Oliveira]".
Fica claro que Luís Alberto de Oliveira participou num governo de Salazar, mas também que se incompatibilizou com o ditador e que terá conspirado contra ele, com outros oficiais republicanos conservadores. No entanto, não temos notícia de que tenha participado activamente na oposição republicana ao Estado Novo, no chamado «Reviralhismo».
Suponho que a homenagem póstuma que lhe foi prestada pelo município de Coruche em 1959 possa ter a ver com a sua participação na I Guerra Mundial. Dois anos antes havia-se comemorado o 40.º aniversário da batalha de La Lys. E também é um facto que a iniciativa se realizou no rescaldo da campanha eleitoral oposicionista do general Humberto Delgado (1958).
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segunda-feira, 27 de agosto de 2007
O Fundo Carlos Vilhena (guia de fontes sobre a resistência-I)
No âmbito do pedido de informações às câmaras municipais do país, com vista à feitura dum guia de fontes sobre a resistência antifascista em Portugal por parte do NAM, chegou-nos informação relativa ao município de Santiago do Cacém, a cujos responsáveis da câmara municipal local aproveitamos para agradecer publicamente.Neste município existem 2 fundos: o Fundo da Sociedade Harmonia de Santiago do Cacém, abrangendo o período de 1847-1983, e o Fundo Carlos Vilhena, abrangendo o período de 1921-1988.
Este último espólio, totalizando 17 cxs., contém documentação relativa à vida pessoal e às actividades do titular, Carlos Vilhena. O estado de conservação é regular. As condições de acesso e reprodução são as previstas na Lei 16/93 (de 23 de Janeiro), as normas de funcionamento do Arq.º Municipal e demais legislação aplicável. Existe um Guia de Fundos do Arquivo Municipal de Santiago do Cacém, disponível só para consulta presencial.
Eis uma biografia sucinta de Carlos Vilhena:
"Carlos Vilhena nasceu em Abela em 1889 e morreu em 1988. Pertenceu à guarda de honra do rei D. Carlos, participou na Primeira Guerra Mundial e foi um dos tenentes do 28 de Maio de 1926, integrando o Comité Revolucionário de Lisboa presidido por Mendes Cabeçadas. Chefiou, nessa qualidade, a força militar que encerrou o Parlamento em 31 de Maio de 1926. Participou no movimento reviralhista em Lisboa (26 de Agosto de 1931) e em muitas outras conspirações e tentativas de golpe militar contra Salazar. Esteve preso por diversas vezes. Foi um dos fundadores do Partido Trabalhista em 1945. Integrou a comissão central de candidatura de Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958. Fundou a Organização Republicana (1963) e foi membro activo da Liga dos Direitos do Homem e do Tribunal Cívico Humberto Delgado. Após o 25 de Abril de 1974 foi-lhe reconhecido o posto de coronel. E, em 1980, recebeu a Ordem da Liberdade".
Fica aqui ainda a bibliografia de apoio à biografia, também da responsabilidade do Arquivo da CM de Santiago do Cacém:
*MADEIRA, João (1996), "Carlos Vilhena", in Fernando Rosas & José Maria Brandão de Brito (dir.), Dicionário de História do Estado Novo, Lisboa, Círculo de Leitores, vol. II.
*MATTOSO, José (dir.; 1994), História de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, vol. VII.
Por fim, registe-se a informação útil que nos chegou sobre a entidade detentora, o Arquivo da CM de Santiago do Cacém:
Endereço: R. Eng. Costa Serrão, 5-A, Santiago do Cacém
Tel.: 269829002
Fax: 269829008
E-mail: arquivomunicipal@cm-santiagocacem.pt
Fax: 269829008
E-mail: arquivomunicipal@cm-santiagocacem.pt
Horário: 3.ªs feiras (9h30-12h30, 13h30-18h30); 4.ª a 6.ª (9h30-12h30, 13h30-16h30); encerra aos sábados, domingos, feriados e 2.ªs.
domingo, 19 de agosto de 2007
Federico García Lorca

No dia 19 de Agosto de 1936 foi assassinado o poeta Federico García Lorca
O Poeta diz a verdade
"Quero chorar meu sofrimento e digo-o
para que tu me queiras e me chores
num poente de rouxinóis cantores,
com um punhal, com beijos e contigo.
Quero matar o único testigo
do assassínio destas minhas flores
e converter meu pranto e meus suores
num eterno montão de duro trigo.
Que não se acabe nunca esta madeixa
do quero-te e me queres, sempre encendida
com lua velha, com sol que se queixa;
Coisa que negas, por mim não pedida,
para a morte será, que jamais deixa
nem sombra pela carne estremecida."
Tradução de José Bento
Poeta e dramaturgo espanhol, Federico García Lorca nasceu a 5 de Junho de 1898 em Fuentevaqueros, Granada, e morreu em Viznar, Granada, a 19 de Agosto de 1936.
O filho mais velho de quatro irmãos do proprietário rural Federico García Rodriguez e da professora Vicenta Lorca Romero começa em 1914 os estudos de Direito, Filosofia e Letras na Universidade de Granada. Cinco anos depois muda-se para uma residência de estudantes em Madrid e, na capital, prossegue os estudos até 1928. Conhece os elementos da chamada “Geração de 27”, entre eles o cineasta Luis Buñuel, o mestre do surrealismo Salvador Dalí e o poeta Juan Ramón Jiménez. Em Madrid nascem as suas primeiras obras literárias: Libro de Poemas (1921) e a obra teatral Marina Pinedo (1925). Funda em 1928, em Granada, a revista literária Gallo, mas não serão publicados mais que dois números. O segundo número da Gallo publica O Manisfesto Anti-Artístico Catalão assinado por Dalí.
Habitado por uma alma de artista, a par da literatura, os interesses de García Lorca ligam-se à música e à pintura.
Logo que termina os estudos universitários em Madrid, García Lorca viaja até aos Estados Unidos. Estuda e dá conferências na Universidade de Columbia em Nova Iorque e dessa experiência nasce o livro Poeta em Nova Iorque (1929). Viaja depois até Cuba e Argentina. Da viagem a Cuba trará uma impressão muito forte.
De volta a Espanha cria o teatro Universitário ambulante “La Barraca”, que representa obras de grandes mestres espanhóis como Calderón, Cervantes e Lope de Vega.
No ano de 1936 os Franquistas conquistam o poder em Espanha e Federico García Lorca será uma das primeiras vítimas do regime nacionalista. Apesar de não pertencer a nenhum partido político, como artista moderno, escritor e homossexual Lorca é, por definição, um inimigo do regime ditatorial. No dia 19 de Agosto de 1936 Federico García Lorca era arrastado para um descampado e sumariamente assassinado com um tiro na nuca.
A bibliografia do escritor inclui os títulos de poesia: Poemas Del Cate Jundo (1921); Primeras Canciones (1922); Canciones (1921-1924); Romancero (1924-1927); Llanto (1935); Seis Poemas Galegos (1935); Diván del Tamarit (1936); e no teatro: El Maleficio de la Mariposa (1919); Marina Pineda (1925); La Zapatera Prodiogiosa (1930); Bodas de Sangre (1933) Yerma (1934); La Casa de Bearda Alba (1936).
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Agir contra a guerra colonial
Integram o «núcleo duro» do grupo Nuno Teotónio Pereira, dedicando-se à recolha de informação; Manuel Alves, economista, responsável pelo ficheiro bibliográfico; Pedro Soares Onofre, encarregado da distribuição das publicações; Luís Moita que redige e selecciona textos. Através deste último elemento, um ex-padre, o grupo estabelece contactos e intercâmbios de informação com a Comissão Pontifícia Justiça e Paz; o IDOC – Centro de Documentação e Informação internacional; e o cónego François Houtart, professor da Universidade Católica de Lovaina e director de um centro de documentação relativo aos problemas do «terceiro mundo». Outras pessoas colaboram pontualmente com o grupo: Maria Gabriela Ferreira, José Dias, Francisco Solano de Almeida, Fernando Abreu, Maria Luísa Sarsfield Cabral e o Pe. José de Sousa Monteiro. Este último é um jesuíta que trabalha próximo do arquivo, na sede da Brotéria, e fornece alguns documentos, que recebe do estrangeiro. O grupo BAC mantém relações informais com a LUAR e a FPLN, a qual integra a BR. A partir de Setembro de 1973, a FPLN é reestruturada e adopta o nome de PRP, mas a organização responsável pela luta armada, BR (Brigadas Revolucionárias), conservam o nome.
Em 1972 dois elementos deste grupo, Nuno Teotónio Pereira e Luís Moita, assinam A situação política portuguesa – o fracasso do reformismo. É um diagnóstico do fracasso da «primavera marcelista», em cuja lista de signatários se encontram comunistas, socialistas e católicos. Apesar do grupo ligado ao BAC nunca ter apostado numa reforma do regime «por dentro», ao contrário de outros opositores católicos com quem se encontravam em sintonia nos anos finais do salazarismo, assume a radicalização da luta anti-colonial como a única atitude coerente face aos impasses da guerra e da ditadura. É neste contexto que são divulgados dois relatórios militares secretos no BAC: o Relatório Anual de Informações do Comando Chefe das Forças Armadas, em Angola (Quartel General – 2.ª Repartição), de 1970, e o Breves considerações sobre alguns aspectos focados no Plano de Contra-Subversão, elaborado, em 1969, pela Direcção dos Serviços de Centralização e Coordenação das Informações de Angola (SCCIA).
Nuno Bragança (na foto), que trabalhava no Ministério dos Negócios Estrangeiros, é um elemento-chave da operação, ficcionalizada no romance Square Tolstoi (1981). É um livro precioso, quer como obra literária, quer como documento do imaginário de um opositor do Estado Novo com referências culturais, religiosas, políticas e sociais bem diferentes das que Manuel Tiago exprime nos seus romances e novelas. Aqui fica um excerto:
«Desde quando é que tu estendes a mão esquerda aos amigos por causa de uma pasta como nunca te vi usar, nem trazias à chegada?»
«A mão esquerda?»
«Ao teu técnico de som»
Fiquei calado. Depois sorri-lhe:
«Pazinha, então se queres ser uma menina muito boa, fica a ver-me embarcar depois não deixes de olhar para o avião. Se antes dele levantar for lá um automóvel, telefona para este número» - dei-lhe o número e o nome do Hugo. «Ele conhece toda a gente que conhece toda a gente que deve ser alertada se eu for dentro.»
Deixei cair o saco e a pasta (mas encostei a perna e esta). Agarrei a Marta e dei-lhe um beijo a sério.
Quando a soltei, ela assoprou. «São Sifrónio», disse. «Ele descobriu.»
«Descobri o quê?»
«Que ainda não tinhas feito isso hoje.» Baixou-se, pegou na pasta e no saco e entregou-mos.
«Vai, pazinho. Se não tiver havido denúncia não há problema. Eles não te vão abrir os envelopes.»
«Eh, os envelopes. Sabes o que é que está em cada um? Uma colecção de palas de pirata para o olho. Até já, o povo agradece-te.»
Segui até ter ultrapassado a Polícia sem problema outro que o de não sorrir quando eles me abriram a pasta a voltaram a fechá-la com indiferença sonolenta. Então virei-me para a Marta, levantei o braço esquerdo em adeus e tapei o olho direito com dois dedos. Depois mandei-lhe um beijo com ambas as mãos. Ela, de longe, fez-me cornichos.»
Nuno Bragança, Square Tolstoi, Lisboa, Assírio & Alvim, 1981, pp. 92-93
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
6 de Agosto de 1945

A 6 de Agosto de 1945 foi lançada a 1ª bomba atómica. Chamava-se Little Boy e provocou a morte a mais de 256.300 pessoas em Hiroshima, no Japão, a maioria das quais civis.
A bomba foi lançada de um bombardeiro B-29, o Enola Gay, pilotado pelo coronel Paul Tibbets Jr.
Destruiu tudo num raio até 2 km de distância, devastando toda a vegetação e infra-estruturas da cidade. O barulho da explosão foi ouvido a quilómetros de distância. Os sobreviventes circulavam pela cidade sem saber ao certo o que havia acontecido. Áreas mais distantes também foram afectadas depois de uma chuva que possuía grande quantidade de radioatividade, contaminando rios, plantações, lagos e pessoas.
Após alguns dias, os sobreviventes começaram a ser atendidos e levados para hospitais de outras províncias. Muitos, por falta de medicação adequada, acabaram morrendo lentamente e de forma agonizante. Anos após o ataque a cidade foi-se reconstruindo, e as imagens de terror apagadas das paisagens. Mas as lembranças deixadas ficarão para sempre na História e nas pessoas. Ainda hoje, passados 62 anos, os seus efeitos se fazem sentir em malformações e doenças.
Três dias mais tarde, foi lançada a bomba Fat Man sobre Nagasaki.
O papel dos bombardeamentos na rendição do Japão, assim como os seus efeitos e justificações, foram submetidos a muitos debates. Nos E.U.A., o ponto de vista que prevalece é que os bombardementos terminaram com a guerra meses mais cedo do que o poderia ter acontecido, salvando muitas vidas que seriam perdidas por ambos os lados se a invasão planeada do Japão tivesse ocorrido. No Japão, o público em geral tende a crer que os bombardementos foram desnecessários, uma vez que a preparação para a rendição já estava em progresso em Tóquio.
Nós acreditamos que nada justifica tamanha carnificina sobre pessoas inocentes.
Foi construído um museu eternizando os acontecimentos: O Memorial da Paz de Hiroshima.

O Memorial da Paz de Hiroshima, chamado Cúpula Genbaku (原爆ドーム) ou Cúpula da Bomba Atómica , localiza-se em Hiroshima, Japão.
O edifício foi originalmente projectado pelo arquitecto japonês Kenzo Tange. Foi terminado em Abril de 1915, e intitulado Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima (HMI). Foi inaugurado oficialmente em Agosto desse ano.
O hipocentro da explosão atómica de 6 de Agosto de 1945 situou-se apenas a 150 metros de distância do edifício, que foi a estrutura mais próxima a resistir ao impacto. O edifício foi imediatamente preservado exactamente como se encontrava após o bombardeamento, e serve hoje como uma memória da devastação nuclear e um símbolo de esperança na paz mundial e eliminação de todas as armas nucleares.
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quinta-feira, 19 de julho de 2007
"Sabes o que foram?" 20/07/2007, 21:30 horas

A Associação José Afonso leva a efeito amanhã, dia 20/07/2007, no Fórum Luisa Todi, em Setúbal, uma sessão de Canto Livre.
Não faltes!
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domingo, 15 de julho de 2007
Da insubmissão solidária em Urbano Tavares Rodrigues
Saiu nesta quinzena uma extensa entrevista ao resistente antifascista Urbano Tavares Rodrigues, conduzida por José Carlos Vasconcelos para o JL.Urbano nasceu em Lisboa em 1923, mas passou a infância no Alentejo, próximo da vila de Moura, o que o iria influenciar nas suas preocupações sociais, cívicas e políticas. Como diz o próprio: “Um paraíso, depois perdido, a que sempre quis voltar – e a descoberta de que esse paraíso é também um lugar de horrores. E a descoberta ainda da miséria, do povo. Eu e o Miguel falávamos e confraternizávamos com eles, nesse tempo que era o da Guerra Civil de Espanha, em que o meu pai deu guarida no monte a republicanos [espanhóis]”. Sobre a sua vivência alentejana pode ler-se «A casa da minha infância».
Foi preso pela primeira vez durante a II Guerra Mundial, por ter dado vivas aos Aliados e à liberdade no cinema Tivoli, onde fora com outros colegas do Liceu Camões ver um documentário sobre a guerra. Com o fim da guerra, apoiou o Movimento de Unidade Democrática, mas já não enquanto simpatizante do PCP, de que se afastara por causa do Pacto Germano-Soviético e ao qual só regressaria após as eleições de 1969 (foi então candidato da CEUD em Lisboa, mas tb. ajudou a CDE no Alentejo).
Foi leitor de Português em diversas universidades estrangeiras (Montpellier, Aix-en-Provence e Paris, entre 1949 e 1955). Nessa estada recolheu várias vezes assinaturas de intelectuais anti-fascistas como Louis Aragon, em prol da libertação dos presos políticos e da liberdade de imprensa em Portugal.
Por ter apoiado a campanha oposicionista de Humberto Delgado é expulso da Universidade de Lisboa, para onde fora convidado por Vitorino Nemésio. Interpelado por Urbano na Liv.ª Bertand, o ministro da Educação da altura, eng. Leite Pinto, confirmou que essa fora uma retaliação política: “«Então, demitiram-me por motivos políticos». Ao que ele respondeu: «Pois claro». «Mas eu não fazia política nas aulas», retorqui. «Mas fazia cá fora», disse ele. Voltei-lhe as costas”.
Em 1959, participa na revolta da Sé e entra para as Juntas de Acção Patriótica. Em 1961, envolve-se no malogrado assalto ao quartel de Beja, donde escapa ileso. Acusado de «actividades subversivas», é impedido de dar aulas nas escolas portuguesas, tendo que sair do Colégio Moderno e só podendo exercer a sua profissão na secção francesa do Liceu Francês. O seu envolvimento nas Juntas leva-o a ser preso pela PIDE em 1963. Depois de liberto, ajudou à fuga para o exílio de muitos desertores e antifascistas perseguidos, com o apoio de comunistas. Voltará a ser preso pela polícia política em 1968, tendo sido torturado com a tortura do sono e tendo estado em isolamento durante os 5 meses de detenção.
Segundo o ensaísta João de Melo, a obra de Urbano caracteriza-se por “uma literatura de combate e de experiência pessoal”, retratando um século de contrastes, sofrimento e sonhos: “Chama a si a crónica miúda e persistente deste último século português, ela mesma o trânsito de um país que viajou das trevas profundas para a luz da liberdade e das dos universos das injustiças sociais, da opressão, da cadeia e de todos os abusos para a celebração do país do povo, da terra, da revolução e da fraternidade” (in O Imaginário alentejano de Urbano Tavares Rodrigues, 1996; fonte: aqui). É uma elegia da resistência popular à injustiça social e à opressão política, assim o assume o próprio Urbano: “Compreendi que o meu destino estava verdadeiramente ligado ao mundo do Alentejo, dos trabalhadores rurais, dos pequenos camponeses e por esses, por um Alentejo diferente eu havia de lutar, de escrever, havia de viver”.
Sobre o seu perfil cívico vd. Urbano Tavares Rodrigues – cidadão e escritor, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2005. Veja-se ainda um encantatório texto de Urbano sobre Lisboa antiga no site Teia Portuguesa. Existe uma breve biografia literária na DGLB.
quinta-feira, 12 de julho de 2007
O Tarrafal visto em Cabo Verde

Dois jovens jornalistas caboverdianos, Silvino Évora e José Tavares, fizeram um artigo muito interessante sobre a Memória do Campo de Concentração do Tarrafal. A base do artigo foi a tese de Mestrado de José Soares, intitulada: O Campo de Concentração de Tarrafal (1936-1954): A Origem e o Quotidiano.
Em homenagem aos que travaram a Ditadura com o sofrimento, os autores quiseram recordar os 70 anos do “Campo da Morte”.
"O Campo de Concentração de Tarrafal: 70 anos de História
Entra o século XX e encontra a relação entre os países em ebulição. A Europa está a passar por um momento de convulsão política. O desentendimento tem o desfecho trágico: um primeiro ensaio bélico à escala planetária que dura cinco anos (1914-1919) e arrasta consigo cerca de 40 milhões de vidas. O fim da Grande Guerra não significa o fim das hostilidades. Os conflitos não têm unicamente a dimensão internacional. Alguns países atravessam momentos de verdadeira “hemorragia interna”, a nível político, com várias facções ideológicas a disputar o poder.
Portugal não foge à regra. O “Reviralho” (esquerda republicana) separa-se da Ditadura, desde a primeira hora, e combate-a ferozmente; o Movimento Operário Organizado através do Anarco-Sindicalismo testa a sua força hegemónica no seio da classe operária; o Partido Comunista Português, com fraca influência, tenta fazer ecoar a sua voz; e, por fim, o Partido Socialista adopta uma posição ambígua em relação à Ditadura. As cartas estão lançadas e os “jogadores” delineiam estratégias. A História segue o seu curso natural e o processo de transição para o Estado Novo causa várias “baixas” entre as forças que disputam a hegemonia a partir do interior da Ditadura. O Salazarismo, enquanto Regime Político, emerge como vencedor. As hostilidades continuam. O Reviralhismo e o Movimento Operário declaram guerra à derrota, não aceitando o triunfo do Salazarismo. O clima é de grande tensão. As desconfianças são mútuas. Salazar precisa de manter o regime. Aposta fortemente nos instrumentos de repressão e instala o Estado Novo. A Polícia Política, o sistema de saneamento e o sistema prisional são apenas alguns exemplos. E, de repente, surge um milagre; uma espécie de “mão invisível” que convida todos os “irrequietos” ao “culto do silêncio”. Parece o fim da linha. O silêncio é profundo. Ensurdecedor, até.
Um novo dia: 29 de Outubro de 1936. O Campo de Concentração do Tarrafal abre as portas e acolhe “amavelmente” os primeiros “hóspedes”. É o Decreto-Lei número 26: 539 de 23 de Abril de 1936, que surgiu no âmbito da reorganização dos serviços prisionais, que passa o certidão de nascimento à “Colónia Penal”. Não se trata de uma prisão qualquer. É um verdadeiro Campo de Concentração, construído com o objectivo de (des)“amparar” os indivíduos sobre os quais recaem “penas especiais”, tendo em conta o teor do Decreto-Lei número 26:643 de 28 de Maio de 1936, que reorganiza os estabelecimentos Prisionais. Os parágrafos 1 e 2 do artigo 2 do Decreto Lei 26:539 de 23 de Abril de 1936 não nos enganam. Dizem-nos que a “Colónia da Morte” serve para receber os presos políticos e sociais, sobre quem recai o dever de cumprir o desterro, aqueles que internados em outros estabelecimentos prisionais se mostram refractários à disciplina e ainda os elementos perniciosos para outros reclusos. Também o documento abrange os condenados a pena maior por crimes praticados com fins políticos, os presos preventivos, e, por fim, os presos por crime de rebelião.
Em homenagem aos que travaram a Ditadura com o sofrimento, os autores quiseram recordar os 70 anos do “Campo da Morte”.
"O Campo de Concentração de Tarrafal: 70 anos de História
Entra o século XX e encontra a relação entre os países em ebulição. A Europa está a passar por um momento de convulsão política. O desentendimento tem o desfecho trágico: um primeiro ensaio bélico à escala planetária que dura cinco anos (1914-1919) e arrasta consigo cerca de 40 milhões de vidas. O fim da Grande Guerra não significa o fim das hostilidades. Os conflitos não têm unicamente a dimensão internacional. Alguns países atravessam momentos de verdadeira “hemorragia interna”, a nível político, com várias facções ideológicas a disputar o poder.
Portugal não foge à regra. O “Reviralho” (esquerda republicana) separa-se da Ditadura, desde a primeira hora, e combate-a ferozmente; o Movimento Operário Organizado através do Anarco-Sindicalismo testa a sua força hegemónica no seio da classe operária; o Partido Comunista Português, com fraca influência, tenta fazer ecoar a sua voz; e, por fim, o Partido Socialista adopta uma posição ambígua em relação à Ditadura. As cartas estão lançadas e os “jogadores” delineiam estratégias. A História segue o seu curso natural e o processo de transição para o Estado Novo causa várias “baixas” entre as forças que disputam a hegemonia a partir do interior da Ditadura. O Salazarismo, enquanto Regime Político, emerge como vencedor. As hostilidades continuam. O Reviralhismo e o Movimento Operário declaram guerra à derrota, não aceitando o triunfo do Salazarismo. O clima é de grande tensão. As desconfianças são mútuas. Salazar precisa de manter o regime. Aposta fortemente nos instrumentos de repressão e instala o Estado Novo. A Polícia Política, o sistema de saneamento e o sistema prisional são apenas alguns exemplos. E, de repente, surge um milagre; uma espécie de “mão invisível” que convida todos os “irrequietos” ao “culto do silêncio”. Parece o fim da linha. O silêncio é profundo. Ensurdecedor, até.
Um novo dia: 29 de Outubro de 1936. O Campo de Concentração do Tarrafal abre as portas e acolhe “amavelmente” os primeiros “hóspedes”. É o Decreto-Lei número 26: 539 de 23 de Abril de 1936, que surgiu no âmbito da reorganização dos serviços prisionais, que passa o certidão de nascimento à “Colónia Penal”. Não se trata de uma prisão qualquer. É um verdadeiro Campo de Concentração, construído com o objectivo de (des)“amparar” os indivíduos sobre os quais recaem “penas especiais”, tendo em conta o teor do Decreto-Lei número 26:643 de 28 de Maio de 1936, que reorganiza os estabelecimentos Prisionais. Os parágrafos 1 e 2 do artigo 2 do Decreto Lei 26:539 de 23 de Abril de 1936 não nos enganam. Dizem-nos que a “Colónia da Morte” serve para receber os presos políticos e sociais, sobre quem recai o dever de cumprir o desterro, aqueles que internados em outros estabelecimentos prisionais se mostram refractários à disciplina e ainda os elementos perniciosos para outros reclusos. Também o documento abrange os condenados a pena maior por crimes praticados com fins políticos, os presos preventivos, e, por fim, os presos por crime de rebelião.
Campos de Concentração antes do Tarrafal
Tarrafal não é a causa, mas sim a consequência. É o resultado da agudização da luta de classes em Portugal, que leva o regime salazarista, encorajado pela situação política na Alemanha e na Itália, a incrementar a repressão. Por isso, a história da “Colónia Penal de Tarrafal” começa verdadeiramente depois de 18 de Janeiro de 1934. Antes do Tarrafal, o regime opressor criara, na Ilha de São Nicolau, um Campo de Concentração que servira para o degredo, maioritariamente, dos oficiais do exército detidos na Revolução da Madeira de 1931. E anterior ainda às prisões de Cabo Verde, o Decreto-Lei de 17 de Fevereiro de 1907, havia criado, em Angola, uma Colónia Penal Militar. Contudo, o Campo de Concentração da Ilha de S. Nicolau e os campos de concentração alemães, principalmente o de Dachau, são apresentados por muitos, especialmente pelos presos que estiveram no Tarrafal, como os antecedentes que justificam a criação daquilo que uns designam de Colónia Penal e outros de Campo de Concentração de Tarrafal. O nome pouco importa. Interessa, sim, as finalidades, os objectivos. O fim.
Tarrafal não é a causa, mas sim a consequência. É o resultado da agudização da luta de classes em Portugal, que leva o regime salazarista, encorajado pela situação política na Alemanha e na Itália, a incrementar a repressão. Por isso, a história da “Colónia Penal de Tarrafal” começa verdadeiramente depois de 18 de Janeiro de 1934. Antes do Tarrafal, o regime opressor criara, na Ilha de São Nicolau, um Campo de Concentração que servira para o degredo, maioritariamente, dos oficiais do exército detidos na Revolução da Madeira de 1931. E anterior ainda às prisões de Cabo Verde, o Decreto-Lei de 17 de Fevereiro de 1907, havia criado, em Angola, uma Colónia Penal Militar. Contudo, o Campo de Concentração da Ilha de S. Nicolau e os campos de concentração alemães, principalmente o de Dachau, são apresentados por muitos, especialmente pelos presos que estiveram no Tarrafal, como os antecedentes que justificam a criação daquilo que uns designam de Colónia Penal e outros de Campo de Concentração de Tarrafal. O nome pouco importa. Interessa, sim, as finalidades, os objectivos. O fim.
O Governo salazarista e os seus apologistas defendem apenas que o Campo de Concentração do Tarrafal é arquitectado como “Colónia Penal” e que tem como fim primordial a recolha dos condenados a pena de desterro pela prática de crimes políticos e os prisioneiros de delitos comuns que, na Metrópole, mostram-se intransigentes à disciplina prisional. O Governo justifica ainda que a Colónia Penal do Tarrafal é, em tudo, semelhante às prisões da Metrópole, dirigidas pelo Ministério da Justiça, como os casos de Caxias, Aljube, Peniche.

Tarrafal e a Construção da Morte
O Decreto-Lei que dá “vida” ao “Campo da Morte” determina a instalação do estabelecimento prisional na zona de Achada Grande e Ponta de Achada de Chão Bom, no Concelho de Tarrafal, a norte da Ilha de Santiago (Cabo Verde). A construção do Campo é entregue ao Ministério das Obras Públicas e Telecomunicações, com responsabilidades para elaborar a planta e levar a cabo a construção da obra. O Ministério das Obras Públicas e Telecomunicações elabora, assim, uma planta constituída por diferentes pavilhões para a instalação dos serviços e o agrupamento dos presos, de acordo com as suas afinidades políticas. O projecto está pronto, mas tem que ser aprovado. Têm responsabilidades na aprovação, o Ministério das Obras Públicas e Telecomunicações, o Ministério da Justiça e a Comissão das Construções Prisionais. O Ministério da Guerra, da Marinha e da Colónia também pode garantir um apoio essencial para a instalação e funcionamento dessa prisão. O projecto apresenta uma cadeia de 1.700 hectares, ampliáveis, caso justificar.
A Instalação do Campo da Morte
A instalação da “Colónia Penal” obedece a duas etapas: a primeira correspondente ao período que vai de 1936 até 1938. Durante este período, o Campo de Concentração do Tarrafal recebe os primeiros 150 presos antifascistas de diversas profissões: camponeses, operários, soldados, marinheiros das revoltas dos navios Dão, Bartolomeu Dias e Afonso de Albuquerque, estudantes, intelectuais, entre outros. A segunda fase compreende a época da construção dos primeiros pavilhões de pedras e a chegada do médico Esmeraldo Pais de Prata, até ao encerramento que acontece em 1954.
Os primeiros presos instalam-se em tendas de lona, sem as mínimas condições de habitabilidade e de higiene. As barracas não têm luz eléctrica, nem ventilação, nem qualquer protecção contra a chuva e o sol. São doze barracas de lona, com sete metros de comprimento e quatro de largura. Cada uma tem capacidade para alojar doze prisioneiros. O prazo de validade destas barracas é de dois anos, altura em que surgem os pavilhões feitos de pedras. O espaço envolvente à “Colónia Penal” é vedado com arame farpado em toda a sua volta, para impedir qualquer contacto com o exterior. O único edifício de pedra na primeira fase é a cozinha que, entretanto, não fica completamente construído.

A Morte Lenta no Campo de Tarrafal
Os compartimentos da “Colónia Penal” estão longe de obedecer um parâmetro mínimo de humanidade. Depois de 16 anos na “jaula prisional”, João Faria Borda testemunha que “o Campo de Concentração é um rectângulo (cerca de 250m por 180) situado num dos sítios mais insalubres do arquipélago de Cabo Verde. Como alojamento, existem umas barracas de lona onde são metidos cerca de 12 presos em cada uma”. A par da falta de condições das instalações, existe também o castigo da Frigideira, uma pequena construção completamente fechada cujas paredes, chão e tecto são constituídos por cimento, que é a pior “dor de cabeça” para qualquer preso. A Frigideira é uma espécie de purgatório. É um antro de cimento onde as almas ‘pecaminosas’ são levadas a “purificar”. Só que muitas delas nunca mais voltam ao “paraíso terrestre de Salazar”.

A Morte Lenta no Campo de Tarrafal
Os compartimentos da “Colónia Penal” estão longe de obedecer um parâmetro mínimo de humanidade. Depois de 16 anos na “jaula prisional”, João Faria Borda testemunha que “o Campo de Concentração é um rectângulo (cerca de 250m por 180) situado num dos sítios mais insalubres do arquipélago de Cabo Verde. Como alojamento, existem umas barracas de lona onde são metidos cerca de 12 presos em cada uma”. A par da falta de condições das instalações, existe também o castigo da Frigideira, uma pequena construção completamente fechada cujas paredes, chão e tecto são constituídos por cimento, que é a pior “dor de cabeça” para qualquer preso. A Frigideira é uma espécie de purgatório. É um antro de cimento onde as almas ‘pecaminosas’ são levadas a “purificar”. Só que muitas delas nunca mais voltam ao “paraíso terrestre de Salazar”.
Com as dimensões de 0.60m por 1.70m de altura, o portão de ferro da Frigideira parece com as portas dos navios. As celas são separadas por portões de ferro semelhantes. O equipamento é construído a uma distância considerável de qualquer outro compartimento da “casa da morte”, para que a sombra não proteja os seus habitantes do calor infernal que lá se faz, ficando permanentemente exposto ao raio solar durante o período diurno. No seu interior, só há dois companheiros: a solidão e o silêncio. Dias e noites a fios, os homens que lá estão apenas “falam” que a chuva que cai, apreciando o som da água que corre da Ribeira Prata para ir alagar os terrenos de Colonato. “Em Cabo Verde, região de clima variável, calha chover bastante nestes anos. A lona das barracas apodrece de tal maneira que lá dentro chove como na rua e de manhã acordamos com a cara negra da poeira que se pega à humidade que sobre nós cai. As águas acumuladas formam pântanos onde se desenvolvem mosquitos transmissores do paludismo. A saúde de todos nós, presos, arruína-se”. Desabafo de quem, durante 16 anos, dormiu na mesma cama que a morte, abraçado por ‘putríficas’ condições higiénicas.
Por outro lado, o quotidiano dos reclusos no Tarrafal é pautado principalmente pelos trabalhos forçados, pelas provocações e castigos de diversa ordem. O contacto com o exterior é escasso, sendo-lhes proibida, frequentemente, a troca de correspondência com os amigos e os familiares. E assim reza a história. Triste história de uma passado que teima em ficar. Os anos passam mas a verdade fica. A verdade da História.
Por outro lado, o quotidiano dos reclusos no Tarrafal é pautado principalmente pelos trabalhos forçados, pelas provocações e castigos de diversa ordem. O contacto com o exterior é escasso, sendo-lhes proibida, frequentemente, a troca de correspondência com os amigos e os familiares. E assim reza a história. Triste história de uma passado que teima em ficar. Os anos passam mas a verdade fica. A verdade da História.
Era um dia como hoje: 29 de Outubro de 1936. O Campo de Concentração do Tarrafal abre as portas. E hoje, um dia como aquele: 29 de Outubro de 2006, a história teima em trazer a verdade. A verdade dos factos. Tarrafal… há 70 anos, abre a porta da morte. E é atravessado por Esmeraldo Pais de Prata, médico Licenciado em “Assassínio”. Chega, entra e diz a sua primeira frase: “não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito”."
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domingo, 8 de julho de 2007
Jean Moulin

A 8 de Julho de 1943 morreu Jean Moulin, um dos principais heróis da Resistência Francesa.
Jean Moulin nasceu em Béziers, no Languedoc-Roussillon, em 20 de Junho de 1899 . Morreu ao largo de Metz, no dia 8 de Julho de 1943.
Formado em Direito, membro da Maçonaria, seguiu uma carreira administrativa que se adivinhava brilhante. Sendo bom desenhador, publicou também algumas caricaturas e desenhos humorísticos na revista Le Rire, sob o pseudónimo de Romanin.
Em 1925, foi o Vice-prefeito mais jovem de França e, doze anos mais tarde, o Prefeito mais novo, quando foi nomeado para Aveyron.
Foi já nestas funções, mas em Chartres, que recusou, em 1940, assinar um documento que os alemães lhe apresentaram. O Governo colaboracionista de Vichy destitui-o, foi preso e tentou suicidar-se, cortando o pescoço com um caco de vidro. Não morreu, mas ficou com uma cicatriz que ele tapava sempre com um cachecol.
Fugiu para Londres, passando por Espanha e por Portugal, sob nome falso, vindo a encontrar-se com o General Charles De Gaulle na capital britânica. Juntou-se à Resistência e foi encarregue da unificação dos vários movimentos de resistência ao ocupante nazi. Foi lançado de pára-quedas sobre o território francês, no primeiro dia de 1942, passando a ser conhecido por Rex e, mais tarde, por Max. Deslocou-se em várias ocasiões a Londres, para relatar a situação em França, na última das quais foi condecorado por De Gaulle com a Cruz da Liberdade.
Vítima de uma traição segundo uns, de uma imprudência segundo outros, foi preso nos arredores de Lyon, em Junho de 1943, e alvo de interrogatórios e torturas por Klaus Barbie, chefe da Gestapo em Lyon. Acabaria por morrer dentro do comboio que o levava de Paris até Berlim, de onde seria então encaminhado para um campo de concentração.
As suas cinzas encontram-se no Panteão nacional francês desde 1964.
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domingo, 1 de julho de 2007
Carlos de Oliveira - 01/07/1981

Soneto
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
Escritor neo-realista, filho de emigrantes portugueses, só viveu no Brasil os dois primeiros anos de vida: em 1923, os seus pais regressam a Portugal, acabando por se fixar na região de Cantanhede, mais precisamente na aldeia de Febres, onde seu pai exercia medicina. Em 1933 muda-se para Coimbra, cidade onde permanece durante quinze anos, a fim de concluir os estudos liceais e universitários. Ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1941, onde estabelece amizade, convívio intelectual e solidariedade ideológica e política com outros jovens, entre os quais Joaquim Namorado, João Cochofel e Fernando Namora.
Em 1942 publica o seu primeiro livro de poemas Turismo, com ilustrações de Fernando Namora, integrado na colecção Novo Cancioneiro e em 1943 publica o seu primeiro romance, Casa na Duna. Em 1944, o romance Alcateia, será apreendido, lançando nesse mesmo ano a segunda edição de Casa na Duna.
Em 1945 publica um novo livro de poesias, Mãe Pobre. Os anos 1945 e seguintes serão, para Carlos de Oliveira, bem profícuos quanto à integração e afirmação no grupo que veicula e auspera por um “novo humanismo”, com a participação nas revistas Seara Nova e Vértice e a colaboração no livro de Fernando Lopes Graça Marchas, Danças e Canções – colectânea de poesias de vários poetas, musicadas por aquele, canções que vieram a ser conhecidas por “heróicas”.
Termina em 1947 a sua Licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte instala-se definitivamente em Lisboa, não deixando, contudo, de se deslocar periodicamente a Coimbra e à Gândara. Em 1949 casa com Ângela, jovem madeirense que conhecera na Faculdade, que será sua companheira e colaboradora permanente.
Em 1953 publica Uma Abelha na Chuva, o seu quarto romance e, unanimemente reconhecido como uma das mais importantes obras da literatura portuguesa, estando integrado nos conteúdos programáticos da disciplina de português no ensino secundário.
Em 1957 organiza, com José Gomes Ferreira, numa abordagem do imaginário popular os dois volumes de Contos Tradicionais Portugueses, alguns deles posteriormente adaptados ao cinema por João César Monteiro.
Em 1968 publica dois novos livros de poesia, Sobre o Lado Esquerdo e Micropaisagem e colabora com Fernando Lopes no filme por este realizado e terminado em 1971, Uma Abelha na Chuva, a partir da obra homónima. Publica em 1971 O Aprendiz de Feiticeiro, colectânea de crónicas e artigos, e Entre Duas Memórias, livro de poemas, pelo qual lhe é atribuído no ano seguinte o Prémio de Imprensa. Em 1976 reúne toda a sua poesia em Trabalho Poético, dois volumes, apresentando os livros anteriores, revistos, e os poemas inéditos de Pastoral, livro que será publicado autonomamente no ano seguinte. Publica em 1978 o seu último romance Finisterra, paisagem povoada de inspiração gandaresa, obra que lhe proporciona a atribuição do Prémio Cidade de Lisboa, no ano seguinte.
Morre na sua casa em Lisboa a 1 de Julho de 1981.
Poesia
Turismo (1942);
Mãe Pobre (1945);
Colheita Perdida (1948);
Descida aos Infernos (1949);
Terra de Harmonia (1950);
Cantata (1960);
Micropaisagem (1968, 1969);
Sobre o Lado Esquerdo, o Lado do Coração (1968, 1969);
Entre Duas Memórias (1971);
Pastoral (1977).
Romance
Casa na Duna (1943; 2000);
Alcateia (1944; 1945);
Pequenos Burgueses (1948; 2000);
Uma Abelha na Chuva (1953; 2003);
Finisterra: paisagem e povoamento (1978; 2003).
Crónicas
O Aprendiz de Feiticeiro (1971, 1979).
Antologia
Poesias (1945-1960) (1962);
Trabalho Poético (1976; 2003).
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