domingo, 2 de dezembro de 2007

Colóquio sobre o “Dever da Memória” IV


O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! (NAM!) aguarda desde 30 de Março que os deputados votem o dever de memória para com os resistentes que durante a ditadura fascista lutaram pelas liberdades democráticas.

O projecto de Resolução que consagra o dever de memória resultou da Petição apresentada pelo NAM! ao presidente da Assembleia da República, em 26 de Julho de 2006. Talvez por o assunto não ser de nenhum partido propriamente dito, a sua votação tem sido adiada. Consideramos ser fundamental desfazer o impasse que se criou em torno da sua votação.

Por isso lançámos uma Carta Aberta aos Deputados e vamos organizar um colóquio sob o tema Dever de Memória. Com estas acções pretendemos recordar à Assembleia da República a urgência em votar o parecer aplaudido em 30 de Março.

O colóquio de Lisboa realiza-se no próximo 5 de Dezembro, das 18h às 20h30, no auditório do SPGL, Rua Fialho de Almeida nº 3 (Bairro Azul) - Metro S. Sebastião.

Joana Lopes: os católicos e a imprensa clandestina
José Augusto Rocha: os “tribunais plenários”
Fernando Rosas: os arquivos e os juízes dos “tribunais plenários”
A historiadora Irene Pimentel será moderadora do debate.

Contamos consigo para que o cartoon do Luís Afonso não nos faça sorrir.
Contamos consigo no colóquio

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Colóquio sobre o “Dever da Memória” III

Colóquio sobre o Dever da Memória

Carta a uma jovem portuguesa – revisitação

A propósito da realização do colóquio sobre o dever da memória para com a resistência antifascista, a realizar no próximo 5 de Dezembro no auditório do SPGL (18h), recuperam-se aqui algumas recordações desse tempo que caracterizam a mentalidade da época. No final propõe-se um contraste sarcástico, feito por uma mente libertária, de hoje e sempre, a propósito do que se escrevia nas revistas desse tempo e os modelos sociais que se propunham às mulheres.

No dia 19 de Abril de 1961 a Via Latina, revista da Associação Académica de Coimbra publicou uma Carta Aberta que tinha por destinatária “uma jovem portuguesa”. Era afectuosa e despreconceituosa. A revista foi objecto de uma polémica de tal modo feroz por parte dos sectores conservadores da sociedade portuguesa, com os jornais ultra-católicos Voz e Novidades a comandar as hostes, que a Via Latina foi obrigada a afastar o autor da Carta a uma Jovem Portuguesa, Marinha de Campos, para evitar o seu encerramento compulsivo pelas autoridades administrativas, por ultraje à moral pública.

O que dizia assim de tão escandaloso esta Carta? Transcrevem-se as partes principais (retiradas de Álvaro Garrido, Movimento Estudantil e Crise do Estado Novo, ed. Minerva, Coimbra, 1996):

Vou escrever para ti jovem portuguesa e particularmente para ti, jovem estudante da nossa cidade. Não tenho a fazer a apologia de qualquer tipo de ideal; ensinar-te qualquer doutrina, defender fanaticamente uma moral (…)
A minha liberdade não é igual à tua. Separa-nos um muro alto e espesso, que nem tu nem eu construímos. A nós, rapazes, de viver do lado de cá, onde temos uma ordem social que em relação a vós nos favorece. Para vós, raparigas, o lado de lá desse muro; o mundo inquietante da sombra e da repressão mental (…)
Só nos é permitido atravessar o muro para escolhermos. E eu escolho-te a ti jovem portuguesa (…)
Tu, vítima de todos nós e de ti mesma. Tu, vítima do nosso desejo não concretizado e portanto falseado e iludido (…)
Tens a inconsciente e mal definida sensação de que há um sistema social mais forte que tu ou eu e no qual devemos integrar, sob pena de ficarmos sós e desamparados. Há um determinismo social que te oprime e te define (…)
Viver dentro da juventude não se ensina, aprende-se vivendo. E a jovem e o jovem português não vivem dentro dela (…)
Jovem Portuguesa! Dou-te a minha mão e o meu corpo. Sinto os teus dedos, o teu braço. Sinto um corpo jovem junto do meu. Mas não sou um molde; sou um jovem diferente de ti. Um rapaz para quem o amor por ti é a concretização sexual, única diferença nas relações entre o homem e a mulher que devem decorrer no mesmo plano de homem para homem.


O autor desta Carta tornou-se advogado, afastou-se das lides literárias e nunca mais esqueceu a mágoa de ter ficado sozinho no meio da aridez de inteligência e generosidade que era o meio social do seu tempo. Ele, um humanista que politicamente tinha uma atitude discreta, estivera em Paris alguns meses e, quando regressara, o choque cultural com a realidade atávica do Portugal beato fê-lo lançar um grito de alerta e dor. Mas melodioso. Foi calado. Não esqueceu.

Há algumas semanas um anónimo libertário, para quem a memória não se deve apagar, pegou nalgumas “pérolas” da investigação que andava a fazer, enfiou-as num colar deu-as aos porcos, o que é uma maneira de dizer aos marialvas.

Porque o mundo de hoje se faz também com esta massa, que embora levedada tem tendência a azedar, mas sem a hipocrisia do falso pudor, aqui se reproduz este Canto de Saudade aos Homens de Hoje.

Para que não nos esqueçamos dos outros tempos…

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Colóquio sobre o “Dever da Memória” II

Deixamos aqui a biografia dos intervenientes no Colóquio já anunciado:

Joana Lopes
Nasceu em Moçambique, licenciou-se em Filosofia e doutorou-se em Lógica Matemática na Universidade de Lovaina (Bélgica). Pertence à geração dos católicos progressistas que se desenvolveu no Encontro, jornal da JUC (Juventude Universitária Católica), com Bénard da Costa. Mas o seu caso é particular, pois tendo chegado a Lisboa já no rescaldo da crise académica, em 1963, a sua participação, para além da docência na Faculdade de Letras de Lisboa, centrou-se na informação. Colaborou no Tempo e o Modo, de Alçada Baptista e Pedro Tamen, e, principalmente, no Direito à Informação, publicação animada por Nuno Teotónio Pereira e a sua mulher, Natália (já falecida), que surgiu sob a égide da encíclica Pacem in Terris, do Papa João XXIII. Esteve na fundação da cooperativa cultural Pragma, em 1964, que três anos depois foi encerrada pela PIDE, devido a um ciclo de conferências sobre a emigração.
A sua formação académica levou-a a especializar nas tecnologias da informação , nesse campo, fez parte da direcção executiva da IBM em Portugal e participou em diversas acções de formação em La Hulpe, no centro belga desta conhecida marca de material de informática.
Em Fevereiro deste ano pôs em livro as memórias e actividades do sector conhecido por católicos progressistas, com o título Entre as Brumas da Memória – Os católicos portugueses e a ditadura, onde coligiu documentação essencial sobre o percurso de alguns dos membros deste grupo, que os levou à luta armada para derrubar o regime corporativo do Estado Novo e muitos outros mais à prisão.

José Augusto Rocha
Pertence à geração da crise académica de 1961/62. Membro da direcção da Associação Académica de Coimbra (AAC) foi um dos organizadores do I Encontro Nacional de Estudantes, que se realizou em Coimbra de 9 a 11 de Março de 1962, contra a proibição ministerial, e se destinava a preparar o Dia do Estudante de 24 de Março. A proibição da realização deste evento desencadeou uma crise académica em Lisboa e em Coimbra, que teve repercussão nacional. A repressão fez-se sentir sobre centenas de estudantes, em particular sobre os mais expostos. José Augusto Rocha foi detido em 19 de Maio, com mais 38 colegas, e conduzido para a prisão de Caxias, acusado de ter participado na ocupação das instalações da AAC. Do processo disciplinar que daí resultou foi expulso de todas as Universidades do país por dois anos.
Humanista e homem de esquerda, foi, já advogado uma das figuras mais constantes nos famigerados “tribunais plenários”, na defesa dos presos políticos.
Nos tribunais plenários, “as sentenças estavam previamente fixadas, o diálogo era quase impossível e a margem de manobra era muito estreita”. Numa notável intervenção que fez na sede da Ordem dos Advogados [24/6/07], contou como os julgamentos atingiam “momentos dramáticos” e como foi “necessária muita coragem e muita determinação para travar combates desiguais em defesa dos presos políticos, pelos seus direitos, pela liberdade, contra a opressão e a violência”.
É a segunda parte dessa palestra que J. A. Rocha traz ao colóquio de 5 de Dezembro.

Fernando Rosas
Integrava a comissão pró-Associação dos Liceus quando eclodiu a crise académica de 61/62. Participou, a esse nível, na contestação estudantil, que se politizou e levou à contestação radical do regime corporativo de Salazar. Foi preso em Dezembro de 1964, por pertencer ao PCP, de que se afastou mais tarde, e fez parte dos acusados no processo dos estudantes de 1965, sem deixar de participar na luta político-estudantil. A denúncia dos crimes da guerra colonial e da política ultramarina do regime levou-o à fundação do MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado), de que se afastou já depois do 25 de Abril. Teve um papel activo na criação do Bloco de Esquerda, de que é deputado e por quem foi candidato à Presidência da República em 2001.
A sua carreira de historiador levou-o a interessar-se pela contemporaneidade do século XX, onde o Estado Novo ocupa um espaço de 48 anos e de que Rosas se tornou num dos mais importantes historiadores. Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, de que é catedrático, organizou em Novembro o curso História, memória e democracia, onde em discussão esteve o “dever de memória” e o exemplo espanhol foi largamente abordado, com a participação de académicos e políticos espanhóis, entre eles, Santiago Carrillo e Raul Morodo.
No decorrer de uma das intervenções que fez neste curso, Fernando Rosas deu conta de uma investigação que está a dirigir sobre os juízes dos “tribunais plenários” e do seu percurso na magistratura portuguesa.

Irene Pimentel
Pertence à segunda geração dos investigadores da nossa história contemporânea e História da PIDE (ed. Círculo dos Leitores), que lançou no final do mês de Outubro, é o seu mais recente contributo para esse estudo. O seu anterior trabalho, feito em conjunto com João Madeira e Luís Farinha, tratava, como o título denota, das Vítimas de Salazar – Estado Novo e Violência Política (ed. Esfera dos Livros, 2007). Em 2000 publicou um exaustivo estudo sobre História das Organizações Femininas no Estado Novo (ed. Círculo dos Leitores), abrindo novos caminhos para a investigação sobre a formação das mentalidades no Portugal do século XX.
Outro campo das suas investigações incide sobre a II Guerra Mundial, em especial sobre os refugiados que chegaram a Portugal, destacando-se, aqui, a obra que publicou em 2006, Em Fuga de Hitler e do Holocausto (ed. Esfera dos Livros).
Dentro do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! integra o grupo de trabalho que estuda a criação de um espaço de memória na antiga sede da PIDE/DGS, que se situava na Rua António Maria Cardoso, onde hoje se edifica um condomínio privado.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Colóquio sobre o “Dever da Memória” - I



O projecto de Resolução que consagra o dever da memória em letra de lei da República aguarda votação desde que foi discutido em plenário, no passado 30 de Março. Todos os deputados intervenientes saudaram o NAM! e concordaram com o parecer de resolução apresentado pelo deputados Marques Júnior.
A muitos parece inexplicável este comportamento, que adia por mais um ano a concretização, por parte do Estado de Direito, do dever de memória para com a resistência antifascista e democrática, cujo legado faz parte insubstituível da História do século XX.
O projecto de Resolução resultou da Petição apresentada pelo NAM! em 26 de Julho de 2006 ao presidente da Assembleia da República. Consideramos ser fundamental desfazer o impasse que se criou em torno da sua votação.
Por isso lançamos uma Carta Aberta aos Deputados e vamos organizar um colóquio sob o tema Dever de Memória, para recordar aos deputados a urgência em votarem o parecer que aplaudiram em 30 de Março.
O colóquio de Lisboa realiza-se no próximo 5 de Dezembro, das 18h às 20h30, no auditório do SPGL, Rua Fialho de Almeida nº 3 (Bairro Azul) - Metro S. Sebastião.

O formato será o de intervenções de cerca de 15 minutos para cada orador, pela seguinte ordem:

Joana Lopes: Os católicos e a imprensa clandestina
José Augusto Rocha: Os “tribunais plenários”
Fernando Rosas: Os arquivos e os juízes dos “tribunais plenários”
A historiadora Irene Pimentel será moderadora do debate.

Contamos consigo para que o colóquio decorra com o êxito esperado.

Planta da Rua Fialho de Almeida

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Carta Aberta - Dever de memória, é urgente!


O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! (NAM!) apresentou à Assembleia da República uma Petição onde se reclamava o respeito pelo "dever da memória" por parte do Estado.
Essa Petição, em forma de projecto de Resolução, foi discutida em sessão plenária no passado 30 de Março, tendo recebido de todas as bancadas parlamentares acolhimento positivo.
A votação devia realizar-se numa das sextas-feiras seguintes, dia em que são votadas as matérias consensuais. Infelizmente desde então aguarda-se o agendamento dessa Resolução para uma destas sextas-feiras.

Por isso, à beira do fim do ano, decidiu o NAM! desencadear um processo de sensibilização da opinião pública, no sentido de conseguir que antes do final de 2007 haja votação da Resolução, através de uma Carta Aberta aos Deputados.
Foi entregue na Assembleia da República no dia 22 de Novembro e foram seus primeiros signatários:

A. Borges Coelho (Historiador)
Ângelo Correia (Antigo deputado)
Carlos Brito (Antigo deputado)
Edmundo Pedro (Antigo deputado)
Fernando Rosas (Historiador e actual deputado)
Hélder Costa (Encenador)
Irene Pimentel (Historiadora)
Iva Delgado (Presidente da Fundação Humberto Delgado)
José Saramago (Prémio Nobel)
Martins Guerreiro (Almirante)
Nuno Teotónio Pereira (Arquitecto)

Carta aberta aos Deputados, aos Grupos Parlamentares e ao Presidente da Assembleia da República:

Em 5 de Outubro de 2005, um grupo de cidadãos que não se conformou com a transformação em condomínio privado da antiga sede da PIDE/DGS sem uma referência que evocasse a memória do mais sinistro local da repressão da ditadura, decidiu manifestar-se no local e exigir dos poderes públicos uma intervenção que traduzisse o Dever de Memória por parte do Estado Português.

Desta iniciativa cívica nasceu o Movimento Não Apaguem a Memória, um movimento aberto e plural, sem dependências partidárias, que tem desenvolvido, particularmente em Lisboa e no Porto, um conjunto de iniciativas, nomeadamente:

· apresentação de uma Petição com mais de 5000 subscritores dirigida à Assembleia da República para que o Parlamento vincule o Estado português a cumprir o Dever de memória;
· diligências visando a transformação da antiga prisão política do Aljube em museu da Resistência e da Liberdade;
· movimentações para a criação de uma área museológica no futuro condomínio privado em construção no local da antiga sede da PIDE/DGS, em Lisboa;
· acções tendentes à consagração do edifício onde funcionou a delegação do Porto da PIDE/DGS como local de memória da luta contra a ditadura na região do Grande Porto;
· contactos visando a transformação do antigo campo de concentração do Tarrafal num espaço de memória dos países da CPLP no seu processo de luta pela abolição da ditadura e do colonialismo e de conquista da liberdade e da soberania, através de entendimentos com o Presidente da República de Cabo Verde.

As iniciativas levadas a cabo pelo Movimento cívico Não Apaguem a Memória – exemplo a seguir pela sociedade civil – tem tido boa receptividade por parte do Governo, da Câmara Municipal de Lisboa, do construtor do referido condomínio privado e do Governo Civil do Porto.

Na sequência da Petição apresentada, o deputado Marques Júnior – um capitão do MFA que restituiu a Liberdade a Portugal, em 25 de Abril de 1974 – elaborou um projecto de Resolução parlamentar que foi discutido na generalidade em Março de 2007, reunindo largo consenso, e que aguarda aprovação desde então.
Urge que seja aprovada na Assembleia da Republica a Resolução que venha concretizar as legítimas aspirações da sociedade portuguesa, expressas pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!.

Por tal razão, vêm os subscritores desta carta aberta apelar aos Deputados, aos Grupos parlamentares e ao Presidente da Assembleia da República para que envidem os esforços necessários no sentido de permitir a aprovação ainda este ano da Resolução parlamentar que vincula o Estado português ao Dever de memória.

Memória de luta pela liberdade e pela democracia cujo exemplo deve ser salvaguardado para as novas gerações.

Porque sem memória colectiva não há identidade histórica, indispensável à construção do futuro.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Novas recensões a livros sobre a resistência anti-salazarista

Sairam na edição deste mês do Le Monde Diplomatique - ed. portuguesa recensões críticas aos livros Por teu livre pensamento e Entre as brumas da memória, ambas por Daniel Melo.
O livro Por teu livre pensamento é da autoria de Rui Daniel Galiza (textos) e João Pina (fotos), e recolhe um conjunto de testemunhos de 25 ex-presos políticos, contendo ainda notas biográficas sobre os mesmos.
O livro Entre as brumas da memória é um testemunho de Joana Lopes sobre a actividade dos católicos progressistas nos anos 60.
Às duas obras já aqui nos referiramos, aquando dos respectivos lançamentos este ano (vd. etiquetas na coluna da direita começadas com «livro», seguidas do título da obra correspondente).
Nb: imagem do Monumento aos presos políticos, escultura de Jorge Vieira.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Seminário "Memória & Testemunhos Orais"


A Fundação Mário Soares e o Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa realiza nos dias 22 e 23 de Novembro de 2007 um Seminário Internacional sobre o tema genérico Memória & Testemunhos Orais.

De acordo com o site da Fundação, o Seminário Internacional Memória & Testemunhos Orais pretende dar a conhecer e discutir o estado da arte em matéria de História Oral, recolhendo experiências nacionais e internacionais.

Esta iniciativa reúne especialistas de diferentes unidades de investigação e visa incorporar conhecimentos e práticas de outras áreas, designadamente da comunicação social, procurando ainda abordar os desafios que a História Oral suscita nos âmbitos arquivístico e dos direitos de autor.

  • O programa pode ser consultado aqui.
  • Exposição "Memória da Guerra Colonial"


    A Fundação Mário Soares inaugurou, no passado dia 12, a exposição Memória da Guerra Colonial com fotografias de Américo Estanqueiro.

    Do anúncio da exposição:

    Ao evocar aqui a memória da guerra colonial – a memória concreta que esta exposição apresenta – estamos a “revisitar” esses tempos e, segundo espero, a retirar as lições de tais acontecimentos e dos sofrimentos que a guerra provocou em todos nós. Mas também a olhar para o futuro de amizade e cooperação que hoje nos aproxima tanto desses povos irmãos, agora independentes. Daí, também, os esforços que a Fundação Mário Soares tem desenvolvido na preservação e divulgação da Memória histórica de Portugal e dos países da CPLP, com a certeza de que o que nos une é um instrumento essencial do progresso dos nossos países.

    Encontro Ibérico - Reflexões em torno de María Zambrano


    No próximo dia 22 de Novembro decorre no Instituto Cervantes, em Lisboa, o Encontro Ibérico - Reflexões em torno de María Zambrano.

    Filósofa de referência, María Zambrano nasceu em Málaga em 1904.

    Em 1921 iniciou estudos de Filosofia como aluna livre na Universidade Central de Madrid. Completou os estudos em 1927 e, em 1931 já era professora auxiliar de Metafísica na Universidade Central.

    Casou, em 1936, e partiu para Santiago de Chile.

    Já durante a Guerra Civil de Espanha, em 1937, no mesmo dia em que caiu Bilbau, María e o marido regressaram a Espanha.

    Ele alistou-se no exército e María passou a colaborar na defesa da República como Conselheira de Propaganda e Conselheiro Nacional para a Infância Evacuada.

    Em Janeiro de 1939 partiu para o exílio.

    Passou por Paris, Nova Iorque, Havana e México. Neste último país leccionou filosofia na universidade.

    Viveu em Paris de 1946 a1949 e depois Havana, de novo.

    Em 1953 regressou à Europa e escolheu Roma para viver até 1964, relacionando-se com intelectuais italianos e com espanhóis exilados como Ramón Gaya, Diego de Mesa, Enrique de Rivas, Rafael Albertie Jorge Guillén.

    Em 1964, publicou Claros do bosque.

    Fixou residência em Genebra, quando no seu país começou a ser apreciada, ao ser nomeada Filha Adoptiva do Principado das Astúrias.

    Em 1981 recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades. Em 1982 foi-lhe atribuído o título de doutora honoris causa. Em 1987 abriu a Fundação com o seu nome e em 1988 foi a primeira mulher a receber o Prémio Cervantes. Em português tem diversas obras traduzidas, nomeadamente O Homem e o divino e Os Sonhos e o Tempo.

    Morreu em Madrid em 1991.

    segunda-feira, 12 de novembro de 2007

    Os cantos do Zeca

    O cantautor José Afonso será homenageado este domingo com um espectáculo no Fórum da Maia, numa organização da Associação José Afonso.
    Aproveita-se para divulgar a informação sobre o mesmo inserta no blogue daquela associação:
    "No próximo dia 18, domingo, pelas 16 horas, no Fórum da Maia, vai ser levado à cena o espectáculo «OS CANTOS DO ZECA».
    Esta iniciativa da responsabilidade da Associação José Afonso (fundada em 18 de Novembro de 1987), por intermédio do seu Núcleo do Norte, mistura músicos, actores, técnicos, profissionais e amadores, com o objectivo central de celebrar a vida e obra de José Afonso e percorrer vários «cantos» do «poeta, andarilho e cantor».
    Os «CANTOS DO ZECA» significará prestar um tributo aos vários «cantos» por onde o Zeca passou: Portugal, África, Galiza.
    Os «CANTOS DO ZECA» significará, também, prestar um tributo aos vários «cantos» onde ele tem sido cantado por gente que faz da música e das palavras de José Afonso uma vontade de construir mundos sem muros nem ameias.
    Do Porto, de Castelo de Paiva, de Lisboa, do Alentejo, de Viana do Castelo, de Penafiel, de Braga, de Guimarães, da Galiza chegam cantores e actores que, principalmente durante este ano, têm sido «companheiros de estrada» do Núcleo do Norte da AJA.
    Os «CANTOS DO ZECA» significará, ainda, prestar um tributo aos poemas e canções que José Afonso nos legou como forma de, ainda hoje, conseguirmos perceber «o que faz falta».
    Num espectáculo construído e desenhado cenicamente pelo Núcleo do Norte da AJA, José Afonso vai «estar presente» porque com ele percorremos estes 20 anos de caminho.
    Os bilhetes, ao preço de 7,50€ estão à venda na Cooperativa UNICEPE (Praça de Carlos Alberto), Sindicato dos Professores do Norte (Rua D. Manuel II) e Sindicato dos Seguros (Rua do Breiner) podendo ser feitas reservas pelo endereço: ajanorte@gmail.com
    Contactos: Paulo Esperança (Telem. 917711964), José Carlos Pereira (Telem. 916090033)"

    domingo, 11 de novembro de 2007

    11/11/1975 - Independência de Angola




    Após 14 anos de guerra a independência de Angola foi proclamada por António Agostinho Neto, primeiro Presidente da República Popular de Angola e do MPLA.

    Foi às 23:00 horas do dia 11 de Novembro de 1975 que Agostinho Neto proclamava "diante da África e do mundo" a Independência de Angola.

    quarta-feira, 7 de novembro de 2007

    Blogger mais anciã do mundo é antifascista, galega e socialista

    É verdade, a blogger mais anciã do mundo é antifascista de velha cepa, galega e socialista. Chama-se María Amelia López, nasceu em Muxia (A Coruña) a 23/12/1911 e publica regularmente no seu blogue A mis 95 años, que criou com a ajuda do neto Daniel, em 2006. Ganhou esta 2.ª feira o Prémio Best of Blogs (BOBs) na categoria de blogues em língua castelhana.
    Numa entrevista que reproduz no seu blogue, López não tem papas na língua para descrever a barbárie franquista; veja-se esta resposta ao leitor Centauro:
    Abordou o franquismo em 4 posts (vd. aqui), referindo-se à Guerra civil (que trata como uma invasão, como diz acima), à fome e à violência política. Socialista desde jovem, nunca aderiu a um partido por saber que podia sofrer represálias por isso. Foi multada por se ter recusado a apoiar o movimento nacional falangista (vd. aqui).
    O seu blogue tem uma versão em língua portuguesa, que pode ser vista aqui.
    Aqui fica também o nosso reconhecimento pelo seu exemplo.
    Nb: o sup.º P2 do Público dedicou-lhe uma reportagem ontem, pela mão de Joana Amaral Cardoso (p. 10/11); a imagem foi retirada do próprio blogue.

    domingo, 4 de novembro de 2007

    Espanha e Portugal – o mesmo dever da memória


    As Cortes espanholas aprovaram no passado 31 de Outubro a Lei da Memória Histórica que reabilita as vítimas da ditadura franquista.

    A Assembleia da República tem para votação, desde 30 de Março deste ano, uma Resolução que nessa sexta-feira foi discutida em plenário sem oposição de nenhum grupo parlamentar.

    Esta Resolução, cujo parecer coube ao deputado Marques Júnior, foi suscitada por uma Petição apresentada pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! (NAM!). Se querermos insistir em desnecessárias comparações, julgamos que é tempo do Estado português, representado na Assembleia da República, tomar uma posição de reconhecimento público e histórico sobre a resistência à ditadura do Estado Novo.

    Espaço de memória na sede da ex-PIDE/DGS (Rua António Maria Cardoso)

    O NAM! criou-se a partir de uma manifestação de protesto pela destruição da antiga sede da polícia política salazarista, sem que naquele edifício da “Antónia Maria Cardoso”, em Lisboa ficasse qualquer memória do que ele significou de abnegação e de sacrifício por parte dos milhares de cidadãos que ali foram interrogados, torturados pelos esbirros do fascismo português, designados por “pides” ou “bufos”, até à morte, em alguns casos.

    A partir daí foi possível criar uma base de trabalho com a Câmara Municipal de Lisboa e com o promotor imobiliário do novo edifício, no sentido de preservar, num espaço apropriado, a luta pela democracia, que aquele lugar também personifica. As conversações principiaram em 10 de Abril de 2006, tiveram algum desenvolvimento e permitiram delimitar o espaço destinado ao memorial, mas foram interrompidas pelas recentes eleições intercalares para o executivo camarário.

    O NAM! entendeu que passados quatro meses sobre a eleição do novo executivo (1/8/07) era tempo de reatar as conversações e solicitou uma audiência ao novo presidente do município, António Costa.

    O pedido foi prontamente anuído e na passada terça-feira, 30 de Outubro, uma delegação do Movimento foi recebida pelo Dr. António Costa. A audiência prolongou-se por mais de uma hora e permitiu repor na agenda que o NAM! tem com a CML a necessidade de preservar a memória da resistência na Rua António Maria Cardoso e, também, de noutros locais e de outros modos que nos assegure que as novas gerações não esquecerão o que foi a luta pela democracia em Portugal.

    António Costa afirmou o seu empenho e o do seu executivo em colaborar com os fins do NAM! e referiu, em resposta à exposição que lhe fora feita por Fernando Vicente, coordenador do Grupo de Trabalho da “António Maria Cardoso”, ser lógico que a CML assumisse a propriedade do espaço no imóvel destinado ao memorial como um seu condómino. Considerou, em princípio, que o desenho museológico desse memorial poderia vir a ser feito pelo NAM!, se assim o entendêssemos. Assumiu o compromisso de vir e a estudar com a restante vereação e respectivos serviços a melhor forma de poder ajudar na concretização do projecto. Assegurou que a CML iria em breve indicar ao NAM! um interlocutor para este assunto.

    A reunião permitiu abordar outros aspectos da afirmação do dever da memória no município de Lisboa, pondo Raimundo Narciso, que fazia parte da delegação, a tónica na organização temática dos “roteiros” que permitam a realização de passeios históricos nos lugares da cidade onde a defesa da democracia implicou a prisão, o espancamento e a morte. Em complemento a esta proposta frisou a necessidade deste conhecimento do passado fazer parte dos curricula escolares, designadamente das escolas que estão a cargos da CML. Pôs ainda na agenda a possibilidade de o NAM! vir a usufruir de uma sede num dos edifícios que a CML lhe possa disponibilizar. Esta foi uma proposta que António Costa considerou merecer reflexão, bem como a que fizera o terceiro elemento da delegação, Duran Clemente, quando deu conta da possibilidade dos lugares da resistência ficarem assinalados com lápides, como a colocada no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, por iniciativa do NAM!, a 6 de Dezembro de 2006, recordando que ali funcionaram os “Tribunais Plenários”, um arremedo de justiça, na realidade extensão do braços repressivo da PIDE/DGS.

    A prisão do Aljube – Museu da Liberdade e Resistência

    O NAM! recorda que no passado 19 de Outubro teve uma outra audiência com o ministro da Justiça, Alberto Costa, a terceira com este titular, que teve por objecto a conversão do edifício da antiga prisão do Aljube, em Lisboa, num Museu da Liberdade e Resistência ou num pólo destacado de uma rede de Museus nacionais sobre este tema.

    A conversa decorreu de modo francamente coloquial, com o Dr. Alberto Costa a referir o seu empenho de cidadão na concretização desse objectivo, mas recordando que a propriedade do imóvel era do Ministério das Finanças, que podia ter outros desígnios para aquele espaço. Acrescentou, no entanto, que enquanto ele estivesse afecto ao Ministério da Justiça e ele fosse o seu titular tinha uma total disponibilidade para encontrar com o NAM! um lugar condigno para a instalação desse museu, que ele também considerava necessário no Portugal democrático.

    No decorrer da conversa foram avaliadas as possibilidades de transformação do antigo Aljube num espaço museológico, tendo o ministro avançado com duas hipóteses a considerar:

    1. Através da constituição de uma fundação tendo o NAM! como referência estatutária, com o objectivo específico de criar e gerir o futuro museu. Nesse caso o papel do Estado seria unicamente o de ceder o espaço para o efeito;
    2. Ou assumir esse papel de instalação do museu através do Ministério da Cultura. Considerou, nesse caso, que o NAM! deveria projectar-se como um assessor privilegiado de consulta e aconselhamento na realização do projecto.

    No decurso da audiência foi levantada a possibilidade de ali vir a instalar-se a sede do NAM! , proposta que o ministro considerou de ponderar, para ela muito contribuindo a decisão governamental de transformar ou não o Aljube num pólo museológico “Resistência e Liberdade”.

    Tarrafal – colóquio internacional em 2009

    Passou no passado 29 de Outubro mais um aniversário sobre a instalação em cabo Verde do “campo da morte lenta” do Tarrafal, um campo de concentração criado em 1936 pelo Estado Novo, para aí poder isolar até ao fim os seus opositores mais determinados.

    Vale a pena referir que a efeméride foi assinalada pela RTP2, com um documentário de qualidade, assinado por Fernanda Paraíso e produzido pela Take 2000. Através dele pudemos seguir os percursos e motivações de cinco antigos “tarrafalistas”: Sérgio Vilarigues, Josué Romão (entretanto falecidos) e de José Barata e Edmundo Pedro.

    O NAM! , através do Edmundo Pedro, seu membro desde a primeira hora, está a participar na organização de um colóquio internacional, a realizar no 1 de Maio de 2009, dia em que em no ano de 1974 uma manifestação popular fechou o presídio do Tarrafal e de lá libertou os derradeiros presos dos movimentos independentistas africanos, lá detidos desde 1961.

    Este colóquio está a ser concebido com o apoio do Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, e do Ministério da Cultura de Portugal. Tem como seus principais impulsionadores Edmundo Pedro e Pedro Martins, arquitecto cabo-verdiano a residir em Nova Iorque, ambos antigos presos do Tarrafal.

    António Melo

    Alexandre Babo in memoriam (1916-2007)

    Faleceu esta sexta-feira o antifascista Alexandre Babo, aos 91 anos de idade. O seu féretro está hoje em câmara-ardente na Igreja Paroquial da Parede e o funeral realiza-se amanhã.
    Alexandre Babo nasceu em Lisboa a 30/9/1916. Em 1933 ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa e em 1936 entrou para a Maçonaria, militando na Acção Anticlerical e Antifascista e no Bloco Académico Antifascista, onde lutou contra o salazarismo.
    Com Amaral Guimarães e Abílio Mendes fundou as Edições Sirius, em 1941, que deram uma relevante contribuição cultural. Após a guerra, muda-se para Paris, como delegado da revista Mundo Literário.
    Tornou-se militante do PCP desde 1943, tendo também participado no Socorro Vermelho, uma organização ligada à Internacional Comunista. Como advogado interveio em defesa de presos políticos nos julgamentos do Tribunal Plenário do Porto. Fez parte do Conselho do Porto do MUD e da Comissão Distrital da Campanha do General Norton de Matos, em 1948/9.
    Foi co-fundador e director do Círculo de Cultura Teatral e do Teatro Experimental do Porto, tendo neste convidado António Pedro para encenador. Em 1959 saiu do TEP para fundar o Teatro Moderno, com Luís de Lima e Fernando Gaspar, sediado no Clube dos Fenianos, também no Porto. Várias das suas peças foram proibidas e apreendidas pela censura salazarista, nomeadamente Estrela para um epitáfio (1961) e Jardim público (1972), bem como os seus livros de contos Autobiografia (1957) e Sem vento de feição (1972).
    Em 1960 muda-se para Londres, como correspondente do Jornal de Notícias e colaborador da BBC. Em 1964 regressa ao país, e funda O Palco Clube de Teatro, em Lisboa.
    Em 1973 é um dos fundadores da Associação Portuguesa de Escritores (APE), tendo sido sócio da sucessora SPA desde 1977. Co-fundou ainda a Liga para o Intercâmbio Cultural Social Científico com os Povos Socialistas, a Associação Portugal-URSS e a Associação Portugal-RDA.
    Foi colaborador regular das secções literárias de várias revistas e jornais. Entre a sua vasta obra literária, destacam-se as suas peças teatrais, os seus textos de crítica teatral e os livros autobiográficos Recordações de um caminheiro - entre duas guerras (1984), Recordações de um caminheiro - a longa espera (1993), Carlos Babo: o espírito da resistência (1995) e No meu tempo (1999).
    Fontes principais: Infopedia, SPA e Urbano Tavares Rodrigues («Alexandre Babo escritor e revolucionário», in Avante!, n.º 1386, 21/6/2000). Nb: imagem retirada daqui.

    quinta-feira, 1 de novembro de 2007

    O Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória!" vai transformar-se!


    O Último Plenário (13º) em resumo:

    No 13º Plenário do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!, realizado a 20 de Outubro de 2007, foi aprovada a transformação do Movimento em Associação.

    A proposta que consubstancia os termos deste processo, apresentada pelo Grupo de Ligação, estabelece os seguintes pontos:

    1 – Apresentar, até 15 de Dezembro, através da lista TODOS, um projecto de estatutos, um projecto de regulamento interno e um projecto de regulamento eleitoral da futura associação que salvaguardem os princípios e objectivos da Carta do Movimento, favoreçam a máxima participaçăo de todos os seus membros e preservem, tanto quanto possível, a melhor prática que já é património do Movimento.

    2 – Apresentar até 15 de Fevereiro de 2008, ao plenário, beneficiando do debate realizado, uma versão definitiva daqueles três projectos, previamente divulgada pela lista TODOS.

    Por proposta do Núcleo do Porto foi também aprovado, no mesmo Plenário, a constituição de uma Comissão Instaladora responsável pela elaboração dos projectos supra referenciados.

    Esta Comissão é constituída por:
    - Ana Gaspar
    - Fernando Vicente
    - Jorge Martins
    - José Luís Villalobos Filipe
    - José Machado de Castro ( Núcleo do Porto)
    - Lúcia Ezaguy Simões
    - Manuel Macaísta Malheiros
    - Paula Cabeçadas
    - Raimundo Narciso

    quarta-feira, 31 de outubro de 2007

    IX Curso Livre de História Contemporânea - "História, Memória e Democracia - Portugal/Espanha"


    Sob o lema "História, Memória e Democracia - Portugal/Espanha" decorre entre 12 e 17 de Novembro de 2007 o IX Curso de História Contemporânea, organizado pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova de Liboa e a Fundação Mário Soares.

    Do folheto da Organização, salientamos o propósito do tema deste ano: "O tema escolhido prende-se com o propósito dos organizadores abordarem a forma como, em ambos os países, onde o assunto é tão actual, é tratada a história da luta pela conquista da liberdade e da democracia e salvaguardada a sua memória, pelos poderes instituídos e pela sociedade civil."

    Programa:

    12 de Novembro - 2ª feira - 14.30 - Abertura do Curso
    Reitor da UNL
    Director da FCSH,
    Presidente da FMS
    Presidente do Instituto de História Contemporânea

    15.30 - Lição inaugural - Prof. Doutor Fernando Rosas - Director científico do Curso

    16.15 - Debate

    13 de Novembro - 3ª feira -Transição pactuada e Memória dos Vencidos em Espanha

    15.00 - Apresentações
    Prof.ª Carme Molinero - Universidade Autónoma de Barcelona
    Prof. Ismael Saz – Universidade de Valencia

    17.00 - Pausa

    17.10 - Prof. Julian Casanova – Universidade Saragoça

    17.50 - Comentador: Prof. Doutor Manuel Loff, F.L. Universidade do Porto

    18.30 - Debate

    14 de Novembro - 4ª feira - Memória e História da Ditadura no Portugal democrático

    15.00 - Apresentações
    Prof. Doutor Luís Reis Torgal – F. L. da Universidade Coimbra

    Prof. Doutor António Costa Pinto – Instituto de Ciências Sociais

    Dr. José Pacheco Pereira - ISCTE

    17.00 - Pausa

    17.10 - Comentador: Prof. Joseph Sanchez Cervelló – Universidade Rovira Y Virgil, Tarragona

    17.50 - Debate

    15 de Novembro - 5ª feira - Ditadura e Resistência – Os Arquivos da Memória

    15.00 - Mesa-Redonda
    Dr. Silvestre Lacerda – Director do IAN – Torre do Tombo
    Dr. José Ramón Cruz Mundet – Subdirector Geral de Arquivos de Espanha
    Dr. Alfredo Caldeira – Administrador do Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares
    Dra Natércia Coimbra - Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra

    17.00 - Pausa

    17.10 - Comentador: Prof.ª Doutora Irene Pimentel (IHC /FCSH/UNL)

    17.30 - Debate

    16 de Novembro - 6ª feira - Memória da Resistência. Os testemunhos

    15.00 - Testemunhas
    Edmundo Pedro (“Não Apaguem a Memória”)
    Aurélio Santos (U.R.A.P.)
    Raul Morodo
    Santiago Carrillo
    Mário Soares

    17.30 - Debate

    17 de Novembro - Sábado

    10.00 - Mesa-redonda - Políticas para a Memória
    (Representantes das opiniões políticas com assento parlamentar – PS, PSD, PCP, PP e BE)

    11.40 - Debate

    12.40 - Encerramento do Curso Livre

    Lei da memória histórica foi aprovada em Espanha

    O parlamento espanhol aprovou hoje a Lei da memória histórica, em reconhecimento das vítimas do franquismo (em especial as da Guerra Civil de Espanha) e condenando esse regime como anti-democrático e usurpador do poder legítimo (vd. noticiário no diário espanhol Público). O respectivo anteprojecto fora aprovado em Julho passado, tal como então referimos neste post, em colaboração com o historiador Daniel Lanero Táboas.
    Do lado positivo, destacam-se 9 pontos: 1) a condenação do franquismo, enquanto regime usurpador do poder democrático legítimo e opressor do povo espanhol (de acordo com o aprovado pela Comisión Constitucional del Congreso, em 2002, e pelo Conselho da Europa, em 2006); 2) a valorização da memória pública das vítimas da Guerra Civil de Espanha que lutaram pela defesa dos valores democráticos; 3) a ilegitimidade dos julgamentos franquistas relativos à Guerra civil; 4) a retirada dos símbolos franquistas de monumentos públicos e das igrejas (salvo se atentarem contra a integridade artística religiosa desses espaços), sob pena de suspensão de subsídios oficiais a essas entidades; 5) a proibição de celebrações políticas no Vale dos Caídos; 6) a possibilildade de concessão de indemnizações às vítimas caídas em nome da defesa da democracia; 7) a integração do Archivo General de la Guerra Civil de Salamanca no novo Centro Documental de la Memoria Histórica, tb. sediado naquela cidade; 8) a posibilidade de concessão da nacionalidade espanhola aos descendentes até ao 1.º grau de quem perdeu a nacionalidade espanhola pelo exílio, em consequência da Guerra civil ou da ditadura franquista; 9) facilidade de localização das fossas comuns e de identificação das vítimas do franquismo pelas autoridades públicas.
    Do lado negativo, ressaltam 4 aspectos principais: 1) a não revisão dos processos judiciais franquistas ligados à Guerra civil; 2) as dificuldades na reabertura de fossas comuns de vítimas da repressão (os custos não são cobertos pelo Estado); 3) o futuro estatuto do monumento franquista Vale dos Caídos (que se mantém sem remoção da simbologia franquista); 4) o modo de se proceder à indemnização das vítimas.
    Para uma reflexão mais aprofundada sobre esta importante questão recomenda-se a leitura do post "A «Ley de la memoria histórica», por Daniel Lanero Táboas" e das notícias "Las diez claves de la nueva ley" e "El Congreso aprueba la Ley de Memoria Histórica", ambas do diário espanhol Público.
    Nb: imagem icónica do assassínio de defensor republicano durante a Guerra Civil de Espanha, vítima de disparos por fiéis aos nacionalistas de Franco (foto de Robert Capa).

    Petição anti-Museu Salazar com 16 mil assinaturas será entregue na AR a 5 de Novembro

    Uma petição contra o «Museu Salazar», organizada pela URAP, recolheu 16 mil assinaturas até 30 deste mês, informa hoje esta organização no seu site oficial.
    Este museu foi projectado para Santa Comba Dão, ao arrepio das deliberações camarárias, com prejuízo para o erário público e albergaria bens do ditador, fazendo prever um museu apologético (ou, no mínimo, nostálgico) do regime deposto.
    Após contestação pela opinião pública, o projectado «Museu Salazar» foi entretanto 'maquilhado' como «Centro Documental Museu e Parque Temático do Estado Novo», sem que tenham sido alterados os pressupostos iniciais.
    A petição será entregue pela URAP no Parlamento no próximo dia 5 de Novembro, às 16h.

    segunda-feira, 29 de outubro de 2007

    Encontros em lugares de Memória da Resistência - “Sem memória não há futuro”


    Dia 27 decorreu a 2ª sessão de Encontros em Lugares de Memória da Resistência organizada pelo núcleo do Porto do Não Apaguem a Memória!

    O jornalista Victor Melo do jornal 1º de Janeiro esteve presente e publicou o artigo que transquevemos:

    O Movimento Não Apaguem a Memória! promoveu um encontro no Café Ceuta para ouvir relatos de protagonistas da luta contra a ditadura. Histórias de sofrimento contadas na primeira pessoa, num dos locais onde a liberdade era respirada, clandestinamente.

    Sexta-feira, 24 de Março de 1967

    Um tiro cruza a estrada e rebenta um dos pneus do velho Mini Morris, arrastando o veículo e os seus quatro ocupantes por uma ribanceira de 30 metros. Após uma queda revoltosa, imobiliza-se, capotado e em chamas. Dois dos ocupantes conseguem sair e retirar um outro por uma das exíguas janelas do já por si exíguo automóvel. O quarto ocupante, preso por um dos bancos, morreu queimado.

    Jorge Pires recupera os sentidos deitado no alcatrão, com a visão de centenas de jornais a esvoaçar pela estrada. E foi precisamente com esses papéis e palavras proibidas a pairar à sua volta que seria algemado por dois agentes da PIDE, moribundo, ainda a ouvir os gritos de agonia do seu amigo a ser devorado pelas labaredas.

    Com 21 anos, estudante do segundo ano da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e acabado de aderir ao partido comunista, tinha arrancado do Porto com destino a Lisboa. O carro foi interceptado na estrada nacional em Arrifana, perto de Santa Maria da Feira. Na bagageira seguia uma mala com centenas de jornais do Avante. “Na altura eram jornais clandestinos, proibidos. Bastava ser apanhado com um na mão para ser interrogado ou até preso”. As publicações eram impressas em tipografias sombrias, clandestinas, secretas. “Quando impressos no norte, eram distribuídos no sul ou vice-versa”.

    O jovem estudante permaneceu hospitalizado durante quatro meses, sob ordem de prisão. “Era surreal, eu cheio de gesso dos pés à cabeça, a ser interrogado na enfermaria pelos agentes da PIDE, munidos de máquinas de escrever e ávidos por respostas”, recorda.

    Em fins de Novembro é enclausurado nos calabouços da PIDE no Porto. Ali permanece, sem direito a visitas, tratamento hospitalar, ler ou escrever. Isolado do mundo sem nada mais do que a companhia omnipresente da luz acesa. Todos os dias descia da “tarimba” e caminhava, passos sem fim num espaço de três metros por dois. “Percorria aquilo de trás para a frente”, contando as vezes que fazia essa “viagem”. “Era a única forma de combater o stress”.
    Recorda vividamente a espinha de bacalhau que lhe foi servida na cela na véspera de Natal, o balde dos dejectos, “as frias paredes de pedra, de branco sujo, com uma janela minúscula, gradeada, quase junto ao tecto”. Longe da vista, mas perto dos ouvidos. “Era angustiante. Ouvia o ruído dos carros, as pessoas a passarem na rua. Que dor era sentir o quotidiano das pessoas, indiferentes à minha presença naquela cela, à injustiça do meu cativeiro”.

    A reminiscência é de Jorge Pires, 62 anos, professor de Filosofia e Psicologia e membro da Assembleia Municipal de Torres Vedras. As suas palavras são ouvidas no Café Ceuta, “local de inúmeras conversas secretas até às tantas da manhã, sempre na mira dos bufos fascistas”, no âmbito da iniciativa «Encontros em lugares de Memória da Resistência», protagonizada pelo núcleo do Porto do movimento «Não Apaguem a Memória!». Trata-se de um movimento cívico que visa a preservação da memória histórica das lutas de resistência à ditadura, promovendo encontros em lugares emblemáticos dessa resistência.

    Tarrafal: foi há 70 anos que aí chegaram os primeiros presos políticos (documentário)

    Um documentário sobre o campo de concentração do Tarrafal será exibido hoje na RTP2, às 23h30, precisamente no dia da chegada dos primeiros presos políticos ao seu interior. Chama-se Há setenta anos, o Tarrafal - os últimos sobreviventes, a autoria é de Fernanda Paraíso, e a produção cabe à Take 2000. Eis o resumo oficial do mesmo:
    "Um documentário que assinala os 70 anos da chegada dos primeiros presos políticos ao Tarrafal A 29 de Outubro celebra-se a chegada dos primeiros 152 presos políticos ao campo de concentração do Tarrafal. Este documentário biográfico recolhe o testemunho de cada um dos cinco últimos sobreviventes do campo, nascidos entre 1914 e 1918 e que, com idades entre os 17 e os 20 anos, foram enviados para a chamada «colónia penal» onde passaram o melhor da sua juventude.
    Cinco percursos paradigmáticos partilham o idealismo que vai conduzir estes jovens a cruzar os seus destinos no campo de concentração do Tarrafal...".

    domingo, 28 de outubro de 2007

    Andrée de Jongh in memoriam (1916-2007)


    A condessa Andrée de Jongh, Dédée nos anos de resistência contra a ocupação nazi durante a 2ª Guerra Mundial, morreu no passado dia 13 num lar de terceira idade em Bruxelas.

    Andrée foi uma heroína da luta contra as forças do Terceiro Reich.

    A invasão da Bélgica em 1940 foi rápida e decisiva e a maior parte do país tolerou os ocupantes. Houve quem não o fizesse, porém, e com grande sacrifício e risco da própria vida, como o pai de Andrée, fuzilado depois de um julgamento sumário.

    O que levou homens e mulheres a procederem contra a prudência colaboracionista dominante foi um imperativo moral simples que Andrée de Jongh descreveu assim: “Quando a guerra foi declarada eu sabia o que precisava de ser feito. Não houve uma hesitação. Não podíamos parar o que tínhamos a fazer, embora soubéssemos o custo. Mesmo que o preço fosse as nossas vidas, tínhamos de lutar até ao último alento.”

    A acção a que Andrée se dedicou foi a recolha, abrigo e transporte até Espanha de militares aliados encontrados em território ocupado.

    Entre 1941 e 1944, esta linha de evacuação, conhecida por Linha Cometa, salvou quase 700 aviadores aliados.

    Até ser traída e presa em 1943 pela Gestapo no país basco francês, Dédée organizou e conduziu até ao norte de Espanha muitos homens cujas vidas foram assim salvas.

    Depois da guerra, Andrée de Jongh, libertada de um campo de concentração alemão, recebeu a mais alta condecoração dada a estrangeiros na Grã-Bretanha, a medalha da Liberdade dos Estados Unidos da América, a Legião de Honra e a Cruz de Guerra belga.

    Pouco depois, partiu para como enfermeira para uma leprosaria no Congo Belga e, anos mais tarde, para outra na Etiópia.

    Só as maleitas da velhice a fizeram voltar à Bélgica.

    É bom lembrar-nos dela.

    Não podemos esquecer que um quarto da população alemã acha, hoje, que Hitler, afinal, também tinha o seu lado bom.

    Fonte: José Cutileiro no Expresso de 27/10/2007

    terça-feira, 23 de outubro de 2007

    Genealogia dos movimentos de libertação africana

    No âmbito do seminário permanente Comunismos: História, Poética, Política e Teoria, organizado pelo Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE, sob coordenação de João Arsénio Nunes e José Neves, realiza-se na próxima quinta-feira, 25 de Outubro, uma sessão com António Tomás, dedicada ao tema "Entre Movimento Negro e Marxismo: Genealogia dos Movimentos de Libertação da África Lusófona". A sessão terá início às 17.30h no Auditório Silva Leal do ISCTE (Ala Autónoma).
    António Tomás, doutorando em antropologia pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque, é antropólogo e jornalista. Colabora regularmente com jornais angolanos, como o Jornal de Angola e o Angolense. É autor do livro "O Fazedor de Utopias - Uma Biografia de Amílcar Cabral", que as Edições Tinta-da-China acabam de publicar.
    Imagem: Amílcar Cabral (retirada daqui).

    segunda-feira, 22 de outubro de 2007

    Lançamento do Livro "A História da PIDE"


    No próximo dia 30 de Outubro, às 18,30 horas, realiza-se na Torre do Tombo, em Lisboa, o lançamento do livro de Irene Pimentel A História da Pide.

    O livro será apresentado pelo historiador José Medeiros Ferreira.

    A História da PIDE é o resultado do trabalho de investigação que, durante quase seis anos, Irene Pimentel levou a cabo na Torre do Tombo e de que resultou a sua tese de doutoramento, agora publicada em livro pelas editoras Círculo de Leitores e Temas e Debates.

    Sobre este trabalho, Irene Pimentel declarou ao Jornal de Notícias a 18 de Outubro:

    "Sou de uma geração que viveu o tempo da PIDE. Era algo que gostava de perceber melhor para ajudar a eliminar os mitos e ver como funcionava. O que mais me surpreendeu nesta investigação foi a quantidade de informadores com que a antiga polícia política do Estado Novo podia contar. Na verdade nunca se chegará a saber o número exacto já que parte significativa desses registos foi destruída.

    É um lado impressionante da sociedade portuguesa que por si só merecia um trabalho de investigação. Acho que ainda não fez o luto desta realidade."

    domingo, 21 de outubro de 2007

    As lágrimas de Edmundo Pedro no regresso do Tarrafal


    A 17/09/2007, o jornalista Fernando Peixeiro do Diário de Notícias, publicou este artigo a propósito da última visita de Edmundo Pedro a Cabo Verde:


    "Edmundo Pedro, antifascista e antigo preso político, soube que a ministra da Cultura ia estar três dias a visitar a ilha de Santiago, Cabo Verde, e meteu-se no mesmo avião para a acompanhar no dia que fosse ao antigo campo de concentração do Tarrafal.


    Pagou do seu bolso uma viagem e estada para ir dizer que é preciso não deixar que a colónia penal fique abandonada, que deve ser construído ali um museu da resistência, e chorou quando recordou os quase 10 anos amargos que lá passou.


    A iniciativa deste homem, de 89 anos, apanhou de surpresa a comitiva de Isabel Pires de Lima, que só soube do acompanhante já no avião de Lisboa para a Praia, capital de Cabo Verde.


    Agastado com o alto preço da viagem, Edmundo Pedro era ainda assim um homem convicto, à chegada, como de resto foi toda a vida. "Quero aproveitar a presença da ministra para a sensibilizar. Quero que ajude a preservar algo que faz parte da história contemporânea, que ajuda a caracterizar o antigo regime e que está cada vez mais esquecido", disse. Edmundo Pedro tem um sonho: fazer da antiga colónia penal do Tarrafal, mandada construir por Salazar para alojar presos políticos e que funcionou entre 1936 e 1954, num museu, porque "o que lá está agora é uma caricatura de museu".


    Na Cidade da Praia, o antigo "tarrafalista" foi recebido pelo Presidente da República, Pedro Pires, de quem é amigo e com quem comunga da mesma ideia: o Tarrafal, agora apenas o que resta dos edifícios e um pequeno centro de interpretação, à entrada, que explica como funcionou a prisão, deveria ser transformado num centro de convívio da CPLP, um local de amizade e um museu a sério, com testemunhos e objectos que fizeram a história do campo de concentração. Preso por ser do PCP, hoje filiado no PS, Edmundo Pedro diz também que toda a herança do Tarrafal tem sido monopolizada pelos comunistas e adianta que o campo de concentração tem de ser visto numa perspectiva nacional e não partidária. E se Pedro Pires quer promover, em Cabo Verde, um grande fórum sobre campos de concentração que o faça depressa. E se querem fazer um museu a sério que seja rápido. Edmundo Pedro tem muitos documentos e até a cópia de uma máquina de cortar tabaco feita por Bento Gonçalves, antigo secretário-geral do PCP que morreu no Tarrafal. Mas ele, Edmundo Pedro, tem também 89 anos e a certeza que poucos lhe restam para "contribuir para que a memória do Tarrafal não se apague". Mas não parece. Quando, com os ministros da Cultura de Portugal e Cabo Verde atravessa o portão de entrada do campo é como se voltasse a ter outra vez 17 anos, a 1936.


    Num desenho do campo dessa altura aponta a segunda tenda de uma fila dupla, como sendo a sua (antes dos pavilhões terem sido construídos). Depois, na antiga cozinha, lembra o dia em que se reuniram ali 140 homens, a preparar uma fuga em massa, enquanto ele vigiava os guardas, ainda assim não impedindo que fossem descobertos e a tentativa abortada. Cá fora, ao sol, recorda a fuga mais espectacular e rocambolesca que protagonizou com o pai e mais três companheiros. A tentativa de fuga de barco, a perseguição, as peripécias, até serem apanhados finalmente. Edmundo Pedro conta tudo com pormenores, incluindo o castigo, 70 dias na "frigideira", uma construção sem janelas onde os presos quase "fritavam". "Chegava aos 50 graus", recorda, como recorda que estiveram três dias sem beber e que quando lhe deram um balde de água também não puderam matar a sede "porque a língua tinha inchado de tal maneira que ocupava a boca toda". Depois lembra a tentativa de suicídio do pai, as mortes frequentes de presos (assistiu a 32 óbitos) ou aponta o local dos ganchos onde eram atados os presos para serem chicoteados."Tenho uma recordação muito viva e trágica: foi a morte da minha grande referência ainda hoje, um grande amigo." Debaixo de uma árvore, Edmundo Pedro volta a ter 89 anos quando lembra a convivência, ali, com Bento Gonçalves."Chorávamos pelos que se iam embora e até por nós. Eu via passar os anos, via morrer os meus companheiros. Tive momentos em que chorei, às escondidas do meu pai. Mas é natural que se chore."


    E por ser natural, 71 anos depois, 65 anos e dois dias depois da morte de Bento Gonçalves, Edmundo Pedro voltou a chorar no Tarrafal. Pelos que morreram mas também por ele."

    sexta-feira, 19 de outubro de 2007

    Audiência do Movimento com o Ministro da Justiça

    Conforme estava agendado, realizou-se dia 17 de Outubro a 3.ª audiência do NAM com o Sr. Ministro da Justiça, Alberto Costa.

    Nesta audiência o NAM fez-se representar por 5 elementos, 3 do Grupo de Trabalho do Aljube e 2 do Grupo de Ligação.

    Uma vez mais foram expostos ao Sr. Ministro os nossos objectivos para que a antiga cadeia do Aljube venha a albergar um dos pólos do Museu da Resistência e da Liberdade. O Sr. Ministro referiu que o edifício do Aljube sendo da tutela do Ministério das Finanças, estava afecto ao Ministério da Justiça e que, por sua vontade, não o desafectaria enquanto não surgisse um projecto museológico que salvaguardasse a memória daquele espaço.

    Foram durante a audiência aventadas pelo Sr. Ministro duas hipóteses de concretização do projecto:

    1. ou através da constituição de uma fundação com o NAM como fundador e com o objectivo específico de criar e gerir o futuro museu, cedendo o Estado unicamente o espaço para o efeito;

    2. ou a assunção pelo Ministério da Cultura do projecto de constituição do museu, a expensas estatais na qual o NAM teria a função de consulta e aconselhamento. Foi por nós referido ao Sr. Ministro que era esta última, no entender do NAM, a hipótese que nos parecia mais correcta, porquanto entendemos que o Estado tem de cumprir o DEVER DE MEMÓRIA.

    Quanto à pretensão do NAM em ocupar uma parte do edifício do Aljube para o seu funcionamento, foi-nos comunicado que isso seria uma questão a ponderar, dependendo da decisão governamental de transformar ou não o Aljube no Pólo Museológico – Resistência e Liberdade.

    quinta-feira, 18 de outubro de 2007

    Encontros em lugares de Memória da Resistência - 2ª sessão


    O núcleo do Porto do movimento Não Apaguem a Memória!, movimento cívico que visa a preservação da memória histórica das lutas de resistência à ditadura, promove os Encontros em Lugares de Memória da Resistência, esperando que as histórias contadas pelos protagonistas das acções de resistência anti-fascista venham enriquecer a nossa memória colectiva do fascismo.

    Contando com os testemunhos dos que participaram nas lutas informais e nas actividades promovidas por associações de todo o tipo, como colectividades culturais, entidades cooperativas, organizações de jovens trabalhadores e associações estudantis, o Movimento Não Apaguem a Memória! convida todos quantos frequentaram os lugares simbólicos dessas acções.

    Tendo-se iniciado este ciclo de tertúlias no café "Piolho", apelamos agora à sua participação activa, no próximo sábado, 27 de Outubro, às 15.30h no café CEUTA, local onde se realiza o segundo encontro.

    O Núcleo do Porto do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!

    quarta-feira, 17 de outubro de 2007

    Os despojos da Aliança

    O livro Os despojos da Aliança. A Grã-Bretanha e a questão colonial portuguesa (1945-1976), do historiador Pedro Aires Oliveira, será lançado na próxima 6.ª feira, às 18h, na Casa Fernando Pessoa. O discurso de apresentação cabe a José Medeiros Ferreira.
    A obra, editada pelas edições Tinta da China, é uma versão da sua tese de doutoramento e aborda as relações diplomáticas entre Portugal e Reino Unido na fase do ocaso sangrento do colonialismo português.
    Mais informações aqui.

    terça-feira, 16 de outubro de 2007

    13º Plenário do Movimento "Não Apaguem a Memória"

    Por decisão do 10º Plenário do NAM coube ao Grupo de Ligação (GL) apresentar uma proposta quanto ao modelo de institucionalização do Movimento, nomeadamente se deveria constituir-se enquanto Associação ou na base de um outro formato institucional. Entendeu o GL ser adequado ouvir a opinião de pessoas, com experiência e conhecimento neste particular, tendo sido ouvidos os companheiros Macaista Malheiros e Alfredo Caldeira.

    Ao termo da discussão, diante dos argumentos expostos, houve convergência quanto à opção pelo modelo de Associação que apresentaria vantagens indiscutíveis em termos de facilidade e custo.

    Começou, então, a ser discutida, no âmbito do GL, uma proposta elaborada pelo companheiro Martins Guerreiro que apresentava as bases de um modelo de Associação que visava sobretudo salvaguardar, tanto quanto possível, a forma de funcionamento deste movimento cívico, tal como foi aprovada na sua Carta (Plenário soberano, grupos de trabalho, núcleos locais/regionais, etc).

    Nos últimos quatro meses esta proposta foi debatida no âmbito do GL. Porém, de forma a respeitar a decisão soberana do Plenário entendeu o GL dever apresentar, em Plenário, um texto sintético (que circulou pela Lista TODOS) pois haveria que saber, em primeiro lugar, se seria aprovada a transformação do NAM em associação antes de elaborar o seu modelo de organização e de funcionamento, consubstanciado num projecto de Estatutos.

    No último Plenário teve início este debate que será prosseguido no próximo.
    Dado que está em jogo o futuro do Movimento fazemos um apelo à participação a mais ampla possível dos apoiantes do NAM que representam actualmente quase 600 pessoas.

    A Ordem de Trabalhos do 13º Plenário do Movimento Não Apaguem a Memória! é a seguinte:

    1. Aprovação da Acta do Plenário anterior.
    2. Discussão e votação da eventual transformação do Movimento em Associação.
    3. Medidas decorrentes da decisão aprovada no ponto anterior.
    4. Marcação do próximo Plenário.


    A Mesa do Plenário
    O Grupo de Ligação

    Lembrar Adriano - "Há Sempre Alguém que resiste"


    De 16 a 20 de Outubro decorre, na Voz do Operário, em Lisboa, uma Homenagem a Adriano Correia de Oliveira, a propósito dos 25 anos do seu desaparecimento.

    Esta homenagem decorre sob o lema Há Sempre alguém que resiste.

    A Comissão Promotora é composta pelos Amigos de Adriano a que se juntaram:
    S.I.B. “A Voz do Operário”
    CGTP-IN
    Confederação Portuguesa das Colectividades
    Junta de Freguesia de São Vicente de Fora
    PCP- Organização Regional de Lisboa
    Centro Cultural Regional de Santarém

    Programa:
    Dia 16 de Outubro 18:30h:

    - Sessão Solene e Inauguração da Exposição sobre Adriano Correia de Oliveira (Presenças: Presidente da CML/Comissão Promotora/Familiares)

    Poesia por: Maria do Céu Guerra, José Fanha e Carlos Paulo.

    19:30h - Jantar de Confraternização

    21:30h - Colóquio sobre a Vida e Obra de Adriano Correia de Oliveira, com a participação de Luís Cília, José Barata Moura, Lopes de Almeida, Vial Moutinho, Paulo Sucena, José Carlos Vasconcelos, Deolinda Bernardo, José Pires, Vítor Melancia, Tuna Académica de Lisboa.

    17 a 20 de Outubro: das 10h às 22h - Visitas guiadas à Exposição, para escolas, instituições e população interessada, animadas com pequenos espectáculos de música e poesia.

    20 de Outubro às 21:30h - Espectáculo Músical 25 Anos - 25 Canções Lembrar Adriano com a participação de Amélia Muge, Brigada Vítor Jara, Carlos Alberto Moniz, Fausto, Fernando Tordo, Francisco Fanhais, Janita Salomé, João Fernando, Luís Represas, Luísa Basto, Manuel Freire, Nuno do Ó, Paulo Saraiva, Paulo Vaz de Carvalho, Pedro Abrunhosa e Samuel.

    24 horas: Serenata com a participação do Grupo de Guitarra e Cantares de Coimbra e do Centro Cultural Regional de Santarém.

    O novo Museu do Neo-Realismo (guia de fontes sobre a resistência-II)

    O novo edifício do Museu do Neo-Realismo será inaugurado no próximo sábado em Vila Franca de Xira. Na mesma ocasião formaliza-se a doação de 3 espólios literários: os legados do escritor Orlando da Costa (Lisboa), do ensaísta e dramaturgo Mário Sacramento (Aveiro) e parte do espólio do escritor Alves Redol (V. F. de Xira). Os três foram resistentes ao salazarismo, tendo sido membros do MUD e militado no PCP. Estes espólios irão juntar-se a muitos outros, que começaram a ser aí depositados em 1991 (o 1.º foi o do escritor Manuel da Fonseca; vd. restantes aqui).
    Mostram-se então ainda 4 novas exposições: Batalha pelo conteúdo – Movimento neo-realista português (colectiva de iconografia, documentação e bibliografia); Uma arte do povo, pelo povo e para o povo – Neo-realismo e artes plásticas (colectiva de artes plásticas); The return of the real (ciclo de arte contemporânea); Sonhando para os outros (biobibliográfica de Arquimedes da Silva Santos).
    A cerimónia de inauguração contará com a presença do presidente da República e da ministra da Cultura. O novo edifício é da responsabilidade do arq. Alcino Soutinho. O Museu foi originalmente criado em 1990 para acolher um Centro de Documentação sobre o movimento neo-realista português. Foi depois reforçado com uma colecção específica de artes plásticas, a melhor do género existente no país.

    Serviços disponibilizados:
    >visitas orientadas às exposições e oficinas educativas
    >promoção de encontros, debates, conferências e colóquios
    >consulta e pesquisa bibliográfica e documental especializada
    >reprodução em fotocópia ou em meio digital de documentação
    >itinerância de exposições
    >edição e venda de publicações e catálogos

    Horário de atendimento ao público:
    >9h30-12h30, 14h-17h30 (2.ª a 6.ª feira)

    Contactos do Museu do Neo-Realismo:
    Rua José Dias da Silva, n.º 2, 2.º
    2600-169 Vila Franca de Xira
    Tel.: 263 285 600 (ext. 5870/ 5871/ 5872)
    E-mail: neorealismo@cm-vfxira.pt

    segunda-feira, 15 de outubro de 2007

    Lançamento do Livro "Timor na 2ª Guerra Mundial"







    Dia 18 de Outubro de 2007, pelas 18 horas, no Auditório da Fundação Mário Soares, O Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE e a Fundação Mário Soares apresentam o livro Timor na 2ª Guerra Mundial de António Monteiro Cardoso.







    A apresentação da obra ficará a cargo do Professor Doutor José Medeiros Ferreira e do Escritor Luís Cardoso.







    O Convite é assinado por Mário Soares e Maria Carlos Radich, em nome da Fundação e do CEHCP do ISCTE, respectivamente.








    António Monteiro Cardoso lecciona a cadeira de Direito da Comunicação Social na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa.

    Exerceu o cargo de Chefe de Gabinete do Secretário de Estado da Comunicação Social no Governo de António Guterres.

    É autor do romance Boas Fadas que Te Fadem e de obras de investigação no domínio da História e da Comunicação Social, nomeadamente do livro A Guerrilha do Remexido, em co-autoria com António do Canto Machado.

    É doutor em História Contemporânea pelo Instituto de Ciências Sociais do Trabalho e da Empresa (ISCTE).




    O livro relata, através do Diário do Tenente Manuel Pires, a resistência do povo timorense à invasão dos japoneses na II Guerra Mundial.


    Tomai lá do O'Neill

    O documentário que o realizador Fernando Lopes fez em 2004 sobre o poeta Alexandre O’Neill (1924-1986) passa hoje, finalmente, na RTP2 (às 23h45).
    Aborda a sua poesia e as histórias da sua vida, contadas por Antonio Tabucchi, Hellmut Wohl, Gérard Castello-Lopes, João Botelho e Afonso O’Neill, entre outros.
    Nas palavras do realizador: "Trata-se de um tributo pessoal (…). Trata-se, sobretudo, das vivências criativas, sentimentais e afectivas de um poeta, um dos maiores do nosso século XX, com quem tive o privilégio e conviver".
    Breves notas da sua biografia cívica
    Aos 23 anos, O'Neill foi um dos co-fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com Mário Cesariny, António Pedro, José-Augusto França, Vespeira, Moniz Pereira, António Domingues e Fernando de Azevedo, um movimento que se inspirou no movimento surrealista criado em 1924 pelo francês André Breton.
    Pela mão do maestro e compositor Fernando Lopes Graça e do seu grupo coral chamado Amizade (ligado aos movimentos juvenis da oposição), ele e Cesariny passam por várias colectividades do Barreiro para cantar ideais proibidos pelo regime salazarista. Como comentava O'Neill: "Politicamente, claro que era do contra: MUD juvenil". Nos anos 60 gritou contra o medo: "Penso no que o medo vai ter e tenho medo/ que é justamente/ o que o medo quer" ("Poema pouco original do medo", transcrito neste blogue aqui). Rebelou-se contra a "mediocridade do fascismo e do bota-de-elástico do Salazar", e inconformou-se com a passividade da maioria da sociedade, tendo então escrito um outro poema logo famoso, ao mesmo tempo amargurado e ácido:
    "Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
    golpe até ao osso, fome sem entretém,
    perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
    rocim engraxado,
    feira cabisbaixa,
    meu remorso,
    meu remorso de todos nós...
    " («Portugal», in Feira cabisbaixa, 1965).
    Fontes: RTP e aqui (inclui bibliografia e poemas).

    Ficha técnica do documentário
    «Tomai lá do O'Neill»
    Origem: Portugal - 2004
    Duração: 52m
    Realização: Fernando Lopes
    Fotografia: Rui Poças
    Com: Rogério Jacques, Rui Morrison, Antonio Tabucchi, Helmut Wohl, Gérard Castello Lopes, João Botelho, Afonso O'Neill, Mário Cesariny de Vasconcelos

    domingo, 14 de outubro de 2007

    A guerra colonial, às terças na RTP1

    Até Dezembro, às terças-feiras à noite, estarei em frente à televisão a ver a série documental "A Guerra" (do ultramar / colonial / de libertação), do jornalista Joaquim Furtado (RTP1).
    Segundo li no Público de ontem, trata-se de um trabalho de jornalismo de investigação, com recurso a abundante material audiovisual da RTP, do Exército, da Força Aérea, da Marinha, de particulares, a centenas de documentos textuais e fotográficos, a cerca de 200 entrevistas a militares, a políticos, a antigos colonos, a empresários, a religiosos. Além disso, muitas das entrevistas foram feitas em lugares da guerra, pondo frente a frente militares portugueses e combatentes africanos, desafiando e confrontando reconfigurações actuais, parcelares e concorrentes das memórias do conflito que marcou os últimos 13 anos do império.
    Seis anos, o tempo que Joaquim Furtado levou a fazer esta série documental, não são muitos anos para um trabalho de fundo, sério e rigoroso sobre um tema extremamente sensível da nossa história recente. Sobretudo se ele contribuir, como espero, para desfazer a propaganda colonial e os mitos pós-coloniais, e nos devolver uma leitura crítica e problematizadora da guerra que opôs o exército português aos movimentos de libertação de Angola, da Guiné e de Moçambique, entre 1961 e 1974.

    sábado, 13 de outubro de 2007

    «A desobediência» de Aristides de Sousa Mendes

    Estreou ontem a peça teatral «A desobediência», no Teatro da Trindade, em Lisboa. O texto é de Luiz Francisco Rebello e a encenação de Rui Mendes.
    Paralelamente, começou a 2 deste mês um ciclo de conferências semanais dedicada ao cônsul Aristides de Sousa Mendes e ao seu gesto humanitário de concessão de vistos a cerca de 30 mil pessoas, a maioria dos quais para judeus perseguidos pelos nazis e seus cúmplices (vd. programa aqui).
    Eis a sinopse da peça:
    "No verão de 1940, quando as tropas alemãs invadiram a França, a salvação de milhares de homens e mulheres que fugiam do regime de terror instaurado na Europa pelo nazismo, dependia de um visto de trânsito para um país neutro. Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, dividido entre o cumprimento das ordens ditadas por Salazar e a sua consciência, optou por obedecer a esta e desobedecer àquelas. O resultado seria a salvação de cerca de 30 mil judeus e o seu afastamento definitivo da carreira diplomática. É esse conflito dramático, as circunstâncias em que se desenrolou e as suas dolorosas consequências, que constituem o tema desta peça, escrita em 1995, publicada em 1998, traduzida em espanhol, hebraico, búlgaro e inglês".
    Nb: imagem de apresentação da peça, retirada daqui.