domingo, 2 de março de 2008

8 de Março - Dia da Mulher 1

A jornada do 8 de Março à Margem Sul fica adiada

Há um ano foi a hospitalidade de Coruche e a surpresa das mulheres do Couço. Foi o prazer de escutar a Paula Godinho contar-nos as histórias heróicas da resistência feminina em meio rural, das redes de solidariedade e entreajuda que nos momentos mais difíceis ali se organizaram. Foi a recepção em Coruche, com o inesquecível acolhimento por parte do presidente da autarquia, Dr. Dionísio Mendes da Silva, e a visita à exposição sobre Zeca Afonso, no Museu concelhio.

Este ano a proposta é para uma jornada de convívio com as mulheres da resistência na Margem Sul. Vamos recordar as vidas dessas mulheres durante as greves de 1943, nas lutas eleitorais autorizadas durante um mês pelo Estado Novo, seguidas de prisões e repressão nos lugares de trabalho.

Vem a propósito citar Sónia Ferreira, uma das oradoras no colóquio e guia na visita à Cova da Piedade: «As mulheres são das principais protagonistas públicas das greves de 43. Elas incitam à adesão, encabeçam marchas de fome, assaltam locais para a apropriação de géneros e redistribuem-nos, atiram pedras, partem vidros, cortam fios telefónicos, assaltam comboios, gritam, insultam, barafustam, pedem e exigem, de forma clara, directa, pública e frontal».

Por isso, foram ameaçadas através de uma Nota da Repartição do Gabinete do Ministério da Guerra (exactamente, a repressão da greve foi uma acção militar comandada pelo major Jorge Botelho Moniz) de que quem abandonasse o trabalho seria incorporado «num batalhão de trabalhadores, subordinado à mais severa disciplina militar (…) independentemente do sexo».
Vamos ver os locais simbólicos onde os confrontos com os esbirros do fascismo foram mais fortes.
Vamos recolher os testemunhos das mulheres e dos homens que não viraram a cara à luta.

Vamos testemunhar, com a nossa presença, que não esquecemos.

Programa:

A resistência feminina em meio operário (8 de Março)

Reunião na Praça de Espanha [junto do Teatro da Comuna]

9h – Concentração

9h30 – Partida para o Jardim da Piedade (Cova da Piedade)

10h às 11h – Visita guiada aos lugares simbólicos e convívio com as antigas operárias

11h30 – Paragem no Seixal, com evocação do que foi o trabalho árduo e brutal na fábrica de cortiça da Mundet, feita por Edmundo Pedro e por uma trabalhadora

13h – Almoço no Seixal

15h – Chegada ao Barreiro e visita guiada

15h30 – Colóquio (a realizar na Sociedade De instrução e recreio barreirense “Os penicheiros”)

Abertura a cargo de Nuno Teotónio Pereira e do nosso anfitrião

Início das intervenções:

1. Sónia Ferreira resume a visita guiada à Margem Sul durante a manhã

2. Júlia Leitão de Barros – contextualização histórica e a propaganda do regime ditatorial

3. as mulheres do Barreiro – projecção de excertos da entrevista com Pepita, a viúva de Manuel Firmo, dirigente anarco-sindicalista

4. Projecção do documentário da CMB sobre o movimento grevista de 1943

18h – Debate e encerramento do colóquio

19h – Regresso a Lisboa


custo total – 25 euros

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

"Sol Nascente: da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo"


Já aqui falámos deste livro.
Agora, Luis Crespo de Andrade e Paulo Sucena vão apresentá-lo no dia 28, às 18:30 horas, na Livraria Círculo das Letras.
Apareça!

in memoriam - Joaquim Pinto de Andrade (1926/2008)

Ontem, ao fim do dia telefonaram-me: "Morreu o Joaquim." Morreu Joaquim Pinto de Andrade. No meio da crónica. Da sua crónica. Vão dizer: ele era angolano. E era-o. Ninguém conheci, dos pais da nacionalidade angolana, que pudesse dizer o mesmo que ele: não feri o meu país. Ele foi a coragem serena que lhe valeu prisões durante a Angola colonial, ele foi a fraternidade angolana quando o país se dilacerou em guerras civis, ele foi a honestidade quando Angola se ofuscou de falsa riqueza. Ele foi o angolano perfeito em tempos terríveis. E eu sei porquê: ele era um meteco. Um cidadão do mundo.

Eu era um adolescente e o Joaquim Pinto de Andrade era um padre exilado, colocado sob vigilância em Vila Nova de Gaia. No Verão, o pobre diabo da PIDE, de fato escuro, seguia-nos até aos areais da praia e tentava ouvir-nos as conversas. O Joaquim falava de Camilo ou de Ramalho, dos "portugueses de língua tersa", que ele aprendera quando era menino em Ambaca. O português PIDE perceberia a admiração daquele "terrorista" (então, presidente de honra do MPLA) por escritores portugueses? O Joaquim falava de Roma, onde estudara, e encarreirava-me para escritores de liberdade: Ignazio Silone, Italo Calvino. Falava-me de Paris, onde estivera no primeiro congresso de escritores e artistas africanos (com o seu irmão Mário) e metia, no meio da conversa, a necessidade de ouvir Brel.

Há quase 40 anos, em Setembro de 1969, eu saí de Portugal com uma carta de Joaquim Pinto de Andrade no bolso. Isso, escondido. Nos olhos eu levava a vontade de ver que o homem a quem mais devo me emprestou.


Texto do jornalista Ferreira Fernandes do Diário de Notícias

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Autor italiano publica banda desenhada sobre a sede da PIDE


Acaba de ser editada em Itália, pela editora BeccoGiallo, uma banda desenhada cuja história roda à volta de um lugar tristemente famoso de Lisboa, a ex-sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso em Lisboa, revelou ao JN o seu autor, o italiano Giorgio Fratini.

Nascido a 23 de Novembro de 1976, é arquitecto, licenciado pela Faculdade de Arquitectura de Florença e esteve em Portugal pela primeira vez em 2000, para estudar Arquitectura ao abrigo do programa Erasmus.

A Lisboa voltou várias vezes e dessas estadias nasceu Sonno elefante - I muri hano orecchie, cujo título, diz, é uma metáfora sobre a perda da memória de um lugar, de um pedaço da história. Algo como o sono da memória, acrescenta Fratini, cujo traço a preto e branco, matizado de cinzentos, em que se destaca o tratamento realista dado aos edifícios, que contrasta com o tom semicaricatural das personagens, e a agradável e multifacetada composição das páginas, não deixam adivinhar tratar-se da sua primeira obra.

O ponto de partida para a história foi a descoberta de que a antiga sede da PIDE iria ser remodelada, dando lugar a um conjunto de apartamentos de luxo e lojas. Nada de especial, a acreditar nas palavras de uma personagem, logo nas primeiras páginas do livro E então? Um dia, há uma coisa, depois outra; é normal, não é?

A história, resume o autor, está ambientada poucos anos antes da Revolução dos Cravos e segue os destinos de Zé, Marisa, Leon, Maria e Afonso, ligados àquele palácio nefasto, como aconteceu a milhares de cidadãos portugueses comuns.
Entre eles há quem se oponha, quem traia, quem colabore, quem se anule e quem morra. E um deles, muitos anos depois, volta àquele lugar trazendo consigo o que considera impossível cancelar a própria história. E recorda o terrível passado do edifício, as crueldades que tiveram lugar dentro daquelas paredes, os gritos e lágrimas sufocados naqueles quartos, lutando, à sua maneira, contra a destruição da memória de todas as vidas ali perdidas na luta pela liberdade, conclui o editor, Federico Zaghis.

Uma história narrada ao longo de pouco mais de uma centena de pranchas, inspirada parcialmente em factos reais, trabalhados pela minha imaginação, para a qual Giorgio Fratini, para além da Internet, teve de fazer pesquisas no Arquivo da PIDE, na Torre do Tombo, e no Centro de Documentação 25 Abril da Universidade de Coimbra, bem como no arquivo fotográfico em linha da Câmara Municipal de Lisboa, fundamental para a iconografia dos anos 70 em que decorre boa parte de Sonno elefante, para já sem edição prevista no nosso país, embora haja alguns contactos com editoras portuguesas, revela o autor.
Fonte: Jornal de Notícias

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Homenagem a Alexandre Castanheira


Alexandre Castanheira nasceu em 1928. Licenciou-se em Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa e em Literatura Moderna na Universidade de Paris VIII. Perseguido pela PIDE, devido às suas actividades políticas, partiu para o exílio em França, onde casou com Madeleine Nennig, uma jovem comunista francesa que o acompanhou na clandestinidade. Ao longo da sua vida esteve sempre ligado ao Partido Comunista Português. Exerceu as funções de deputado municipal em Almada e de presidente da Assembleia da Freguesia do Laranjeiro. Actualmente é professor efectivo do Instituto Piaget e elemento activo do movimento associativo popular, exercendo cargos nos corpos sociais de várias colectividades.



Tempo Meu, livro de poemas de Alexandre Castanheira, vai ser lançado no próximo dia 28 no Salão da Incrível Almadense às 21:30 h, dia em que o poeta faz 80 anos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

15º Plenário do Movimento/Assembleia Constitutiva da Associação

Vimos por este meio recordar que o próximo Plenário está marcado para as 15.00H do dia 23 de Fevereiro de 2008 (Sábado), na Associação 25 de Abril, em Lisboa.

Com base nos contributos recebidos, seja pela Lista TODOS, seja por ocasião do Plenário intercalar ocorrido a 19 de Janeiro passado, a Comissão Promotora elaborou as versões dos projectos de estatutos e de regulamento geral que serão divulgados na Lista TODOS e que serão propostos para aprovação pela Assembleia Geral Constitutiva.

Uma vez aprovados estes projectos, o acto eleitoral para a constituição dos corpos sociais da futura associação deverá ocorrer até 31 de Março de 2008.

Alertamos para a possibilidade dos projectos de estatutos e de regulamento geral poderem ser objecto de propostas de alteração pela Lista TODOS e por ocasião da realização desta Assembleia Geral Constitutiva desde que apresentadas por escrito à Mesa da referida Assembleia.


Ordem de Trabalhos:

1. Aprovação, pelo Plenário, da Acta do 14º Plenário;
2. Assembleia Constitutiva
2.1 -Ponto prévio: aprovação da Mesa;
2.2-Informações da Comissão Promotora do processo de trabalho realizado até à data;
2.3- Apresentação, discussão e aprovação dos Estatutos;
2.4- Apresentação, discussão e aprovação do Regulamento Geral;
2.5- Eleição da Comissão Instaladora responsável pela realização de todos os actos legais até à escritura notarial, inclusivé.

APELAMOS À PARTICIPAÇÃO, DISCUSSÃO E COLABORAÇÃO DE TODOS

23 de Fevereiro de 2008 (Sábado), pelas 15.00h, na Associação 25 de Abril

A mesa do Plenário
18.02.08

Podem consultar aqui os documentos em discussão:

Estatutos
Regulamento Geral

sábado, 16 de fevereiro de 2008

José Afonso - "O canto de Intervenção no Mundo e em Portugal"


José Afonso morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

O núcleo do Norte da Associação José Afonso e o Clube Literário do Porto organizam o espectáculo O canto de Intervenção no Mundo e em Portugal que se realizará dia 23 de Fevereiro, pelas 21h 30m, nas instalações do Clube Literário do Porto.

Aristides de Sousa Mendes


Já está online o Museu Virtual Aristides de Sousa Mendes

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Professor Mário Augusto da Silva, fundador do Museu Nacional da Ciência e da Técnica

(Foto de Eduardo Gageiro)
Texto enviado por João Paulo Nobre (Coimbra)

Mário Augusto da Silva (1901-1977), como homem de Ciência, viu a sua carreira de docente e de investigador ser-lhe negada muito cedo. Preso e expulso da Universidade (1947), foi uma referência para várias gerações coimbrãs, na luta pelos ideais da democracia e na resistência contra o regime do Estado Novo.

Esquecido pelos da sua geração, ignorado pelas gerações mais jovens, a sua vida é uma referência cultural ímpar e um exemplo, pela defesa dos valores da liberdade, da democracia, mas, sobretudo, pelo conhecimento, pela Ciência, pura e aplicada...

Impedido de prosseguir no Instituto do Rádio de Paris (1925-1930), onde foi assistente de Madame Curie, após o seu doutoramento em 1929, regressou a Coimbra, onde, apesar de tudo, vítima de uma perseguição mesquinha e inexplicável que impediu a realização de obras que teriam mudado, desde logo, o rumo da investigação e do ensino e da Física em Portugal, fundou o Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), iniciativa que, não sendo inédita na nossa História, foi a primeira do género no Portugal do Século XX.

Museu Nacional que entrou em agonia em 1977, após a morte do seu fundador.

Museu Nacional que foi abandonado por todos. O Estado Português e, principalmente, Coimbra, a sua Câmara e a sua Universidade, viraram-lhe sempre as costas.

Museu Nacional que, para o diminuirem e fecharem posteriormente, em 2002, lhe chamaram, desrespeitosamente, de Doutor Mário Silva. Até se esqueceram, ou talvez não, que Mário Silva foi Professor Catedrático de Física.

Museu Nacional que, em forma de homenagem, precisamente em 2005, no ANO INTERNACIONAL DA FÍSICA, foi enterrado por Decreto-Lei.

Museu Nacional que possui um rico e variado espólio. Que será feito dele?

Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT) ou Museu da Vergonha Nacional?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Ias Jornadas Hispano-Portuguesas "Memória e Resistência" - 16 e 17 de Fevereiro de 2008


Durante séculos, Espanha e Portugal viveram ignorando-se em cada lado da fronteira. Os interesses dos poderosos dividiram artificialmente os dois povos irmãos que compartilham uma cultura e sentimentos comuns.

Contudo, as ditaduras que os dois países sofreram provocaram uma corrente de solidariedade entre eles. Espanhóis e portugueses ajudaram-se mutuamente na luta contra as tiranias fascistas de Franco e Salazar e não foram poucos os opositores dos respectivos regimes que encontraram refúgio no outro lado da fronteira. Foi o caso de João Gonçalves Carrasco, da aldeia alentejana de Santana de Cambas que, apesar da sua extrema pobreza, socorreu muitos espanhóis que fugiam da repressão franquista. Ou o de Juan Rosa, de El Almendro, em Huelva, que acolheu refugiados portugueses que lutavam contra o regime salazarista.

Para honrar a memória destes homens e de todos os que sofreram nas duas ditaduras, o Foro por la Memoria de Huelva e a Cooperativa Cultural Alentejana organizam estas Ias Jornadas Hispano-portuguesas "Memória e Resistência".

Programa

Sábado, dia 16 de Fevereiro de 2008

10h00 – Abertura: Fernanda Moral (Federación Foros Por La Memoria), Francisco Santos (Presidente da Câmara Municipal de Beja), Félix Ramos (Pres. Foros Por La Memoria), Álvaro Nobre (Presidente da Cooperativa Cultural Alentejana)

10h30m – Os Fascismos em Portugal e Espanha e Sua Herança: Miguel Urbano Rodrigues (escritor)

12h00 – O Norte de África no Início da Guerra Civil em Espanha: Francisco Sánchez Montoya (Premio Nacional Manuel Azaña de Investigación Historica)

15h30m – Apresentação da Exposição "A II República, Esperança de um Povo": Santiago Vega (Presidente Foro Por La Memoria de Segóvia)

16h30m – Projecção do Documentário "Os Cinco de Celorio", sobre exumação em valas comuns

17h30m – Debate: A Memória Histórica em Espanha e Portugal e a Luta Contra a Impunidade dos Crimes Franquistas: Miguel Muga (Presidente do Foro Por La Memoria Madrid), José Baguinho (Cooperativa Cultural Alentejana), Carlos Federico Castellanos (Foro Por La Memoria Andalucía), João Honrado (publicista)

23h00 – Bar Cais na Planície (Parque da Cidade de Beja) – Espectáculo Músicas de Abril, com Filipe Narciso (entrada livre)

Domingo, dia 17 de Fevereiro de 2008

10h30m – A Repressão dos Vencedores. Os Batalhões de Trabalhadores (1939-1945): José Manuel Algarbani (licenciado em História Contemporânea, professor da Universidade de Cádiz)

12h00 – Participação de Portugueses na Guerra Civil de Espanha: João Varela Gomes (coronel reformado)

13h30m – Em Baleizão: Homenagem às Mulheres e Homens Assassinados pela Defesa da II República Espanhola e da Liberdade em Portugal

Após o almoço (hora a combinar) - Em Santana de Cambas: Homenagem às Mulheres e Homens Assassinados pela Defesa da II República Espanhola e da Liberdade em Portugal

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

3 de Fevereiro de 1927

Foto "tirada" do Terra Viva

A 3 de Fevereiro de 1927, no Porto, verificou-se o primeiro levantamento armado popular e militar contra a ditadura do Estado Novo.

Para comemorar esta data, o Terra Viva organiza um conjunto de iniciativas que contam com o apoio do núcleo do Porto do Não Apaguem a Memória!.

Veja aqui o programa e participe.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Sacuntala de Miranda - in memoriam

Morreu a historiadora Sacuntala de Miranda, pioneira do ensino da História Contemporânea em Portugal.

Nascida em Ponta Delgada, nos Açores em 1934, Sacuntala de Miranda formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa e a seguir viveu exilada, na Argélia e no Reino Unido, onde prosseguiu os estudos de História, só regressando a Portugal após à revolução de 25 de Abril de 1974.

Sacuntala de Miranda foi uma das pessoas que fundou o Departamento de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL, no final dos anos setenta, e foi professora do primeiro mestrado de História Contemporânea organizado em Portugal, em 1984.

Autora de O ciclo vicioso da dependência (1890-1939), Lisboa, Teorema, 1991 e, entre outros, Quando os sinos tocavam a rebate. Notícia dos alevantes de 1869 na Illha de S. Miguel.



O seu último livro intitula-se memórias de um peão nos combates pela liberdade, livro de memórias onde relata a sua luta contra a ditadura.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Tributo a João Abel Manta

Está a decorrer, neste mês, uma homenagem ao arquitecto, pintor, ilustrador e cartoonista João Abel Manta. A iniciativa é da responsabilidade da Humorgrafe (Osvaldo Macedo de Sousa) e do BDjornal (J. Machado-Dias / Clara Botelho) e visa reconhecer a sua obra artística. Para o efeito, a Humorgrafe e a BDjornal lançaram um concurso de caricaturas e ilustrações, dirigido a cartoonistas, banda-desenhistas e ilustradores, a incluir numa exposição e catálogo de tributo àquele que é considerado um dos grandes cartoonistas portugueses de sempre.
O prazo de entrega dos trabalhos termina no final deste mês, por ocasião dos 80 anos de Abel Manta, que se cumprem hoje mesmo.
A seguir à queda da ditadura do Estado Novo, Abel Manta editou um livro de caricaturas em que satiriza causticamente o salazarismo, intitulado Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar (vd. a recensão de João Paulo Cotrim, «Generais e marialvas»). Este livro tornou-se uma obra de referência, juntamente com os desenhos e ilustrações que fez durante o período revolucionário, alusivos ao MFA e às transformações políticas e sociais que então decorreram e onde transparecem as expectativas, avanços e recuos, ilusões e desilusões duma sociedade e do próprio autor.
Em conjunto, este trabalho é um fresco impressivo sobre dois períodos fundamentais na sociedade portuguesa do século XX.
A obra de Abel Manta, porém, não se esgota nestes dois marcos. Para um conhecimento mais aprofundado da sua obra e biografia pública aproveita-se para transcrever de seguida um texto de Osvaldo Macedo de Sousa.

«João Abel Manta – gráfica», de Osvaldo Macedo de Sousa
"João Abel é filho da pintora Maria Clementina Carneiro de Moura e do pintor Abel Manta, tendo nascido em Lisboa a 29 de Janeiro de 1928, quando a ditadura e o Estado Novo lançavam o seu manto sobre o país. Se na rua as vozes tinham que calar, em casa João teve uma infância e adolescência felizes, rodeado pela arte e pela curiosidade do saber. Os pais levaram-no sempre nas suas viagens pela Europa, visitando assim a Espanha, França, Itália, Países Baixos... registando na sua memória imagens inesquecíveis da Europa anterior à segunda Grande Guerra. Era uma Europa diferente, onde se recortam figuras, hoje míticas, da arte europeia, que ele viu nessas viagens.Desde criança, ele era uma pessoa interessada sobretudo e consequentemente apoiado por seus pais com uma educação plástica e intelectual cuidada, com uma visão global da cultura.Como já foi referido, a sua vida foi dominada pelas artes, seja no convívio quotidiano com o trabalho pictórico de seus pais, no conhecimento educacional das visitas familiares ao estrangeiro, como também pelos amigos que frequentavam a sua casa, ou as tertúlias dos cafés da Brasileira e do Chiado, onde o seu pai tinha assento privilegiado. As tertúlias, na altura, eram os verdadeiros centros culturais (e de liberdade) na troca de ideias, de experiências, de transmissão de dados adquiridos e de revelações ainda desconhecidas. Por vezes, essas conversas tinham que ser feitas à surdina, mas faziam-se.Num desenho de juventude, dos anos quarenta, João Abel retrata, em charge, uma das "bandas" de amigos que se costumavam reunir com o Abel Manta pai. O painel que nos é dado, é o seguinte: o maestro Fernando Lopes Graça dirige o grupo, composto por Abel Manta ao clarinete, Manuel Mendes ao saxofone, José Segurado na flauta, Francisco Keil do Amaral na tuba, Fernando Abranches Ferrão na viola, José Rocha no violoncelo, Albano Costa Lobo no sousafone, Dário Martins nos ferrinhos, Peres de Carvalho no bombo e Mário Novais Género Nadar a fotografar tudo isto. Claro que não é o retrato de um grupo musical, mas uma imagem simbólica da unidade harmónica destes intelectuais e artistas que, perante o ar tenebroso e afonia que dominavam o país político, encontravam na amizade e na troca de ideias a única porta de liberdade de pensamento. Eram as ilhas de sobrevivência possível, donde por vezes surgia a força de lançar uns arpões contra a ditadura.João Abel Manta desenvolveu-se nesse meio de arte, de gosto pela liberdade que não havia, de oposição ao regime. A oposição fazia-se por ideias, por atitudes, e nas artes, nessa década de quarenta, ainda dominada pelo modernismo pseudo-cosmopolita apadrinhado pelo Ferro, a oposição nascia também como neo-realismo ou surrealismo. Naturalmente, o jovem artista também comungou das mesmas influências de oposição estilística, e participou nas atitudes públicas, e nas Exposições Gerais de artes plásticas de S.N.B.A..Os anos quarenta/cinquenta, quando João Abel gastava os últimos anos de "teenager", foram de rebelião, do despertar de uma juventude aliada a velhos republicanos com exigências de democracia. Foram anos de intervenção política e cultural. João Abel lá estava no meio, irreverente e actuante, em actividades múltiplas de arte e cultura. Essa irreverência levá-lo-ia à prisão da PIDE a 1 de Fevereiro de 1958, onde ficou alguns meses. Enquanto estas actividades políticas e culturais se desenvolviam na vida do jovem que lutava contra a estagnação do país, que seria também a sua própria estagnação, o ciclo académico prosseguia, passando do Liceu para o curso de Arquitectura na E.S.B.A.L.. Fez o curso de 1946 a 1951, seguindo-se um estágio de dois anos num atelier de arquitectura, obtendo dessa forma o diploma em 1953. De imediato deu início à carreira profissional com projectos arquitectónicos e urbanísticos.A arquitectura foi durante largo tempo a sua profissão. Porém, a actividade cultural anteriormente descrita levá-lo-ia à intervenção social, através das armas que possuía, as artes plásticas, em que o desenho, o grafismo, é uma linguagem privilegiada para a comunicação fácil e directa com as massas. Foi nessa campo estético que se desenvolveu o contraponto à arquitectura.
O desenho é a chave mestra, tanto da arquitectura, como das artes gráficas, e esse elemento é a base forte da formação académica de João Abel Manta. Ele diz que sempre desenhou, já que os rabiscos são a expressão mais espontânea de qualquer criança, mas os primeiros trabalhos conhecidos datam do final da década de quarenta.
Nos anos cinquenta, o desenho ganha força de ilustração impressa, podendo-se descobrir esses trabalhos como ilustrador de Boccacio, Dante, Cervantes, D. Francisco Manuel de Melo, Padre António Vieira, E. Waugh, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Cardoso Pires... Também publica desenhos de humor no «Século Ilustrado». São os primeiros trabalhos, onde já se manifesta a versatilidade estilística do artista.
Influenciado pelo Modernismo, em resquícios da segunda geração que ainda dominava a arte em Portugal; enriquecido pelo espírito renascentista/humanista da sua educação cultural, numa apreensão total das correntes estéticas seculares; descobrindo as novas filosofias do pensamento artístico, que procuravam a resolução da ruptura no pós-guerra; inserindo-se no pensamento oposicionista ao regime... esta é a caracterização de João Abel Manta.
Para cada trabalho há uma linguagem mais adequada, um grafismo que se coaduna com o conteúdo e estilo literário da publicação, e ele sabe escolher. Por vezes, a esses elementos "pedidos" pela obra, aliam-se as experiências estéticas que o artista investiga no momento, fundindo-se elementos "arcaicos" com abstraccionismos, com a ironia surrealista, a colagem fotomontagem... O resultado é o mais variado, sem nunca cair no banal, no já visto, e pleno de notáveis matizes neo-românticos, renascentistas-barrocos, clássicos-modernistas, realistas-abstraccionistas...
Também como factor importante desta versatilidade, via educação académica, é a sua formação de arquitecto. Esta, como sugere a frase de Saul Steinberg ("Dottore in Architettura" pela Faculdade de Arquitectura de Milão, curso tirado antes de emigrar para os E.U.A. e aí revolucionar o mundo gráfico) que J.A.M. cita muitas vezes, «o estudo da arquitectura é um treino maravilhoso para tudo menos para a arquitectura. A ideia assustadora de que aquilo que se desenha se pode transformar num edifício faz com que a nossa maneira de desenhar se torne ponderada e racional».
Se se mantém a maleabilidade de traço ao longo de toda a sua carreira, existe também um respeito e influência por artistas como Goya, Rowlandson, Daumier, W. Buch, Forain, Gulbransson, Groz, Feliks Topolski, Saul Steinberg.
A década de sessenta, para J.A.M., é a continuidade de um trabalho, mais por imposição externa, um deixar-se levar pela onda do quotidiano, do que por verdadeira opção estética do artista. A par deste criar por instinto, há nestes anos a descoberta do gosto pelo mundo gráfico, que dará os seus frutos. Falaremos nisso mais tarde.
No âmbito daquela criação por encomenda, o artista trabalhava essencialmente na sua função futura e não pelo seu lado plástico. Construía algo que se destinava a um processo de reprodução em que o original é secundário e o impacto só é dado pelo resultado final, a reprodução integrada no meio para que se destina. São trabalhos que, por si só, retirados do seu contexto, perdem grande parte do seu valor.Essas obras foram aparecendo em revistas como o "Almanaque", "Seara Nova", "Eva", "Gazeta Musical e de todas as artes", ou em livros.
Folheando trabalho por trabalho, e procurando um estilo único de ilustração, somos surpreendidos pelas constantes opções gráficas, transformando-se em característica a ausência de uma linha de continuidade. Podem-se dar várias explicações, como já foi referenciado, porém um dos elementos fundamentais é o seguinte: como os trabalhos não se sucediam, numa ansiedade profissional de sobrevivência, o artista, quando partia para um trabalho, já não se recordava muito bem das soluções desenvolvidas no trabalho anterior, e lançava-se para o novo projecto totalmente liberto de "tiques", vícios, ou amarras estilísticas. Cada trabalho é uma criação que surge na continuidade da sua obra geral, arquitectónica e pictoral, e não
na simples evolução de uma linha gráfica. Claro que, no subconsciente, havia um registo de dados, de conquistas ganhas pela experiência, desenvolvendo-se numa progressão de maturidade, reflectida no reconhecimento público e na atribuição de Prémios significativos. Ganhou, em 1961, o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, e, em 1965, na cidade de Leipzig, conquistou a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas. Para além destes certames, esteve presente na II Bienal de São Paulo, em mostras internacionais Di Bianco e Nero em Lugano, assim como nas exposições internacionais de Tóquio e Medellin - Colômbia. Expôs também individualmente em Londres, no I.C.A.
".

Fica aqui também registado o convite formal e os contactos dos promotores do tributo:
"A Humorgrafe (Osvaldo Macedo de Sousa) e o BDjornal (J.Machado-Dias / Clara Botelho) sonharam com uma homenagem ao mestre João Abel Manta, como melhor forma de comemorar este aniversário, como melhor forma chamar a atenção para a obra genial do Mestre. O CNBDI da Amadora alia-se ao projecto oferecendo a sua sala de exposições. Esta poderá depois percorrer outros espaços. Mas, nós não somos artistas, apenas “idiotas” de iniciativas, razão pela qual necessitamos de outros cúmplices. Vocês caricaturistas, cartoonistas, banda-desenhistas, ilustradores estão interessados em colaborar nesta homenagem?Cada artista pode participar com uma ou duas obras (e forem bandas desenhadas não convinha que fossem muito grandes, uma, duas pranchas…) Se for uma obra digital pode ser enviada por e-mail (Jpeg, 300 dpis) para humorgrafe_oms@yahoo.com, se forem originais para Osvaldo Macedo de Sousa Av. Carolina Michaelis nº31-4ºA 2795-053 Linda-a-Velha. Naturalmente que no final todos os originais serão devolvidos com o respectivo catálogo. A data limite ideal seria 30 de Janeiro de 2008".

Nb: imagens de ilustrações do autor nos blogues Kuentro e Humorgrafe; sobre os prémios artísticos que ganhou vd. aqui.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Hoje há Sol Nascente em Vila Franca de Xira 1

Hoje, às 16 horas, será lançado o livro Sol Nascente: da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo, de Luís Crespo de Andrade, no anfiteatro do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. A obra, publicada pela editora Campo das Letras, será apresentada por Arquimedes da Silva Santos e João Madeira. O estudo e a edição do livro foram patrocinados pelo Montepio Geral.
Este quinzenário, publicado no Porto entre 30 de Janeiro de 1937 e 15 de Abril de 1940, foi encerrado pela censura salazarista, dado o seu carácter progressista. Nas suas páginas confrontaram-se presencistas e neo-realistas, pontificaram grandes artistas plásticos, abordou-se o tema tabu da sexualidade, contestou-se a pena de morte, falou-se de literatura, mas também de música, cinema e ciência (cf. Daniel Pires, Dicionário da Imprensa periódica portuguesa do século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, p. 340-345).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ivone Dias Lourenço - in memoriam


O texto que publico é da autoria de António Melo

Um abraço Ivone!

Ivone Dias Lourenço, essa extraordinária mulher, pequena de corpo mas grande nas convicções, na generosidade, na vivacidade de espírito e na sabedoria de vida , como a definiu Vítor Dias no seu blog O Tempo das Cerejas, foi hoje [25/1] a sepultar no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Morreu ao 69 anos, de uma doença cancerosa, depois de uma vida inteira dedicada à conquista da liberdade e à construção de um mundo solidário.

Filha de Dias Lourenço, um dos obreiros da reconstrução do PCP, companheiro indefectível de Álvaro Cunhal, e de Casimira Silva passou a infância sem a companhia dos pais que viviam na clandestinidade. A adolescência viveu-a na prisão de Caxias, onde entrou em Novembro de 1957, aos 20 anos, e de onde só saiu em Maio de 1964. Quase sete anos passados na cadeia no momento de maior deslumbramento da vida. Uma dor que ficou para sempre, mesmo se não a exteriorizava. No entanto, em entrevista que deu à jornalista São José Almeida (Público, 2004), deixou cair o queixume, mesmo se em ar de ironia: Foi um período muito importante o que estive presa. Por exemplo, quando saí, em 1964, nunca tinha ouvido os Beatles.

Senhora de uma cultura geral extensa, com interesses diversificados, comunicativa e jovial, sem nunca perder a noção do dever, Ivone foi jornalista no Avante! Sempre respeitadora da linha oficial da direcção, manifestava as discordâncias, quando as tinha, nas reuniões de célula. Em matéria de fidelidade partidária foi o que se designa por ortodoxa, mas a seu olhar sobre a vida ia muito além do estrito quadro político-partidário. Deixava-se encantar facilmente com a beleza e gostava de partilhar com os outros as alegrias e as tristezas – de conviver, em suma.

Há um ano, quando o NAM! quis celebrar o 8 de Março com testemunhos de mulheres da resistência, a Ivone deu o seu assentimento de princípio, mas deixou claro que seria pouco provável que a saúde lhe permitisse estar presente. Assim aconteceu. Ficou assente que ficaria para o ano seguinte. Estará connosco na nossa memória.

Um abraço Ivone!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Dia de Martin Kuther King

Celebra-se hoje, nos EUA, o Dia de Martin Luther King (como acontece todos os anos, na terceira 2ª feira de Janeiro).


A esse propósito, republico aqui um post antigo do meu blogue Entre as brumas da memória, onde se pode ler a descrição da proibição de uma homenagem a L.King, em Lisboa, em 4/5/1968.




Entre as Brumas da Memória..., pp.116-118:

«Em 4 de Abril, foi assassinado Martin Luther King – com o seu sonho, foi um pouco do nosso que morreu também. Em Roma, Paulo VI comparou este assassinato à paixão de Cristo (...).

Pastor da Igreja Baptista, Luther King tornou­­­‑se, desde muito novo, líder dos movimentos não violentos contra a discriminação dos negros americanos. Tinha apenas trinta e nove anos quando foi assassinado.

Em jeito de homenagem, foi preparada e agendada uma sessão a ser realizada em Lisboa, no dia 4 de Maio, exactamente um mês após a sua morte. O local escolhido foi a Igreja de Santa Isabel – com grande empenho, o prior cedeu o anfiteatro anexo à igreja para a realização da iniciativa. Duas frases encabeçavam a convocatória: "Traz contigo uma flor" e "Por cada flor estrangulada, há milhões de sementes a florir".

Deveria ser projectado o filme
Marcha em Washington, que mostra uma concentração, em 28 de Agosto de 1963, em que mais de 250.000 pessoas exigiram emprego e liberdade. Falaram actores como Marlon Brando e Sidney Poitier, cantores como Joan Baez e Mahalia Jackson. Esta última interpelou Luther King gritando: "Fala­‑lhes do teu sonho!". Pondo de parte um curto texto mais ou menos formal preparado para o efeito, Luther King fez então um longo discurso em torno de uma frase que viria a ficar célebre: "I have a dream today!" – sonho de uma América de liberdade e democracia, de todas as raças, de todas as cores e culturas.


[No fim deste texto, verá como pode aceder a um video sobre esta Marcha, com o discurso de MLK na íntegra.]

Na sessão em Lisboa, o filme seria seguido de um debate orientado por Lindley Cintra, Fátima Pereira Bastos, José Carlos Megre e Frank Pereira. Na véspera da data prevista, a PIDE comunicou ao Pe. Armindo Duarte, então prior da paróquia de Santa Isabel, que a sessão estava proibida. Interrogou­‑o sobre os objectivos da mesma e sobre os responsáveis pela sua organização. Dois dos intervenientes previstos – Lindley Cintra e José Carlos Megre – foram também chamados para interrogatórios. Uma das preocupações da polícia foi averiguar se era a Pragma que estava por trás da organização. Deve ter continuado convencida de que sim, apesar das respostas negativas dos interrogados, já que arquivou toda a documentação sobre esta sessão no Processo sobre aquela Cooperativa. Mas não era: ela resultara da iniciativa de um pequeno grupo de amigos que, de passagem por Paris três semanas antes, tinham assistido a uma sessão semelhante e que resolveram reproduzi­­­‑la em Lisboa. Os principais organizadores foram os irmãos Maria da Conceição e Manuel Moita, Maria Antónia Pacheco e Joaquim Osório de Castro.

À hora marcada, concentraram­‑se centenas de pessoas em frente da igreja de portas fechadas. Como em muitas outras ocasiões, tudo acabou com dispersão, à força, desta vez por agentes da polícia à paisana.

Foi depois elaborado, e amplamente distribuído, um folheto intitulado Porquê? com um breve relato dos acontecimentos. Terminava com uma citação do próprio Luther King:

"Não vos posso prometer que não vos batam,
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa,
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco.
Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo".»






Veja aqui o discurso de MLT na íntegra






domingo, 20 de janeiro de 2008

Directa

Directa de Nuno Bragança (1929-1985) é um romance que ficcionaliza a experiência do autor em ajudar pessoas a «dar o salto» para fora de Portugal, por razões políticas. O tema em afinidades com o Cinco Dias, Cinco Noites de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal, mas o ambiente e o estilo da narrativa são bem diferentes. O protagonista conhece tão bem os meandros da luta contra o regime como a vida nocturna de uma Lisboa em muitos aspectos já desaparecida. Em vez do estilo seco, preciso e sóbrio e das personagens desenhadas à luz do neo-realismo de Manuel Tiago, Nuno Bragança adopta um estilo que flui ao sabor de uma imaginação por vezes delirante, indo beber ao surrealismo, à literatura americana dos anos 40 e à poesia modernista.
O romance, publicado em 1977, documenta uma acção de resistência ao regime de uma personalidade vinda de um sector da oposição ao Estado Novo que não se quis constituir numa organização política formal e que, à falta de melhor, se chamou de «católico progressista». O percurso de Nuno Bragança foi o de uma radicalização, a partir dos anos 60, que o levou a colaborar em acções políticas arriscadas organizadas pela extrema-esquerda. Outros católicos progressistas colaboraram activamente na fuga do país de pessoas perseguidas pelo Estado Novo, como Nuno Teotónio Pereira e José Manuel Galvão Teles.
Excerto de Directa:
«”Agora amocha um bocado”, pensava ele soletrando o itinerário dos transvias. Mas tinha pressa em saber o que havia – o que de mau havia – e foi outra vez cruzar a área combinada. Viu o Henrique, viu que ele o tinha visto e seguiu de novo para o Terreiro do Paço. Caminhando sem olhar para trás, acelerava progressivamente e muito o passo, em direcção do Volkswagen.
Quando chegou ao pé do carro virou-se de chofre para trás, e viu o Henrique a poucos metros, andando à velocidade a que ele o obrigara: no espaço amplo do Terreiro ainda vazio de carros, mais ninguém caminhava depressa na mesma direcção. O homem abriu a porta do carro. Sentou-se lá dentro e abriu a outra porta.
O Henrique entrou.
“Bom dia”, disse o homem. Pôs o carro em marcha na direcção de Cabo Ruivo. O Henrique entregou-se ao lento ritual de abrir um maço de “Porto”, de bater minuciosamente o cigarro contra o vidro do relógio, de o acender.
“Então o que há?”, perguntou o homem.
“O Júlio”, disse o Henrique. “Contactou-me ontem. Há indicações inequívocas de que ele está em perigo”.
“Indicações inequívocas”, pensou o homem. “Isto é mas é o diálogo de um filme português”.
Foi guiando sem falar, mas o Henrique parecia pouco inclinado a confidências. “O que é que se passa?”, insistiu o homem. Pensou: “Vá lá, ó ostrazinha. Caga a pérola que está aqui o primo ourives”.
“O gajo mergulhou”, disse o Henrique. “Eu não dizia?”, pensou o homem.
“Mergulhou?”, disse o homem. “Que tal a água?”
“Está cheia de corrente. Temos de o tirar de lá antes que lhe preguem uma amona.”
“E pô-lo onde?”
“No Estrangeiro.”
“Esse pouco”, respondeu o homem. Santa Apolónia aparecia lá à frente, à esquerda. O homem olhou o edifício de Lisboa-terminus-Grandes-Linhas e pensou no Sud-Express. O carro foi acelerado bruscamente.
“Não me parece que haja outra hipótese”, disse o Henrique.
Um pouco mais adiante o homem guinou à direita e travou. Depois fez marcha atrás, uns cinquenta metros, e parou o carro e o motor. Estavam perto duma doca.
“Ó Henrique”, disse o homem. “O aparelho de saída é o último recurso. Quando funciona um aparelho de saída há muita coisa e muita gente posta em risco. Logo à noite há reunião. Você põe o problema e a gente discute.”
“Oiça”, disse o Henrique. “Tenha calma. O caso vai ser posto em reunião. Mas acho que é de adiantar trabalho.”
“Qual trabalho?”
“Casa e passaporte. A casa é urgente, o sítio onde ele está não é seguro.”
“Porque é que ele foi para lá?”
“Chiça, oiça. O gajo andava desconfiado, havia três noites que não dormia em casa. A Pide tinha andado a fazer indagações discretas no emprego, há lá uma Secretária do Director amiga dele que topou a coisa e avisou-o. Na noite de anteontem para ontem a Pide foi a casa dele, de madrugada.”»
BRAGANÇA, Nuno, Directa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1995, pp. 32-34.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

José Carlos Ary dos Santos - 7 de Dezembro de 1936/18 de Janeiro de 1984

























Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Debate - 18 de Janeiro de 1934


O Círculo de Estudos Sociais Libertários/TERRA VIVA!AES com o apoio do núcleo do Porto do Não Apaguem a Memória! realiza no próximo dia 18, às 21:00 horas, na Rua dos Caldeireiros,213 –Porto (à Cordoaria) , um debate sobre o 18 de Janeiro de 1934:

O que foi o"18 de Janeiro" de 1934? "Greve Geral Insurreccional"?..."Levantamento operário armado contra a ditadura"?... "Anarqueirada"?...

APAREÇA – INFORME-SE – NÃO DEIXE QUE NOS ESCONDAM A MEMÓRIA!

domingo, 13 de janeiro de 2008

A resistência antifascista: colheita de 2007

Acabou de sair na edição deste mês do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa um artigo de fundo sobre "A resistência antifascista: colheita de 2007", por Daniel Melo.
O artigo contém um dupla recensão crítica aos livros Memórias – um combate pela liberdade, de Edmundo Pedro (Lisboa, Âncora Editora) e A passagem: uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, de Manuela Câncio Reis (Lisboa, Editorial Caminho).
Apresenta ainda um breve balanço global dos livros publicados no ano passado sobre a resistência antifascista e a listagem das anteriores recensões críticas específicas, a saber:
CUNHAL, Álvaro, Obras escolhidas de Álvaro Cunhal – tomo I (1935-1947), Lisboa, Edições Avante! (por João Madeira, ed. de Fevereiro).
GALIZA, Rui Daniel, PINA, João, Por teu livro pensamento, Lisboa, Assírio e Alvim (por Daniel Melo, ed. de Novembro).
LOPES, Joana, Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses e a ditadura, Lisboa, Âmbar (por Daniel Melo, ed. de Novembro).
MADEIRA, João, PIMENTEL, Irene, FARINHA, Luís, Vítimas de Salazar. Estado Novo e violência política, Lisboa, Esfera dos Livros (por Daniel Melo, ed. de Outubro).
NUNES, Renato, Miguel Torga e a PIDE. A repressão e os escritores no Estado Novo, Coimbra, Minerva (por Daniel Melo, ed. de Setembro).
SEABRA, Zita, Foi assim, Lisboa, Alêtheia Editores (por João Leal, ed. de Novembro).
Nb: imagem de cartoon de João Abel Manta (retirada daqui).