Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Na noite em que Salazar "ganhou", na votação, da televisão pública

Publicamos hoje um texto de Irene Pimentel, historiadora e activista do movimento Não apaguem a Memória!, que nos revela os bastidores do concurso da RTP1, «Os grandes Portugueses». Por ele ficamos a saber os pormenores rocambolescos deste programa de má memória. O registo, irónico, faz juz à boa tradição lusíada, e adequa-se que nem ginjas ao tema. Boa leitura!
"Caindo num logro, achei que tinha tido a 'sorte' de ser convidada para a «grande gala», onde “tudo” ficaria decidido: ou seja, ia-se decidir quem era o maior português de sempre (em 25/3/2007). Iria finalmente – pensava – contribuir para contraditar, nem que fosse um pouco, o pensamento único. Ingenuidade e omnipotência! É certo que, após muito hesitar – é verdade –, decidi que talvez valesse a pena intervir, nem que fosse durante 45 segundos, para lançar uns pós de contraditório. Já agora, de História, num programa sobre figuras históricas, que se caracterizou por evacuar precisamente… a História. Era um concurso, mas um concurso é um concurso, é um concurso…, na televisão pública.
Tive, porém, o cuidado, ao chegar ao estúdio, de me informar se iria realmente intervir. Foi-me assegurado que sim, fui à caracterização, e colocaram-me num determinado local. Primeiro aviso: tinha sido remetida para os “apoiantes” de Vasco da Gama. Vim, depois, a perceber, pela localização, que, sabendo que ele ficaria em último lugar, era o local de onde nem valeria a pena falar. É certo que devia ter percebido e ido embora. Afinal tinha sido convidada, para estar sentada (diga-se que muito inconfortavelmente), durante três horas, para assistir – caladinha – à grande decisão, qual personagem do filme Laranja Mecânica (do Kubrick), obrigada a ver tudo, impossibilitada de fazer zapping!
Reconheço que me deixei manipular pela RTP – televisão pública – para a qual, como todos os portugueses (que pagam impostos), desconto. Tinha sido abordada, há cerca de uns meses, para dar alguns depoimentos sobre personalidades públicas da História de Portugal, para um programa da RTP, que me pareceu, tal como me explicaram então, um programa em forma de concurso, que teria a oportunidade de divulgar figuras históricas portuguesas, ao grande público. Público tão arredado da História, para não falar da memória, relativamente a tempos mais recentes. Gravei depoimentos sobre Álvaro Cunhal, Oliveira Salazar, Humberto Delgado, José Afonso e Aristides de Sousa Mendes, se bem me lembro. Recordo-me de ter discutido então sobre a presença de Salazar (que estava programada) e de ter sido colocada a questão de ele poder ganhar. Mais uma razão – pensei –, para fazer um depoimento sobre ele (que realmente fiz).
Depois, surgiu, uma mini polémica, em resultado de ter havido da parte da RTP a ideia de não colocar Salazar e Caetano à votação, à semelhança do que havia acontecido na Alemanha e em França, respectiva e relativamente a Hitler e a Pétain. Pareceu-me estranho, pois eu própria tinha gravado um depoimento sobre o ditador português, e achei que dali resultava um efeito perverso – desejado ou não – que tinha o condão de fazer do omnipotente presidente do conselho de ministros uma vítima… da Censura, caso ele não fosse incluído nas personalidades que iriam ser sujeitas ao “voto” dos “portugueses”. Parece que houve uma mobilização de salazaristas e de apoiantes de Álvaro Cunhal!
Passou o tempo… Pensei que o concurso não tinha grande audiência, os debates eram mornos, cá fora pouco se falava dele, a não ser com alguns picos de excitação, regulada pelos métodos de marketing. Mesmo assim, era um concurso, um concurso… e, para não haver batota, haveria certamente contraditório. Eis que surgem, em Lisboa (não sei se pelo país) cartazes referendários, a branco e preto (não me refiro à cor, mas à tonalidade da mensagem), dicotómicos e destinados a excitar e a fazer sangue: «Salazar, ditador? Ou salvador». O primeiro adjectivo era um pleonasmo, o segundo não se percebia: salvador de quê? do seu próprio regime?
Cá fora, as pessoas começaram a estranhar, uns com maior ou menor revolta, a grande maioria com indiferença. Era um concurso, um programa de entretenimento, dizia-se, com a vantagem de difundir, ao grande público, personagens históricas. Uns davam o benefício da dúvida, outros consideravam o programa inócuo, uma vez que Salazar estava bem morto e enterrado. Muitos, entre os quais me incluo, desvalorizaram e enganaram-se. Outros acertaram e disseram que o programa era um disparate e passaram à frente.
Depois, foi a escolha de quem defendia as personagens. As mais polémicas ficaram a cargo de defensores, apoiantes ideológicos das mesmas. Tudo a bem do espectáculo, do circo e da dicotomia, para acentuar o voto militante. Vieram então os programas hagiográficos sobre as figuras. Tanto mais hagiográficas quanto se aproximavam dos tempos recentes. Ressalve-se o programa sobre Aristides de Sousa Mendes, cujo momento histórico teve cerca de uma semana, e com quantas consequências! Salvou vidas humanas. Devo dizer que não vi todos os documentários, por isso, só me posso referir aos relativos a Aristides, Cunhal e Salazar.
O elogio a Salazar tinha imagens de arquivos – conhecidas – e Jaime Nogueira Pinto, propagandeando, sem a criatividade estética de António Lopes Ribeiro, na Revolução de Maio, o regime salazarista. Todos os lugares comuns presentes: o homem que equilibrou as Finanças, que defendeu a nossa independência nacional, ao apoiar os golpistas militares em Espanha, e que nos salvou da II Guerra Mundial. Evidentemente omitindo que qualquer um equilibra as Finanças, eliminando toda a oposição, as greves, as manifestações, e ocultando-a através da Censura.
Mas o melhor estava para vir! Foi o espectáculo mais aborrecido ao qual jamais assisti! Felizmente, o que ia ouvindo contribuía para enervar bastante, para manter qualquer pessoa acordada. Havia um senhor que elogiava o facto de ele próprio gostar de mulheres. Alguém assegurava que Fernando Pessoa não era alcoólico nem homossexual. Um político da Direita portuguesa lamentava que o século XX português tivesse sido triste, talvez – só talvez – para revelar que não iria fazer a mesma coisa que Salazar. Entretanto, qualquer amante de história, atento aos anacronismos, sabe que Salazar só há um e que nada se repete da mesma forma.
Um falava das crueldades de antanho, reduzindo a Inquisição portuguesa à brandura dos nossos costumes. Um senhor jornalista da assistência defendia o primeiro rei de Portugal, arengando as massas a votarem nele, graças ao qual Portugal era este país extraordinário, de onde saíram os valorosos filhos que, na véspera, tinham goleado, por 4 a 0, outros – neste caso flamengos –, mostrando à Europa de que massa somos feitos.
Mais uma vez o melhor estava para vir. O defensor de Salazar, sem tempo para fazer o trabalho de casa, repetiu o que já havia dito no tal filme de propaganda, sem a estética estado-novista: que ele tinha sido um ditador, mas também um «líder», que, esse sim, tinha congregado toda a direita e domesticado as Forças Armadas (os quadros intermédios), que nunca tinha sido corrupto, que nascera e morrera pobre, num país seguro. Se houvesse contraditório, alguém poderia ter dito, entre outras coisas, que houve os ballets roses, que o ditador sabia bem que o que parece às vezes é, e que, por isso, basta instaurar a censura e, como por milagre, desaparecem todos os conflitos, a corrupção, os crimes, os suicídios. Que tivemos uma guerra colonial em três frentes, durante treze anos, sorvedoura de uma geração portugueses, forçados ao serviço militar obrigatório. Já agora…. Que dizer do argumento de Nogueira Pinto, segundo o qual se pode agradecer a Salazar ter feito uma guerra colonial em três frentes, pois contribuiu com isso a formar uma identidade nacional, que possibilitou a criação de países africanos?
A omissão, que é a arma dos mal-intencionados não parou aí. Não se ouviu, durante toda a noite, da parte do defensor do ditador, inúmeras palavras: por exemplo, PIDE/DGS, tortura, assassinato, despedimento por razões políticas, campos de concentração, miséria, falta de educação, «orgulhosamente sós», «viver naturalmente», a mordaça à criatividade, informadores da polícia, provincianismo. E sobretudo, hipocrisia e duplicidade! Perdão, para ser justa, o defensor encontrou um defeito no ditador: nos últimos anos do seu regime, não ouviu o povo! E, assim, se deu lugar à complexidade da personagem.
No programa, assistiu-se também à suprema ironia de o defensor de Salazar tentar eliminar, com batota (qualquer concurso a tem, pelos vistos), um adversário. E aqui, é mais grave, pois sai-se do terreno da ideologia, que qualquer um tem o direito de defender, em democracia, para a falsidade. Jaime Nogueira Pinto inventou o número de um milhão (porque não dois milhões, ou meio milhão, sempre era mais credível) de refugiados que Salazar teria salvo, durante a II Guerra Mundial. Então, porque puniu Sousa Mendes, acusando-o de desobedecer às suas ordens ao dar vistos a apenas alguns milhares de perseguidos do nacional-socialismo? Na realidade, o Estado Novo teve de deixar entrar, em Portugal, os refugiados com vistos de Sousa Mendes, porque a Espanha os recusou de volta. Houve fugidos ao nazismo, em Portugal, apesar de Salazar e porque, quando os destinos da guerra se viraram para o lado dos Aliados, o ditador viu o que tinha a ganhar com uma postura de neutralidade colaborante.
No final, não faltaram os analistas políticos, alguns dos quais surgiram no seio dos defensores. Um deles – defensor do Marquês de Pombal – aproveitou para dizer que Salazar “ganhou” porque tudo em Portugal estava muito mal. Embora não o dissesse, percebia-se que se referia ao próprio regime. Agora a sério: esse regime é o regime democrático. Com todos os seus erros, temo-lo, e é incomensuravelmente melhor que a ditadura. Até porque em democracia, podemos criticar, sugerir lutar contra o que não gostamos. No programa da RTP, houve vozes contra o regime democrático. É próprio da democracia. Mas também convém que alguém a defenda, num instrumento que é pago pela mesma.
Aproveitando o facto de ter estado 'calada' a assistir, vou relatar algumas coisas que vi. Odete Santos estava lá para gáudio dos espectadores. Num registo conhecido e inadequado – por isso terá sido escolhida –, interveio e foi gozada e achincalhada. Da bancada dos “salazaristas” (defensores de Salazar), havia risos ostensivos e achincalhantes de quem nem num concurso se sabe comportar. Prestou-se a isso, mas um mínimo que se exigia da televisão pública é que as pessoas convidadas não fossem alvo de chacota. Quando o defensor do Marquês de Pombal, exactamente no mesmo registo – melhor dito, mais num registo utilizado, em tempos, com mocas –, fez a sua “análise” final, ninguém pestanejou, talvez porque a sua intervenção tenha sido então considerada a de um “analista político”. Depois do final do programa, assisti a 'fogosos' jovens, 'amantes de história', na sua 'juventude' a gritarem palavras de ordem (gritavam «JSD», JSD», entre outras coisas), aproveitando mais uma vez… para dizer coisas sobre Odete Santos.
Ao meu lado, estavam muitos colaboradores do concurso, que com trabalho de qualidade intervieram no mesmo, e vi desânimo e desalento, até revolta, com o resultado final. Alguém, que fez, aliás, um excelente documentário, dizia «mais valia que não se tivesse feito este concurso». Pois é, foi uma irresponsabilidade da televisão pública do Estado, com a qual eu própria colaborei!
Irene Pimentel, historiadora
P.S. Já agora, também na televisão pública (por isso nem tudo está perdido), poder-se-á assistir a uma série de excelentes documentários, da autoria de António Barreto e de Joana Pontes. Foi também na RTPN (programa «Choque ideológico») que assisti, em 26 de Março, a uma excelente intervenção sobre este concurso, do advogado Carlos Abreu Amorim, acerca da forma como uma certa direita “liberal” se envolveu em blogues, na defesa do ditador anti-liberal, deixando cair a máscara. Sugiro ao Público que o entreviste. Foi até agora a melhor análise sobre como está a ser feita, por alguns, a História da I República Portuguesa e a ascensão de Salazar ao poder."

terça-feira, 3 de abril de 2007

No país da retórica maniqueísta

O pretexto deste post é a retórica como desporto favorito de certos espíritos sérios da praça.
Pacheco Pereira – já não é novidade, eu sei– saiu a terreiro no sábado para mais uma das suas investidas moralizantes da grei (vd. «Hábitos velhos e relhos», Público). Do alto dos pensamentos perfeitos e da mais fina retórica, o famoso dirigente do PSD resolveu equivaler o “salazarismo difuso” com o “politicamente correcto” de esquerda, onde se esforça por incluir todos os “«democratas»” (sic) que pensam de modo diverso do seu.
Diz Pereira que um cartaz racista e xenófobo do PNR não deve ser motivo de indignação e de reprovação, mesmo que a Constituição da República Portuguesa proíba organizações racistas e fascistas. Aduz que assim se lhe deu publicidade a mais, esquecendo-se que fez o mesmo com o seu artigo de opinião.
E parte daí para as suas habituais profissões de fé anti-esquerda, neoliberal e de americanismo primário, misturando alhos com bugalhos com o propósito retórico de tornar certas posições que lhe desagradam repulsivas.
Já do apoio parlamentar quase unânime dado na véspera à petição do movimento cívico Não apaguem a Memória! nem uma linha. Percebe-se: é que falar seriamente sobre políticas da memória, políticas museológicas, arquivísticas e científicas dá muito trabalho.
Ainda por cima quando a sua colega no hemiciclo, Zita Seabra, abalroou a ideia de preservar a memória da ditadura (e, de caminho, o consenso de vários países europeus), alegando uma suposta partidarização da memória, quando foi a própria que partidarizou a questão. Com efeito, o único deputado a opor-se foi Zita Seabra, assim ultrapassada pelo próprio CDS, que adoptou uma posição sensata. Seabra diz que o PCP usa esta memória para o jogo político, deixando passar a ideia (voluntariamente ou não) de que o Não apaguem a Memória! está ligado ao PCP, quando sabe perfeitamente que o movimento é apartidário. É claro que disto não convém a Pacheco Pereira falar. Mais vale dar umas piruetas e assobiar para o lado.
Deslocando a questão para um uso tenebroso da memória recente pelo PCP, este tipo de posicionamento esquiva-se a ter que indagar a falta de questionamento no trinténio democrático sobre o que foi a ditadura e que mensagem cívica, política e cultural pretendemos legar. E, deste modo, acaba por anular o próprio pluralismo de que se faz arauto defensor: é que há várias políticas da memória, várias memórias colectivas e também uma memória pública a construir resultante da mistura das restantes. Ora, apontar baterias numa direcção omitindo e/ou desvalorizando o que se passa à volta – tanto em termos de maus exemplos como de propostas válidas na mesa – não será um mau serviço prestado ao aprofundamento democrático, à pedagogia cívica, ao pensamento crítico e construtivo?

terça-feira, 27 de março de 2007

"Há quem prefira ser escravo a ser livre"

É, é verdade que foi uma farsa, mas mesmo assim foi à custa do erário público e houve 50 mil chamadas (7 mil das quais para o ditador). E as 2 sondagens entretanto feitas, pela Marktest e a Eurosondagem, colocam o tirano no 4.º e 7.º lugares das preferências dos inquiridos, respectivamente, o que já dá mais que pensar (vd. P2, 27/III, p. 4-5). Por tudo isto, vale a pena meditar na imagem de Zé Dalmeida (intitulada «A morte saiu à rua... numa RTP assim», do seu blogue Pitecos) e na análise de José Vitor Malheiros («A única eleição que Salazar ganhou»), de que aqui fica um excerto relevante:
"Salazar no top diz-nos que a sociedade autoritária, repressiva, retrógrada, machista, fechada, pobre, colonialista e de guerra criada pelo ditador de Santa Comba se transformou na memória de muitos num paraíso de ordem, respeito e honestidade, gerido com bonomia por um burguês paternal de fato de três peças. O que nos lembra que a história se reescreve todos os dias, que as lições da história nem sempre se aprendem, que a democracia é frágil e que, por muito que isso nos repugne aceitar, há quem prefira ser escravo a ser livre.
Diga-se que há algo no formato do concurso que é desagradável em si e é lamentável que a estação pública de televisão tenha querido ser o seu promotor. O formato dos Grandes Portugueses e a eleição do «maior» de todos eles (com o repugnante slogan «Só há lugar para um!», à maneira da pior cultura popular americana), não se pode considerar que exalte os valores da cidadania. O formato escolhido (como, aliás, as escolhas feitas noutros países demonstram) já aponta à partida para alguém que se alcandorou a um lugar cimeiro, um lugar onde um ditador se sente certamente mais à vontade do que um escritor. Salazar sentir-se-ia (sentiu-se) à vontade neste lugar de «maior português de todos os tempos». Se lhe tivessem proposto o título, Fernando Pessoa engasgar-se-ia de riso, Luís de Camões de fúria e Aristides de Sousa Mendes sairia discretamente pela porta do fundo. É por isso que ocupam os lugares que ocupam. Que não precisam de epítetos".
(in Público, 27/III, p. 45)
Nb: outros textos específicos de José Leite Pereira, Cláudia Castelo e Daniel Melo.

domingo, 25 de março de 2007

O maior dos piores (crónica)

"Ao que parece, Salazar vai ganhar o tal concurso de o melhor português. Vale o que vale. Vale bem mais o belíssimo comentário dos Gato Fedorento não se faz; um homem que toda a vida andou a evitar as eleições democráticas tem a sua primeira vitória depois de morto. Se é verdade que ele vai ganhar, se é verdade que um qualquer sindicato de voto o elegerá, fique então essa consolação de o ditador, depois de morto, ter sido sujeito à opinião livre dos cidadãos. E voltando ao tema inicial: o grande português é um prof. dr. Foi um grande sacana, possivelmente o maior sacana português. Mas era prof. dr.. Bom proveito!"
José Leite Pereira
(«O maior sacana português», JN, 23/3)
PS: vale a pena também ler a 1.ª parte desta crónica, sobre o peso da reverência no país.