quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Sacuntala de Miranda - in memoriam

Morreu a historiadora Sacuntala de Miranda, pioneira do ensino da História Contemporânea em Portugal.

Nascida em Ponta Delgada, nos Açores em 1934, Sacuntala de Miranda formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa e a seguir viveu exilada, na Argélia e no Reino Unido, onde prosseguiu os estudos de História, só regressando a Portugal após à revolução de 25 de Abril de 1974.

Sacuntala de Miranda foi uma das pessoas que fundou o Departamento de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL, no final dos anos setenta, e foi professora do primeiro mestrado de História Contemporânea organizado em Portugal, em 1984.

Autora de O ciclo vicioso da dependência (1890-1939), Lisboa, Teorema, 1991 e, entre outros, Quando os sinos tocavam a rebate. Notícia dos alevantes de 1869 na Illha de S. Miguel.



O seu último livro intitula-se memórias de um peão nos combates pela liberdade, livro de memórias onde relata a sua luta contra a ditadura.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Tributo a João Abel Manta

Está a decorrer, neste mês, uma homenagem ao arquitecto, pintor, ilustrador e cartoonista João Abel Manta. A iniciativa é da responsabilidade da Humorgrafe (Osvaldo Macedo de Sousa) e do BDjornal (J. Machado-Dias / Clara Botelho) e visa reconhecer a sua obra artística. Para o efeito, a Humorgrafe e a BDjornal lançaram um concurso de caricaturas e ilustrações, dirigido a cartoonistas, banda-desenhistas e ilustradores, a incluir numa exposição e catálogo de tributo àquele que é considerado um dos grandes cartoonistas portugueses de sempre.
O prazo de entrega dos trabalhos termina no final deste mês, por ocasião dos 80 anos de Abel Manta, que se cumprem hoje mesmo.
A seguir à queda da ditadura do Estado Novo, Abel Manta editou um livro de caricaturas em que satiriza causticamente o salazarismo, intitulado Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar (vd. a recensão de João Paulo Cotrim, «Generais e marialvas»). Este livro tornou-se uma obra de referência, juntamente com os desenhos e ilustrações que fez durante o período revolucionário, alusivos ao MFA e às transformações políticas e sociais que então decorreram e onde transparecem as expectativas, avanços e recuos, ilusões e desilusões duma sociedade e do próprio autor.
Em conjunto, este trabalho é um fresco impressivo sobre dois períodos fundamentais na sociedade portuguesa do século XX.
A obra de Abel Manta, porém, não se esgota nestes dois marcos. Para um conhecimento mais aprofundado da sua obra e biografia pública aproveita-se para transcrever de seguida um texto de Osvaldo Macedo de Sousa.

«João Abel Manta – gráfica», de Osvaldo Macedo de Sousa
"João Abel é filho da pintora Maria Clementina Carneiro de Moura e do pintor Abel Manta, tendo nascido em Lisboa a 29 de Janeiro de 1928, quando a ditadura e o Estado Novo lançavam o seu manto sobre o país. Se na rua as vozes tinham que calar, em casa João teve uma infância e adolescência felizes, rodeado pela arte e pela curiosidade do saber. Os pais levaram-no sempre nas suas viagens pela Europa, visitando assim a Espanha, França, Itália, Países Baixos... registando na sua memória imagens inesquecíveis da Europa anterior à segunda Grande Guerra. Era uma Europa diferente, onde se recortam figuras, hoje míticas, da arte europeia, que ele viu nessas viagens.Desde criança, ele era uma pessoa interessada sobretudo e consequentemente apoiado por seus pais com uma educação plástica e intelectual cuidada, com uma visão global da cultura.Como já foi referido, a sua vida foi dominada pelas artes, seja no convívio quotidiano com o trabalho pictórico de seus pais, no conhecimento educacional das visitas familiares ao estrangeiro, como também pelos amigos que frequentavam a sua casa, ou as tertúlias dos cafés da Brasileira e do Chiado, onde o seu pai tinha assento privilegiado. As tertúlias, na altura, eram os verdadeiros centros culturais (e de liberdade) na troca de ideias, de experiências, de transmissão de dados adquiridos e de revelações ainda desconhecidas. Por vezes, essas conversas tinham que ser feitas à surdina, mas faziam-se.Num desenho de juventude, dos anos quarenta, João Abel retrata, em charge, uma das "bandas" de amigos que se costumavam reunir com o Abel Manta pai. O painel que nos é dado, é o seguinte: o maestro Fernando Lopes Graça dirige o grupo, composto por Abel Manta ao clarinete, Manuel Mendes ao saxofone, José Segurado na flauta, Francisco Keil do Amaral na tuba, Fernando Abranches Ferrão na viola, José Rocha no violoncelo, Albano Costa Lobo no sousafone, Dário Martins nos ferrinhos, Peres de Carvalho no bombo e Mário Novais Género Nadar a fotografar tudo isto. Claro que não é o retrato de um grupo musical, mas uma imagem simbólica da unidade harmónica destes intelectuais e artistas que, perante o ar tenebroso e afonia que dominavam o país político, encontravam na amizade e na troca de ideias a única porta de liberdade de pensamento. Eram as ilhas de sobrevivência possível, donde por vezes surgia a força de lançar uns arpões contra a ditadura.João Abel Manta desenvolveu-se nesse meio de arte, de gosto pela liberdade que não havia, de oposição ao regime. A oposição fazia-se por ideias, por atitudes, e nas artes, nessa década de quarenta, ainda dominada pelo modernismo pseudo-cosmopolita apadrinhado pelo Ferro, a oposição nascia também como neo-realismo ou surrealismo. Naturalmente, o jovem artista também comungou das mesmas influências de oposição estilística, e participou nas atitudes públicas, e nas Exposições Gerais de artes plásticas de S.N.B.A..Os anos quarenta/cinquenta, quando João Abel gastava os últimos anos de "teenager", foram de rebelião, do despertar de uma juventude aliada a velhos republicanos com exigências de democracia. Foram anos de intervenção política e cultural. João Abel lá estava no meio, irreverente e actuante, em actividades múltiplas de arte e cultura. Essa irreverência levá-lo-ia à prisão da PIDE a 1 de Fevereiro de 1958, onde ficou alguns meses. Enquanto estas actividades políticas e culturais se desenvolviam na vida do jovem que lutava contra a estagnação do país, que seria também a sua própria estagnação, o ciclo académico prosseguia, passando do Liceu para o curso de Arquitectura na E.S.B.A.L.. Fez o curso de 1946 a 1951, seguindo-se um estágio de dois anos num atelier de arquitectura, obtendo dessa forma o diploma em 1953. De imediato deu início à carreira profissional com projectos arquitectónicos e urbanísticos.A arquitectura foi durante largo tempo a sua profissão. Porém, a actividade cultural anteriormente descrita levá-lo-ia à intervenção social, através das armas que possuía, as artes plásticas, em que o desenho, o grafismo, é uma linguagem privilegiada para a comunicação fácil e directa com as massas. Foi nessa campo estético que se desenvolveu o contraponto à arquitectura.
O desenho é a chave mestra, tanto da arquitectura, como das artes gráficas, e esse elemento é a base forte da formação académica de João Abel Manta. Ele diz que sempre desenhou, já que os rabiscos são a expressão mais espontânea de qualquer criança, mas os primeiros trabalhos conhecidos datam do final da década de quarenta.
Nos anos cinquenta, o desenho ganha força de ilustração impressa, podendo-se descobrir esses trabalhos como ilustrador de Boccacio, Dante, Cervantes, D. Francisco Manuel de Melo, Padre António Vieira, E. Waugh, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Cardoso Pires... Também publica desenhos de humor no «Século Ilustrado». São os primeiros trabalhos, onde já se manifesta a versatilidade estilística do artista.
Influenciado pelo Modernismo, em resquícios da segunda geração que ainda dominava a arte em Portugal; enriquecido pelo espírito renascentista/humanista da sua educação cultural, numa apreensão total das correntes estéticas seculares; descobrindo as novas filosofias do pensamento artístico, que procuravam a resolução da ruptura no pós-guerra; inserindo-se no pensamento oposicionista ao regime... esta é a caracterização de João Abel Manta.
Para cada trabalho há uma linguagem mais adequada, um grafismo que se coaduna com o conteúdo e estilo literário da publicação, e ele sabe escolher. Por vezes, a esses elementos "pedidos" pela obra, aliam-se as experiências estéticas que o artista investiga no momento, fundindo-se elementos "arcaicos" com abstraccionismos, com a ironia surrealista, a colagem fotomontagem... O resultado é o mais variado, sem nunca cair no banal, no já visto, e pleno de notáveis matizes neo-românticos, renascentistas-barrocos, clássicos-modernistas, realistas-abstraccionistas...
Também como factor importante desta versatilidade, via educação académica, é a sua formação de arquitecto. Esta, como sugere a frase de Saul Steinberg ("Dottore in Architettura" pela Faculdade de Arquitectura de Milão, curso tirado antes de emigrar para os E.U.A. e aí revolucionar o mundo gráfico) que J.A.M. cita muitas vezes, «o estudo da arquitectura é um treino maravilhoso para tudo menos para a arquitectura. A ideia assustadora de que aquilo que se desenha se pode transformar num edifício faz com que a nossa maneira de desenhar se torne ponderada e racional».
Se se mantém a maleabilidade de traço ao longo de toda a sua carreira, existe também um respeito e influência por artistas como Goya, Rowlandson, Daumier, W. Buch, Forain, Gulbransson, Groz, Feliks Topolski, Saul Steinberg.
A década de sessenta, para J.A.M., é a continuidade de um trabalho, mais por imposição externa, um deixar-se levar pela onda do quotidiano, do que por verdadeira opção estética do artista. A par deste criar por instinto, há nestes anos a descoberta do gosto pelo mundo gráfico, que dará os seus frutos. Falaremos nisso mais tarde.
No âmbito daquela criação por encomenda, o artista trabalhava essencialmente na sua função futura e não pelo seu lado plástico. Construía algo que se destinava a um processo de reprodução em que o original é secundário e o impacto só é dado pelo resultado final, a reprodução integrada no meio para que se destina. São trabalhos que, por si só, retirados do seu contexto, perdem grande parte do seu valor.Essas obras foram aparecendo em revistas como o "Almanaque", "Seara Nova", "Eva", "Gazeta Musical e de todas as artes", ou em livros.
Folheando trabalho por trabalho, e procurando um estilo único de ilustração, somos surpreendidos pelas constantes opções gráficas, transformando-se em característica a ausência de uma linha de continuidade. Podem-se dar várias explicações, como já foi referenciado, porém um dos elementos fundamentais é o seguinte: como os trabalhos não se sucediam, numa ansiedade profissional de sobrevivência, o artista, quando partia para um trabalho, já não se recordava muito bem das soluções desenvolvidas no trabalho anterior, e lançava-se para o novo projecto totalmente liberto de "tiques", vícios, ou amarras estilísticas. Cada trabalho é uma criação que surge na continuidade da sua obra geral, arquitectónica e pictoral, e não
na simples evolução de uma linha gráfica. Claro que, no subconsciente, havia um registo de dados, de conquistas ganhas pela experiência, desenvolvendo-se numa progressão de maturidade, reflectida no reconhecimento público e na atribuição de Prémios significativos. Ganhou, em 1961, o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, e, em 1965, na cidade de Leipzig, conquistou a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas. Para além destes certames, esteve presente na II Bienal de São Paulo, em mostras internacionais Di Bianco e Nero em Lugano, assim como nas exposições internacionais de Tóquio e Medellin - Colômbia. Expôs também individualmente em Londres, no I.C.A.
".

Fica aqui também registado o convite formal e os contactos dos promotores do tributo:
"A Humorgrafe (Osvaldo Macedo de Sousa) e o BDjornal (J.Machado-Dias / Clara Botelho) sonharam com uma homenagem ao mestre João Abel Manta, como melhor forma de comemorar este aniversário, como melhor forma chamar a atenção para a obra genial do Mestre. O CNBDI da Amadora alia-se ao projecto oferecendo a sua sala de exposições. Esta poderá depois percorrer outros espaços. Mas, nós não somos artistas, apenas “idiotas” de iniciativas, razão pela qual necessitamos de outros cúmplices. Vocês caricaturistas, cartoonistas, banda-desenhistas, ilustradores estão interessados em colaborar nesta homenagem?Cada artista pode participar com uma ou duas obras (e forem bandas desenhadas não convinha que fossem muito grandes, uma, duas pranchas…) Se for uma obra digital pode ser enviada por e-mail (Jpeg, 300 dpis) para humorgrafe_oms@yahoo.com, se forem originais para Osvaldo Macedo de Sousa Av. Carolina Michaelis nº31-4ºA 2795-053 Linda-a-Velha. Naturalmente que no final todos os originais serão devolvidos com o respectivo catálogo. A data limite ideal seria 30 de Janeiro de 2008".

Nb: imagens de ilustrações do autor nos blogues Kuentro e Humorgrafe; sobre os prémios artísticos que ganhou vd. aqui.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Hoje há Sol Nascente em Vila Franca de Xira 1

Hoje, às 16 horas, será lançado o livro Sol Nascente: da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo, de Luís Crespo de Andrade, no anfiteatro do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. A obra, publicada pela editora Campo das Letras, será apresentada por Arquimedes da Silva Santos e João Madeira. O estudo e a edição do livro foram patrocinados pelo Montepio Geral.
Este quinzenário, publicado no Porto entre 30 de Janeiro de 1937 e 15 de Abril de 1940, foi encerrado pela censura salazarista, dado o seu carácter progressista. Nas suas páginas confrontaram-se presencistas e neo-realistas, pontificaram grandes artistas plásticos, abordou-se o tema tabu da sexualidade, contestou-se a pena de morte, falou-se de literatura, mas também de música, cinema e ciência (cf. Daniel Pires, Dicionário da Imprensa periódica portuguesa do século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, p. 340-345).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ivone Dias Lourenço - in memoriam


O texto que publico é da autoria de António Melo

Um abraço Ivone!

Ivone Dias Lourenço, essa extraordinária mulher, pequena de corpo mas grande nas convicções, na generosidade, na vivacidade de espírito e na sabedoria de vida , como a definiu Vítor Dias no seu blog O Tempo das Cerejas, foi hoje [25/1] a sepultar no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Morreu ao 69 anos, de uma doença cancerosa, depois de uma vida inteira dedicada à conquista da liberdade e à construção de um mundo solidário.

Filha de Dias Lourenço, um dos obreiros da reconstrução do PCP, companheiro indefectível de Álvaro Cunhal, e de Casimira Silva passou a infância sem a companhia dos pais que viviam na clandestinidade. A adolescência viveu-a na prisão de Caxias, onde entrou em Novembro de 1957, aos 20 anos, e de onde só saiu em Maio de 1964. Quase sete anos passados na cadeia no momento de maior deslumbramento da vida. Uma dor que ficou para sempre, mesmo se não a exteriorizava. No entanto, em entrevista que deu à jornalista São José Almeida (Público, 2004), deixou cair o queixume, mesmo se em ar de ironia: Foi um período muito importante o que estive presa. Por exemplo, quando saí, em 1964, nunca tinha ouvido os Beatles.

Senhora de uma cultura geral extensa, com interesses diversificados, comunicativa e jovial, sem nunca perder a noção do dever, Ivone foi jornalista no Avante! Sempre respeitadora da linha oficial da direcção, manifestava as discordâncias, quando as tinha, nas reuniões de célula. Em matéria de fidelidade partidária foi o que se designa por ortodoxa, mas a seu olhar sobre a vida ia muito além do estrito quadro político-partidário. Deixava-se encantar facilmente com a beleza e gostava de partilhar com os outros as alegrias e as tristezas – de conviver, em suma.

Há um ano, quando o NAM! quis celebrar o 8 de Março com testemunhos de mulheres da resistência, a Ivone deu o seu assentimento de princípio, mas deixou claro que seria pouco provável que a saúde lhe permitisse estar presente. Assim aconteceu. Ficou assente que ficaria para o ano seguinte. Estará connosco na nossa memória.

Um abraço Ivone!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Dia de Martin Kuther King

Celebra-se hoje, nos EUA, o Dia de Martin Luther King (como acontece todos os anos, na terceira 2ª feira de Janeiro).


A esse propósito, republico aqui um post antigo do meu blogue Entre as brumas da memória, onde se pode ler a descrição da proibição de uma homenagem a L.King, em Lisboa, em 4/5/1968.




Entre as Brumas da Memória..., pp.116-118:

«Em 4 de Abril, foi assassinado Martin Luther King – com o seu sonho, foi um pouco do nosso que morreu também. Em Roma, Paulo VI comparou este assassinato à paixão de Cristo (...).

Pastor da Igreja Baptista, Luther King tornou­­­‑se, desde muito novo, líder dos movimentos não violentos contra a discriminação dos negros americanos. Tinha apenas trinta e nove anos quando foi assassinado.

Em jeito de homenagem, foi preparada e agendada uma sessão a ser realizada em Lisboa, no dia 4 de Maio, exactamente um mês após a sua morte. O local escolhido foi a Igreja de Santa Isabel – com grande empenho, o prior cedeu o anfiteatro anexo à igreja para a realização da iniciativa. Duas frases encabeçavam a convocatória: "Traz contigo uma flor" e "Por cada flor estrangulada, há milhões de sementes a florir".

Deveria ser projectado o filme
Marcha em Washington, que mostra uma concentração, em 28 de Agosto de 1963, em que mais de 250.000 pessoas exigiram emprego e liberdade. Falaram actores como Marlon Brando e Sidney Poitier, cantores como Joan Baez e Mahalia Jackson. Esta última interpelou Luther King gritando: "Fala­‑lhes do teu sonho!". Pondo de parte um curto texto mais ou menos formal preparado para o efeito, Luther King fez então um longo discurso em torno de uma frase que viria a ficar célebre: "I have a dream today!" – sonho de uma América de liberdade e democracia, de todas as raças, de todas as cores e culturas.


[No fim deste texto, verá como pode aceder a um video sobre esta Marcha, com o discurso de MLK na íntegra.]

Na sessão em Lisboa, o filme seria seguido de um debate orientado por Lindley Cintra, Fátima Pereira Bastos, José Carlos Megre e Frank Pereira. Na véspera da data prevista, a PIDE comunicou ao Pe. Armindo Duarte, então prior da paróquia de Santa Isabel, que a sessão estava proibida. Interrogou­‑o sobre os objectivos da mesma e sobre os responsáveis pela sua organização. Dois dos intervenientes previstos – Lindley Cintra e José Carlos Megre – foram também chamados para interrogatórios. Uma das preocupações da polícia foi averiguar se era a Pragma que estava por trás da organização. Deve ter continuado convencida de que sim, apesar das respostas negativas dos interrogados, já que arquivou toda a documentação sobre esta sessão no Processo sobre aquela Cooperativa. Mas não era: ela resultara da iniciativa de um pequeno grupo de amigos que, de passagem por Paris três semanas antes, tinham assistido a uma sessão semelhante e que resolveram reproduzi­­­‑la em Lisboa. Os principais organizadores foram os irmãos Maria da Conceição e Manuel Moita, Maria Antónia Pacheco e Joaquim Osório de Castro.

À hora marcada, concentraram­‑se centenas de pessoas em frente da igreja de portas fechadas. Como em muitas outras ocasiões, tudo acabou com dispersão, à força, desta vez por agentes da polícia à paisana.

Foi depois elaborado, e amplamente distribuído, um folheto intitulado Porquê? com um breve relato dos acontecimentos. Terminava com uma citação do próprio Luther King:

"Não vos posso prometer que não vos batam,
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa,
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco.
Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo".»






Veja aqui o discurso de MLT na íntegra






domingo, 20 de janeiro de 2008

Directa

Directa de Nuno Bragança (1929-1985) é um romance que ficcionaliza a experiência do autor em ajudar pessoas a «dar o salto» para fora de Portugal, por razões políticas. O tema em afinidades com o Cinco Dias, Cinco Noites de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal, mas o ambiente e o estilo da narrativa são bem diferentes. O protagonista conhece tão bem os meandros da luta contra o regime como a vida nocturna de uma Lisboa em muitos aspectos já desaparecida. Em vez do estilo seco, preciso e sóbrio e das personagens desenhadas à luz do neo-realismo de Manuel Tiago, Nuno Bragança adopta um estilo que flui ao sabor de uma imaginação por vezes delirante, indo beber ao surrealismo, à literatura americana dos anos 40 e à poesia modernista.
O romance, publicado em 1977, documenta uma acção de resistência ao regime de uma personalidade vinda de um sector da oposição ao Estado Novo que não se quis constituir numa organização política formal e que, à falta de melhor, se chamou de «católico progressista». O percurso de Nuno Bragança foi o de uma radicalização, a partir dos anos 60, que o levou a colaborar em acções políticas arriscadas organizadas pela extrema-esquerda. Outros católicos progressistas colaboraram activamente na fuga do país de pessoas perseguidas pelo Estado Novo, como Nuno Teotónio Pereira e José Manuel Galvão Teles.
Excerto de Directa:
«”Agora amocha um bocado”, pensava ele soletrando o itinerário dos transvias. Mas tinha pressa em saber o que havia – o que de mau havia – e foi outra vez cruzar a área combinada. Viu o Henrique, viu que ele o tinha visto e seguiu de novo para o Terreiro do Paço. Caminhando sem olhar para trás, acelerava progressivamente e muito o passo, em direcção do Volkswagen.
Quando chegou ao pé do carro virou-se de chofre para trás, e viu o Henrique a poucos metros, andando à velocidade a que ele o obrigara: no espaço amplo do Terreiro ainda vazio de carros, mais ninguém caminhava depressa na mesma direcção. O homem abriu a porta do carro. Sentou-se lá dentro e abriu a outra porta.
O Henrique entrou.
“Bom dia”, disse o homem. Pôs o carro em marcha na direcção de Cabo Ruivo. O Henrique entregou-se ao lento ritual de abrir um maço de “Porto”, de bater minuciosamente o cigarro contra o vidro do relógio, de o acender.
“Então o que há?”, perguntou o homem.
“O Júlio”, disse o Henrique. “Contactou-me ontem. Há indicações inequívocas de que ele está em perigo”.
“Indicações inequívocas”, pensou o homem. “Isto é mas é o diálogo de um filme português”.
Foi guiando sem falar, mas o Henrique parecia pouco inclinado a confidências. “O que é que se passa?”, insistiu o homem. Pensou: “Vá lá, ó ostrazinha. Caga a pérola que está aqui o primo ourives”.
“O gajo mergulhou”, disse o Henrique. “Eu não dizia?”, pensou o homem.
“Mergulhou?”, disse o homem. “Que tal a água?”
“Está cheia de corrente. Temos de o tirar de lá antes que lhe preguem uma amona.”
“E pô-lo onde?”
“No Estrangeiro.”
“Esse pouco”, respondeu o homem. Santa Apolónia aparecia lá à frente, à esquerda. O homem olhou o edifício de Lisboa-terminus-Grandes-Linhas e pensou no Sud-Express. O carro foi acelerado bruscamente.
“Não me parece que haja outra hipótese”, disse o Henrique.
Um pouco mais adiante o homem guinou à direita e travou. Depois fez marcha atrás, uns cinquenta metros, e parou o carro e o motor. Estavam perto duma doca.
“Ó Henrique”, disse o homem. “O aparelho de saída é o último recurso. Quando funciona um aparelho de saída há muita coisa e muita gente posta em risco. Logo à noite há reunião. Você põe o problema e a gente discute.”
“Oiça”, disse o Henrique. “Tenha calma. O caso vai ser posto em reunião. Mas acho que é de adiantar trabalho.”
“Qual trabalho?”
“Casa e passaporte. A casa é urgente, o sítio onde ele está não é seguro.”
“Porque é que ele foi para lá?”
“Chiça, oiça. O gajo andava desconfiado, havia três noites que não dormia em casa. A Pide tinha andado a fazer indagações discretas no emprego, há lá uma Secretária do Director amiga dele que topou a coisa e avisou-o. Na noite de anteontem para ontem a Pide foi a casa dele, de madrugada.”»
BRAGANÇA, Nuno, Directa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1995, pp. 32-34.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

José Carlos Ary dos Santos - 7 de Dezembro de 1936/18 de Janeiro de 1984

























Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Debate - 18 de Janeiro de 1934


O Círculo de Estudos Sociais Libertários/TERRA VIVA!AES com o apoio do núcleo do Porto do Não Apaguem a Memória! realiza no próximo dia 18, às 21:00 horas, na Rua dos Caldeireiros,213 –Porto (à Cordoaria) , um debate sobre o 18 de Janeiro de 1934:

O que foi o"18 de Janeiro" de 1934? "Greve Geral Insurreccional"?..."Levantamento operário armado contra a ditadura"?... "Anarqueirada"?...

APAREÇA – INFORME-SE – NÃO DEIXE QUE NOS ESCONDAM A MEMÓRIA!

domingo, 13 de janeiro de 2008

A resistência antifascista: colheita de 2007

Acabou de sair na edição deste mês do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa um artigo de fundo sobre "A resistência antifascista: colheita de 2007", por Daniel Melo.
O artigo contém um dupla recensão crítica aos livros Memórias – um combate pela liberdade, de Edmundo Pedro (Lisboa, Âncora Editora) e A passagem: uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, de Manuela Câncio Reis (Lisboa, Editorial Caminho).
Apresenta ainda um breve balanço global dos livros publicados no ano passado sobre a resistência antifascista e a listagem das anteriores recensões críticas específicas, a saber:
CUNHAL, Álvaro, Obras escolhidas de Álvaro Cunhal – tomo I (1935-1947), Lisboa, Edições Avante! (por João Madeira, ed. de Fevereiro).
GALIZA, Rui Daniel, PINA, João, Por teu livro pensamento, Lisboa, Assírio e Alvim (por Daniel Melo, ed. de Novembro).
LOPES, Joana, Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses e a ditadura, Lisboa, Âmbar (por Daniel Melo, ed. de Novembro).
MADEIRA, João, PIMENTEL, Irene, FARINHA, Luís, Vítimas de Salazar. Estado Novo e violência política, Lisboa, Esfera dos Livros (por Daniel Melo, ed. de Outubro).
NUNES, Renato, Miguel Torga e a PIDE. A repressão e os escritores no Estado Novo, Coimbra, Minerva (por Daniel Melo, ed. de Setembro).
SEABRA, Zita, Foi assim, Lisboa, Alêtheia Editores (por João Leal, ed. de Novembro).
Nb: imagem de cartoon de João Abel Manta (retirada daqui).

sábado, 12 de janeiro de 2008

A memória pública da ditadura e da repressão

O artigo "A memória pública da ditadura e da repressão", de Irene Pimentel, foi recentemente disponibilizado no site do Le Monde diplomatique - edição portuguesa, como homenagem por ter recebido o Prémio Pessoa. Este artigo fora originalmente publicado na edição de Fevereiro de 2007 daquele jornal, no dossiê «Os silêncios da História», co-organizado por Daniel Melo e o qual contou ainda com os contributos de José Manuel Sobral e Sérgio Godinho (tal como foi aqui noticiado oportunamente).
O livro A história da PIDE, de Irene Pimentel, será recenseado no Diplô em próxima edição.
Nb: imagem de cartoon de João Abel Manta.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

14º Plenário do "Não Apaguem a Memória!"

Realiza-se no próximo dia 19 de Janeiro, às 15:00 horas, nas instalações da Associação 25 de Abril, em Lisboa, o próximo Plenário do NAM.

Recordamos a importância da realização deste Plenário na actual fase de discussão do processo de transformação do Não Apaguem a Memória! em Associação.

O processo tem o seguinte enquadramento temporal aprovado no último Plenário:

- Em 15 de Dezembro de2007, foram colocados na lista TODOS os projectos dos Estatutos e Regulamento Interno propostos pela Comissão Instaladora;
- Em 19 de Janeiro de 2008 será realizado o nosso Plenário (intercalar) integrado na nossa discussão colectiva;
- Até 15 de Fevereiro de 2008 será realizado o Plenário para votação dos Estatutos e Regulamento (interno e eleitoral), que inclui o calendário eleitoral;
- Até final de Março de 2008 serão realizadas as eleições.

A Ordem de Trabalhos do 14º Plenário é a seguinte:

1 - Informações;
2 - Análise e discussão dos projectos de Estatutos e Regulamento Interno;
3 - Marcação do Plenário de aprovação dos Estatutos e Regulamento Interno da Associação Cívica Não Apaguem a Memória! - NAM, com vista à realização das
eleições;

APELAMOS À PARTICIPAÇÃO, DISCUSSÃO E COLABORAÇÃO DE TODOS

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Balanço do inquérito (guia de fontes sobre a resistência-IV)

No passado dia 16 de Junho, demos conta neste blogue do projecto de um Guia de fontes para a História da resistência e da oposição à Ditadura Militar e ao Estado Novo, baseado em informação que seria fornecida pelos municípios do país.
Pretendeu-se levar a cabo uma iniciativa cívica de recolha e partilha de informação, que contribuísse para dar a conhecer, caracterizar e divulgar junto de toda a comunidade nacional o património documental referente àquela temática, o qual se encontra, por doação, compra ou qualquer outra forma de incorporação, à guarda dos municípios portugueses (seja nos respectivos arquivos, bibliotecas, centros de documentação, museus ou outros equipamentos).
Lançámos um inquérito às 309 câmaras municipais de Portugal, para apurar onde existiam colecções, espólios, fundos arquivísticos ou bibliotecas particulares de resistentes ou opositores (tanto indivíduos como organizações) à Ditadura Militar e ao Estado Novo. O pedido seguiu nesse mesmo dia, por correio electrónico.
Comprometemo-nos a tratar e disponibilizar na Internet, através do blogue e do site do Movimento, a informação recolhida.
Hoje vimos fazer o balanço desta iniciativa. Lamentavelmente, a taxa de respostas foi extremamente reduzida. Apenas recebemos respostas de 9 câmaras: 2 deram resposta positiva (Guimarães e Santiago do Cacém); 6 deram resposta negativa (Baião, Castro Verde, Fafe, Lagos, Tavira e Torres Novas); e uma acusou a recepção do inquérito (Seixal).
Agradecemos publicamente às Câmaras que responderam ao nosso pedido, reconhecendo a pertinência da iniciativa.
A esmagadora maioria dos municípios, no entanto, não manifestou interesse por esta iniciativa da sociedade civil, o que indicia um défice preocupante de comunicação entre o poder local e os movimentos de cidadãos.
A informação que nos chegou não é representativa do universo documental existente, pelo que com ela não será possível elaborar um guia de fontes. Ainda assim, achámos por bem fazer este balanço, até para servir como forma de sensibilização das entidades públicas para a necessidade de ser apoiada a recolha e divulgação de fontes sobre a resistência antifascista. Continuamos convictos de que a feitura deste tipo de guias serve igualmente como contributo inestimável para a salvaguarda da memória cívica e o exercício da pedagogia democrática.
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Imagem de gravura do artista plástico Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), que faz parte do espólio da Casa Museu Manuel Ribeiro de Pavia, localizada na sua aldeia natal, Pavia (Alentejo). O centenário do seu nascimento foi celebrado em 2007, por iniciativa do município local, Mora. Também o Blog da Rua Nove disponibiliza uma série de ilustrações que este artista realizou para livros e revistas culturais.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O Fundo Santos Simões (guia de fontes sobre a resistência-III)

No âmbito do inquérito que dirigimos aos municípos portugueses sobre a existência de colecções, espólios, fundos arquivísticos ou bibliotecas particulares de resistentes ou opositores à Ditadura Militar e ao Estado Novo, recebemos informação da Câmara Municipal de Guimarães relativa ao fundo Dr. Joaquim António dos Santos Simões.
No Arquivo Municipal Alfredo Pimenta encontra-se em fase de tratamento documental, e ainda inacessível ao público, o fundo Dr. Joaquim António dos Santos Simões, doado pelo próprio. São 21 metros lineares de documentação produzida e/ou acumulada por este resistente antifascista, entre 1927 e 1987.
"Joaquim António dos Santos Simões nasceu a 12 de Agosto de 1923 na vila de Espinhal, concelho de Penela, distrito de Coimbra. Entre 1944 e 1947, já como aluno da Universidade de Coimbra (UC), participou nas movimentações reivindicativas dos estudantes, dedicando-se ainda ao Teatro de Estudantes da UC, onde foi director, encenador e actor. No ano lectivo de 1950/51 acaba por ser eleito presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC) e conclui as suas licenciaturas em Ciências Matemáticas e Engenharia Geográfica. Já então se destacava por aquilo que alguns dos seus colaboradores mais próximos designam como um «profundo sentimento de justiça e intervenção social». Depois de leccionar no ensino particular, em 1957 transita para Guimarães onde se torna professor do ensino público na então Escola Industrial e Comercial de Guimarães.
É nesta cidade que Santos Simões começa a intensificar o seu trabalho ligado à cultura, vindo a iniciar, em 1963, uma actividade política organizada, militando na oposição democrática do distrito de Braga. Paralelamente, notabiliza-se como um dos fundadores do Cineclube de Guimarães e do Teatro de Ensaio Raul Brandão, ligado ao Círculo de Arte e Recreio, três instituições onde ocupou cargos e desempenhou um papel importante até à sua morte.
Em 1968 foi preso pela PIDE, vindo a ser expulso do ensino devido à sua militância contra o Estado Novo. Um ano mais tarde, participa no II Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro e é candidato da CDE por Braga, na campanha «eleitoral» para a Assembleia Nacional.
No pós-25 de Abril, é reintegrado no ensino oficial, regressando à Escola Industrial e Comercial de Guimarães. Na mesma altura, participa activamente na criação do Partido Movimento Democrático Português (MDP/CDE), integrando os órgãos directivos nacionais e sendo um dos responsáveis pelo partido no distrito de Braga e em Guimarães. Chega a ser indicado pelo MDP/CDE para os cargos de governador civil e de Ministro de Educação, mas foi rejeitado por António Spínola «por ser comunista», segundo descrevem as notas biográficas sobre a sua vida que o próprio deixou escritas.
Participou na criação de novas associações culturais em Guimarães, como a cooperativa editorial O Povo de Guimarães, a Cercigui, e em 1990 é eleito presidente da direcção da Sociedade Martins Sarmento. Faleceu a 23 de Junho de 2004
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" (História biográfica disponibilizada pelo Arquivo Municipal Alfredo Pimenta).
Âmbito e conteúdo deste fundo documental: actividade política nos períodos da Ditadura Militar e do Estado Novo, abarcando 47 anos de resistência (1927-1974); actividade no e do MDP/CDE (1974-1986); participação, como deputado municipal, durante dez anos (1976-1986), na Assembleia Municipal de Guimarães.
Condições de acesso: inacessível ao público (ainda em fase de tratamento).
Estado de conservação: bom.
Instrumentos de descrição: guias de remessas.
Contactos do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta
Endereço: Rua João Lopes Faria, n.º 12.
Tel.: 253 520910.
E-mail: arquivo.municipal@cm-guimaraes.pt
Horário de atendimento ao público: 9-12:30 / 14-17:30h

sábado, 22 de dezembro de 2007

Eu vi!

A Albertina Lemos enviou-nos este conto.


Eu vi crianças deitadas em modestos caixões. Eram pequeninas como eu era então. Condiscípulas da mesma escola estilo «Estado Novo», no topo da colina, a igrejinha ao pé. Sentavam-se ao fundo, ou à frente, de salas geladas, em secretárias duras como pedra, os tinteiros nos tampos, um pobre caderno em cima, os pezinhos frios, a cabeça a tombar com o sono, o frio, a fome. Eu via-as depois em féretros de pinho. Morriam com o sarampo, pneumonia, meningite, de qualquer coisa. Ia vê-las com os demais companheiros, e ficava absorto, sem compreender. O que era a morte? Não sabia.Não recordo o funeral do meu irmãozinho, de quatro anos, nem das brincadeiras comuns que ambos seguramente fazíamos. Guardo uma imagem vaga da minha mãe chorando silenciosamente, uma caminha, a dele, nela deitado, não me lembro. Apenas uma sentimento de injustiça e uma ideia nebulosa de justiça.

Vi o meu pai saindo porta fora, provavelmente com lágrimas nos olhos, disseram-me depois que estava preso muito longe, num forte com muros altos, castigado pelo comando da tropa, não soube porquê, mas senti uma profunda revolta, que foi a raiz, e a chama com que incendiei as minhas ideias.


Vi uma mulher, parecia jovem sob os farrapos, caída na rua, debaixo de um fardo de tábuas demasiado pesado para ela. Há quantas horas trabalhava nisso? que comera? Vi que ninguém a levantou, lhe deu a mão. Eu dei. E mais os vinte escudos que eram toda a minha fortuna.
Eu vi em terras africanas, longe da cidade, um grupo de homens brancos a tentar violar uns miúdos negros, fosse a gozar, fosse a sério, porque riam, gargalhavam, brutais, feios e porcos. E meteu-se em mim uma vontade de lhes bater, espancar, desfazer. Tirei o cinto mas não me atrevi. Era um miúdo. A chama que incendiava as minhas ideias ficou mais acesa.


Eu vi, passando na estrada, centenas, talvez milhares, de operários pedalando fracas bicicletas a caminho das fábricas, pedalando, pedalando, pela aurora, pelo crepusculo, com casacos mal talhados, de sarja pobre, sob a chuva, sob os ventos, com uma malga de caldo no estômago, talvez um bagaço. Ficou mais forte a minha chama. O que quer que fosse a justiça era assunto que me perseguia. Eu vi como muitos fugiam e os coelhos eram mais bravos.


Eu vi como a cobardia é coisa comum e a vergonha raramente a acompanha. Eu vi como um colega se torna delator, como um companheiro fura uma greve, como um estudante engraxa um mestre, como a traição se insinua como um réptil numa relação, como um homem ou mulher tem um preço, não porque trabalha, mas para que roube, engane, trepe mais uma tarimba, conquiste mais uns galões.


Eu vi um povo quase todo adormecido, estupidificado, silencioso, rude, maldoso, acobardado. Mas vi a valentia de camponeses do Alentejo, de operários de algumas fábricas. E a minha chama ficou a arder.


E vi-te. Um pedaço de céu a andar dançando abrindo as águas, uma onda suave e branda, um sopro de brisa numa manhã de Abril, um riso dando música a uma tarde morna de setembro.

Meu amor.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

"Sirius" de Manuel José Marques da Silva

A 18 de Dezembro de 1961, a Índia invadiu os territórios de administração portuguesa com vista à sua libertação.

As tropas portuguesas que lá se encontravam não receberam ordens claras sobre o que fazer. Entre eles encontrava-se Manuel José Marques da Silva, à época comandante da lancha Sirius.

No dia do ataque indiano, sem ter recebido quaisquer instruções do Comando Naval de Goa sobre como actuar em caso de ataque, e depois de ver o navio de guerra Afonso de Albuquerque encalhar, decidiu afundar a lancha.

Como mandam os manuais militares, nos dias seguintes conseguiu evitar fazer-se prisioneiro. Cumpriu as regras e recusou lutar até à morte, como pretendia Salazar.

A salvo com os seus homens, chegou ao Paquistão num cargueiro grego. De regresso a Lisboa, a sua atitude não foi bem recebida por um regime que defendia a resistência na Índia até ao último soldado.

Depois de um processo moroso e sem direito ao contraditório, acabou por ser expulso da Marinha.

Quarenta e seis anos após a invasão de Goa, Damão e Diu, foi lançado o livro Sirius - Índia, 18 de Dezembro de 1961 - Três Casos de Marinha.

Com prefácio de Maria Flor Pedroso, a obra revive a experiência de três militares no dia em que as forças indianas ocuparam os territórios. O comandante Marques da Silva recorda que, após receber ordem para afundar a lancha Sirius, viria a ser proscrito da História da Marinha.

Uma segunda parte é referente ao vice-almirante Fausto Morais de Brito, que deslocou uma outra lancha, a Antares, de Damão para o Paquistão.

Do capitão-tenente Vitor Marques Pedroso são reveladas as cartas no cativeiro em Pondá.

Um livro importante para a compreensão destes acontecimentos da nossa História recente.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Homenagem a Sottomayor Cardia

Liberdade sem Dogma, livro de homenagem a Mário Sottomayor Cardia (1941-2006) e organizado por Carlos Leone e Manuela Rêgo será hoje lançado na Fundação Mário Soares às 19 horas. Sottomayor Cardia destacou-se pela sua coragem física e intelectual. Interveio na sociedade portuguesa como um intelectual controverso, político e académico. Casou em 1964 com a escritora Luísa Ducla Soares. A sua experiência política como Ministro da Educação dos dois primeiros Governos Constitucionais, deputado da Assembleia Constituinte e deputado à Assembleia da República (1983 a 1991) é realizada como meio de levar à prática o seu pensamento político e pretexto para novas reflexões. O livro reúne testemunhos e estudos sobre esta personalidade multifacetada introduzidos por um texto de Carlos Leone, seu antigo aluno de Filosofia Social e Política na Universidade Nova de Lisboa. Dão testemunho do seu convívio com Cardia, Mário Cláudio, José de Vargas dos Santos Pecegueiro, Gastão Cruz, Vasco Vieira de Almeida, António Reis, L.A. Costa Dias, Jorge Miranda, Maria Emília Melo, Mário Soares, José Medeiros Ferreira e Cristina Lisboa. A secção Estudos contém textos de Daniel Melo, Miguel Real, Manuel Filipe Canaveira, José Castelo, João Miguel Almeida, José Leitão, António Braz Teixeira.
Num blogue como o Não Apaguem a Memória, destinado a preservar a memória da resistência e oposição ao Estado Novo, vale a pena esboçar um resumo do trajecto intelectual e político de Sottomayor Cardia durante o período da ditadura, a partir dos diferentes contributos do livro de homenagem.
Mário de Sottomayor Cardia já na adolescência se distingue pelas preocupações intelectuais e desejo de intervenção política, como recorda Mário Cláudio, seu colega de liceu. Em 1955 é expulso do liceu D. Manuel II por tomar posições contra a política colonial portuguesa. Três anos depois apoia a candidatura de Humberto Delgado a Presidente da República. Vem para Lisboa estudar Direito, na Universidade de Lisboa, mas troca este curso pelo de Filosofia. Destaca-se como dirigente estudantil, sendo, em 1961-62, presidente interino da comissão pró-associação académica da Faculdade de Letras. Com Alberto Teixeira Ribeiro, coordena as juntas de acção patriótica dos estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Intervém activamente na crise académica de 62. Em Maio participa na «greve de fome» na cantina da cidade universitária, sendo um dos mil estudantes presos por tal manifestação. Em Junho é expulso da Universidade de Lisboa por dois anos e meio. Por esta razão, conclui os estudos universitários em Coimbra.
Ainda em 1962, adere ao Partido Comunista Português. Nas eleições de 1965 participa, com José Medeiros Ferreira, nas lutas de unidade da Oposição Democrática as quais, em Lisboa, eram encabeçadas por Mário Soares. É um dos candidatos da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) em 1969. Quatro anos antes, o seu trabalho intelectual ganha maior projecção com a sua entrada como redactor para a Seara Nova. Cardia pretende dar nesta revista o seu contributo para encontrar soluções democráticas e socialistas aos problemas da sociedade portuguesa. A relevância do seu papel é reconhecida quando se torna, em 1968, chefe-de-redacção da revista, cargo que exercerá até 1974. António Reis declara no seu testemunho (p.50): «Cardia, não receio dizê-lo, foi a grande alma dessa “Seara”, tal como Raúl Proença o fora da primeira “Seara” dos anos vinte». Data também de 1968 o início do seu afastamento intelectual do PCP, devido a leituras dos acontecimentos da Primavera de Praga divergentes da do seu partido.
O grupo da Seara Nova possuía, além da revista, uma editora, que Sottomayor Cardia encara como uma oportunidade de divulgar e defender as suas ideias. No inicio da década de 70 publica dois volumes de antologia da revista, seleccionando escritos dos seareiros mais importantes durante a I República, obra à qual Manuel Filipe Canaveira dedica o seu estudo. Outros títulos publicados sob a chancela da Seara Nova são o Dilema da Política Portuguesa (1971) e Por uma Democracia Anticapitalista (1973), ambos apreendidos, e Sobre o Antimarxismo Contestatário (1972). Este último livro é escrito como resposta a um livro de António José Saraiva sobre o Maio de 68. Segundo Miguel Real (p, 105), que dedica um ensaio à controvérsia, «ambos os polemistas tinham militado no Partido Comunista Português e ambos tacteavam alternativas políticas e sociais tanto ao sistema político capitalista quanto ao sistema soviético». A heterodoxia marxista de Sottomayor Cardia afirma-se noutro texto de polémica com Pedro Ramos de Almeida, sob o pseudónimo de M.J.A. Teixeira.
Esta heterodoxia que o afastava do PCP leva-o a aderir ao PS aquando da fundação do partido, em 1973, juntamente com António Reis e Marcelo Curto. Mário Soares (p. 62) dá testemunho da importância desta adesão: «Constituiu isso uma considerável mais-valia para o Partido, uma vez que eles tinham então muita influência nos meios esquerdistas civis e militares, na juventude e nos sindicatos.» Por uma democracia anticapitalista é já um livro escrito na esfera ideológica do PS, que diagnostica os bloqueios do regime ditatorial, procurando as possíveis linhas de fractura que permitissem a instauração em Portugal de uma democracia socialista.
A heterodoxia de Cardia facilitava-lhe a discussão com os católicos das relações entre marxismo e cristianismo. José Leitão recorda, no seu texto, os debates sobre este tema promovidos pela Juventude Universitária Católica e onde participaram, juntamente com Sottomayor Cardia, o padre Manuel Antunes e o padre João Resina.
A par da sua actividade partidária, Sottomayor Cardia, intervém, como mostra Daniel Melo no seu estudo, em cooperativas que criticam a situação e buscam alternativas ao regime: a Pragma, a Devir, a Estudos de Documentação; em associações como a Sociedade Portuguesa de Autores e o Centro Nacional de Cultura; em organizações cívicas como a Comissão Promotora de Voto (delegação de Lisboa, 1969), a Comissão nacional de Defesa da Liberdade de Expressão (1971/72), a Comissão Coordenadora do III Congresso de Aveiro (1973), a Comissão de Luta pelas Liberdades Políticas (1973), a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem. Ou seja, Cardia era um homem que procurava intervir plenamente na busca de respostas aos problemas do seu tempo, sem abdicar de, pela reflexão, procurar ver além das circunstâncias e de alargar horizontes mentais.
Nota: todas as citações referem-se a LEONE, Carlos; RÊGO, Manuela, Liberdade sem Dogma. Testemunhos e Estudos sobre Sottomayor Cardia, Lisboa, Tinta-da-China, 2007.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Prémio Pessoa para Irene Pimentel


A nossa companheira Irene Pimentel ganhou o Prémio Pessoa de 2007.

Irene Pimentel é, de acordo com o comunicado do júri, uma das figuras mais notáveis da actual historiografia portuguesa.

Com recentes trabalhos publicados em 2007 sobre a história da PIDE, a Mocidade Portuguesa Feminina, os judeus em Portugal e a história das organizações femininas do Estado Novo, Irene Pimentel estuda temas difíceis e polémicos.

Os seus livros, afirma o júri, nunca negam adesão à causa das liberdades e dos direitos humanos, num esforço de rigor intelectual e objectividade académica.

Parabéns Irene!!

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

domingo, 9 de dezembro de 2007

Lançamento do Livro "Mocidade Portuguesa Feminina"




O Livro de Irene Pimentel Mocidade Portuguesa Feminina é lançado no próximo dia 12, às 19:00 horas no Salão Nobre da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa (Rua Rodrigo da Fonseca, 115).

A editora Esfera dos Livros apresenta assim o livro:

Em 1937, a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) nascia com o objectivo de criar a nova mulher portuguesa: boa esposa, boa mãe, boa doméstica, boa cristã, boa cidadã sempre pronta a contribuir para o Bem comum, mas sempre longe da intervenção política deixada aos homens. A historiadora Irene Flunser Pimentel traça-nos a história deste movimento, obrigatório para mulheres dos sete aos catorze anos, através do Boletim do MPF e mais tarde da revista Menina e Moça, veículos de transmissão dos valores e comportamentos ditados pelo regime salazarista. Ao folhearmos estas páginas, deparamo-nos com raparigas fardadas de bandeira em punho, lições de lavores e trabalhos manuais ou outros afazeres da vida doméstica, indicações sobre o fato de banho oficial com decote pouco generoso e saia não muito curta, lemos textos sobre a atitude a ter em casa com o marido, conselhos sobre livros fundamentais e outros proibidos aos olhos destas jovens e aprendemos as virtudes dos grandes heróis nacionais como D. Filipa de Lencastre ou o Santo Condestável.

O livro será apresentado por Maria de Belém Roseira.