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sábado, 24 de março de 2007

A crise académica de 1962 na literatura de ficção

"Das vésperas da crise da Universidade à proibição do Dia do Estudante, aos confrontos em que a estudantada se desfraldou por inteiro, num rasgo de coragem igual à dos nossos tempos e muito mais determinação perante uma inovadora polícia de choque, da algidez do grande luto académico aos desagravos dos grevistas de fome em plena cantina universitária, eu sentira crescer dentro de mim a tristeza da minha condição de já não estudante. «Há muitas formas de nos solidarizarmos e de os acompanhar», dizia Raul, enfiado na sua bata branca de médico interno, perscrutando do alto do hospital num assomo de alucinação um formigueiro enraivecido a deixar-se resvalar pelas paredes das faculdades para, a seguir, atravessar a passo de enterro os relvados cobertos de luto por entre clamores de estádio e assobios de rua, enfim perdendo-se nos descampados da cidade universitária. Era um clima de guerra em que os desarmados defendiam a unidade de hoje pela união de amanhã - lema da juventude estudantil, não por um dia, por uma vida, por um destino. «Sejamos precisos e realistas: por uma geração que fosse!»"
Orlando da Costa
(Os netos de Norton, Porto, Eds. Asa, 1994, p. 125/6)

quinta-feira, 22 de março de 2007

45º Aniversário do Dia do Estudante


"Comunicado
Lisboa, 26 de Março de 1962
Colega: Efectuou-se anteontem o maior atentado de sempre contra a autonomia da Universidade e a dignidade dos professores e alunos. Por ordem do Governo foi encerrada a Cantina Universitária, passando-se por cima do Sr. Reitor, das Associações e da Comissão Administrativa da dita Cantina.
Camiões da polícia, transportando centenas de polícias de choque, armados de pistolas-metralhadoras, tomaram a Cidade Universitária. Tudo isto, para que lá se não realizassem os Colóquios e o jantar de confraternização do Dia do Estudante."


Assim começou o Dia do Estudante a 24 de Março.
Antes desta data, os Estudantes comemoravam o seu dia a 25 de Novembro, lembrando aqueles que em 1921 ocuparam, em Coimbra, o "Clube das Lentes" (A Bastilha, como era chamado) que eram as acomodações dos professores. Os estudantes lutavam, então, por melhores instalações.

Em 1961, a 25 de Novembro, em Coimbra, mais de 200 estudantes participaram num jantar para assinalar a data, onde a frase "Queremos Paz" foi a palavra de ordem que levou a um cortejo na cidade contra a guerra colonial.

A polícia reprimiu a manifestação, fazendo vários presos, o que suscitou a indignação em todo o País.

Em 1962 realizaram-se vários encontros de dirigentes associativos e foi formado um Secretariado Nacional de Estudantes Portugueses, tendo sido realizado, em Coimbra, o 1º Encontro Nacional de Estudantes. O Encontro tinha sido proibido.

Em consequência, aos membros da Direcção da Associação Académica foram instaurados processos disciplinares e a respectiva suspensão.

As Associações de Lisboa pretendiam fazer as comemorações do Dia o Estudante no final de Março. Iniciaram-se a 24 de Março com a respectiva proibição do Ministério da Educação.

O regime atacou os estudantes invadindo a cantina da Cidade Universitária, onde a polícia de choque espancou e prendeu estudantes. A reacção foi o luto académico e a greve às aulas.

Em 1987, a Assembleia da República decidiu que o dia 24 de Março fosse assinalado como o Dia do Estudante.


Sábado, dia 24, às 11.00 horas, terá lugar, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, uma sessão sobre os acontecimentos de 1962, os quais abalaram fortemente o regime de Salazar. Seguir-se-á um almoço de confraternização na Cantina Velha.

O Movimento Não Apaguem a Memória! associa-se a estas comemorações.