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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Homenagem a Alexandre Castanheira


Alexandre Castanheira nasceu em 1928. Licenciou-se em Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa e em Literatura Moderna na Universidade de Paris VIII. Perseguido pela PIDE, devido às suas actividades políticas, partiu para o exílio em França, onde casou com Madeleine Nennig, uma jovem comunista francesa que o acompanhou na clandestinidade. Ao longo da sua vida esteve sempre ligado ao Partido Comunista Português. Exerceu as funções de deputado municipal em Almada e de presidente da Assembleia da Freguesia do Laranjeiro. Actualmente é professor efectivo do Instituto Piaget e elemento activo do movimento associativo popular, exercendo cargos nos corpos sociais de várias colectividades.



Tempo Meu, livro de poemas de Alexandre Castanheira, vai ser lançado no próximo dia 28 no Salão da Incrível Almadense às 21:30 h, dia em que o poeta faz 80 anos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ivone Dias Lourenço - in memoriam


O texto que publico é da autoria de António Melo

Um abraço Ivone!

Ivone Dias Lourenço, essa extraordinária mulher, pequena de corpo mas grande nas convicções, na generosidade, na vivacidade de espírito e na sabedoria de vida , como a definiu Vítor Dias no seu blog O Tempo das Cerejas, foi hoje [25/1] a sepultar no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Morreu ao 69 anos, de uma doença cancerosa, depois de uma vida inteira dedicada à conquista da liberdade e à construção de um mundo solidário.

Filha de Dias Lourenço, um dos obreiros da reconstrução do PCP, companheiro indefectível de Álvaro Cunhal, e de Casimira Silva passou a infância sem a companhia dos pais que viviam na clandestinidade. A adolescência viveu-a na prisão de Caxias, onde entrou em Novembro de 1957, aos 20 anos, e de onde só saiu em Maio de 1964. Quase sete anos passados na cadeia no momento de maior deslumbramento da vida. Uma dor que ficou para sempre, mesmo se não a exteriorizava. No entanto, em entrevista que deu à jornalista São José Almeida (Público, 2004), deixou cair o queixume, mesmo se em ar de ironia: Foi um período muito importante o que estive presa. Por exemplo, quando saí, em 1964, nunca tinha ouvido os Beatles.

Senhora de uma cultura geral extensa, com interesses diversificados, comunicativa e jovial, sem nunca perder a noção do dever, Ivone foi jornalista no Avante! Sempre respeitadora da linha oficial da direcção, manifestava as discordâncias, quando as tinha, nas reuniões de célula. Em matéria de fidelidade partidária foi o que se designa por ortodoxa, mas a seu olhar sobre a vida ia muito além do estrito quadro político-partidário. Deixava-se encantar facilmente com a beleza e gostava de partilhar com os outros as alegrias e as tristezas – de conviver, em suma.

Há um ano, quando o NAM! quis celebrar o 8 de Março com testemunhos de mulheres da resistência, a Ivone deu o seu assentimento de princípio, mas deixou claro que seria pouco provável que a saúde lhe permitisse estar presente. Assim aconteceu. Ficou assente que ficaria para o ano seguinte. Estará connosco na nossa memória.

Um abraço Ivone!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Homenagem a Sottomayor Cardia

Liberdade sem Dogma, livro de homenagem a Mário Sottomayor Cardia (1941-2006) e organizado por Carlos Leone e Manuela Rêgo será hoje lançado na Fundação Mário Soares às 19 horas. Sottomayor Cardia destacou-se pela sua coragem física e intelectual. Interveio na sociedade portuguesa como um intelectual controverso, político e académico. Casou em 1964 com a escritora Luísa Ducla Soares. A sua experiência política como Ministro da Educação dos dois primeiros Governos Constitucionais, deputado da Assembleia Constituinte e deputado à Assembleia da República (1983 a 1991) é realizada como meio de levar à prática o seu pensamento político e pretexto para novas reflexões. O livro reúne testemunhos e estudos sobre esta personalidade multifacetada introduzidos por um texto de Carlos Leone, seu antigo aluno de Filosofia Social e Política na Universidade Nova de Lisboa. Dão testemunho do seu convívio com Cardia, Mário Cláudio, José de Vargas dos Santos Pecegueiro, Gastão Cruz, Vasco Vieira de Almeida, António Reis, L.A. Costa Dias, Jorge Miranda, Maria Emília Melo, Mário Soares, José Medeiros Ferreira e Cristina Lisboa. A secção Estudos contém textos de Daniel Melo, Miguel Real, Manuel Filipe Canaveira, José Castelo, João Miguel Almeida, José Leitão, António Braz Teixeira.
Num blogue como o Não Apaguem a Memória, destinado a preservar a memória da resistência e oposição ao Estado Novo, vale a pena esboçar um resumo do trajecto intelectual e político de Sottomayor Cardia durante o período da ditadura, a partir dos diferentes contributos do livro de homenagem.
Mário de Sottomayor Cardia já na adolescência se distingue pelas preocupações intelectuais e desejo de intervenção política, como recorda Mário Cláudio, seu colega de liceu. Em 1955 é expulso do liceu D. Manuel II por tomar posições contra a política colonial portuguesa. Três anos depois apoia a candidatura de Humberto Delgado a Presidente da República. Vem para Lisboa estudar Direito, na Universidade de Lisboa, mas troca este curso pelo de Filosofia. Destaca-se como dirigente estudantil, sendo, em 1961-62, presidente interino da comissão pró-associação académica da Faculdade de Letras. Com Alberto Teixeira Ribeiro, coordena as juntas de acção patriótica dos estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Intervém activamente na crise académica de 62. Em Maio participa na «greve de fome» na cantina da cidade universitária, sendo um dos mil estudantes presos por tal manifestação. Em Junho é expulso da Universidade de Lisboa por dois anos e meio. Por esta razão, conclui os estudos universitários em Coimbra.
Ainda em 1962, adere ao Partido Comunista Português. Nas eleições de 1965 participa, com José Medeiros Ferreira, nas lutas de unidade da Oposição Democrática as quais, em Lisboa, eram encabeçadas por Mário Soares. É um dos candidatos da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) em 1969. Quatro anos antes, o seu trabalho intelectual ganha maior projecção com a sua entrada como redactor para a Seara Nova. Cardia pretende dar nesta revista o seu contributo para encontrar soluções democráticas e socialistas aos problemas da sociedade portuguesa. A relevância do seu papel é reconhecida quando se torna, em 1968, chefe-de-redacção da revista, cargo que exercerá até 1974. António Reis declara no seu testemunho (p.50): «Cardia, não receio dizê-lo, foi a grande alma dessa “Seara”, tal como Raúl Proença o fora da primeira “Seara” dos anos vinte». Data também de 1968 o início do seu afastamento intelectual do PCP, devido a leituras dos acontecimentos da Primavera de Praga divergentes da do seu partido.
O grupo da Seara Nova possuía, além da revista, uma editora, que Sottomayor Cardia encara como uma oportunidade de divulgar e defender as suas ideias. No inicio da década de 70 publica dois volumes de antologia da revista, seleccionando escritos dos seareiros mais importantes durante a I República, obra à qual Manuel Filipe Canaveira dedica o seu estudo. Outros títulos publicados sob a chancela da Seara Nova são o Dilema da Política Portuguesa (1971) e Por uma Democracia Anticapitalista (1973), ambos apreendidos, e Sobre o Antimarxismo Contestatário (1972). Este último livro é escrito como resposta a um livro de António José Saraiva sobre o Maio de 68. Segundo Miguel Real (p, 105), que dedica um ensaio à controvérsia, «ambos os polemistas tinham militado no Partido Comunista Português e ambos tacteavam alternativas políticas e sociais tanto ao sistema político capitalista quanto ao sistema soviético». A heterodoxia marxista de Sottomayor Cardia afirma-se noutro texto de polémica com Pedro Ramos de Almeida, sob o pseudónimo de M.J.A. Teixeira.
Esta heterodoxia que o afastava do PCP leva-o a aderir ao PS aquando da fundação do partido, em 1973, juntamente com António Reis e Marcelo Curto. Mário Soares (p. 62) dá testemunho da importância desta adesão: «Constituiu isso uma considerável mais-valia para o Partido, uma vez que eles tinham então muita influência nos meios esquerdistas civis e militares, na juventude e nos sindicatos.» Por uma democracia anticapitalista é já um livro escrito na esfera ideológica do PS, que diagnostica os bloqueios do regime ditatorial, procurando as possíveis linhas de fractura que permitissem a instauração em Portugal de uma democracia socialista.
A heterodoxia de Cardia facilitava-lhe a discussão com os católicos das relações entre marxismo e cristianismo. José Leitão recorda, no seu texto, os debates sobre este tema promovidos pela Juventude Universitária Católica e onde participaram, juntamente com Sottomayor Cardia, o padre Manuel Antunes e o padre João Resina.
A par da sua actividade partidária, Sottomayor Cardia, intervém, como mostra Daniel Melo no seu estudo, em cooperativas que criticam a situação e buscam alternativas ao regime: a Pragma, a Devir, a Estudos de Documentação; em associações como a Sociedade Portuguesa de Autores e o Centro Nacional de Cultura; em organizações cívicas como a Comissão Promotora de Voto (delegação de Lisboa, 1969), a Comissão nacional de Defesa da Liberdade de Expressão (1971/72), a Comissão Coordenadora do III Congresso de Aveiro (1973), a Comissão de Luta pelas Liberdades Políticas (1973), a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem. Ou seja, Cardia era um homem que procurava intervir plenamente na busca de respostas aos problemas do seu tempo, sem abdicar de, pela reflexão, procurar ver além das circunstâncias e de alargar horizontes mentais.
Nota: todas as citações referem-se a LEONE, Carlos; RÊGO, Manuela, Liberdade sem Dogma. Testemunhos e Estudos sobre Sottomayor Cardia, Lisboa, Tinta-da-China, 2007.

domingo, 4 de novembro de 2007

Alexandre Babo in memoriam (1916-2007)

Faleceu esta sexta-feira o antifascista Alexandre Babo, aos 91 anos de idade. O seu féretro está hoje em câmara-ardente na Igreja Paroquial da Parede e o funeral realiza-se amanhã.
Alexandre Babo nasceu em Lisboa a 30/9/1916. Em 1933 ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa e em 1936 entrou para a Maçonaria, militando na Acção Anticlerical e Antifascista e no Bloco Académico Antifascista, onde lutou contra o salazarismo.
Com Amaral Guimarães e Abílio Mendes fundou as Edições Sirius, em 1941, que deram uma relevante contribuição cultural. Após a guerra, muda-se para Paris, como delegado da revista Mundo Literário.
Tornou-se militante do PCP desde 1943, tendo também participado no Socorro Vermelho, uma organização ligada à Internacional Comunista. Como advogado interveio em defesa de presos políticos nos julgamentos do Tribunal Plenário do Porto. Fez parte do Conselho do Porto do MUD e da Comissão Distrital da Campanha do General Norton de Matos, em 1948/9.
Foi co-fundador e director do Círculo de Cultura Teatral e do Teatro Experimental do Porto, tendo neste convidado António Pedro para encenador. Em 1959 saiu do TEP para fundar o Teatro Moderno, com Luís de Lima e Fernando Gaspar, sediado no Clube dos Fenianos, também no Porto. Várias das suas peças foram proibidas e apreendidas pela censura salazarista, nomeadamente Estrela para um epitáfio (1961) e Jardim público (1972), bem como os seus livros de contos Autobiografia (1957) e Sem vento de feição (1972).
Em 1960 muda-se para Londres, como correspondente do Jornal de Notícias e colaborador da BBC. Em 1964 regressa ao país, e funda O Palco Clube de Teatro, em Lisboa.
Em 1973 é um dos fundadores da Associação Portuguesa de Escritores (APE), tendo sido sócio da sucessora SPA desde 1977. Co-fundou ainda a Liga para o Intercâmbio Cultural Social Científico com os Povos Socialistas, a Associação Portugal-URSS e a Associação Portugal-RDA.
Foi colaborador regular das secções literárias de várias revistas e jornais. Entre a sua vasta obra literária, destacam-se as suas peças teatrais, os seus textos de crítica teatral e os livros autobiográficos Recordações de um caminheiro - entre duas guerras (1984), Recordações de um caminheiro - a longa espera (1993), Carlos Babo: o espírito da resistência (1995) e No meu tempo (1999).
Fontes principais: Infopedia, SPA e Urbano Tavares Rodrigues («Alexandre Babo escritor e revolucionário», in Avante!, n.º 1386, 21/6/2000). Nb: imagem retirada daqui.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O novo Museu do Neo-Realismo (guia de fontes sobre a resistência-II)

O novo edifício do Museu do Neo-Realismo será inaugurado no próximo sábado em Vila Franca de Xira. Na mesma ocasião formaliza-se a doação de 3 espólios literários: os legados do escritor Orlando da Costa (Lisboa), do ensaísta e dramaturgo Mário Sacramento (Aveiro) e parte do espólio do escritor Alves Redol (V. F. de Xira). Os três foram resistentes ao salazarismo, tendo sido membros do MUD e militado no PCP. Estes espólios irão juntar-se a muitos outros, que começaram a ser aí depositados em 1991 (o 1.º foi o do escritor Manuel da Fonseca; vd. restantes aqui).
Mostram-se então ainda 4 novas exposições: Batalha pelo conteúdo – Movimento neo-realista português (colectiva de iconografia, documentação e bibliografia); Uma arte do povo, pelo povo e para o povo – Neo-realismo e artes plásticas (colectiva de artes plásticas); The return of the real (ciclo de arte contemporânea); Sonhando para os outros (biobibliográfica de Arquimedes da Silva Santos).
A cerimónia de inauguração contará com a presença do presidente da República e da ministra da Cultura. O novo edifício é da responsabilidade do arq. Alcino Soutinho. O Museu foi originalmente criado em 1990 para acolher um Centro de Documentação sobre o movimento neo-realista português. Foi depois reforçado com uma colecção específica de artes plásticas, a melhor do género existente no país.

Serviços disponibilizados:
>visitas orientadas às exposições e oficinas educativas
>promoção de encontros, debates, conferências e colóquios
>consulta e pesquisa bibliográfica e documental especializada
>reprodução em fotocópia ou em meio digital de documentação
>itinerância de exposições
>edição e venda de publicações e catálogos

Horário de atendimento ao público:
>9h30-12h30, 14h-17h30 (2.ª a 6.ª feira)

Contactos do Museu do Neo-Realismo:
Rua José Dias da Silva, n.º 2, 2.º
2600-169 Vila Franca de Xira
Tel.: 263 285 600 (ext. 5870/ 5871/ 5872)
E-mail: neorealismo@cm-vfxira.pt

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Homenagem em vida a Óscar Lopes

Óscar Lopes celebrou hoje 90 anos, o que foi aproveitado para o início duma grande homenagem a Óscar Lopes na sua cidade natal, o Porto. O programa «A busca do sentido na obra e na vida de Óscar Lopes» inclui exposições, livros, concertos, encontros e um colóquio.
Entre outros livros inéditos, será lançado o estudo Óscar Lopes - um homem maior do que o seu tempo, esta 5.ª feira às 21h, sendo à tarde anunciado o vencedor do Prémio de Ensaio Óscar Lopes. Daquele livro saiu hoje no Público o texto "Um homem maior do que o seu tempo", do escritor e amigo Baptista Bastos. Os escritores Bento da Cruz, Fernando Guimarães, José Manuel Mendes, Manuel da Silva Ramos, Mário Carvalho e Urbano Tavares Rodrigues estarão presentes num dos encontros.
Vida profissional, política e cívica
Óscar Lopes nasceu a 2/X/1917, em Leça da Palmeira, Matosinhos.
Licenciou-se em Filologia Clássica pela FLUL, em 1941, e depois em Histórico-Filosóficas, pela FLUC. Foi professor liceal entre 1941 e 1974. Entre 1967 e 1971 foi bolseiro do Instituto de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian. É autor duma vasta obra nos domínios da Linguística e, sobretudo, da História da literatura.
Foi colaborador regular das mais importantes revistas literárias portuguesas, incluindo algumas ligadas à oposição antisalazarista: Seara Nova, Vértice, Mundo Literário, além da Colóquio/Letras, da Camões e do suplemento literário do jornal O Comércio do Porto.
Com António José Saraiva elaborou uma das mais influentes obras da cultura oposicionista sob o Estado Novo, a famosa História da Literatura Portuguesa, editada em 1955 e com mais de 20 reedições posteriores.
A partir de 1942 envolve-se em intensa actividade política e cívica oposicionista, tendo pertencido ao MUNAF, ao PCP (desde 1945), ao MUD, ao MND e à CDE. Entre outros envolvimentos associativos, foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores, fundador da Universidade Popular do Porto e dirigente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras. A sua intervenção cívica e a militância no PCP foram represaliadas pela ditadura com a prisão por duas vezes, a proibição de saída do país durante um longo período e o afastamento da universidade. Só depois da revolução pôde ser professor na FLUP. Foi membro do Comité Central do PCP entre 1976 e 1996.
Além de várias medalhas de honra municipais, recebeu os prémios Rodrigues Sampaio (1967, da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto), Seiva Trupe (id., 1985) e Jacinto do Prado Coelho (1985, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários).
Foi condecorado em 1989, com a Ordem da Instrução Pública e em 2006 com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, esta atribuída pelo presidente da República Cavaco Silva.

Julieta Gandra in memoriam (1917-2007)

Faleceu recentemente Julieta Gandra, resistente antifascista e lutadora pela independência de Angola, do que só hoje tive conhecimento. A médica Julieta Gandra foi presa em Angola pela PIDE em 1959, sob a acusação de pertença a movimentos ilegais e «subversivos», o MPLA e o PCP. Foi condenada no 1.º julgamento político do nacionalismo angolano moderno, conhecido como «processo dos cinquenta» e deportada para a prisão de Caxias em Lisboa (sobre os movimentos independentistas vd. aqui).
Anos depois, e também devido aos graves problemas de saúde por que passou na cadeia, seria considerada "Prisioneira de Consciência de 1964" pela Aministia Internacional (sobre o que é um prisioneiro de consciência vd. aqui). Esta atenção internacional obrigou a ditadura salazarista a libertá-la pouco depois. A este propósito recomenda-se o texto Julieta Gandra - Conspiradora de Esperança, de Diana Andringa.
Aproveita-se ainda para reproduzir um texto que nos chegou de homenagem a Julieta Gandra, por Adolfo Maria, agradecendo publicamente ao seu autor:
"A morte de Julieta Gandra não foi notícia
Não foi notícia, na comunicação social portuguesas a morte de Julieta Gandra, a médica portuguesa incriminada pela PIDE em 1959 e condenada no primeiro julgamento político do nacionalismo angolano moderno, o chamado «processo dos cinquenta», onde a par de muitas militantes angolanos figuravam alguns portugueses como António Veloso, Calazans Duarte e Julieta Gandra, que foram deportados para cadeias em Portugal, tendo os angolanos sido deportados para Cabo Verde, onde ficaram internados no campo de concentração do Tarrafal que assim reabria as suas portas em 1960, agora para outros presos políticos, os angolanos.
O falecimento de Julieta Gandra não foi notícia para jornais, rádios ou televisões de Portugal.
Apenas a SIC passou em rodapé uma breve informação.
Outras pessoas, alguma de bem menor envergadura que J. Gandra preencheram o obituário da comunicação social portuguesa.
Nos anos 50 do século XX, Julieta Gandra, ginecologista (especialidade raríssima na Luanda de
então) atendia no seu consultório da Baixa as clientes da sociedade colonial, tirando daí os seus proventos, e, nos musseques, atendia em modesto consultório, a preço simbólico, as mulheres desses bairros suburbanos. Simultaneamente participava em actividades do Cine-Clube e da Sociedade Cultural de Angola realizando também actividade política em organização clandestina do nacionalismo angolano.
Por isso foi presa pela polícia do regime salazarista, condenada a pesada pena de prisão, internada em cadeias de Portugal. Quer nos interrogatórios da PIDE, quer nas cadeias, portou-se com uma dignidade exemplar. Em 1964 foi considerada a presa do ano pela Amnistia Internacional.
Esta breve resenha da vida cívica de Julieta Gandra cabia em qualquer jornal ou bloco informativo de rádio ou televisão mas os profissionais da comunicação social, sem brio nem remorsos, omitem uma curta e última referência a esta médica portuguesa que foi marco na luta pela liberdade da Mulher e dos Povos".
Lisboa, 10 de Outubro de 2007
Adolfo Maria
Imagem: 1.º emblema do MPLA, retirado daqui.

domingo, 7 de outubro de 2007

Mulheres do meu país: Maria Lamas (1893-1983)

Faz hoje 114 anos que nasceu a escritora e jornalista antifascista Maria Lamas. Nascida em Torres Novas, casou-se aos 17 anos com o ten. Ribeiro da Fonseca, com quem viveu em Angola durante 3 anos (1911-13).
Regressada à «metrópole», inicia colaboração em publicações locais, com poemas alusivos à destruição provocada pela guerra, em plena «Grande Guerra», assinando como Maria Fonseca ou com o pseudónimo Serrana d’Ayre.
Divorcia-se em 1919, ficando com as suas duas filhas a seu cargo. Fixa-se em Lisboa, em casa dos pais, mudando-se mais tarde para uma casa em Benfica.
É na Agência Americana de Notícias, onde trabalha em 1920, que conhece o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, com quem se casa no ano seguinte e do qual adopta o apelido por que ficará conhecida. Deste segundo casamento nasce a filha Maria Cândida.
Em 1925 inicia colaboração em revistas e publicações infantis, escrevendo a partir de então vários contos infantis.
Inicia-se como jornalista no diário O Século, em 1928, tendo pouco depois sido convidada para dirigir o seu suplemento semanal Modas e Bordados, onde se debruça sobre os problemas das mulheres e do qual é demitida em 1947, por pressão de Salazar.

Activismo político e cívico
A partir dos anos 40 envolve-se na resistência antifascista e na defesa das mulheres, integrando diversas organizações.
Assim, em 1945 assina a lista fundadora do MUD-Juvenil e integra o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), associação fundada na I República e que seria perseguida e encerrada pela ditadura salazarista em 1948. Torna-se presidente do CNMP em 1947, ano em promove uma mostra de grande alcance social, cívico e político: «Exposição dos livros escritos por mulheres». No MUD desempenhará também cargos de direcção.
A sua ligação ao CNMP permitiu-lhe deslocar-se pelo país para tomar conhecimento das condições de vida da mulher portuguesa. As reflexões sobre este périplo são dadas à luz no livro As mulheres do meu país, uma monumental obra em 3 volumes publicada entre 1947 e 1950 (esta obra seria publicada em fascículos para escapar ao crivo censório). Sobre a condição feminina editará outros livros: A mulher no mundo (1952) e o Mundo dos deuses e dos heróis da mitologia geral (1959-61).
Participa no congresso fundador da Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM) em 1946. Em 1953 é eleita membro do Conselho Mundial da Paz, organismo que vários autores dizem ter sido hegemonizado pelo PCUS e a que se associaram cientistas como Joliot Curie, Bertrand Russell e Albert Schweitzer. Representará várias vezes as mulheres portuguesas e os pacifistas nos congressos destas organizações.
Devido à sua intervenção política e cívica foi presa pela polícia política várias vezes: em 1949, sob acusação de difusão de notí­cias falsas e apelo à libertação dos presos polí­ticos, tendo estado incomunicável durante 4 meses; em 1950, pelo crime de defender a paz; e em 1953, no regresso dum Congresso Mundial da Paz, realizado na URSS. Tais detenções vão afectar-lhe a saúde e são um dos motivos porque se decide pelo exílio político, tendo residido em Paris entre 1962 e 1969.
Após a revolução de 25/IV/1974 torna-se militante do PCP, do qual era simpatizante. Foi presidente honorária do Movimento Democrático de Mulheres (MDM) entre 1975 e 1983 e directora da revista Mulheres.
Em 25/IV/1980 é condecorada pelo Presidente da República Ramalho Eanes com a Ordem da Liberdade.
Faleceu aos 90 anos, em Lisboa, a 6/XI/1983. Em 2008 passarão 25 anos sobre a sua morte.

Estudos e fontes
O espólio documental de Maria Lamas está depositado na BN (vd. aqui).
Sobre Maria Lamas existem, entre outros, os seguintes estudos:
*FERREIRA, Eugénio Monteiro (2004), Cartas de Maria Lamas, Porto, Campo das Letras (correspondência trocada por Maria Lamas e o escritor angolano Eugénio Ferreira entre 1942 e 1968).
*FIADEIRO, Maria Antónia (2003), "As mulheres do meu país: uma obra ímpar", História, Jan.º.
*FIADEIRO, Maria Antónia (2003), Maria Lamas. Biografia, Lisboa, Quetzal.
*MASCARENHAS, João, MARQUES, Regina (org.; 2005), Maria Lamas. Uma mulher do nosso tempo, Lisboa, BMRR.
*MUCZNIK, Lúcia Liba (coord.; 1993), Maria Lamas, Lisboa, BN (catálogo).
*PEREIRA, José Pacheco (2003), "A propósito de Maria Lamas", blogue Estudos sobre o Comunismo, 7/XII.
*RAMOS, Wanda (1996), "Lamas, Maria da Conceição Vassalo e Silva", in José Maria Brandão de Brito & Fernando Rosas (dir.), Dicionário de História do Estado Novo, Lisboa, Círculo de Leitores, vol. I, p. 506/7.
Fontes principais: MDM; PS- Mulheres PS20; O Leme; Notícias da Amadora; blogue Almocreve das Petas; imagem retirada daqui.

domingo, 9 de setembro de 2007

PCP reconhece o direito dos povos das colónias à independência

Em Setembro de 1957, realizou-se no Estoril o V Congresso do Partido Comunista Português (III ilegal). Nesse congresso foi reconhecido o direito dos povos das colónias portuguesas à independência, sendo aprovada a seguinte declaração:
«O V Congresso do PCP considera que estão hoje criadas as condições necessárias para que os povos das colónias de África dominados por Portugal conquistem a sua liberdade e independência, independentemente das modificações que se possam operar na situação política de Portugal. O Congresso considera que a ajuda que o Partido e o povo português prestarem ao movimento libertador dos povos coloniais traduzir-se-á objectivamente numa ajuda à luta da classe operária e ao povo de Portugal pela sua própria libertação.» [citação retirada daqui]
Sobre a relação do PCP com a questão colonial, vejam-se os seguintes trabalhos:
*MADEIRA, João (2003), "O PCP e a Questão Colonial - dos fins da guerra ao V Congresso (1943-1957)", Estudos do Século XX, 3.
*MANYA, Judith (2004), Le Parti Communiste Portugais et la question coloniale (1921-1974), Thèse de doctorat en Science politique, Universidade de Toulouse. [Prémio Fundação Mário Soares, 2005]
*NEVES, José Manuel Viegas (2006), "On Communisme and the Nation - Notes from the history of the colonial question in the Portuguese Communist Party", e-Journal of Portuguese History, vol. 4, nº 1. [Texto integral disponível aqui]
Faltam trabalhos sobre a evolução do posicionamento da oposição republicana face ao colonialismo português.

domingo, 15 de julho de 2007

Da insubmissão solidária em Urbano Tavares Rodrigues

Saiu nesta quinzena uma extensa entrevista ao resistente antifascista Urbano Tavares Rodrigues, conduzida por José Carlos Vasconcelos para o JL.
Urbano nasceu em Lisboa em 1923, mas passou a infância no Alentejo, próximo da vila de Moura, o que o iria influenciar nas suas preocupações sociais, cívicas e políticas. Como diz o próprio: “Um paraíso, depois perdido, a que sempre quis voltar – e a descoberta de que esse paraíso é também um lugar de horrores. E a descoberta ainda da miséria, do povo. Eu e o Miguel falávamos e confraternizávamos com eles, nesse tempo que era o da Guerra Civil de Espanha, em que o meu pai deu guarida no monte a republicanos [espanhóis]”. Sobre a sua vivência alentejana pode ler-se «A casa da minha infância».
Foi preso pela primeira vez durante a II Guerra Mundial, por ter dado vivas aos Aliados e à liberdade no cinema Tivoli, onde fora com outros colegas do Liceu Camões ver um documentário sobre a guerra. Com o fim da guerra, apoiou o Movimento de Unidade Democrática, mas já não enquanto simpatizante do PCP, de que se afastara por causa do Pacto Germano-Soviético e ao qual só regressaria após as eleições de 1969 (foi então candidato da CEUD em Lisboa, mas tb. ajudou a CDE no Alentejo).
Foi leitor de Português em diversas universidades estrangeiras (Montpellier, Aix-en-Provence e Paris, entre 1949 e 1955). Nessa estada recolheu várias vezes assinaturas de intelectuais anti-fascistas como Louis Aragon, em prol da libertação dos presos políticos e da liberdade de imprensa em Portugal.
Por ter apoiado a campanha oposicionista de Humberto Delgado é expulso da Universidade de Lisboa, para onde fora convidado por Vitorino Nemésio. Interpelado por Urbano na Liv.ª Bertand, o ministro da Educação da altura, eng. Leite Pinto, confirmou que essa fora uma retaliação política: “«Então, demitiram-me por motivos políticos». Ao que ele respondeu: «Pois claro». «Mas eu não fazia política nas aulas», retorqui. «Mas fazia cá fora», disse ele. Voltei-lhe as costas”.
Em 1959, participa na revolta da Sé e entra para as Juntas de Acção Patriótica. Em 1961, envolve-se no malogrado assalto ao quartel de Beja, donde escapa ileso. Acusado de «actividades subversivas», é impedido de dar aulas nas escolas portuguesas, tendo que sair do Colégio Moderno e só podendo exercer a sua profissão na secção francesa do Liceu Francês. O seu envolvimento nas Juntas leva-o a ser preso pela PIDE em 1963. Depois de liberto, ajudou à fuga para o exílio de muitos desertores e antifascistas perseguidos, com o apoio de comunistas. Voltará a ser preso pela polícia política em 1968, tendo sido torturado com a tortura do sono e tendo estado em isolamento durante os 5 meses de detenção.
Segundo o ensaísta João de Melo, a obra de Urbano caracteriza-se por “uma literatura de combate e de experiência pessoal”, retratando um século de contrastes, sofrimento e sonhos: “Chama a si a crónica miúda e persistente deste último século português, ela mesma o trânsito de um país que viajou das trevas profundas para a luz da liberdade e das dos universos das injustiças sociais, da opressão, da cadeia e de todos os abusos para a celebração do país do povo, da terra, da revolução e da fraternidade” (in O Imaginário alentejano de Urbano Tavares Rodrigues, 1996; fonte: aqui). É uma elegia da resistência popular à injustiça social e à opressão política, assim o assume o próprio Urbano: “Compreendi que o meu destino estava verdadeiramente ligado ao mundo do Alentejo, dos trabalhadores rurais, dos pequenos camponeses e por esses, por um Alentejo diferente eu havia de lutar, de escrever, havia de viver”.
Sobre o seu perfil cívico vd. Urbano Tavares Rodrigues – cidadão e escritor, Moura, Câmara Municipal de Moura, 2005. Veja-se ainda um encantatório texto de Urbano sobre Lisboa antiga no site Teia Portuguesa. Existe uma breve biografia literária na DGLB.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Alberto Vilaça in memoriam

O advogado antifascista Alberto Vilaça faleceu esta 2.ª feira, em Coimbra, sua cidade natal, aos 78 anos de idade.
Vilaça era um dos mais antigos militantes do PCP em Coimbra, partido a que aderiu em 1949. Foi um activo associativista durante o Estado Novo, designadamente enquanto dirigente da Associação Académica de Coimbra, membro dos conselhos de redacção das revistas Via Latina e Vértice, presidente da assembleia-geral do Ateneu de Coimbra, e membro da Comissão Central do MUD-Juvenil e da Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática. Devido à sua intervenção política e cívica foi preso 6 vezes pela PIDE.
Após a revolução de 1974, presidiu à Junta Distrital de Coimbra e foi representante à Assembleia Municipal de Coimbra durante sucessivos mandatos autárquicos. Foi um dos sócios fundadores da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo (localizado em Vila Franca de Xira). Foi agraciado com o grau de grande oficial da Ordem da Liberdade pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio.
Fontes: Diário de Coimbra e Público; imagem de Vilaça retirada daqui.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Tributos a Adriano (1942-1982)

O cantautor da resistência Adriano Correia de Oliveira é hoje homenageado na Marinha Grande, por ocasião da passagem do 65.º aniversário do seu nascimento (programa aqui).
A iniciativa parte dum grupo de amigos de Adriano e tem o apoio do município local e de várias personalidades.
Inicia-se pelas 21h15 com uma sessão solene de homenagem, na presença dos filhos Isabel e José Manuel Correia de Oliveira, do compositor José Niza e do poeta e deputado Manuel Alegre. Segue-se canto livre com Francisco Fanhais, Luísa Maio e João Miguel e o lançamento do disco «Adriano Sempre!», com temas interpretados por músicos de diversas gerações e áreas musicais. Neste dia é ainda inaugurada a exposição «Adriano Sempre!», dedicada à sua vida e obra.
A homenagem é retomada a 21 de Abril, com um espectáculo musical em que participam os músicos intervenientes no disco «Adriano Sempre!» (pav.º municipal de exposições da Marinha Grande, 22h).
Os Erva de Cheiro também editaram um disco de homenagem «Cantaremos Adriano» e dão espectáculos alusivos em Avintes (28/4, 21h30) e Loulé (30/4, 21h30, Cine-Teatro Louletano). O conjunto é formado por Alexandre Pinto, João Queiroz, Jorge Jordan, Nuno Faria, Paulo Cavaco, Rui Sousa e Vitor Sarmento. Para ouvir as músicas dos Erva de Cheiro e ter acesso a informação inédita sobre Adriano vd. o blogue Cantaremos Adriano.
Para uma biografia de Adriano vd. aqui ou aqui.
Sugere-se ainda a consulta dos sites Adriano Sempre! e Adriano Correia de Oliveira (da Esc.ª Sec.ª Emídio Navarro).

sábado, 31 de março de 2007

Biografia de Soeiro Pereira Gomes

O livro A passagem. Uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, de Manuela Câncio Reis, acaba de ser lançado pela Editorial Caminho. A autora é víuva do escritor biografado e foi compositora musical.
Aproveitamos a ocasião para reproduzir as palavras de apresentação da obra pela sobrinha do biografado, Isabel Câncio Reis Nunes:
"Através da ternura das gentes de Alhandra, Joaquim Soeiro Pereira Gomes acompanhou a minha vida de menina. Conheci-o nas ruas e... nas gentes de Alhandra... e conheci as ruas... e as gentes... de Alhandra pelos olhos do tio Joaquim. Manuela leva-nos aqui ao encontro não só de Soeiro, o político, o autor, o humanista mas também de Joaquim, rapaz alegre e brincalhão, o irmão, o amigo, o cunhado... o marido; o Quinzinho de Gestaçô; o Joaquim das guitarradas, dos despiques, das baladas e outras estudantices de Coimbra.
Tal como Consuelo Saint-Éxupery, muitos anos depois de o criador de O Pequeno Príncipe ter desaparecido, Manuela Câncio Reis oferece-nos uma jóia da memória - a biografia de um Homem. Estou-lhe grata pelo privilégio de me ter entreaberto a porta da sua intimidade.
Não conheci Soeiro Pereira Gomes, não conheço Soeiro Pereira Gomes. Só conheço o tio Joaquim, o meu primeiro Herói!"

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Sérgio Vilarigues (1914-2007): «recordista da clandestinidade»

Faleceu na passada quinta-feira, aos 92 anos, Sérgio Vilarigues, um dos refundadores do Partido Comunista Português, militante antifascista envolvido durante várias décadas na luta contra o Estado Novo (32 anos na clandestinidade). Na qualidade de antigo tarrafalista, participara recentemente, em Cabo Verde, nas cerimónias que assinalaram os 70 anos da abertura do campo de concentração do Tarrafal.
Notícia retirada da TSF Online:
"O Partido Comunista Português retrata este antigo dirigente como um dos mais destacados exemplos da resistência ao fascismo e da luta pela liberdade e pela democracia. Logo em meados da década de 1930, Vilarigues foi detido e passou por diversas prisões, antes de ser enviado para a prisão do Tarrafal. Em 1942, no entanto, converteu-se à clandestinidade, uma condição em que manteve até ao 25 de Abril de 1974, altura em que caiu a ditadura de Salazar. Durante as sete décadas de militância no Comunismo, Vilarigues foi membro do Comité Central, da Comissão Politica e do Secretariado, mas, em 1988, deixou de pertencer a estes organismos, passando a integrar a Comissão Central de Controlo e Quadros. Carlos Brito, ex-líder parlamentar do PCP, recorda o antigo colega como um «dos reorganizadores do partido em 1941», ainda antes de Álvaro Cunhal, e um dos militantes mais jovens a ser preso, já que foi para a prisão do Tarrafal com apenas 17 anos. O ex-líder parlamentar do PCP lembra ainda Sérgio Vilarigues como um «recordista da clandestinidade» e uma pessoa com muita «confiança» e que sempre o apoiou.Também o resistente antifascista Edmundo Pedro recorda Vilarigues como um homem de força, que atravessou os piores anos da prisão do Tarrafal, o chamado «período agudo», e um dos poucos que se conseguiu manter de pé nessa altura".
Conforme informa o site do PCP, o corpo de Sérgio Vilarigues está em câmara ardente na Casa Mortuária da Igreja de S. Francisco de Assis, Avenida Afonso III (junto ao Cemitério do Alto de S. João), a partir das 11h de hoje, realizando-se o funeral às 18h, para o cemitério dos Olivais, onde o corpo será cremado.
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Foto de Jorge Caria, na entrevista de Sérgio Vilarigues ao jornal Avante! (8.3.2001).

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

O 18 de Janeiro de 1934 como defesa do sindicalismo livre e das liberdades fundamentais

A insurreição político-sindical do 18 de Janeiro de 1934 representou a resposta duma ampla frente sindical e popular contra a legislação anti-sindicalismo livre imposta pela ditadura e que vigorava desde esse mês.
A projectada greve geral insurreccional falhou em parte por debilidade do auxílio de sectores civis e militares republicanos, que sofrerão forte perseguição oficial com a institucionalização do Estado Novo, além do rude golpe com a deportação súbita de 150 dos seus elementos para Angra do Heroísmo, em 19/11/1933. Vários percalços, actos extemporâneos e detenções de elementos chave (o militar republicano Sarmento Beires e os anarquistas Acácio Tomás de Aquino e Mário Castelhano, da CGT) adiaram a irrupção do movimento para a noite de 17 de Janeiro, já então enfraquecido. Um certo condicionamento operacional e a acção da polícia e exército fizeram o resto.
Ainda assim, várias são as povoações onde a acção insurreccional tem lugar: greves em Almada (todo o concelho), Barreiro, Sines e Silves; actos violentos contra infra-estruturas e postos policiais (sabotagens, bombas, ocupações, etc.) em Coimbra, Leiria, Marinha Grande (aqui também se dá a reabertura da sede do sindicato), Lisboa, Póvoa de St.ª Iria, Almada, Barreiro, Silves, Vila Boim (Elvas) e Funcheira-Tunes-Algoz.
Posteriormente, a autoria/ liderança deste movimento foi reivindicada por distintas forças políticas, do PCP aos anarquistas. O certo é que se tratou duma convergência de forças sindicais e políticas e de legados ideológicos: do «revolucionarismo» republicano à Revolução Social anarquista, passando pela greve geral revolucionária de massas do PCP. Os investigadores divergem quanto à liderança desse movimento: há quem diga que foi a anarquista CGT, como a historiadora Fátima Patriarca (cf. Sindicatos contra Salazar, ICS, 2000); há quem diga que foi a comunista CIS, como o historiador João Duarte Vasconcelos (cf. O 18 de Janeiro de 1934, Lx., FLUL, 2002, tese de mestrado). Patriarca vai mais longe, diz que o fito inicial era o restabelecimento das liberdades democráticas e não uma revolução operária (o exemplo era o dos acontecimentos recentes em Cuba). A partir da decapitação da componente política republicana, que faria o golpe político-militar, então os sindicalistas ficaram sozinhos no tabuleiro, a braços com uma questão de honra: cumprir a sua parte.
Aproveita-se ainda para respigar a versão de João Duarte Vasconcelos:
“Assim que teve conhecimento dos decretos [de corporativização sindical], a CIS enviou uma circular à CGT, a todas as Associações de Indústria, Uniões Locais, Sindicatos e Grupos de Defesa Sindical. Ao analisar o «decreto colete de forças», a CIS refere que ele «é uma questão de vida ou de morte para todo o movimento de classe do proletariado» e propõe a «frente única de luta» contra o mesmo. E conclui: «O decreto é inaceitável; deve ser repudiado e todos nos devemos unir para a luta contra ele». […]
A proposta da CIS para a preparação da luta visava a realização de uma campanha intensa de agitação e propaganda a nível nacional e nos diversos locais de trabalho, através de jornais, folhetos, reuniões ilegais rápidas, assembleias legais e artigos na imprensa legal. Ao mesmo tempo seriam convocadas assembleias gerais nos sindicatos, de formal legal, aprovando resoluções contra o citado decreto. Toda esta acção viria a culminar numa greve geral de todo o proletariado. Esta plataforma de luta seria concretizada em torno de diversos fins políticos e económico-sociais, como a organização livre dos sindicatos operários, o reconhecimento legal das Federações, Uniões, CGT, CIS, Partido Comunista e União Anarquista, liberdade de reunião, imprensa e greve, por uma ampla amnistia e dissolução da polícia política e dos tribunais especiais, pela semana de 40 horas, por um salário mínimo, por um subsídio de 75% de salário aos desempregados, pela instituição de um seguro contra a doença e invalidez, por 20 dias de licença anual, pagos pelo patronato e inclusão dos trabalhadores rurais em toda a legislação de carácter social.
[…]
O 18 de Janeiro de 1934, movimento de resistência operária e sindical, eclodiu contra o Salazarismo e o seu «Estado Novo», que começava a estruturar-se organicamente e que teria só o seu fim passadas quatro longas décadas. […] o 18 de Janeiro de 1934 protagonizou o fim de um ciclo: foram os «últimos tempos de acção sindical livre e do anarquismo militante», no dizer de Manuel Joaquim de Sousa. Efectivamente, [com a corporativização salazarista] consumara-se a liquidação da autonomia operária.
”
(in O 18 de Janeiro de 1934. História e mitificação, Lx., FLUL, 2002, tese de mestrado, p. 78 e 10)
Nb: imagem retirada daqui.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Tributo ao sindicalista José de Sousa (1898-1967)

José de Sousa.
Hoje pouco dirá o seu nome a muita gente. Mas foi seguramente uma das figuras mais marcantes da resistência à ditadurado Estado Novo.
Destacou-se ainda durante a 1ª República, primeiro como secretário-geral das Juventudes Sindicalistas (anarquistas) e depois como fundador e primeiro secretário-geral da Federação das Juventudes Comunistas - em 1921.
Foi, a par de Bento Gonçalves, o grande responsável pela reorganização do PCP de 1929, que lançou este partido para a resistência na clandestinidade. Assumiu a liderança do PCP aquando da primeira prisão de Bento Gonçalves (1930/3).
Fundador e secretário-geral da Comissão Intersindical [CIS, de 1930], foi o principal responsável, do lado do PCP, pela revolta operária de 18 de Janeiro de 1934.
Preso juntamente com Bento Gonçalves e Júlio Fogaça em 1935, os três formavam então o secretariado do PCP, foi brutalmente torturado (praticamente à frente de Bento Gonçalves), e foi um dos primeiros prisioneiros do Tarrafal, onde passou cerca de 9 anos.
Foi expulso do PCP, em 1943, por divergências políticas marcadas pela sua condenação do Pacto entre a Alemanha nazi e a URSS em 1939. Mas manteve sempre as suas convicções de comunista.
Após sair em liberdade, em 1945, apesar de uma actividade profissional intensa, liderou ainda uma tentativa de lançar um novo partido operário de oposição à ditadura [o Partido Social Operário]. Foi também, com António Sérgio, o grande organizador do movimento cooperativista, particularmente do Ateneu Cooperativo, um espaço de resistência contra a ditadura que reuniu comunistas, socialistas, anarquistas e outros resistentes.
O 40.º aniversário da morte de José de Sousa vai ser assinalado com um colóquio nos dias 13 e 20 de Janeiro, dois sábados, em ambos às 16 horas.
A primeira sessão, no dia 13, contará com intervenções de Edmundo Pedro, Francisco Canais Rocha, Fernando Rosas e Carlos Carvalho (dirigente da CGTP).
A segunda sessão, no dia 20, contará com intervenções de José Hipólito dos Santos, Eugénio Mota, José Pacheco Pereira e Manuel Canaveira de Campos (presidente do Instituto António Sérgio).
Será na Biblioteca-Museu República e Resistência (Espaço Cidade Universitária), Rua Alberto de Sousa, nº 10 A - Zona B do Rêgo, 1600-002 Lisboa - Tel: 21 7802760 (fica ao lado da Av. das Forças Armadas e perto da Rua Soeiro Pereira Gomes).
Luís Carvalho
PS: aproveito para agradecer publicamente este texto ao seu autor e para desafiar outros membros do Movimento a enviarem outros textos e/ou a tornarem-se bloggers deste espaço.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Ruy Luís Gomes e Fernando Lopes Graça (efemérides)

Celebram-se neste mês os centenários de nascimento dos antifascistas Ruy Luís Gomes e Fernando Lopes Graça.
O matemático Ruy Luís Gomes nasceu a 5/12/1905 e teve direito a uma prenda apropriada: um blogue próprio, cuja visita se recomenda vivamente, dada a sua riqueza informativa. Nele se fica ainda a saber de novo blogue biográfico, dedicado ao também matemático antifascista António Aniceto Monteiro, compelido ao exílio (para o Brasil, em 1945), por perseguição salazarista (vd. aqui).
O compositor Lopes Graça nasceu a 17/12/1906 e tem direito a um variado programa cultural de homenagem: para mais informações vd. aqui. Uma biografia cuidada de Leonor Lains pode ler-se aqui; para um debate sobre o seu percurso político-cultural vd. aqui.
Nb: imagens retiradas daqui e daqui (CMC-MMPVF), respectivamente.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

A morte saiu à rua num dia assim

Faz 3.ª feira 45 anos que o pintor José Dias Coelho, militante do PCP, foi assassinado pela PIDE, na Rua da Creche, em Alcântara, Lisboa. Tinha então 38 anos.
Dias Coelho aderiu, ainda adolescente, à Frente Académica Antifascista, e, já como aluno da ESBAL, fez parte do MUD Juvenil, participando em várias lutas estudantis em 1947. Naquela escola superior foi um dos dirigentes da frente pró-Associação Académica e das lutas em defesa da paz e contra a reunião da NATO em Lisboa em 1952. Em consequência disso foi expulso da ESBAL, proibido de ingressar noutra faculdade do país e demitido do lugar de professor do ensino técnico no Liceu Camões.
A rua onde foi assassinado tem hoje o seu nome. É, portanto, um lugar de memória já consagrado. Para 19 de Dez.º estão previstas cerimónias durante a tarde, incluindo o relançamento do seu livro A resistência em Portugal (pelas Edições Avante!) e a inauguração da exposição «José Dias Coelho, artista militante e militante revolucionário» (na Junta de Freguesia de Alcântara, R. dos Lusíadas, 13).
A canção de José Afonso «A morte saiu à rua» é uma homenagem a José Dias Coelho, aqui fica a sua letra:
~
A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai
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O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu
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Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
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Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada, há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação
v
Nb: parte da inf. extraída daqui; vd. tb. estudos de Júlia Coutinho, "José Dias Coelho. Breve cronologia pessoal e afluentes" e "José Dias Coelho . A coerência do ser e do fazer"; testemunho de José Cardoso Pires aqui.