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quinta-feira, 5 de abril de 2007

O saudoso tempo do fascismo - introdução ao riso e à memória

Este é decididamente um mês de boa colheita para a memória da luta pela liberdade.
Ainda a 10 de Abril será lançado o livro de memórias O saudoso tempo do fascismo - introdução ao riso e à memória, de Hélder Costa, na sede da Associação 25 de Abril, em Lisboa, às 18h30.
Em jeito de introdução à leitura do livro do dramaturgo, encenador e director do grupo de teatro A Barraca, deixa-se aqui um excerto do respectivo prefácio, por Urbano Tavares Rodrigues:
"Poderia ser quase uma autobiografia meio humorística, mas Hélder Costa preferiu falar da sua geração. (...)
E depois a Lisboa dos anos sessenta, as greves na Universidade, antecipando o Maio francês de 68, os primeiros passos de emancipação das raparigas, o erotismo em frente comum com a luta política. (...)
Neste livro convivem a todo o momento a crítica e a mofa, armas de ataque do autor, com a lembrança simples, por vezes à beira da emoção, de gestos heróicos levados a rir, em que a ideologia, a dignidade e adrenalina do risco se dão as mãos. Tudo isto numa galopada de juventude estudante, como no capítulo dedicado a Campo de Ourique ou em múltiplas referências à fraternidade desafiante, ao amor e à ternura que enchiam as algibeiras deste revolucionário andante, vozeador que, espalhando brasas, também colecciona a amizade".

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Edmundo Pedro, um combatente pela liberdade

Edmundo Pedro, decano do Não Apaguem a Memória!, lançará o 1.º tomo das suas Memórias – um combate pela liberdade no próximo dia 18 (5.ª feira, 18h30), no auditório da Torre do Tombo, com apresentação do historiador José Pacheco Pereira.
Nem de propósito: enquanto jovem revolucionário, Edmundo Pedro participou, justamente, na insurreição do 18 de Janeiro de 1934. Esse envolvimento custar-lhe-ia caro – a sua primeira prisão, tinha apenas 15 anos. Vale a pena prosseguir aqui esta história, na versão de António Melo:
"Ano de 1934. O movimento sindical preparava uma greve geral de protesto contra a instituição, no final de 1933, da Carta do Trabalho. Uma cópia do modelo fascista italiano, que extinguia os sindicatos livres, substituindo-os por organizações corporativas laborais. Viviam-se momentos de ansiedade.
No dia 17 de Janeiro a célula comunista do Arsenal da Marinha enviou um aprendiz ao Regimento de Caçadores 7, então aquartelado no Castelo de S. Jorge, em Lisboa. O Edmundo Pedro, dele se trata, tinha por missão confirmar a data da insurreição junto dos militares conluiados: era para o dia seguinte, 18 de Janeiro.
Quando partiu do Arsenal tinham-lhe carregado os bolsos com balas. Depois da missão no Castelo devia dirigir-se para o Poço do Bispo e integrar-se numa brigada de acção directa. Aí receberia uma pistola e ser-lhe-ia determinado o tipo de intervenção: em piquetes de greve, a cortar linhas-férreas ou a derrubar postes de alta tensão.
Mas alguém «bufara». Quando pediu à sentinela para falar com o tal militar, surgiu-lhe o sargento de guarda. Já não prosseguiria a missão grevista. Mas conseguiu libertar-se do peso das balas despejando-as numa sarjeta.
Ao fim de uma semana recuperou a liberdade. Regressou ao Arsenal, mas não pôde entrar. Tinha que explicar a ausência. Foi pedir essa justificação ao próprio sargento da guarda de Caçadores 7. Ousadia que pagou caro. Os conluiados, diante do fracasso da insurreição, «borregaram». Contaram que o contacto com a organização da greve era aquele rapagão de 15 anos.
Quando chegou ao Castelo de S. Jorge foi detido e enviado para o Aljube. Lá ficou até ser condenado a um ano de prisão, que cumpriu na fortaleza de Peniche.
Numa interpretação exemplar da justiça fascista o meritíssimo aplicou-lhe o Código em todo o seu rigor. Se o delito comportava suspensão de direitos políticos, não era pelo facto do réu ter apenas 15 anos que a pena não se lhe aplicaria. Além da prisão, impôs na sentença a privação de direitos políticos por cinco anos. Edmundo Pedro, saído da classe operária, não quebrou e fez a sua opção revolucionária. Quando saiu da prisão entrou na clandestinidade. Dois anos mais tarde, de novo preso, foi enviado para o campo de concentração do Tarrafal. Lá ficou até 1945. Voltou a ser preso em 1962. Só depois de 1974, Edmundo Pedro pode votar e ser eleito deputado constituinte num regime democrático.
"
António Melo
V
ADENDA: para uma leitura em primeira mão do novo livro de Edmundo Pedro ver o texto de José Leitão aqui.