domingo, 21 de outubro de 2007

As lágrimas de Edmundo Pedro no regresso do Tarrafal


A 17/09/2007, o jornalista Fernando Peixeiro do Diário de Notícias, publicou este artigo a propósito da última visita de Edmundo Pedro a Cabo Verde:


"Edmundo Pedro, antifascista e antigo preso político, soube que a ministra da Cultura ia estar três dias a visitar a ilha de Santiago, Cabo Verde, e meteu-se no mesmo avião para a acompanhar no dia que fosse ao antigo campo de concentração do Tarrafal.


Pagou do seu bolso uma viagem e estada para ir dizer que é preciso não deixar que a colónia penal fique abandonada, que deve ser construído ali um museu da resistência, e chorou quando recordou os quase 10 anos amargos que lá passou.


A iniciativa deste homem, de 89 anos, apanhou de surpresa a comitiva de Isabel Pires de Lima, que só soube do acompanhante já no avião de Lisboa para a Praia, capital de Cabo Verde.


Agastado com o alto preço da viagem, Edmundo Pedro era ainda assim um homem convicto, à chegada, como de resto foi toda a vida. "Quero aproveitar a presença da ministra para a sensibilizar. Quero que ajude a preservar algo que faz parte da história contemporânea, que ajuda a caracterizar o antigo regime e que está cada vez mais esquecido", disse. Edmundo Pedro tem um sonho: fazer da antiga colónia penal do Tarrafal, mandada construir por Salazar para alojar presos políticos e que funcionou entre 1936 e 1954, num museu, porque "o que lá está agora é uma caricatura de museu".


Na Cidade da Praia, o antigo "tarrafalista" foi recebido pelo Presidente da República, Pedro Pires, de quem é amigo e com quem comunga da mesma ideia: o Tarrafal, agora apenas o que resta dos edifícios e um pequeno centro de interpretação, à entrada, que explica como funcionou a prisão, deveria ser transformado num centro de convívio da CPLP, um local de amizade e um museu a sério, com testemunhos e objectos que fizeram a história do campo de concentração. Preso por ser do PCP, hoje filiado no PS, Edmundo Pedro diz também que toda a herança do Tarrafal tem sido monopolizada pelos comunistas e adianta que o campo de concentração tem de ser visto numa perspectiva nacional e não partidária. E se Pedro Pires quer promover, em Cabo Verde, um grande fórum sobre campos de concentração que o faça depressa. E se querem fazer um museu a sério que seja rápido. Edmundo Pedro tem muitos documentos e até a cópia de uma máquina de cortar tabaco feita por Bento Gonçalves, antigo secretário-geral do PCP que morreu no Tarrafal. Mas ele, Edmundo Pedro, tem também 89 anos e a certeza que poucos lhe restam para "contribuir para que a memória do Tarrafal não se apague". Mas não parece. Quando, com os ministros da Cultura de Portugal e Cabo Verde atravessa o portão de entrada do campo é como se voltasse a ter outra vez 17 anos, a 1936.


Num desenho do campo dessa altura aponta a segunda tenda de uma fila dupla, como sendo a sua (antes dos pavilhões terem sido construídos). Depois, na antiga cozinha, lembra o dia em que se reuniram ali 140 homens, a preparar uma fuga em massa, enquanto ele vigiava os guardas, ainda assim não impedindo que fossem descobertos e a tentativa abortada. Cá fora, ao sol, recorda a fuga mais espectacular e rocambolesca que protagonizou com o pai e mais três companheiros. A tentativa de fuga de barco, a perseguição, as peripécias, até serem apanhados finalmente. Edmundo Pedro conta tudo com pormenores, incluindo o castigo, 70 dias na "frigideira", uma construção sem janelas onde os presos quase "fritavam". "Chegava aos 50 graus", recorda, como recorda que estiveram três dias sem beber e que quando lhe deram um balde de água também não puderam matar a sede "porque a língua tinha inchado de tal maneira que ocupava a boca toda". Depois lembra a tentativa de suicídio do pai, as mortes frequentes de presos (assistiu a 32 óbitos) ou aponta o local dos ganchos onde eram atados os presos para serem chicoteados."Tenho uma recordação muito viva e trágica: foi a morte da minha grande referência ainda hoje, um grande amigo." Debaixo de uma árvore, Edmundo Pedro volta a ter 89 anos quando lembra a convivência, ali, com Bento Gonçalves."Chorávamos pelos que se iam embora e até por nós. Eu via passar os anos, via morrer os meus companheiros. Tive momentos em que chorei, às escondidas do meu pai. Mas é natural que se chore."


E por ser natural, 71 anos depois, 65 anos e dois dias depois da morte de Bento Gonçalves, Edmundo Pedro voltou a chorar no Tarrafal. Pelos que morreram mas também por ele."

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Audiência do Movimento com o Ministro da Justiça

Conforme estava agendado, realizou-se dia 17 de Outubro a 3.ª audiência do NAM com o Sr. Ministro da Justiça, Alberto Costa.

Nesta audiência o NAM fez-se representar por 5 elementos, 3 do Grupo de Trabalho do Aljube e 2 do Grupo de Ligação.

Uma vez mais foram expostos ao Sr. Ministro os nossos objectivos para que a antiga cadeia do Aljube venha a albergar um dos pólos do Museu da Resistência e da Liberdade. O Sr. Ministro referiu que o edifício do Aljube sendo da tutela do Ministério das Finanças, estava afecto ao Ministério da Justiça e que, por sua vontade, não o desafectaria enquanto não surgisse um projecto museológico que salvaguardasse a memória daquele espaço.

Foram durante a audiência aventadas pelo Sr. Ministro duas hipóteses de concretização do projecto:

1. ou através da constituição de uma fundação com o NAM como fundador e com o objectivo específico de criar e gerir o futuro museu, cedendo o Estado unicamente o espaço para o efeito;

2. ou a assunção pelo Ministério da Cultura do projecto de constituição do museu, a expensas estatais na qual o NAM teria a função de consulta e aconselhamento. Foi por nós referido ao Sr. Ministro que era esta última, no entender do NAM, a hipótese que nos parecia mais correcta, porquanto entendemos que o Estado tem de cumprir o DEVER DE MEMÓRIA.

Quanto à pretensão do NAM em ocupar uma parte do edifício do Aljube para o seu funcionamento, foi-nos comunicado que isso seria uma questão a ponderar, dependendo da decisão governamental de transformar ou não o Aljube no Pólo Museológico – Resistência e Liberdade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Encontros em lugares de Memória da Resistência - 2ª sessão


O núcleo do Porto do movimento Não Apaguem a Memória!, movimento cívico que visa a preservação da memória histórica das lutas de resistência à ditadura, promove os Encontros em Lugares de Memória da Resistência, esperando que as histórias contadas pelos protagonistas das acções de resistência anti-fascista venham enriquecer a nossa memória colectiva do fascismo.

Contando com os testemunhos dos que participaram nas lutas informais e nas actividades promovidas por associações de todo o tipo, como colectividades culturais, entidades cooperativas, organizações de jovens trabalhadores e associações estudantis, o Movimento Não Apaguem a Memória! convida todos quantos frequentaram os lugares simbólicos dessas acções.

Tendo-se iniciado este ciclo de tertúlias no café "Piolho", apelamos agora à sua participação activa, no próximo sábado, 27 de Outubro, às 15.30h no café CEUTA, local onde se realiza o segundo encontro.

O Núcleo do Porto do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Os despojos da Aliança

O livro Os despojos da Aliança. A Grã-Bretanha e a questão colonial portuguesa (1945-1976), do historiador Pedro Aires Oliveira, será lançado na próxima 6.ª feira, às 18h, na Casa Fernando Pessoa. O discurso de apresentação cabe a José Medeiros Ferreira.
A obra, editada pelas edições Tinta da China, é uma versão da sua tese de doutoramento e aborda as relações diplomáticas entre Portugal e Reino Unido na fase do ocaso sangrento do colonialismo português.
Mais informações aqui.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

13º Plenário do Movimento "Não Apaguem a Memória"

Por decisão do 10º Plenário do NAM coube ao Grupo de Ligação (GL) apresentar uma proposta quanto ao modelo de institucionalização do Movimento, nomeadamente se deveria constituir-se enquanto Associação ou na base de um outro formato institucional. Entendeu o GL ser adequado ouvir a opinião de pessoas, com experiência e conhecimento neste particular, tendo sido ouvidos os companheiros Macaista Malheiros e Alfredo Caldeira.

Ao termo da discussão, diante dos argumentos expostos, houve convergência quanto à opção pelo modelo de Associação que apresentaria vantagens indiscutíveis em termos de facilidade e custo.

Começou, então, a ser discutida, no âmbito do GL, uma proposta elaborada pelo companheiro Martins Guerreiro que apresentava as bases de um modelo de Associação que visava sobretudo salvaguardar, tanto quanto possível, a forma de funcionamento deste movimento cívico, tal como foi aprovada na sua Carta (Plenário soberano, grupos de trabalho, núcleos locais/regionais, etc).

Nos últimos quatro meses esta proposta foi debatida no âmbito do GL. Porém, de forma a respeitar a decisão soberana do Plenário entendeu o GL dever apresentar, em Plenário, um texto sintético (que circulou pela Lista TODOS) pois haveria que saber, em primeiro lugar, se seria aprovada a transformação do NAM em associação antes de elaborar o seu modelo de organização e de funcionamento, consubstanciado num projecto de Estatutos.

No último Plenário teve início este debate que será prosseguido no próximo.
Dado que está em jogo o futuro do Movimento fazemos um apelo à participação a mais ampla possível dos apoiantes do NAM que representam actualmente quase 600 pessoas.

A Ordem de Trabalhos do 13º Plenário do Movimento Não Apaguem a Memória! é a seguinte:

1. Aprovação da Acta do Plenário anterior.
2. Discussão e votação da eventual transformação do Movimento em Associação.
3. Medidas decorrentes da decisão aprovada no ponto anterior.
4. Marcação do próximo Plenário.


A Mesa do Plenário
O Grupo de Ligação

Lembrar Adriano - "Há Sempre Alguém que resiste"


De 16 a 20 de Outubro decorre, na Voz do Operário, em Lisboa, uma Homenagem a Adriano Correia de Oliveira, a propósito dos 25 anos do seu desaparecimento.

Esta homenagem decorre sob o lema Há Sempre alguém que resiste.

A Comissão Promotora é composta pelos Amigos de Adriano a que se juntaram:
S.I.B. “A Voz do Operário”
CGTP-IN
Confederação Portuguesa das Colectividades
Junta de Freguesia de São Vicente de Fora
PCP- Organização Regional de Lisboa
Centro Cultural Regional de Santarém

Programa:
Dia 16 de Outubro 18:30h:

- Sessão Solene e Inauguração da Exposição sobre Adriano Correia de Oliveira (Presenças: Presidente da CML/Comissão Promotora/Familiares)

Poesia por: Maria do Céu Guerra, José Fanha e Carlos Paulo.

19:30h - Jantar de Confraternização

21:30h - Colóquio sobre a Vida e Obra de Adriano Correia de Oliveira, com a participação de Luís Cília, José Barata Moura, Lopes de Almeida, Vial Moutinho, Paulo Sucena, José Carlos Vasconcelos, Deolinda Bernardo, José Pires, Vítor Melancia, Tuna Académica de Lisboa.

17 a 20 de Outubro: das 10h às 22h - Visitas guiadas à Exposição, para escolas, instituições e população interessada, animadas com pequenos espectáculos de música e poesia.

20 de Outubro às 21:30h - Espectáculo Músical 25 Anos - 25 Canções Lembrar Adriano com a participação de Amélia Muge, Brigada Vítor Jara, Carlos Alberto Moniz, Fausto, Fernando Tordo, Francisco Fanhais, Janita Salomé, João Fernando, Luís Represas, Luísa Basto, Manuel Freire, Nuno do Ó, Paulo Saraiva, Paulo Vaz de Carvalho, Pedro Abrunhosa e Samuel.

24 horas: Serenata com a participação do Grupo de Guitarra e Cantares de Coimbra e do Centro Cultural Regional de Santarém.

O novo Museu do Neo-Realismo (guia de fontes sobre a resistência-II)

O novo edifício do Museu do Neo-Realismo será inaugurado no próximo sábado em Vila Franca de Xira. Na mesma ocasião formaliza-se a doação de 3 espólios literários: os legados do escritor Orlando da Costa (Lisboa), do ensaísta e dramaturgo Mário Sacramento (Aveiro) e parte do espólio do escritor Alves Redol (V. F. de Xira). Os três foram resistentes ao salazarismo, tendo sido membros do MUD e militado no PCP. Estes espólios irão juntar-se a muitos outros, que começaram a ser aí depositados em 1991 (o 1.º foi o do escritor Manuel da Fonseca; vd. restantes aqui).
Mostram-se então ainda 4 novas exposições: Batalha pelo conteúdo – Movimento neo-realista português (colectiva de iconografia, documentação e bibliografia); Uma arte do povo, pelo povo e para o povo – Neo-realismo e artes plásticas (colectiva de artes plásticas); The return of the real (ciclo de arte contemporânea); Sonhando para os outros (biobibliográfica de Arquimedes da Silva Santos).
A cerimónia de inauguração contará com a presença do presidente da República e da ministra da Cultura. O novo edifício é da responsabilidade do arq. Alcino Soutinho. O Museu foi originalmente criado em 1990 para acolher um Centro de Documentação sobre o movimento neo-realista português. Foi depois reforçado com uma colecção específica de artes plásticas, a melhor do género existente no país.

Serviços disponibilizados:
>visitas orientadas às exposições e oficinas educativas
>promoção de encontros, debates, conferências e colóquios
>consulta e pesquisa bibliográfica e documental especializada
>reprodução em fotocópia ou em meio digital de documentação
>itinerância de exposições
>edição e venda de publicações e catálogos

Horário de atendimento ao público:
>9h30-12h30, 14h-17h30 (2.ª a 6.ª feira)

Contactos do Museu do Neo-Realismo:
Rua José Dias da Silva, n.º 2, 2.º
2600-169 Vila Franca de Xira
Tel.: 263 285 600 (ext. 5870/ 5871/ 5872)
E-mail: neorealismo@cm-vfxira.pt

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Lançamento do Livro "Timor na 2ª Guerra Mundial"







Dia 18 de Outubro de 2007, pelas 18 horas, no Auditório da Fundação Mário Soares, O Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE e a Fundação Mário Soares apresentam o livro Timor na 2ª Guerra Mundial de António Monteiro Cardoso.







A apresentação da obra ficará a cargo do Professor Doutor José Medeiros Ferreira e do Escritor Luís Cardoso.







O Convite é assinado por Mário Soares e Maria Carlos Radich, em nome da Fundação e do CEHCP do ISCTE, respectivamente.








António Monteiro Cardoso lecciona a cadeira de Direito da Comunicação Social na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa.

Exerceu o cargo de Chefe de Gabinete do Secretário de Estado da Comunicação Social no Governo de António Guterres.

É autor do romance Boas Fadas que Te Fadem e de obras de investigação no domínio da História e da Comunicação Social, nomeadamente do livro A Guerrilha do Remexido, em co-autoria com António do Canto Machado.

É doutor em História Contemporânea pelo Instituto de Ciências Sociais do Trabalho e da Empresa (ISCTE).




O livro relata, através do Diário do Tenente Manuel Pires, a resistência do povo timorense à invasão dos japoneses na II Guerra Mundial.


Tomai lá do O'Neill

O documentário que o realizador Fernando Lopes fez em 2004 sobre o poeta Alexandre O’Neill (1924-1986) passa hoje, finalmente, na RTP2 (às 23h45).
Aborda a sua poesia e as histórias da sua vida, contadas por Antonio Tabucchi, Hellmut Wohl, Gérard Castello-Lopes, João Botelho e Afonso O’Neill, entre outros.
Nas palavras do realizador: "Trata-se de um tributo pessoal (…). Trata-se, sobretudo, das vivências criativas, sentimentais e afectivas de um poeta, um dos maiores do nosso século XX, com quem tive o privilégio e conviver".
Breves notas da sua biografia cívica
Aos 23 anos, O'Neill foi um dos co-fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com Mário Cesariny, António Pedro, José-Augusto França, Vespeira, Moniz Pereira, António Domingues e Fernando de Azevedo, um movimento que se inspirou no movimento surrealista criado em 1924 pelo francês André Breton.
Pela mão do maestro e compositor Fernando Lopes Graça e do seu grupo coral chamado Amizade (ligado aos movimentos juvenis da oposição), ele e Cesariny passam por várias colectividades do Barreiro para cantar ideais proibidos pelo regime salazarista. Como comentava O'Neill: "Politicamente, claro que era do contra: MUD juvenil". Nos anos 60 gritou contra o medo: "Penso no que o medo vai ter e tenho medo/ que é justamente/ o que o medo quer" ("Poema pouco original do medo", transcrito neste blogue aqui). Rebelou-se contra a "mediocridade do fascismo e do bota-de-elástico do Salazar", e inconformou-se com a passividade da maioria da sociedade, tendo então escrito um outro poema logo famoso, ao mesmo tempo amargurado e ácido:
"Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
" («Portugal», in Feira cabisbaixa, 1965).
Fontes: RTP e aqui (inclui bibliografia e poemas).

Ficha técnica do documentário
«Tomai lá do O'Neill»
Origem: Portugal - 2004
Duração: 52m
Realização: Fernando Lopes
Fotografia: Rui Poças
Com: Rogério Jacques, Rui Morrison, Antonio Tabucchi, Helmut Wohl, Gérard Castello Lopes, João Botelho, Afonso O'Neill, Mário Cesariny de Vasconcelos

domingo, 14 de outubro de 2007

A guerra colonial, às terças na RTP1

Até Dezembro, às terças-feiras à noite, estarei em frente à televisão a ver a série documental "A Guerra" (do ultramar / colonial / de libertação), do jornalista Joaquim Furtado (RTP1).
Segundo li no Público de ontem, trata-se de um trabalho de jornalismo de investigação, com recurso a abundante material audiovisual da RTP, do Exército, da Força Aérea, da Marinha, de particulares, a centenas de documentos textuais e fotográficos, a cerca de 200 entrevistas a militares, a políticos, a antigos colonos, a empresários, a religiosos. Além disso, muitas das entrevistas foram feitas em lugares da guerra, pondo frente a frente militares portugueses e combatentes africanos, desafiando e confrontando reconfigurações actuais, parcelares e concorrentes das memórias do conflito que marcou os últimos 13 anos do império.
Seis anos, o tempo que Joaquim Furtado levou a fazer esta série documental, não são muitos anos para um trabalho de fundo, sério e rigoroso sobre um tema extremamente sensível da nossa história recente. Sobretudo se ele contribuir, como espero, para desfazer a propaganda colonial e os mitos pós-coloniais, e nos devolver uma leitura crítica e problematizadora da guerra que opôs o exército português aos movimentos de libertação de Angola, da Guiné e de Moçambique, entre 1961 e 1974.

sábado, 13 de outubro de 2007

«A desobediência» de Aristides de Sousa Mendes

Estreou ontem a peça teatral «A desobediência», no Teatro da Trindade, em Lisboa. O texto é de Luiz Francisco Rebello e a encenação de Rui Mendes.
Paralelamente, começou a 2 deste mês um ciclo de conferências semanais dedicada ao cônsul Aristides de Sousa Mendes e ao seu gesto humanitário de concessão de vistos a cerca de 30 mil pessoas, a maioria dos quais para judeus perseguidos pelos nazis e seus cúmplices (vd. programa aqui).
Eis a sinopse da peça:
"No verão de 1940, quando as tropas alemãs invadiram a França, a salvação de milhares de homens e mulheres que fugiam do regime de terror instaurado na Europa pelo nazismo, dependia de um visto de trânsito para um país neutro. Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, dividido entre o cumprimento das ordens ditadas por Salazar e a sua consciência, optou por obedecer a esta e desobedecer àquelas. O resultado seria a salvação de cerca de 30 mil judeus e o seu afastamento definitivo da carreira diplomática. É esse conflito dramático, as circunstâncias em que se desenrolou e as suas dolorosas consequências, que constituem o tema desta peça, escrita em 1995, publicada em 1998, traduzida em espanhol, hebraico, búlgaro e inglês".
Nb: imagem de apresentação da peça, retirada daqui.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

A natureza do fascimo

A Conferência Internacional «The nature of fascism - 40 years on» inicia-se hoje no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (sala polivalente), concluindo-se os trabalhos no sábado (vd. programa aqui).
Neste encontro serão apresentadas comunicações de especialistas como Roger Griffin, Stein U. Larsen, Stuart Woolf, Adrian Lyteltton, entre outros. A organização está a cargo de António Costa Pinto (ICS-UL) e de Giulia Albanese (IUE), que também conferenciam.


Nb: na imagem figura a capa do livro The nature of fascism, de Roger Griffin, a qual foi retirada daqui.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A violência política sob o salazarismo

Saiu na edição deste mês do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa uma recensão crítica ao livro Vítimas de Salazar, por Daniel Melo. O livro, da autoria de João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha, trata da violência política sob a ditadura salazarista, abordando o aparelho repressivo oficial e as suas vítimas. A esta obra já aqui falámos, aquando do seu lançamento em Fev.º deste ano.
Um dos autores desse livro, Irene Pimentel, irá lançar uma versão da sua tese de doutoramento no final deste mês. Chama-se A história da PIDE, tem a chancela do Círculo de Leitores e da Temas & Debates e dele daremos notícia detalhada noutro post mais próximo da data.
Imagem: cela da Prisão do Forte de Peniche (foto de Pedro Medeiros retirada daqui).

Homenagem a Ribeiro dos Santos


A 12 de Outubro de 1972, o estudante Ribeiro dos Santos, militante do MRPP, foi assassinado pela PIDE/DGS durante uma reunião de estudantes contra a repressão fascista de Marcelo Caetano na Faculdade de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa.

O funeral de Ribeiro dos Santos foi marcado pelos confrontos entre a PIDE e os estudantes que acorreram em massa.



Passam agora 35 anos deste acontecimento marcante na luta estudantil. Na Biblioteca-Museu República e Resistência decorre uma homenagem de que damos conta.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Homenagem em vida a Óscar Lopes

Óscar Lopes celebrou hoje 90 anos, o que foi aproveitado para o início duma grande homenagem a Óscar Lopes na sua cidade natal, o Porto. O programa «A busca do sentido na obra e na vida de Óscar Lopes» inclui exposições, livros, concertos, encontros e um colóquio.
Entre outros livros inéditos, será lançado o estudo Óscar Lopes - um homem maior do que o seu tempo, esta 5.ª feira às 21h, sendo à tarde anunciado o vencedor do Prémio de Ensaio Óscar Lopes. Daquele livro saiu hoje no Público o texto "Um homem maior do que o seu tempo", do escritor e amigo Baptista Bastos. Os escritores Bento da Cruz, Fernando Guimarães, José Manuel Mendes, Manuel da Silva Ramos, Mário Carvalho e Urbano Tavares Rodrigues estarão presentes num dos encontros.
Vida profissional, política e cívica
Óscar Lopes nasceu a 2/X/1917, em Leça da Palmeira, Matosinhos.
Licenciou-se em Filologia Clássica pela FLUL, em 1941, e depois em Histórico-Filosóficas, pela FLUC. Foi professor liceal entre 1941 e 1974. Entre 1967 e 1971 foi bolseiro do Instituto de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian. É autor duma vasta obra nos domínios da Linguística e, sobretudo, da História da literatura.
Foi colaborador regular das mais importantes revistas literárias portuguesas, incluindo algumas ligadas à oposição antisalazarista: Seara Nova, Vértice, Mundo Literário, além da Colóquio/Letras, da Camões e do suplemento literário do jornal O Comércio do Porto.
Com António José Saraiva elaborou uma das mais influentes obras da cultura oposicionista sob o Estado Novo, a famosa História da Literatura Portuguesa, editada em 1955 e com mais de 20 reedições posteriores.
A partir de 1942 envolve-se em intensa actividade política e cívica oposicionista, tendo pertencido ao MUNAF, ao PCP (desde 1945), ao MUD, ao MND e à CDE. Entre outros envolvimentos associativos, foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores, fundador da Universidade Popular do Porto e dirigente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras. A sua intervenção cívica e a militância no PCP foram represaliadas pela ditadura com a prisão por duas vezes, a proibição de saída do país durante um longo período e o afastamento da universidade. Só depois da revolução pôde ser professor na FLUP. Foi membro do Comité Central do PCP entre 1976 e 1996.
Além de várias medalhas de honra municipais, recebeu os prémios Rodrigues Sampaio (1967, da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto), Seiva Trupe (id., 1985) e Jacinto do Prado Coelho (1985, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários).
Foi condecorado em 1989, com a Ordem da Instrução Pública e em 2006 com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, esta atribuída pelo presidente da República Cavaco Silva.

Julieta Gandra in memoriam (1917-2007)

Faleceu recentemente Julieta Gandra, resistente antifascista e lutadora pela independência de Angola, do que só hoje tive conhecimento. A médica Julieta Gandra foi presa em Angola pela PIDE em 1959, sob a acusação de pertença a movimentos ilegais e «subversivos», o MPLA e o PCP. Foi condenada no 1.º julgamento político do nacionalismo angolano moderno, conhecido como «processo dos cinquenta» e deportada para a prisão de Caxias em Lisboa (sobre os movimentos independentistas vd. aqui).
Anos depois, e também devido aos graves problemas de saúde por que passou na cadeia, seria considerada "Prisioneira de Consciência de 1964" pela Aministia Internacional (sobre o que é um prisioneiro de consciência vd. aqui). Esta atenção internacional obrigou a ditadura salazarista a libertá-la pouco depois. A este propósito recomenda-se o texto Julieta Gandra - Conspiradora de Esperança, de Diana Andringa.
Aproveita-se ainda para reproduzir um texto que nos chegou de homenagem a Julieta Gandra, por Adolfo Maria, agradecendo publicamente ao seu autor:
"A morte de Julieta Gandra não foi notícia
Não foi notícia, na comunicação social portuguesas a morte de Julieta Gandra, a médica portuguesa incriminada pela PIDE em 1959 e condenada no primeiro julgamento político do nacionalismo angolano moderno, o chamado «processo dos cinquenta», onde a par de muitas militantes angolanos figuravam alguns portugueses como António Veloso, Calazans Duarte e Julieta Gandra, que foram deportados para cadeias em Portugal, tendo os angolanos sido deportados para Cabo Verde, onde ficaram internados no campo de concentração do Tarrafal que assim reabria as suas portas em 1960, agora para outros presos políticos, os angolanos.
O falecimento de Julieta Gandra não foi notícia para jornais, rádios ou televisões de Portugal.
Apenas a SIC passou em rodapé uma breve informação.
Outras pessoas, alguma de bem menor envergadura que J. Gandra preencheram o obituário da comunicação social portuguesa.
Nos anos 50 do século XX, Julieta Gandra, ginecologista (especialidade raríssima na Luanda de
então) atendia no seu consultório da Baixa as clientes da sociedade colonial, tirando daí os seus proventos, e, nos musseques, atendia em modesto consultório, a preço simbólico, as mulheres desses bairros suburbanos. Simultaneamente participava em actividades do Cine-Clube e da Sociedade Cultural de Angola realizando também actividade política em organização clandestina do nacionalismo angolano.
Por isso foi presa pela polícia do regime salazarista, condenada a pesada pena de prisão, internada em cadeias de Portugal. Quer nos interrogatórios da PIDE, quer nas cadeias, portou-se com uma dignidade exemplar. Em 1964 foi considerada a presa do ano pela Amnistia Internacional.
Esta breve resenha da vida cívica de Julieta Gandra cabia em qualquer jornal ou bloco informativo de rádio ou televisão mas os profissionais da comunicação social, sem brio nem remorsos, omitem uma curta e última referência a esta médica portuguesa que foi marco na luta pela liberdade da Mulher e dos Povos".
Lisboa, 10 de Outubro de 2007
Adolfo Maria
Imagem: 1.º emblema do MPLA, retirado daqui.

domingo, 7 de outubro de 2007

Audiência na Assembleia da República



Nota enviada aos Órgãos de Comunicação Social:

No passado dia 4 de Outubro, uma delegação do NAM, da qual fizeram parte, a Dr.ª Maria Barroso, o Arquitecto Nuno Teutónio Pereira, o ex-deputado Raimundo Narciso e a socióloga Lúcia Ezaguy Simões foi recebida pelo Presidente da Assembleia da República, Dr. Jaime Gama e pelo Presidente da 1ª Comissão Parlamentar - Direitos, Liberdades e Garantias - Deputado Osvaldo de Castro. Nesta audiência foi reafirmada a urgência da aprovação de uma Resolução parlamentar que vincule o Estado português ao “Dever de Memória”.

O Dr. Jaime Gama destacou a importância da assinalar os lugares e edifícios que têm um valor histórico e simbólico no combate da resistência à Ditadura.

Nesta mesma ordem de ideias, a Dr.ª Maria Barroso realçou o valor de manter viva a memória da resistência e da liberdade conquistada em Abril de 74, destacando o dever de transmissão às novas gerações do legado de conhecimento da nossa história recente para que sejam consolidados os valores da democracia e da liberdade.

Após o ponto de situação sobre a Petição apresentada pelo NAM, o Dr. Osvaldo de Castro informou que pretende dar seguimento às negociações com todos os grupos parlamentares no sentido de alcançar o acordo, o mais amplo possível, para que seja aprovada uma Resolução parlamentar que venha atender os objectivos do NAM.

Para assinalar dois anos de existência do Movimento, foi entregue ao Presidente da Assembleia da República, ao termo da audiência, o texto
(já publicado neste blogue) que destaca algumas das “bandeiras” que têm mobilizado o Movimento desde a sua origem: a constituição de um espaço museológico no edifício ex-Sede da PIDE/DGS, em Lisboa (e também no Porto) e a criação do Museu da Resistência e da Liberdade, nas instalações da antiga cadeia do Aljube.

Lisboa, 4 de Outubro de 2007

Mulheres do meu país: Maria Lamas (1893-1983)

Faz hoje 114 anos que nasceu a escritora e jornalista antifascista Maria Lamas. Nascida em Torres Novas, casou-se aos 17 anos com o ten. Ribeiro da Fonseca, com quem viveu em Angola durante 3 anos (1911-13).
Regressada à «metrópole», inicia colaboração em publicações locais, com poemas alusivos à destruição provocada pela guerra, em plena «Grande Guerra», assinando como Maria Fonseca ou com o pseudónimo Serrana d’Ayre.
Divorcia-se em 1919, ficando com as suas duas filhas a seu cargo. Fixa-se em Lisboa, em casa dos pais, mudando-se mais tarde para uma casa em Benfica.
É na Agência Americana de Notícias, onde trabalha em 1920, que conhece o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, com quem se casa no ano seguinte e do qual adopta o apelido por que ficará conhecida. Deste segundo casamento nasce a filha Maria Cândida.
Em 1925 inicia colaboração em revistas e publicações infantis, escrevendo a partir de então vários contos infantis.
Inicia-se como jornalista no diário O Século, em 1928, tendo pouco depois sido convidada para dirigir o seu suplemento semanal Modas e Bordados, onde se debruça sobre os problemas das mulheres e do qual é demitida em 1947, por pressão de Salazar.

Activismo político e cívico
A partir dos anos 40 envolve-se na resistência antifascista e na defesa das mulheres, integrando diversas organizações.
Assim, em 1945 assina a lista fundadora do MUD-Juvenil e integra o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), associação fundada na I República e que seria perseguida e encerrada pela ditadura salazarista em 1948. Torna-se presidente do CNMP em 1947, ano em promove uma mostra de grande alcance social, cívico e político: «Exposição dos livros escritos por mulheres». No MUD desempenhará também cargos de direcção.
A sua ligação ao CNMP permitiu-lhe deslocar-se pelo país para tomar conhecimento das condições de vida da mulher portuguesa. As reflexões sobre este périplo são dadas à luz no livro As mulheres do meu país, uma monumental obra em 3 volumes publicada entre 1947 e 1950 (esta obra seria publicada em fascículos para escapar ao crivo censório). Sobre a condição feminina editará outros livros: A mulher no mundo (1952) e o Mundo dos deuses e dos heróis da mitologia geral (1959-61).
Participa no congresso fundador da Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM) em 1946. Em 1953 é eleita membro do Conselho Mundial da Paz, organismo que vários autores dizem ter sido hegemonizado pelo PCUS e a que se associaram cientistas como Joliot Curie, Bertrand Russell e Albert Schweitzer. Representará várias vezes as mulheres portuguesas e os pacifistas nos congressos destas organizações.
Devido à sua intervenção política e cívica foi presa pela polícia política várias vezes: em 1949, sob acusação de difusão de notí­cias falsas e apelo à libertação dos presos polí­ticos, tendo estado incomunicável durante 4 meses; em 1950, pelo crime de defender a paz; e em 1953, no regresso dum Congresso Mundial da Paz, realizado na URSS. Tais detenções vão afectar-lhe a saúde e são um dos motivos porque se decide pelo exílio político, tendo residido em Paris entre 1962 e 1969.
Após a revolução de 25/IV/1974 torna-se militante do PCP, do qual era simpatizante. Foi presidente honorária do Movimento Democrático de Mulheres (MDM) entre 1975 e 1983 e directora da revista Mulheres.
Em 25/IV/1980 é condecorada pelo Presidente da República Ramalho Eanes com a Ordem da Liberdade.
Faleceu aos 90 anos, em Lisboa, a 6/XI/1983. Em 2008 passarão 25 anos sobre a sua morte.

Estudos e fontes
O espólio documental de Maria Lamas está depositado na BN (vd. aqui).
Sobre Maria Lamas existem, entre outros, os seguintes estudos:
*FERREIRA, Eugénio Monteiro (2004), Cartas de Maria Lamas, Porto, Campo das Letras (correspondência trocada por Maria Lamas e o escritor angolano Eugénio Ferreira entre 1942 e 1968).
*FIADEIRO, Maria Antónia (2003), "As mulheres do meu país: uma obra ímpar", História, Jan.º.
*FIADEIRO, Maria Antónia (2003), Maria Lamas. Biografia, Lisboa, Quetzal.
*MASCARENHAS, João, MARQUES, Regina (org.; 2005), Maria Lamas. Uma mulher do nosso tempo, Lisboa, BMRR.
*MUCZNIK, Lúcia Liba (coord.; 1993), Maria Lamas, Lisboa, BN (catálogo).
*PEREIRA, José Pacheco (2003), "A propósito de Maria Lamas", blogue Estudos sobre o Comunismo, 7/XII.
*RAMOS, Wanda (1996), "Lamas, Maria da Conceição Vassalo e Silva", in José Maria Brandão de Brito & Fernando Rosas (dir.), Dicionário de História do Estado Novo, Lisboa, Círculo de Leitores, vol. I, p. 506/7.
Fontes principais: MDM; PS- Mulheres PS20; O Leme; Notícias da Amadora; blogue Almocreve das Petas; imagem retirada daqui.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

5 de Outubro de 2005

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! nasceu de uma acção de protesto realizada no dia 5 de Outubro de 2005 por um grupo de cidadãos indignados com a demolição do antigo edifício-sede da polícia política portuguesa, a PIDE, e sua substituição por um condomínio fechado, sem que nele figurasse uma menção à memória do sofrimento causado pelo regime ditatorial, que vigorou durante quase 50 anos, aos portugueses que lutaram pela liberdade e ali foram submetidos a interrogatórios, vexames e tortura.

Desta iniciativa cívica resultou um vasto movimento de cidadãos, democrático, plural e aberto, motivado pela exigência da salvaguarda, investigação e divulgação da memória da resistência antifascista. Este Movimento considera ser responsabilidade do Estado a preservação condigna desta memória para o que lhe incumbe tomar iniciativas e apoiar outras que lhe sejam propostas e considere adequadas.

Pese embora a intensa mobilização cidadã, as diversas audiências havidas com representantes de todos os grupos parlamentares, com membros do Governo e com vereadores da Câmara Municipal de Lisboa, é forçoso admitir que o Movimento está longe de ter alcançado os resultados possíveis dois anos após a sua criação, nomeadamente nos casos que a seguir se mencionam.

Assembleia da República:
O conjunto de acções levadas a cabo pelo Movimento culminou com a entrega, na Assembleia da República, de uma petição nacional que reuniu 6.007 subscritores – entre eles os antigos Presidentes da República, Jorge Sampaio e Mário Soares – e que foi objecto de debate parlamentar no passado dia 30 de Março.


A petição deu origem a dois projectos de Resolução parlamentar e espera-se a aprovação de uma resolução que recomende um conjunto de medidas, de ordem política e jurídica, passíveis de criar condições para a concretização da memória da resistência à ditadura e da liberdade conquistada em Abril de 74.


Câmara Municipal de Lisboa:
As negociações com vista à constituição de um espaço museológico no edifício ex-Sede da PIDE/DGS, em Lisboa, apesar do promotor imobiliário ter disponibilizado um espaço no futuro condomínio da Rua António Maria Cardoso e das diversas reuniões havidas do Movimento com a anterior vereação do Urbanismo e da Cultura da Câmara Municipal, não lograram qualquer resultado.


A expectativa do Movimento é de que a nova Presidência da CML retome, o mais breve possível, este processo negocial, de forma a estabelecer bases sólidas para a elaboração do projecto arquitectónico e museológico já em discussão. Este projecto conta com a colaboração de um grupo técnico de arquitectos, designers e historiadores que apoiam esta iniciativa e do qual fazem parte, entre outros, o designer Henrique Cayatte e os arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Raul Hestnes Ferreira.

Ministério da Justiça:
A promessa do Ministro da Justiça, em audiência havida com o Movimento, de ceder as instalações da antiga cadeia do Aljube criou a expectativa da criação do Museu da Resistência e da Liberdade que venha a constituir-se como importante centro dinamizador, em articulação com universidades e outras instituições e organizações que desenvolvem relevante actividade neste domínio. No entanto não foram ainda tomadas medidas no sentido da concretização desta expectativa.


É nossa expectativa de que, a curto prazo, tendo em conta a audiência para o efeito já acordada, o Senhor Ministro da Justiça dê início a este processo.

No momento em que comemora dois anos de existência, o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! Apela aos poderes públicos para que seja dado andamento a estas iniciativas e se mantenha aberto ao diálogo relativamente a outras iniciativas que lhe sejam colocadas.


Passadas mais de três décadas após o derrube da Ditadura e a instauração da Democracia, urge adoptar medidas que tornem efectiva a preservação da memória da resistência e da liberdade conquistada pelo povo português em Abril de 74.

Lisboa, 5 de Outubro de 2007

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Comemoração dos 50 anos do I Congresso Republicano



6 de Outubro de 1957 - Congresso Republicano: Liberdade de Aveiro na ditadura




A 6 de Outubro de 1957 realizou-se, no Teatro Aveirense, em Aveiro, o I Congresso Republicano

No próximo sábado, no mesmo local de há meio século, rememora-se o histórico encontro.

"A realização do evento, em pleno salazarismo, com autorização concedida pelo então governador civil, Vale Guimarães, ainda hoje é vista como acontecimento surpreendente, que alguns dos documentos que vão estar em exposição no Teatro Aveirense, durante as comemorações, poderão ajudar a compreender.

Na evocação daquele que foi o primeiro dos congressos oposicionistas, sobressaem as figuras de Mário Sacramento e Vale Guimarães.

O primeiro, médico com afinidades conhecidas ao PCP, foi reconhecidamente o grande impulsionador da sua realização, ainda que tivesse deixado ao republicano histórico Manuel das Neves a presidência da comissão promotora, provavelmente por entender que essa era a opção mais acertada para tornar o encontro mais abrangente entre a oposição democrática.

O segundo, Vale Guimarães, colega de Liceu e amigo pessoal de Mário Sacramento, o que não deixará de contribuir também para a viabilização do Congresso, teve o mérito de conceder a autorização, que tanto surpreendeu situacionistas e oposicionistas."


Fonte: Lusa

O programa consta de uma sessão evocativa, na manhã do dia 06 e, à noite, um concerto pela Filarmonia das Beiras com Mário Laginha e Bernardo Sassetti.

No mesmo espaço vai estar patente uma exposição de material alusivo à época, com um espólio constituído por fotografias, manuscritos e recortes de imprensa.

A efeméride será ainda assinalada pela cedência pelo Estado ao Município da peça «Liberdade», de Vieira da Silva, que integra a colecção de arte contemporânea.