quinta-feira, 24 de maio de 2007

"Arte e Literatura na Guerra Civil de Espanha" de João Cerqueira


Dia 24 de Maio, às 21:00, na Fundação Mário Soares, é apresentado o livro Arte e Literatura na Guerra Civil de Espanha de João Cerqueira.
"Durante a Guerra Civil de Espanha e posterior regime franquista a
arte e a literatura despontam como forma de resistência à opressão e à violência, encarnando um sentimento profundo de insubmissão e esperança. Uma intensa força espiritual compele artistas, escritores, cineastas, músicos, operários e camponeses a explorarem as suas potencialidades criativas para servir um ideal político-filosófico. Desse esforço desesperado resultou um número difícil de quantificar de obras literárias, artísticas, cinematográficas, teatrais e musicais. No embate com o tempo muitas não resistiram à carga de propaganda que lhes deu origem. Outras, devido ao carácter universal e intemporal, transcenderam o contexto histórico original, mantendo incólume a genialidade e o fulgor humanista na passagem pelo crivo dos anos."


Nascido em Viana do Castelo a 23 de Outubro de 1964, João Cerqueira é licenciado e mestre em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e prepara um doutoramento sobre José de Guimarães.
Foi convidado pela revista Arte Ibérica para efectuar a cobertura das exposições decorrentes durante o Porto 2001 Capital Europeia da Cultura e é colaborador da revista Idearte.
De entre os livros de referência escolhe, como guia espiritual e manual de instruções para a sinuosa estrada da vida, O elogio da loucura de Erasmo de Roterdão.
É membro da Amnistia Internacional e da Associação Raoul Follerau.

Alberto Vilaça in memoriam

O advogado antifascista Alberto Vilaça faleceu esta 2.ª feira, em Coimbra, sua cidade natal, aos 78 anos de idade.
Vilaça era um dos mais antigos militantes do PCP em Coimbra, partido a que aderiu em 1949. Foi um activo associativista durante o Estado Novo, designadamente enquanto dirigente da Associação Académica de Coimbra, membro dos conselhos de redacção das revistas Via Latina e Vértice, presidente da assembleia-geral do Ateneu de Coimbra, e membro da Comissão Central do MUD-Juvenil e da Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática. Devido à sua intervenção política e cívica foi preso 6 vezes pela PIDE.
Após a revolução de 1974, presidiu à Junta Distrital de Coimbra e foi representante à Assembleia Municipal de Coimbra durante sucessivos mandatos autárquicos. Foi um dos sócios fundadores da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo (localizado em Vila Franca de Xira). Foi agraciado com o grau de grande oficial da Ordem da Liberdade pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio.
Fontes: Diário de Coimbra e Público; imagem de Vilaça retirada daqui.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Aivados – memória da resistência rural no Alentejo


Inês Fonseca vai apresentar na livraria Ler Devagar, no próximo sábado, dia 26, às 18h, a sua obra sobre memórias e identidade de uma aldeia do Alentejo, Aivados, no concelho de Castro Verde. Uma povoação que pela posse igualitária da terra se envolveu na luta pela reforma agrária logo após a Revolução de Abril. O livro, com a chancela da Dinossauro Edições tem por título Aivados. Posse da Terra, Resistência e Memória no Alentejo e teve por base a tese de dissertação que apresentou no seu mestrado em Antropologia, em 1997, sob orientação dos Profs. Jorge Crespo e Paula Godinho.
A obra abre com a apresentação geográfica da localidade e o seu povoamento. Daí parte para a inserção regional de Aivados no território do Baixo Alentejo e para as estruturas sociais que ali existiam e se formaram ao longo do século XX. “Movimentos sociais no contexto alentejano” é o título deste capítulo que se desenvolve depois, no capítulo seguinte, na epopeia da posse colectiva da terra, “naquele dia [em que] éramos todos iguais”.

Evocação a Zeca Afonso - 24/05/2007 às 22:00 horas


No seguimento do jantar comemorativo do 25 de Abril, realizado no Mercado da Ribeira, em Lisboa, Em Abril, de novo Esperanças mil, realiza-se uma evocação a Zeca Afonso dia 24/05, às 22:00 horas, no Bar do Espaço da Ribeira com Carlos Alberto Moniz e José Jorge Letria.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

O Saudoso tempo do fascismo - 23/05/2007 - 19:00 horas no Biblioteca-Museu da República e Resistência



O encenador e dramaturgo Hélder Costa é actualmente encenador do grupo de teatro “A Barraca”, e fundou em 1970 o Teatro Operário de Paris.

Dirigiu cursos e participou em congressos e festivais em França, Alemanha, Suíça, Argentina, Cabo Verde, México, Chile, Colômbia, Venezuela, EUA, URSS, Bélgica, Itália, Macau, Nicarágua e Uruguai.

Ao longo da sua carreira foi distinguido com diversos prémios nacionais e internacionais como: o Grande Prémio de Teatro da RTP; o prémio da Associação de Críticos; e o Prémio da Associação de Actores e Directores da Catalunha e 1º Festival da Ciudad de México.

"Escrito naquele tom descontraído de quem domina a velha arte de contar histórias, O Saudoso Tempo do Fascismo é uma colectânea de relatos situados na fronteira entre o memorialístico, o pedagógico e o humorístico. Recortes do tempo que falam dos bailes e do «arame farpado», da emancipação das mulheres, das críticas à praxe coimbrã, das arrogâncias do poder e do seu escarnecimento, das experiências teatrais, da contestação à guerra colonial, das peripécias que rodearam um inevitável «salto» para Paris. Histórias contadas com uma deliciosa dose de humor e ironia. Veja-se o exemplo da tentativa de captura do autor pela PIDE – «15 gajos de metralhadoras, partiram os teus móveis, levaram tudo» – que Hélder Costa recorda do seguinte modo:

Comecei a rir, a pensar no ódio dos Pides quando entraram no meu quarto. Eu tinha preparado um cenário para lhes fazer perder a paciência. Em cima da secretária, um livro aberto de Mao Tsé-Toung sobre tácticas de guerra, e em cima do guarda-fato tinha posto um pacote com a indicação «não mexer».
Dentro do pacote estava um enorme caralho das Caldas, com um lacinho cor de rosa… coitados, é natural que me tivessem partido a mobília… um grupo de bons rapazes amantes da Pátria e tementes a Deus, católicos, apostólicos, Romanos, com certeza habituados a transportar o andor em Fátima, funcionários da toda impune, poderosa e terrífica Polícia de Investigação e Defesa do Estado, a serem gozados por um puto estudante de Direito!"


Do Blogue "Passado/Presente a construção da memória no mundo contemporâneo"

domingo, 20 de maio de 2007

Encontros/Debates sobre a Ditadura do Estado Novo - 15, 22 e 29 de Maio de 2007

Hugo Dias, da Universidade de Coimbra, deu-nos conta de um ciclo de Encontros/Debates sobre o Estado Novo:

"Nos dias que correm, podemos dizer que é evidente na sociedade portuguesa, alguma falta de discussão do período da História tão próximo de nós, e que parece ao mesmo tempo tão distante – o período denominado "Estado Novo".

Caracterizado por uma ditadura conservadora, retirou a liberdade e a democracia ao povo português e provocou um grande atraso do país, entre outras coisas.

A recente polémica em torno da criação da casa – museu António de Oliveira Salazar é um exemplo da falta de discussão e de algumas clarificações que se faz sentir.

Na sequência de uma conversa, um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra decidiu promover um ciclo de encontros/debate com o objectivo de promover a discussão do período da ditadura portuguesa."




Estas conferências terão lugar no foyer do Teatro Académico Gil Vicente nos dias 15, 22 e 29 de Maio às 18h.

Programa:

Dia 15 de Maio 3ª feira
18h00-Café-Teatro


Da Primeira República ao Estado Novo, consolidação do Regime
Com: Reis Torgal (Professor Catedrático de História da FLUC e investigador do Instituto de História e Teoria das Ideias e do CEIS 20) e Álvaro Garrido Professor Doutorado em História Económica e Social pela FEUC e investigador do CEIS 20) .

Dia 22 de Maio 3ª feira
18h-Café-Teatro


Valores do Estado Novo na Arquitectura e no Cinema
Com: José António Bandeirinha (Professor Doutorado em Arquitectura pelo Departamento de Arquitectura da FCTUC) e Paulo Cunha (Mestre em História pela FLUC e colaborador do CEIS 20) .

Dia 29 de Maio 3ª feira
18h00-Café-Teatro


Juventude, Renovação Cultural, Movimento Estudantil
Com: Rui Bebiano (Professor Doutorado em História Moderna e Contemporânea pela FLUC e investigador do Instituto de História e Teoria das Ideias e do Centro de Estudos Sociais) e Miguel Cardina (Mestre em História das Ideologias e Utopias Contemporâneas pela FLUC).

Luuanda: prémio e castigo

A 21 de Maio de 1965, o ministro da Educação Nacional determinou a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE). Na semana anterior, o Grande Prémio de Novelística fora atribuído a Luuanda, de Luandino Vieira. O premiado era membro do MPLA e estava preso no Tarrafal, acusado de atentar contra a «segurança do estado».
Numa altura em que o regime de Salazar forçava o país a envolver-se acriticamente numa guerra colonial em três teatros de operações para defender a integridade da «Nação pluricontinental» portuguesa, a posição de independência assumida pelo júri e pela SPE fez temer a afirmação de uma «quarta frente». Com o beneplácito da Fundação Calouste Gulbenkian (que deixou de financiar o Prémio), o Governo pôs em marcha uma campanha de propaganda para denegrir e silenciar esses «traidores» que habitavam no «andar de baixo do mundo confuso das artes e das letras» (editorial do Diário da Manhã, de 22/05/1965).
Luuanda foi publicado na capital angolana em Outubro de 1964, com o dinheiro do galardão Mota Veiga, e circulava em Lisboa desde o início de 1965, entre estudantes e intelectuais, em círculos próximos da Casa dos Estudantes do Império.
Alexandre Pinheiro Torres, no suplemento “Vida Literária e Artística” do Diário de Notícias, foi o primeiro crítico a reconhecer em Portugal a qualidade literária das três histórias que formavam o livro. Em conformidade com esta posição, propôs, enquanto membro do júri do grande Prémio de Novelística, a entrada da obra no concurso.
A 15 de Maio, o júri, também constituído por João Gaspar Simões, Manuel da Fonseca, Fernanda Botelho e Augusto Abelaira, reuniu-se para atribuir o prémio. Todos os jurados sabiam que Luandino estava preso no Tarrafal, mas não pensaram que a atribuição do prémio desse tanta polémica, levasse ao encerramento da SPE e à destruição da sua sede pela Legião e pela PIDE.
A 22 de Maio, foram chamados a depor na António Maria Cardoso e ficaram presos, excepto Fernanda Botelho que conseguiu «escapar», por ser funcionária da Embaixada da Bélgica. Alexandre Pinheiro Torres, o último jurado a ser, preso, conseguiu ainda enviar para o Jornal do Fundão a notícia da atribuição do prémio, acompanhada de uma fotografia de Luandino Vieira. A publicação da notícia valeu àquele jornal a suspensão de 180 dias.
Informação retirada de: Cláudia Castelo, “Prémio e Castigo”, Expresso, 20/05/1995, p. 98-105 [Revista]; imagem retirada daqui.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

A Guerra Civil de Espanha no concelho de Barrancos


"A terrífica guerra fratricida que marca a vida da Espanha entre 1936 e 1939 é, indubitavelmente, um acontecimento horrível que marca igualmente o nosso país e, em particular, os territórios que definem a fronteira entre os dois países."
Miguel Rego

"Quando em meados de Fevereiro de 1936 a Esquerda Republicana ganha as eleições por menos de 500 000 votos (4,5 milhões contra 4 milhões de votos dos partido de direita, não levando em conta os votos dos partidos radicais que rondaram o meio milhão), a Espanha torna-se um país bicéfalo e a abrir as portas a um conflito armado. O país tradicionalista e religioso não aceitou a derrota e a 18 de Julho, a partir das Canárias, o General Franco apela à sublevação “nacionalista” que o levará até ao norte de África onde inicia o Alzamiento (o levantamento militar) que o perpetuará no poder durante 30 anos.

O conflito dura até 1939, transformando-se num campo de ensaios industriais e tecnológicos com fins militares, que servirá em particular para a Alemanha nazi preparar a II Guerra Mundial. O bombardeamento de Guernica, imortalizado por Picasso, é um dos mais violentos e mais paradigmáticos exemplos deste conflito sem regras em que se transformou esta guerra.

Portugal viveu-a como se jogasse aí o seu futuro e, em particular, o futuro político do Estado Novo e do seu chefe António de Oliveira Salazar. Na realidade, o comportamento neutral que se exigia a um país como Portugal, e que tinha sido várias vezes pedido pela Sociedade das Nações, pois o novo Governo Republicano de Espanha havia sido legitimado pelo processo eleitoral legal e democrático de 16 de Fevereiro de 1936, nunca aconteceu. Portugal apoiou desde cedo a rebelião militar Nacionalista que se instala em Sevilha e, a partir daí, espalha o terror e a violência a todo o país.



Naquela que se pensava ser uma guerra rápida, as tropas marroquinas chefiadas por Franco, procuram chegar a Madrid através de Badajoz e Mérida, ficando com a retaguarda salvaguardada e defendida pelos seus aliados portugueses. A fronteira foi então o palco privilegiado do conflito. Não só pela proximidade da guerra, cujos primeiros passos se dão junto ao território português, mas também por ser este o destino de fuga de todos aqueles que abalavam do medo e da violência do conflito armado.


Pela sua localização geográfica, o concelho de Barrancos e, em particular, a Herdade da Coitadinha e as Russianas, uma e outra propriedade da família Fialho, encheram-se de fugitivos provenientes de Encinasola, Aroche, Higuera la Real, Fregenal de la Sierra, Valência del Mombuey, Oliva de la Frontera, Cala, Zafra, Zahinos, Almendro, Fuente de Cantos ou Segura de León, entre outras.

Com uma facilidade inusitada, os falangistas rapidamente conquistam os territórios pobres desta região, depois da sua entrada em Badajoz a 15 de Agosto. Começam os mais terríficos atentados à vida humana relatados por alguns jornalistas que acompanharam a evolução do conflito, entre os quais o português Mário Neves, repórter do Diário de Lisboa, provavelmente o primeiro jornalista a entrar na cidade com as tropas nacionalistas.

Paulo Barriga, no seu extraordinário trabalho “Campos de Concentração – O envolvimento português na Guerra Civil de Espanha”, editado pela Câmara Municipal de Barrancos, em 1999, dá conta de alguns relatos recolhidos na zona de Barrancos e que demonstram a violência que esteve imanente à evolução conquistadora das tropas de Franco. Francisco P., na altura com 75 anos, afirmou que as tropas falangistas às mulheres cortavam o cabelo e os seios, davam-lhes purgantes e passeavam-nas pelas ruas. Aos homens levavam-nos para os cemitérios e fuzilavam-nos”. Maria B. afirma que o purgante era feito “com pepino picado misturado com óleo de rícino. Ataram-lhes as saias à cintura, raparam-lhes a cabeça, deixando apenas uma mecha de cabelo (monha) onde prendiam uma fita encarnada. Depois passearam-nas pelas ruas a cantarem o hino da Falange”.


Os relatos sucedem-se e cada um mais violento que o outro. Justificam-se as fugas, o terror, o medo que avassala as gentes esfomeadas das localidades fronteiriças. Os que podem fogem para Portugal. O território de Barrancos, onde a língua não é barreira e onde vivem muitos amigos e familiares destas gentes raianas, começa a ser o destino e a esperança para muitos dos fugitivos.



A fronteira é agora um local ideal para as tropas falangistas capturarem “rojos” (como então se identificavam todos aqueles que defendiam a vitória da Esquerda nas eleições) e é ao longo da fronteira portuguesa que se repartem milhares de tropas com o intuito único de capturarem todos aqueles que andavam em fuga.


Mas as gentes de Barrancos abriram os braços aos fugitivos, alguns familiares e amigos, no intuito de minorar a fome a todos eles e de dar tempo para que as tropas saíssem dali e cada um pudesse voltar aos seus lares. “São às centenas os relatos” que Paulo Barriga procurou obter destes momentos de solidariedade e que demonstram o espírito solidário que norteou o comportamento destas gentes raianas. “António M., 75 anos, recordava que: durante a guerra civil, éramos nós ainda pequenos, os meus pais estavam no campo. Um dia apareceu um homem fugido da guerra e os meus pais esconderam-no num monte de palha a ali permaneceu durante 40 dias. Só de noite é que nós lhe levávamos comida”.

Entretanto, o estado português envia para a zona da fronteira reforços militares, com o receio de, na avalanche, alguns revolucionários portugueses procurarem derrubar o Estado Novo. São efectuadas batidas no sentido de precaver a existência de focos de revolta, mas as tropas portuguesas só encontram gente assustada, mulheres, crianças, velhos. O principal responsável pelo controlo desta fronteira é o Tenente Seixas, do Posto de Safara da Guarda-fiscal.


Entre Agosto e Outubro de 1936, o responsável militar procura minorar a violência contra os foragidos e vai tentando salvaguardar a segurança daqueles que estão sob a sua alçada das mãos dos falangistas que por todos os meios tentam apanhar o maior número possível de “republicanos e rojos”. Sem grandes condições para manter os grupos separados, são criados dois “campos de concentração” (talvez o melhor termo seja o de campo de refugiados), onde se concentram mais de mil espanhóis. Os locais são a Herdade da Coitadinha, a cerca de 60 metros do monte, a montante do Poço da Ferradura, e na Almofadinha, junto à Choça do Sardinheiro. Os números exactos são de 1025 pessoas, aquelas que serão transferidas a partir de 8 de Outubro em camionetas para Moura e Beja e, finalmente, a partir de Lisboa, onde no navio Niassa chegarão ao Porto republicano de Tarragona, fugindo desta forma à fúria nacionalista que à época controlava toda a zona.

Os relatos da altura falam do apoio dado em Beja pelas populações que forneceram água e víveres. E dos dois partos efectuados em Moura.


A Herdade da Coitadinha vê-se desta forma associada à Guerra Civil de Espanha pela existência de um Campo de Concentração (talvez mais correcto seja a utilização do termo Campo de Refugiados), pela forma como todos aqueles que ali se encontravam, que funcionou durante quase três meses. A solidariedade manifestava-se pela alimentação que era fornecida, tanto pelos barranquenhos e, em particular, pelos proprietários, como pelo Estado português, pelas roupas que eram doadas, em particular às crianças, para além da segurança que estava imanente à sua presença ali.

O campo era uma estrutura muito rudimentar em que uma das poucas construções efectuadas foi uma espécie de casa de banho dividida em duas partes, feita em chapas de zinco e troncos de azinheira, separando desta forma a área de utilização de mulheres e homens.


Acoitados entre estevas e azinheiras, os refugiados viviam protegidos pela Brigada Fiscal de Safara, que para ali tinha sido destacada para proteger a zona da fronteira, bastante povoada do lado espanhol, e muito acicatada pelos militares falangistas que, quase sempre não faziam prisioneiros, mas mortos.

Apesar de pouco divulgada esta estrutura marca bastante a memória da população de Barrancos, uma estrutura que tem ainda hoje como única referência física o Poço da Ferradura, e de onde se abasteciam os cerca de setecentos refugiados fugidos à violência das tropas que ocuparam as povoações espanholas da região de Barrancos.


Na memória, serve sobretudo a coragem do Tenente Seixas que, desobedecendo aos seus superiores hierárquicos, assumiu a segurança de todos os espanhóis em fuga que entendiam ficar sobre o seu controlo e viu-se por isso castigado sendo compulsivamente reformado."


Texto do Blogue Parque da Natureza de Noudar

  • Parque da Natureza de Noudar
  • A carta de adeus de Guy Môquet


    A primeira medida do recém-eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy, confessadamente de direita, foi no sentido de preservar a memória da resistência ao nazi-fascismo. Determinou que no início de cada ano lectivo se lesse a carta de despedida de um jovem de 17 anos, que o exército hitleriano fuzilou em Outubro de 1941. Vale como registo para a nossa Assembleia da República, que no final do mês se espera venha a votar a petição do Movimento.
    O compromisso político de Guy surgiu em 1939, quando o seu pai, deputado comunista, foi deportado para a Argélia. Tinha 16 anos e decidiu inscrever-se nas Juventudes Comunistas.
    Um ano mais tarde, com a França já invadida pelas tropas do III Reich, foi preso quando andava a distribuir em Paris comunicados clandestinos. Apesar de ter sido absolvido, foi considerado politicamente suspeito e, como tal, transferido para o campo de concentração de Châteaubriant (Loire-Atlantique).
    Guy Môquet foi fuzilado no dia 26 de Outubro de 1941, com mais 26 outros prisioneiros do campo, em atitude de represália pela morte de um oficial alemão. Antes de morrer, escreveu uma carta aos pais, onde expressa o sentimento de que a sua morte não venha a ser em vão.
    Após a libertação de Paris, em Agosto de 1944, a sua memória foi exaltada e o seu nome inscrito numa estação do metro parisiense.

    Para que não se esqueça, aqui fica a carta de adeus de Guy Môquet, transcrita de Le Monde do passado dia 17 de Maio.

    Mãezinha querida
    meu adorado irmãozinho
    meu amado paizinho
    Vou morrer! O que vos peço, em especial ti, mãezinha, é que sejas corajosa. Eu sou-o e quero sê-lo do mesmo modo que o foram outros antes de mim. Claro que preferia viver. Mas o que do mais fundo do coração desejo, é que a minha morte tenha um sentido. Não tive tempo de abraçar o Jean. Mas abracei os meus dois irmãos [de luta] Roger e Rino. Quanto ao verdadeiro, não o pude, hélas! Confio que todos os meus pertences vos sejam enviados, eles certamente ainda podem servir para o Serge, que estou certo se sentirá orgulhoso de os poder um dia usar. A ti, paizito, se te dei, assim que à mãezinha, não poucas preocupações, aqui fica esta minha derradeira saudação. Fica sabendo que fiz o melhor que pude para seguir a via que me traçaste.
    Um último adeus a todos os meus amigos, ao meu irmão de que gosto muito. Que ele estude com afinco para mais tarde ser um homem.
    17 anos e meio, a minha via foi curta, mas não alimento qualquer arrependimento, a não ser o ter de vos deixar. Vou morrer com Tintin, Michels. Mãe, o que te peço, o que quero que me prometas, é que serás corajosa e saberás ultrapassar o desgosto.
    Não posso escrever mais. Deixo-vos a todos, a todas, a ti mãezinha, a ti, Sérgio, a ti, pai, aqui vos fica o grande abraço com todo o carinho infantil que me banha o coração. Coragem!
    Do vosso Guy que tanto vos ama
    Guy

    Último pensamento: vós que ficais, sede dignos de nós, os 27 que vamos morrer!

    quinta-feira, 17 de maio de 2007

    ESPAÇOS DA MEMÓRIA - 16/05/2007


    Sala cheia!
    O Debate Espaços da Memória na Ordem dos Arquitectos foi um êxito e um momento muito importante para o Movimento.

    A dinamização dos espaços arquitectónicos da Memória anti-fascista é um projecto do Movimento e também da Ordem dos Arquitectos.

    O Não Apaguem a Memória!, representado na mesa do Colóquio por Fernando Vicente, expôs o fundamental dos nossos objectivos no que se refere a estes espaços, em particular, à sede da ex-PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.

    Foi lembrado que existe um compromisso da Câmara Municipal de Lisboa e do Promotor do empreendimento imobiliário para ali criar um espaço condigno que lembre aqueles que por lá passaram e sofreram as torturas da polícia política do Estado Novo, alguns, inclusivamente, com a própria vida.



    Helena Roseta e João Afonso, em nome da Ordem, saudaram e associaram-se aos objectivos do Movimento nesta luta pela Memória.

    José Bandeirinha falou da Penitenciária de Coimbra e do perigo em que se encontra a sua extinção.

    Nuno Teotónio Pereira, apresentou as ideias relativas a um Museu da Resistência, de que o Aljube é a principal referência, a um Memorial dos Resistentes anti-fascistas e, também, a ideia, bem acolhida, de uma subscrição pública que possa contribuir, de forma determinante, para que estes espaços não se percam da memórica colectiva.

    Seguiu-se um debate com a assistência que contribuiu, de forma decisiva, para que as ideias já existentes possam evoluir com propostas concretas para os objectivos a que nos propusemos aquando da elaboração da Carta de Princípios do Não Apaguem a Memória!.

    terça-feira, 15 de maio de 2007

    Edmundo Pedro na RTP África fala sobre o Tarrafal


    Hoje, 15 de Maio, pelas 21:00 horas, Edmundo Pedro fala na RTP África sobre o Campo de Concentração do Tarrafal e da importância que há em não permitir que o exemplo de heroísmo pessoal e colectivo da resistência anti-fascista se esvaia na nossa memória democrática.
    Edmundo Pedro é um sobrevivente deste Campo de Concentração de triste memória, onde esteve encarcerado durante 10 anos.

    segunda-feira, 14 de maio de 2007

    A Esperança - André Malraux


    Em Junho de 1936, o líder da oposição de direita é assassinado na Espanha, deflagrando uma revolta militar liderada pelo nacionalista Francisco Franco. A guerra civil que se seguiu durou três anos, opondo nacionalistas, religiosos e monarquistas, que controlavam o exército e eram apoiados pelos governos da Alemanha e da Itália, e as forças republicanas, que contavam com a polícia e os carabineiros, além de milícias operárias. Os legalistas eram apoiados pela União Soviética, Grã-Bretanha, México e França, e principalmente pelas Brigadas Internacionais, formadas por 35 mil voluntários de 50 países.
    Um desses voluntários era André Malraux, que, um mês após o início do conflito, organizou a esquadrilha España que, com menos de vinte aviões, participou de combates no vale do Tajo, em Toledo, Aragão e Málaga. Malraux, que não pilotava, participava das missões como observador e algumas vezes como artilheiro. Depois, passou a actuar como embaixador dos republicanos, inclusive com um périplo pelos Estados Unidos, discursando e recolhendo doações para hospitais espanhóis. Em Abril do ano seguinte, retornou à Europa para escrever A esperança, concluído em poucos meses e lançado em dezembro de 1937. O livro ainda daria origem a um filme, de mesmo título, lançado em 1939.
    Desde seu lançamento, A Esperança dividiu a crítica, indecisa entre tratar o livro como um romance ou como uma reportagem. Para Jean Lacouture, essa é uma questão menor, pois se a obra é um testemunho do engajamento de Malraux, a esperança do título vai além do episódio espanhol (ainda que crucial), para falar de todas as lutas travadas no século XX para mudar a condição humana. "Como se ele não devesse ser admirado por ser uma ‘reportagem’. Ademais, o que é um romance?".

    Nascido em Paris em 1901, escritor, ensaísta, crítico de arte, político, André Malraux participou activamente das grandes batalhas do século XX, desde o nacionalismo chinês até o combate ao nazismo, passando pela Guerra Civil espanhola. Militante de esquerda, ligado ao Partido Comunista Francês, permaneceu livre, porém, para se opor ao banimento de Trotski e se rebelar contra o regime ditatorial de Estalin na União Soviética. Entre 1958 e 1969, Malraux participou do governo do general Charles de Gaulle como ministro da Cultura. Morto em 1976, André Malraux é autor de numerosos romances e ensaios, entre eles, La Voie royale, Voix du silence, Les Conquérants e A condição humana, pelo qual ganhou o prêmio Goncourt.

    André Malraux visitou pela primeira vez Espanha apenas 2 meses antes do início da guerra civil, a convite do escritor José Bergamín. A sua participação no conflito começou logo em Agosto de 1936, data da constituição da esquadrilha aérea España. Esta força, com cerca de 20 aviões pilotados por um grupo de voluntários estrangeiros, teve um papel importante durante os primeiros meses de guerra, participando activamente nas frentes de Aragão, Toledo, Málaga e na batalha de Teruel, onde se confrontaram directamente com a Legião Condor alemã e conseguiram evitar a tomada da cidade pelas forças nacionalistas. Não sendo piloto, Malraux voou como observador em missões de reconhecimento e operou a metralhadora em missões de ataque, sendo ferido sem gravidade por 2 vezes.
    Com o fim da esquadrilha, em Fevereiro de 1937, terminou a participação activa de Malraux no conflito. Não deixou, contudo, de continuar a apoiar a causa republicana, participando em diversas actividades de recolha de fundos em França e nos Estados Unidos da América.
    Em Dezembro é publicado L’Espoir (A Esperança), romance baseado na sua experiência pessoal da guerra. Escrito antes do desenlace final do conflito, o livro termina cronologicamente com a vitória republicana na batalha de Guadalajara, num tom optimista que não se viria a confirmar. Entre 1938 e 1939, Malraux participa ainda na adaptação de alguns capítulos d’A Esperança para cinema. O filme é exibido pela primeira vez em 1939, sob o título Sierra de Teruel, mas só conhecerá circulação comercial depois da 2ª Guerra Mundial, desta vez com o mesmo título do romance em que se baseou.

    “Não se trata de ir combater em Madrid, em Barcelona ou no Pólo Norte. Nem de aceitar a vitória de Franco, com vinte anos de cagaço pela frente; todos à mercê da denúncia de uma puta, da vizinha ou do cura. Lembrem-se das Astúrias. A nossa aviação estará pronta dentro de alguns dias. Todo o país está conosco; e o país somos nós” (André Malraux, A Esperança)

    9 Citações:

    "A cultura, sob todas as formas de arte, de amor e de pensamento, através dos séculos, capacitou o homem a ser menos escravizado."

    "O comunismo destrói a democracia; mas a democracia também pode destruir o comunismo."

    "São precisos 60 anos e não 9 meses para fazer um homem."

    "O homem é aquilo que ele próprio faz."

    "A arte é um antidestino."

    "A Gioconda sorri porque todos os que lhe puseram bigodes estão mortos."

    "Os grandes artistas não são os copistas do mundo, são os seus rivais."

    "Se compreendêssemos, nunca mais poderíamos julgar."

    "Vi as democracias intervirem contra quase tudo, salvo contra os fascismos."


    ESPOIR/ Espoir-Sierra de Teruel
    de André Malraux
    com José Sempere, André Mejuto, Nicholas Rodriguez
    França, 1945 - 78 min

    Espoir, também conhecido como Sierra de Teruel, é um dos mais famosos filmes que tiveram por cenário a guerra civil de Espanha. Talvez o mais mítico e, seguramente, o mais comprometido, porque feito por alguém que a viveu, e filmado nos próprios locais durante o conflito. Inspirando-se no romance que escrevera e na sua experiência de combatente, André Malraux filmou o drama dos aviadores republicanos sobreviventes da queda do avião e o seu salvamento por civis, na serra de Teruel.

    Liberdade, liberdade!

    Aproveito a oportunidade para reproduzir um texto do companheiro do movimento Jorge Martins, dando conta duma nova peça teatral alusiva à resistência anti-salazarista e à liberdade. Agradeço ao Jorge Martins ter acedido ao repto para colaborar com o blogue do NAM.
    "Estreou na passada 5ª feira, no Bar do Teatro da Trindade, «LIBERDADE, LIBERDADE!», a nova peça de Filomena Oliveira e Miguel Real, dois autores com obra firmada há alguns anos: adaptação dramatúrgica de «Memorial do Convento» (1999) e de «A Voz dos Deuses» (2000); co-autores de «Os Patriotas» e de «O Ultimatum de 1890» (2001), de «O Umbigo de Régio» (2003) e de «1755, o Grande Terramoto» (2006). Filomena Oliveira também é autora de «Tomai lá do O’Neill» (1999) e da adaptação de «A Relíquia» e da tradução e versão dramatúrgica de «O Alquimista» (2005). Miguel Real é autor de uma vasta obra de ficção e ensaio, designadamente, «Geração de 90 – Sociedade e Romance no Portugal Contemporâneo» (2001), «Memórias de Branca Dias» (2003), «A Voz da Terra» e «O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa» (2005), «O Último Negreiro» e «O Último Eça» (2006).
    «Liberdade, Liberdade!» mostra-nos, com a provocada cumplicidade dos espectadores pela constante interactividade com os actores, a dura realidade portuguesa das prisões políticas entre os anos 40 e 60 do Portugal do Estado Novo e do salazarismo. No meio de um comício relâmpago num café de Lisboa, a PIDE irrompe subitamente e leva presos um estudante católico e um operário. Mais tarde, a polícia política prende também um militante comunista numa tipografia clandestina. Os três vão encontrar-se na mesma cela, onde se assiste à tortura e à coragem, à traição e à denúncia, à corrupção e à cumplicidade. A fuga torna-se uma obsessão para os presos, que acabam por ter destinos bem diferentes, em todo o caso de trágicos contornos. O Bar do Trindade acaba por ser um cenário perfeito para a eficácia deste inolvidável espectáculo. Com um excelente desempenho dos actores do Teatro Tapafuros, muito bem sublinhado pela orgânica sonora e, em particular, pela voz off de um Salazar pateticamente omnipresente, esta peça também é obrigatória para quem não quer mesmo, mesmo, mesmo esquecer os crimes da ditadura portuguesa.
    Os autores explicam o que os levou a escrever «Liberdade, Liberdade!», um original de 2004 com encenação de Filomena Oliveira: «Criámos esta peça como hino de homenagem a todos os homens e mulheres que lutaram, morreram, foram presos e torturados para que Portugal pudesse ser livre»."
    Jorge Martins

    domingo, 13 de maio de 2007

    Visita ao Posto de Comando do MFA

    Aqui fica o relato do jornalista José Teles sobre a visita ao Posto de Comando do MFA:



    "Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas... uma memória discreta, como deve ser. Mas insuficiente.

    Estivemos lá. Lá onde o 25 de Abril se coordenou e decidiu. Regimento de Engenharia 1, na Pontinha, ao tempo uma discreta arrecadação militar pouco utilizada no meio do aquartelamento, hoje pouco mais do que isso, como vamos contar. Mas foi a “sala de operações” do movimento que derrubou a Ditadura, já lá vão 33 anos. Um local para lembrar o sucesso da Revolução dos Cravos. Para gozo e fruição do Povo como nós.

    Fomos umas 30 pessoas a responder à chamada do Movimento Não Apaguem a Memória! este sábado 12 de Maio, “o mês das rosas, diz-se”. E não éramos muitos? Pois sim: 30 paisanos e paisanas, juntos, à porta de armas de um estabelecimento militar - antes do 25 de Abril podia ser considerado subversivo e dar direito a carga policial.



    “Visita inopinada” – assim a classificou Miguel Ferreira, dos serviços culturais da Câmara de Odivelas, que nos recebeu e serviu de cicerone, juntamente com os seus colaboradores Ana Paula e Jorge Martins. “Inopinada”, mas só por contraposição a “visita regular”, que decorre sempre no 4º domingo de cada mês, basta contactar de véspera a Divisão de Cultura e Património Cultural daquele município, tel: 219346100, tome nota e vá.

    De facto é a Câmara de Odivelas que, como Núcleo Museológico, ergueu, preservou e mantém vivo aquele espaço (em colaboração com o Regimento de Engenharia 1, como tinha de ser), onde funcionou entre 24 e 26 de Abril de 1974 o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, que “inscreveu assim a Pontinha e o concelho de Odivelas na mais bela página da História de Portugal do Século XX”. Diz o folheto distribuído aos visitantes.

    Um investimento apetecível para promotores imobiliários?
    Sabíamos pelo livro de Otelo, “Alvorada em Abril”, que o Posto de Comando funcionou num barracão pré-fabricado, discreto. Constatámos que passa completamente despercebido, no meio de um aquartelamento que se estende por uma boa dezena de hectares (é bastante maior do que parece a quem passa na rua).

    Soubemos, por informações no local, que o Exército terá a intenção de completar a desactivação do quartel da Pontinha e alienar aqueles terrenos que deverão valer uma pipa de massa. Qual vai ser o destino da arrecadação que serviu de PC do MFA no 25 de Abril? Terá de ser declarada previamente “monumento nacional”, impondo-se aos eventuais adquirentes dos terrenos o ónus de manter o Núcleo Museológico como está?

    Monumento nacional seria talvez um exagero que o edifício não tem dignidade
    arquitectónica para tanto. Mas pode ser declarado imóvel de interesse público, para o que fazem falta decisões de duas câmaras – dizem-nos. Ou pelo menos de interesse municipal. Para que, também aqui, “não se apague a memória” da Revolução.

    Uma memória discreta, demasiado discreta, em nosso entender, do que foi “aquele dia inicial, inteiro e limpo”. Prometia mais a exposição de entrada lembrando os momentos cruciais daqueles dois dias:

    24ABR74, 22H55: a primeira senha, depois de um corte na emissão.
    Transmitida nos Emissores Associados de Lisboa, uma rádio local, por João Paulo Diniz, que disse textualmente:
    Faltam cinco minutos para as 23 horas. Convosco Paulo de Carvalho com o Eurofestival de 74: «E depois do Adeus”.
    Diz Otelo que “a voz do cançonetista encheu a noite”:
    Quis saber quem sou
    O que faço aqui...

    Diz Otelo, no livro da Alvorada em Abril, publicado na Bertrand, em 1977. Aqui o que temos é a foto de Paulo Carvalho, menino e moço. Bonita. Mas insuficiente.

    Esperávamos a gravação da cantiga na íntegra e a apresentação nervosa que dela fez o João Paulo Diniz. Esperávamos sobretudo um registo da emoção com que aquele tiro de partida das operações militares para o derrube do Regime foi recebido na Pontinha. Uma memória descritiva, qualquer coisa do género, inspirada por exemplo no livro de Otelo:
    O tenente coronel Fisher Lopes Pires sintoniza o seu “excelente transistor Philips” nos Emissores Associados de Lisboa. Juntam-se todos “excitadíssimos” junto do aparelho. De repente, um silêncio longo, falhou a emissão.
    – O que terá havido? Não me digam que “abafaram” o João Paulo Diniz?
    Era só uma avaria técnica momentânea. Pontualmente, à hora combinada, a voz do locutor anuncia a senha da Revolução: Faltam cinco minutos...
    – Alea jacta est – proclama Otelo. “Como César ao atravessar o Rubicão”. Afirma o próprio no livro.



    25ABR74, 00H20: também temos uma bela foto de Zeca Afonso, também temos a transcrição da primeira estrofe do poema que serviu de sinal definitivo para o avanço das tropas pelo País inteiro:

    Grândola, vila morena,
    Terra da fraternidade,
    O povo é quem mais ordena
    Dentro de ti, ó cidade.


    Lindo, um poema digno dos deuses. Mas onde pára a gravação? Onde pára a voz de Leite de Vasconcelos, empolgado e receoso, a ler a quadra, antes de pôr a agulha no acetato? Como ecoam no posto de comando os passos cadenciados da tropa na calçada, que vem aí terminar com a ditadura, seguindo a voz do poeta-cantor, que parece ter feito aquela música, aquela letra, aquele acompanhamento, aquela gravação, especialmente, para “um dia assim”! Como a emoção no grupo do posto de comando embarga as vozes, como a cantiga é ouvida num silêncio denso! No filme de Maria de Medeiros sobre o 25 de Abril este é um momento de êxtase!

    25ABR74, das 03H05 às 04H20: temos a RTP connosco, o Mónaco caiu. México conquistado sem incidentes – é o Rádio Clube ocupado, já temos emissor. É nosso o Canadá – o Quartel-General passa para os revoltosos. Nova Iorque nas mãos do Povo – é o Aeroporto da Portela sob controlo.

    A exposição refere os códigos e os nomes dos locais sucessivamente ocupados, mas onde estão os diálogos trocados, com o Maior de Lima 5 (Teófilo Bento), o portavoz do Grupo Dez (Santos Coelho), os textos na parede, para a posteridade, como nas antigas repúblicas coimbrãs, como no Alcazar de Toledo, a celebrar ainda hoje o alegado heroísmo dos franquistas, que esses – para o que der e vier – souberam fazer a coisa.

    Onde estão os registos de episódios como este?

    RE 1, 25ABR74, 03H15: Palavra de honra? Isso é porreiro, pá!
    Exultante pela facilidade da ocupação da Emissora Nacional, o capitão Frederico Morais, do CTSC, liga para o PC:
    – Daqui Maior de Lima 18. Informo ocupámos Tóquio sem qualquer incidente.
    – OK. Parabéns e um abraço.
    Do outro lado, o cap Morais não pousa o telefone, hesita e insiste:
    – Alô, Óscar. Peço informe se estamos sós ou se já houve outras ocupações.
    – Afirmativo quanto à segunda parte da pergunta. Não estão isolados: Mónaco e México já caíram nas nossas mãos.
    A “seca linguagem das transmissões militares” cede perante a boa notícia:
    – Eh pá! Palavra de honra? Isso é porreiro, pá!
    – Ok, aguentem firme. Está tudo a correr bem.

    E sobretudo como este? Ouçam bem (ah se houvesse gravação, uma reconstituição, o texto deste diálogo, nas paredes nuas do auditório, por exemplo!):

    RE 1, 25ABR74, 03H16:
    Está tudo sossegado, senhor ministro...
    Os homens do MFA na EPTm interceptam e transmitem para o posto de comando esta conversa entre Silva e Cunha, ministro da Defesa, e o general Andrade e Silva, do Exército, o celebrado vencedor do golpe das Caldas um mês antes.
    – Está, senhor general? Daqui ministro da Defesa.
    – Como está, senhor ministro?
    – Então ainda a trabalhar a uma hora destas?
    – É verdade. É que tenho de me deslocar ao Alentejo e não estarei cá todo o dia, pelo que estou aqui a arrumar os papéis.
    – Alguma coisa no Alentejo?
    – Não, nada de importante. Mas interessa-me sobretudo ir até Beja, onde vou assistir a uma transmissão de comando e inspeccionar a Companhia de Ordem Pública. O comandante que lá está é muito amigo do homem do monóculo, a quem telefona muitas vezes. Por isso mandei mobilizá-lo para o Ultramar e coloquei lá outro de confiança, que hoje toma posse.
    – Óptimo. E como é que está a situação? Corre tudo bem?
    – A situação está sem alteração e perfeitamente sob controlo. Peço-lhe que não se preocupe, pois está tudo sossegado e não há qualquer problema em qualquer ponto do País. Se houvesse alguma coisa, era evidente que eu não ia hoje ao Alentejo, não acha?
    – Claro, claro, só perguntei para ir para casa dormir descansado. Então não o maço mais. Boa viagem pelo Alentejo.
    Comentário de Otelo: “ Eram três horas e dezasseis minutos. Tínhamos na mão três objectivos fundamentais para a informação pública e o QG/RMP, raras eram as unidades do Exército que em todo o território não rolavam na estrada ou estavam prestes a fazê-lo, havia vários quartéis onde os comandantes se encontravam detidos ou tinham a sua acção neutralizada, e... os mais altos fresponsáveis militres do velho regime preparavam-se para dormir, tranquilos, as horas a que se sentiam com direito!”



    E por aí adiante. Também falta na exposição a transcrição dos telefonemas de Salgueiro Maia desde as 06H00 da manhã no Terreiro do Paço, para o comando e vice-versa, que igualmente merecem honras de parede. Também falta o delicioso telefonema do cap. Luis Macedo ao princípio da manhã, do gabinete do Ministro do Exército para o Posto de Comando, a contar como o Ministro se escapara por um buraco na parede. Também faltam... as diligências de Vítor Crespo, no posto de comando, em contacto permanente com Contreiras, instalado na cave do Ministério da Marinha, a evitar que a fragata Gago Coutinho, comandada por Seixas Louçã, bombardeie o Terreiro do Paço, como lhe ordena o primeiro ministro Marcelo Caetano, a partir do Quartel do Carmo.

    Ainda assim o que está vale uma visita – palavra de repórter! A sala de operações tem em tamanho natural as estátuas dos “sete magníficos”, em cera e em acrilíco, nos locais que ocuparam naquela noite:
    · Otelo Saraiva de Carvalho, major de artilharia, no seu blusão de cabedal, de pé, junto ao mapa de 1973 do Automóvel Clube de Portugal – “especial para sócios” – onde ia colocando as bandeirinhas assinalando os avanços de cada coluna militar pelas estradas do País.
    · Amadeu Garcia dos Santos, tenente-coronel de transmissões, sozinho numa mesa, às voltas com os seus rádios, antenas e telefones.
    · Fisher Lopes Pires, tenente-coronel de engenharia, com um telefone de discar, como eram todos naquele tempo, sempre com o cachimbo na boca, dizem os cronistas.
    · Sanches Osório, major de engenharia, enviado por Vítor Alves como representante do Estado-Maior naquele grupo de comando, à esquerda de Lopes Pires, tomando notas.
    · Luís Macedo, capitão de engenharia, responsável pela segurança do edifício, que protegeu com um perfeito “black-out”, com cobertores nas janelas, e organizara rondas permanentes no exterior: de pé, na única estátua de cera.
    · Hugo dos Santos, major de transmissões, sozinho, ao lado, numa pequena mesa, com vários rádios.
    · Vítor Crespo, capitão de fragata, de pé junto à porta do fundo, em uniforme de gala, azul-escuro, com botões dourados e o boné branco dos dias de festa
    Junto às paredes, armários, tão austeros como as mesas, com brochuras e encadernações, de ordens de serviço do quartel e outros documentos.

    No pavilhão há ainda um pequeno centro de documentação e um gabinete de imagens, presentemente com uma exposição de Fernando Lopes Graça. E há também um auditório, inaugurado por Jorge Sampaio, “equipado com modernos meios audiovisuais”. Com capacidade para 70 pessoas e “preparado para a realização de conferências e pequenos espectáculos”. Diz o folheto.
    Nele podemos ver um filme, com imagens de arquivo da RTP, vistas milhares de vezes, sempre as mesmas e não há outras, com o Povo em cima das árvores naquele dia de Abril, no Largo do Carmo. Alguns membros do nosso grupo de visitantes também estiveram lá. E alguns extractos da reconstituição histórica, com actores profissionais, levada a cabo pela SIC, no filme “A Hora da Liberdade”, há poucos anos."

    José Teles


    Resta referir que, no final da visita, Raimundo Narciso fez uma interessante exposição sobre a vida na clandestinidade que viveu durante muitos anos, onde se encontrava no dia 25 de Abril, precisamente no que é hoje o Concelho de Odivelas,
    e Jorge Martins, em nome do
    Movimento, referiu os objectivos inerentes ao espaço visitado: Preservar a Memória do local em que na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 foram dadas as directivas para que a Revolução fosse um êxito.

    sábado, 12 de maio de 2007

    A resistência à Ditadura Militar e a fuga de Aquilino

    Acaba de ser publicado um inédito de Aquilino Ribeiro (1895-1963) onde este conclui o relato da sua fuga do presídio do Fontelo para França.
    O texto alude à fase inicial de combate democrático à Ditadura Militar, 1927/8, incluindo as movimentações e conspirações republicanas em que o escritor beirão tomou parte activa.
    Este relato é uma parte da sua autobiografia nunca publicada, Tempos do meu tempo, embora esta e outra fuga política do cárcere, em 1908, venham referidas nos seus livros O arcanjo negro (1947) e Um escritor confessa-se (memórias), obra póstuma, de 1974 (vd. excerto aqui). Jorge Reis recolheu os escritos do exílio parisiense de Aquilino em Páginas do Exílio. Cartas e crónicas de Paris (1988).
    O relato agora publicado pelos Cadernos Aquilinianos é a continuação dum outro artigo editado no seu n.º 3, de 1995. Esta revista é editada em Viseu pelo Centro de Estudos Aquilino Ribeiro.
    Mais informações na notícia "Aquilino inédito" (O Primeiro de Janeiro, 12/V).
    O seu espólio particular, composto por 138 cxs., está depositado na BN (vd. aqui).
    PS: em 2006 a RTP produziu uma série baseada no romance Quando os lobos uivam (vd. aqui), obra de 1958 na qual Aquilino ficciona a resistência campesina e que custaria ao autor a proibição do livro bem como uma inaudita perseguição política e judicial (este caso é relatado no ensaio Em defesa de Aquilino, de Alfredo Caldeira e Diana Andringa, bem como em "Aquilino Ribeiro e a justiça", de Martinho da Silva); tb. recentemente a Fundação Aquilino Ribeiro editou o Catálogo da Biblioteca de Aquilino Ribeiro.
    Na imagem, o grupo fundador da revista Seara Nova (da esq.ª para a dir.ª): Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença e Câmara Reis; sentados: Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão (Coimbra, IV/1921). Jaime Cortesão acompanhará Aquilino no exílio, onde se envolverão em organizações de resistência à ditadura.

    quinta-feira, 10 de maio de 2007

    ESPAÇOS DA MEMÓRIA - 16 de Maio 2007, 21 horas


    SEDE NACIONAL DA ORDEM DOS ARQUITECTOS
    TRAVESSA DO CARVALHO 23, LISBOA
    CONTRIBUTO PARA A ELABORAÇÃO DE UM “ROTEIRO DA MEMÓRIA E DA RESISTÊNCIA DA CIDADE DE LISBOA”


    Lisboa, à imagem do país, teve ao longo dos 48 anos de ditadura fascista um longo percurso de momentos e locais que conduziram ao 25 de Abril de 1974:

    MOMENTOS COMO AS GREVES DE 42 (estivadores, Carris, construção naval); as greves dos tanoeiros, da construção naval e outras (1947, 1950 e anos seguintes); os assassínios de Militão Ribeiro (1949), José Moreira (na PIDE, em 1950), Raul Alves (na PIDE, em 1958), Dias Coelho 1961), Fineza (1962), Ribeiro dos Santos (1972), e os mortos do 25 de Abril na António Maria Cardoso (1974); o atentado a Salazar; a preparação da “revolta da Sé” (1959);
    LOCAIS DE TORTURA nas esquadras de polícia (antes de 1945) e na sede da PIDE na António Maria Cardoso; locais de prisão como o Aljube, a Penitenciária e as Mónicas; locais de destruição como a Sociedade Portuguesa de Escritores; locais de (in)“Justiça” como o Tribunal Plenário;
    MANIFESTAÇÕES, AS GRANDES manifestações do “fim da guerra”, pró-aliados e de unidade anti-fascista (1945); manifestações e greves estudantis pelos mais diversos motivos (1945, 1947, 1952, 1957, 1962 e 1969); manifestações e repressão nas comemorações do 5 de Outubro; a recepção a Humberto Delgado em Santa Apolónia (1958); as manifestações do 1.º de Maio (nomeadamente em 1962); a fuga de Henrique Galvão do Hospital Santa Maria (1959); as diversas fugas do Aljube, do Porto, de Caxias e de Peniche; as veladas e vigílias pela paz e contra a guerra (S. Domingosem 1969 e Capela do Rato em 1972);
    e finalmente o 25 de Abril, no Terreiro do Paço, no Carmo e na cidade inteira; e o 1.º de Maio da alameda ao estádio da “FNAT”.
    A estes marcos da nossa História recente correspondem homens e espaços reais que (já) são hoje locais e momentos da nossa memóriacolectiva.
    Em Outubro de 2005, uma manifestação de cidadãos junto da ex-sede da PIDE – que foi o centro da organização e funcionamento da repressão – exigiu que ali fique assinalada a memória deste sinistro local: aqui nasceu o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória que acordou, com a Câmara Municipal de Lisboa e o promotor imobiliário, na existência de um espaço museológico que, homenageando o Povo de Lisboa e o Povo Português, recordando o que de infame ali se passou, virá a integrar um futuro “Roteiro da Memória e da Resistência da Cidade de Lisboa”.



    ESTA INICIATIVA CONJUNTA DO NÃO APAGUEM A MEMÓRIA E DA ORDEM DOS ARQUITECTOS PRETENDE DINAMIZAR ESTA QUESTÃO, NA SEQUÊNCIA DA RECENTE DISCUSSÃO NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA QUE RECOMENDA O APOIO A INICIATIVAS DAS AUTARQUIAS E DA SOCIEDADE CIVIL A PROGRAMAS DE MUSEALIZAÇÃO QUE APROVEITEM EDIFÍCIOS QUE SEJAM HISTORICAMENTE IDENTIFICADOS COMO RELEVANTES NA RESISTÊNCIA À DITADURA.
    Fica um apelo:
    Que os “Espaços da Memória – repressão, resistência e liberdade” – não sejam destruídos, antes sejam preservados com a ajuda e colaboração de todos.
    Que os compromissos assumidos pelo Não Apaguem a Memória, pela Câmara Municipal de Lisboa e pelo promotor imobiliário sejam respeitados e cumpridos.

    Maio de 2007
    RUA DA MISERICÓRDIA 95 1200-271 LISBOA
    http://naoapaguemamemoria2.blogspot.com/

    NA OCASIÃO É LANÇADO UM ÁLBUM DE SERIGRAFIAS DE NUNO TEOTÓNIO PEREIRA, “DESENHOS DE ARQUITECTURA”, PRODUZIDAS PELO CENTRO PORTUGUÊS DE SERIGRAFIA

    1900 - de Bernardo Bertolucci






    TÍTULO DO FILME: 1900 (Novecento, ALE/FRA/ITA 1976)
    DIRECÇÃO: Bernardo Bertolucci
    ELENCO: Robert De Niro, Gerard Depardieu, Burt Lancaster,
    Dominique Sanda, Donald Sutherland, Ainda Valli, Stefania Sandrelli.
    243 min www.fox.home

    RESUMO
    O filme faz uma retrospectiva histórica da Itália desde o início do século XX até ao término da Segunda Guerra Mundial, com base na vida de Olmo, filho bastardo de camponeses, e Alfredo, herdeiro de uma rica família de latifundiários. Apesar da amizade desde a infância, a origem social fala mais alto e coloca-os em pólos política e ideologicamente antagónicos.
    Através da vida de Olmo e Alfredo, o fime retrata o intenso cenário político que marcou a Itália e o mundo nas primeiras décadas desse século, representado pelo fortalecimento das lutas trabalhistas ligadas ao socialismo em oposição à ascensão do fascismo.
    "Novecento" tornou-se um épico aclamado no mundo inteiro, sendo considerado pela crítica internacional como uma das principais obras do grande cineasta italiano Bernardo Bertolucci.

    CONTEXTO HISTÓRICO
    A primeira metade do século XX foi avassaladora para a história da humanidade. Em menos de 50 anos o mundo viveu a Primeira Guerra Mundial, a Crise de 1929, a criação do primeiro Estado socialista, o totalitarismo nazifascista, além da Segunda Guerra Mundial que deixou um saldo de 50 milhões de mortos entre 1939 e 1945.
    Os primeiros anosdo século XX ainda eram marcados pelo neocolonialismo, que dividindo o mundo afro-asiático entre as nações industriais, gerou uma ferrenha disputa de mercados, acirrando as divergências nacionalistas, que culminaram na Primeira Guerra Mundial em 1914. Com o término do conflito em 1918, a Europa, principal palco da guerra, estava parcialmente destruída e as democracias liberais fragilizadas pela crise económica generalizada. Esse cenário acabou criando condições historicamente favoráveis para a propagação de ideologias, que apesar de terem em comum o anti-liberalismo, se antagonizavam nos seus objectivos finais.
    Por um lado, o socialismo começava a emergir como força política em vários países europeus, principalmente após o êxito inicial da Revolução Russa em 1917. Na Itália, a crise da monarquia parlamentar agravava-se com as lutas políticas entre católicos e socialistas que impediam a formação de um governo de coligação. As agitações sociais eram cada vez mais constantes e a alta burguesia, temerosa de um levante comunista, não hesitou em apoiar um grupo nacionalista ainda inexpressivo, mas decidido a manter a ordem, mesmo que pela força. Nessa conjuntura surgia o Partido Fascista, fundado em março de 1919 na cidade de Milão por Benito Mussolini, um ex-combatente socialista. Dirigindo o jornal, "Popolo Dâ?T Itália", Mussolini organizou as milícias fascistas (camisas negras), na luta contra socialistas e comunistas. Diante de pressões e ameaças, a monarquia italiana resolveu ceder e os fascistas fizeram a sua triunfal "Marcha sobre Roma". Assumindo o ministério, Mussolini, o "Duce" (chefe), através de ações criminosas foi aniquilando os seus adversários, como aconteceu em 1924, com o assassinato do deputado socialista Matteoti. Alguns meses depois quase toda oposição estava esmagada.
    A proposta final de Mussolini era a formação da "Grande Itália", através de uma política militarista e expansionista, que faria ressuscitar a geopolítica do antigo Império Romano. Com uma organização política monopartidária e alimentando um nacionalismo histérico na defesa de um Estado corporativo e intervencionista, o fascismo definia-se como um regime totalitário de extrema direita refletindo uma reacção extremada da burguesia mais reaccionária, frente à crise das democracias liberais e, principalmente, ao avanço das organizações partidárias de esquerda.
    Esse mesmo cenário de apreensões e incertezas, agravado pelo "crack" na bolsa de N. Y. favoreceu o fortalecimento do fascismo noutras nações. Na Alemanha, com base nos mesmos princípios do fascismo italiano, acrescidos do anti-semitismo, o nazismo recuperava a economia e o orgulho nacional da nação germânica, humilhada pelas imposições, notadamente francesas, estabelecidas pelo Tratado de Versalhes após o término da Primeira Guerra. Com investimentos maciços na indústria bélica, Hitler alimentou o militarismo expansionista para formação do III Reich e no dia 1 de setembro de 1939, invadiu a Polônia, iniciando a Segunda Guerra Mundial. A vitória dos aliados (EUA, França, Inglaterra e URSS) contra o eixo (Itália, Alemanha e Japão), deu-se somente em agosto de 1945, após o ataque atómico dos EUA sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.
    Com a derrocada do nazifascismo, o cenário internacional do "pós-guerra" favoreceu tanto os governos liberais de carácter capitalista, como as repúblicas populares socialistas. As lutas de libertação nacional e a corrida armamentista nuclear entre os blocos capitalista (EUA) e socialista (URSS), estendeu-se até os anos 80, caracterizando o contexto da "guerra fria".




    Bernardo Bertolucci (Parma, 16 de março de 1941) é um cineasta italiano.
    Antes de fazer cinema, estudou na Universidade de
    Roma e ganhou fama como poeta. Em 1961 trabalhou como assistente de direcção no filme Accattone, de Pier Paolo Pasolini. Em 1962, dirigiu La commare secca, mas obteve reconhecimento com seu segundo filme, Antes da revolução, em que já demonstrava o seu estilo político e comprometido com o seu tempo. Em 1967, escreveu o roteiro de Era uma vez no oeste, o melhor filme de Sérgio Leone.
    Já nos
    Estados Unidos, dirigiu O conformista (1970), que chegou a ser indicado para o Óscar de melhor argumento. Em 1972, a sua primeira obra-prima, O último tango em Paris, escandalizou meio mundo e deu a Bertolucci mais uma chance de concorrer ao Óscar, desta vez como director. Depois de fazer 1900, um filme monumental e muito ambicioso, Bertolucci partiu para o drama intimista em La Luna.
    Poucos cineastas demonstram tanta versatilidade, mantendo sempre a sua marca autoral. Em
    1987, consagrou-se com O último imperador, que recebeu nove Óscars, incluindo os de melhor filme e melhor diretor. Em O céu que nos protege (no Brasil), Um chá no deserto (em Portugal), nova obra-prima, rodado em 1990, em pleno deserto do Sahara, Bertolucci extraiu interpretações fantásticas de Debra Winger e John Malkovich. Seguiram-se O pequeno buda prejudicado por uma certa frouxidão narrativa.
    Os seus últimos filmes falam de relacionamentos e sentimentos, são profundamente intimistas como e
    Beleza roubada e Assédio. Bertolucci é um cineasta ousado, que gosta de movimentos de câmara sofisticados, roteiros inteligentes e não tem medo de experimentar, mesmo quando trabalha com grandes orçamentos. Está em plena atividade e certamente vai virar o século à procura de um novo "clássico" para a sua já ampla colecção.
    Da Wikipédia

    segunda-feira, 7 de maio de 2007

    11º Plenário do Movimento - dia 09/05/2007 - 21:30 horas

    Convoca-se o Plenário do Movimento Não Apaguem a Memória para o próximo dia 9 de Maio de 2007, às 21:30 horas, a realizar na sede da Associação 25 de Abril, na Rua da Misericórdia, 95 em Lisboa.

    A Ordem de Trabalhos é a seguinte:

    1. Leitura e Aprovação da Acta do Plenário anterior.

    2. Grupos de trabalho – ponto de situação / próximas acções

    3. Informações:

    3.1. Organização do Movimento

    3.2. Debate Parlamentar do dia 30 de Março e resolução a ser votada na A.R.

    3.3. Arraial e 25 de Abril

    4. Composição da Mesa do Plenário para os próximos Plenários

    A Mesa do Plenário

    Visita ao Posto de Comando do MFA - dia 12/05/2007 às 10:00


    "Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.
    As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.
    Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária."


    No cumprimento do objectivo fundador e central do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória, o Grupo de Trabalho “Roteiros da Memória” vai promover, no próximo dia 12, sábado, às 10.00h, uma visita ao Núcleo Museológico do Posto de Comando do M.F.A., instalado no Regimento de Engenharia 1, localizado na Pontinha, na sequência da colaboração acordada entre a Câmara Municipal de Odivelas e o NAM, que passará, entre outras iniciativas conjuntas, pela criação de um Roteiro de Odivelas da Memória da Resistência e da Liberdade, que terá como ponto central justamente o Posto de Comando.

    Esta visita é particularmente importante, pois trata-se de preservar o edifício de onde o MFA dirigiu todas as operações do 25 de Abril de 1974. Foi ali que Marcelo Caetano esteve detido, levado pelo capitão Salgueiro Maia, tal como Silva Pais, director da PIDE/DGS e Ruy Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi ali que o programa do MFA foi dado a conhecer ao país pelo major Vítor Alves.

    Instalado num quartel, o edifício do Posto de Comando está sempre dependente do futuro do mesmo. Assim, para que não lamentemos um dia o apagamento da memória do Posto de Comando do MFA, é imperioso que o divulguemos hoje e façamos dele um dos eixos de intervenção do nosso Movimento Cívico.

    A visita do dia 12 terá como convidado especial o jornalista António Valdemar, que fez reportagem na primeira conferência de imprensa da Junta de Salvação Nacional, realizada na manhã de 26 de Abril de 74, justamente no Posto de Comando.

    Para participar na visita, basta aparecer às 9.45h da manhã do próximo sábado à porta do quartel da Pontinha (a estação do Metro da Pontinha fica a 50 metros do quartel).

    Apareçam. Não deixem apagar a memória do Posto de Comando do MFA!


    Para lá chegar:
    Descer na estação de metro da Pontinha e o quartel fica a 50 ou 100 metros. Basta perguntar onde é o quartel da Pontinha. O nosso companheiro Jorge Martins estará lá à porta.

    domingo, 6 de maio de 2007

    "Por teu livre pensamento" - a exposição

    O verso de David Mourão Ferreira, cantado por Amália no "Fado Peniche", dá título a uma exposição de fotografias de João Pina (1980-), patente ao público no Centro Português de Fotografia (Porto), até 24 de Junho.
    Esta exposição, tal como o livro homónimo, conta a história de cárcere de 25 ex-presos políticos portugueses. As 55 provas expostas apresentam os fotografados em espaços associados à sua própria história de resistentes antifascistas e/ou em locais relacionados com a sua actividade actual. Este trabalho é um roteiro com os meios e pelos lugares da memória da resistência ao Estado Novo e da luta pela democracia.
    "A relação entre a fotografia e a preservação da memória é óbvia e de fácil constatação. No entanto, não se pode deixar de recomendar uma observação mais atenta de alguns pormenores que poderão escapar a um olhar menos precavido. Atente-se que, enquanto alguns dos retratados conseguem esboçar um sorriso quando, perante a câmara de João Pina, acederam recriar as célebres fotos de frente-perfil-três quartos que davam um rosto às fichas e cadastros da PIDE, para outros, mais de 30 anos após a queda do regime que os enclausurou e torturou, os traumas e hábitos causados pelas duras experiências a que estiveram submetidos parecem ainda não estar ultrapassados. Tal é facilmente constatável com um mero exercício de comparação das expressões adoptadas por muitos destes ex-presos políticos perante os “fotógrafos” da polícia política com as assumidas na produção deste trabalho, expressões fechadas que muitas das vezes, tinham por objectivo dificultar uma posterior identificação quando lograssem voltar a conquistar a liberdade." Rui Daniel Galiza (co-autor do livro).
    Para quem está muito longe do Porto e não pode mesmo deslocar-se à Cadeia da Relação, o Expresso on-line desvenda 15 destas magníficas imagens.

    CPF (Cadeia da Relação)
    Horário
    3ª a 6ª: das 15.00 às 18.00
    Sábados, domingos e feriados: das 15.00 às 19.00
    Encerrado à 2ª feira
    Entrada livre
    Visitas Guiadas
    Mediante marcação prévia
    Telef.: 222 076 310 / Fax: 222 076 311 / e-mail:
    email@cpf.pt
    Serviço Gratuito

    sábado, 5 de maio de 2007

    A história secreta do 25 de Abril

    Ainda a propósito do 25 de Abril, acaba de sair uma entrevista inédita no relançado sítio de Internet do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa.
    Intitula-se Otelo, Vítor Alves e Vasco Lourenço – os três do 25 de Abril e foi realizada pelos jornalistas Ana Sá Lopes e António Melo, há 3 anos atrás. Esta entrevista nunca fora publicada na íntegra, dada a sua extensão.
    Como consta da introdução, os 3 operacionais do 25 de Abril relatam aqui "as vicissitudes de um percurso que se iniciou em Setembro de 1973, quando Vasco Lourenço clamou «Isto só lá vai com um golpe militar!», e teve o seu desfecho ao meio-dia de 23 de Abril de 1974. Nesse dia, de um cansado duplicador, Otelo retirou as derradeiras instruções, que enviou às unidades do Movimento: ao som do «Grândola, Vila Morena», às 03h00, na Rádio Renascença, saem para cumprir as missões que lhes foram destinadas".
    A entrevista tem os seguintes marcos principais:
    - a prisão de Vasco Lourenço e o fracasso do 16 de Março;
    - as lições do 16 de Março e o Programa do MFA;
    - o programa, Spínola e a operação militar;
    - neutralização da PIDE e o Regimento de Comandos;
    - ligações partidárias e internacionais.
    Nb: já não sei donde retirei esta imagem, alguém pode ajudar a identificar a fonte?

    Pombas de Guerra


    Pombas de Guerra - Quatro mulheres na Guerra Civil de Espanha - de Paul Preston

    O livro de Paul Preston é uma visão muito interessante sobre um dos acontecimentos mais marcantes do século XX - A Guerra Civil de Espanha.

    Do livro pode-se dizer que prima pela originalidade do tema, com uma escrita de fácil leitura.

    Do Sunday Telegraph:
    "Quatro mulheres extraordinárias, cujas histórias pessoais dissipam qualquer ilusão de que a Guerra Civil de Espanha foi uma guerra masculina...
    O livro está repleto de histórias maravilhosas e observações perspicazes. Mas, acima de tudo, estes são dramas humanos onde as questões morais, o certo e o errado, o fascismo e o comunismo desaparecem."


    "A aristocrata: Pip Scott-Ellis apaixonou-se por um príncipe espanhol e partiu para Madrid numa limusina com motorista. Acabou por ser enfermeira nos hospitais franquistas na linha da frente.

    A comunista: Nan Green, por outro lado, viajou até Espanha em 3.ª classe. Deixou para trás os filhos, em Inglaterra, enquanto combatia do lado das Brigadas Internacionais.

    A intelectual: Margarita Nelken era uma crítica de arte e escritora, que traduzira Kafka para espanhol. Acusada pela direita católica de ser uma prostituta, tornou-se uma política radical.

    A fascista: Após o seu marido ter sido morto em combate, e ter abortado assim que ouviu a notícia, Mercedes Sanz- Bachiller fundou uma organização de beneficência que iria mudar a face de Espanha."


    Paul Preston é Professor da cátedra Príncipe das Astúrias de História Contemporânea Espanhola e director do Centro Cañada Blanch na London School of Economics. É membro da Academia Britânica, Comendador da Ordem de Mérito Civil e foi nomeado para Comendador do Império Britânico (CBE) em 2000. Preston foi galardoado em 2005 com o Prémio Internacional Ramon Llull concedido pelo Instituto de Estudos Catalães e pelo Instituto Ramon Llull. A 20 de Junho de 2006, foi-lhe atribuída a cadeira Marcel Proust na Academia Europea de Youste.

    De Paul Preston recomendo o livro A Guerra Civil de Espanha editado em Portugal pela edições 70

    sexta-feira, 4 de maio de 2007

    Barreiro


    É sabido que o Barreiro foi um bastião da luta anti-fascista.
    Neste Concelho muitas lutas se fizeram contra a ditadura de Salazar, muitos foram presos e torturados.

    No Barreiro, a vida foi diferente muitas vezes. Homens e Mulheres deixaram o seu quotidiano e fizeram-se à estrada do anti-fascismo com a generosidade própria de quem se liberta de si próprio e avança na estrada de todos.

    Alguns ficaram na estrada da morte, outros na estrada da vida.
    A Todos só temos que agradecer e recordar.

    E o Barreiro é tão bonito!

    Vejam esta página. É uma página de História:

  • Barreiro
  • quarta-feira, 2 de maio de 2007

    Livros proibidos pela Ditadura Militar e o Estado Novo

    Luísa Alvim elaborou em 1992, no âmbito do Curso de Especialização em Ciências Documentais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o trabalho que agora se divulga. Trata-se de uma bibliografia dos livros censurados durante a Ditadura Militar e o Estado Novo (1926-1974), existentes em três bibliotecas de depósito legal: Biblioteca Pública do Porto, Biblioteca Pública de Braga e Biblioteca Nacional. A bibliografia está organizada por áreas temáticas, segundo o esquema da Classificação Decimal Universal (CDU), e é seguida por um índice de autores e responsáveis e por um índice de títulos.
    A pesquisa bibliográfica foi realizada nos catálogos manuais da Biblioteca Pública do Porto, da Biblioteca Pública de Braga, na Base Nacional de Dados Bibliográficos - PORBASE e numa biblioteca particular.
    Esta é uma boa ferramenta para o estudo da Censura e da política cultural do Estado Novo e está disponível, desde finais de Abril, no site E-LIS - E-Prints in Library and Information, um arquivo em livre acesso para documentação no domínio das Ciências da Informação.

    terça-feira, 1 de maio de 2007

    1º de Maio

    1º de Maio de 1974 em Lisboa
    Esta fotografia foi retirada do site da ATTAC-Portugal

    Meu Maio, de Vladimir Maiakovski

    A todos
    Que saíram às ruas
    De corpo-máquina cansado,
    A todos
    Que imploram feriado
    Às costas que a terra extenua –
    Primeiro de Maio!
    Meu mundo, em primaveras,
    Derrete a neve com sol gaio.
    Sou operário –
    Este é o meu maio!
    Sou camponês - Este é o meu mês.
    Sou ferro –
    Eis o maio que eu quero!
    Sou terra –
    O maio é minha era!

    1º de Maio de 1973 - o último sem liberdade

    (José Dias Coelho, 1961)


    Ler aqui, num outro blogue.