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domingo, 2 de dezembro de 2007

Ecos da Guerra Civil espanhola em Barrancos

É amanhã lançado na Biblioteca Museu República e Resistência (Espaço Cidade Universitária) o livro de Dulce Simões, Barrancos na encruzilhada da Guerra Civil de Espanha. Trata-se de uma obra baseada nas memórias de Gentil Valadares, filho de António Augusto Seixas, um tenente da Guarda Fiscal de Barrancos que protegeu cerca de mil refugiados republicanos que fugiam de povoações vizinhas de Espanha, ante o avanço dos sublevados nacionalistas, em 1936. Fê-lo, contrariando as ordens de Salazar e pondo em risco a sua carreira.
Hoje, no magazine Pública, Carlos Pessoa conta-nos a história de "António Seixas: o oficial que salvou centenas de espanhóis da guerra civil". Foi ouvir Manuel Méndez Garcia (92 anos), um desses refugiados salvos por António Seixas, e alguns dos seus contemporâneos. Percebe-se que além de ser um republicano convicto, António Seixas foi movido pelo espírito humanitário.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Lei da memória histórica foi aprovada em Espanha

O parlamento espanhol aprovou hoje a Lei da memória histórica, em reconhecimento das vítimas do franquismo (em especial as da Guerra Civil de Espanha) e condenando esse regime como anti-democrático e usurpador do poder legítimo (vd. noticiário no diário espanhol Público). O respectivo anteprojecto fora aprovado em Julho passado, tal como então referimos neste post, em colaboração com o historiador Daniel Lanero Táboas.
Do lado positivo, destacam-se 9 pontos: 1) a condenação do franquismo, enquanto regime usurpador do poder democrático legítimo e opressor do povo espanhol (de acordo com o aprovado pela Comisión Constitucional del Congreso, em 2002, e pelo Conselho da Europa, em 2006); 2) a valorização da memória pública das vítimas da Guerra Civil de Espanha que lutaram pela defesa dos valores democráticos; 3) a ilegitimidade dos julgamentos franquistas relativos à Guerra civil; 4) a retirada dos símbolos franquistas de monumentos públicos e das igrejas (salvo se atentarem contra a integridade artística religiosa desses espaços), sob pena de suspensão de subsídios oficiais a essas entidades; 5) a proibição de celebrações políticas no Vale dos Caídos; 6) a possibilildade de concessão de indemnizações às vítimas caídas em nome da defesa da democracia; 7) a integração do Archivo General de la Guerra Civil de Salamanca no novo Centro Documental de la Memoria Histórica, tb. sediado naquela cidade; 8) a posibilidade de concessão da nacionalidade espanhola aos descendentes até ao 1.º grau de quem perdeu a nacionalidade espanhola pelo exílio, em consequência da Guerra civil ou da ditadura franquista; 9) facilidade de localização das fossas comuns e de identificação das vítimas do franquismo pelas autoridades públicas.
Do lado negativo, ressaltam 4 aspectos principais: 1) a não revisão dos processos judiciais franquistas ligados à Guerra civil; 2) as dificuldades na reabertura de fossas comuns de vítimas da repressão (os custos não são cobertos pelo Estado); 3) o futuro estatuto do monumento franquista Vale dos Caídos (que se mantém sem remoção da simbologia franquista); 4) o modo de se proceder à indemnização das vítimas.
Para uma reflexão mais aprofundada sobre esta importante questão recomenda-se a leitura do post "A «Ley de la memoria histórica», por Daniel Lanero Táboas" e das notícias "Las diez claves de la nueva ley" e "El Congreso aprueba la Ley de Memoria Histórica", ambas do diário espanhol Público.
Nb: imagem icónica do assassínio de defensor republicano durante a Guerra Civil de Espanha, vítima de disparos por fiéis aos nacionalistas de Franco (foto de Robert Capa).

domingo, 19 de agosto de 2007

Federico García Lorca


No dia 19 de Agosto de 1936 foi assassinado o poeta Federico García Lorca

O Poeta diz a verdade

"Quero chorar meu sofrimento e digo-o
para que tu me queiras e me chores
num poente de rouxinóis cantores,
com um punhal, com beijos e contigo.

Quero matar o único testigo
do assassínio destas minhas flores
e converter meu pranto e meus suores
num eterno montão de duro trigo.

Que não se acabe nunca esta madeixa
do quero-te e me queres, sempre encendida
com lua velha, com sol que se queixa;

Coisa que negas, por mim não pedida,
para a morte será, que jamais deixa
nem sombra pela carne estremecida."


Tradução de José Bento

Poeta e dramaturgo espanhol, Federico García Lorca nasceu a 5 de Junho de 1898 em Fuentevaqueros, Granada, e morreu em Viznar, Granada, a 19 de Agosto de 1936.

O filho mais velho de quatro irmãos do proprietário rural Federico García Rodriguez e da professora Vicenta Lorca Romero começa em 1914 os estudos de Direito, Filosofia e Letras na Universidade de Granada. Cinco anos depois muda-se para uma residência de estudantes em Madrid e, na capital, prossegue os estudos até 1928. Conhece os elementos da chamada “Geração de 27”, entre eles o cineasta Luis Buñuel, o mestre do surrealismo Salvador Dalí e o poeta Juan Ramón Jiménez. Em Madrid nascem as suas primeiras obras literárias: Libro de Poemas (1921) e a obra teatral Marina Pinedo (1925). Funda em 1928, em Granada, a revista literária Gallo, mas não serão publicados mais que dois números. O segundo número da Gallo publica O Manisfesto Anti-Artístico Catalão assinado por Dalí.

Habitado por uma alma de artista, a par da literatura, os interesses de García Lorca ligam-se à música e à pintura.

Logo que termina os estudos universitários em Madrid, García Lorca viaja até aos Estados Unidos. Estuda e dá conferências na Universidade de Columbia em Nova Iorque e dessa experiência nasce o livro Poeta em Nova Iorque (1929). Viaja depois até Cuba e Argentina. Da viagem a Cuba trará uma impressão muito forte.

De volta a Espanha cria o teatro Universitário ambulante “La Barraca”, que representa obras de grandes mestres espanhóis como Calderón, Cervantes e Lope de Vega.

No ano de 1936 os Franquistas conquistam o poder em Espanha e Federico García Lorca será uma das primeiras vítimas do regime nacionalista. Apesar de não pertencer a nenhum partido político, como artista moderno, escritor e homossexual Lorca é, por definição, um inimigo do regime ditatorial. No dia 19 de Agosto de 1936 Federico García Lorca era arrastado para um descampado e sumariamente assassinado com um tiro na nuca.

A bibliografia do escritor inclui os títulos de poesia: Poemas Del Cate Jundo (1921); Primeras Canciones (1922); Canciones (1921-1924); Romancero (1924-1927); Llanto (1935); Seis Poemas Galegos (1935); Diván del Tamarit (1936); e no teatro: El Maleficio de la Mariposa (1919); Marina Pineda (1925); La Zapatera Prodiogiosa (1930); Bodas de Sangre (1933) Yerma (1934); La Casa de Bearda Alba (1936).

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Lágrimas fascistas: construindo a vitimização na Espanha franquista

O historiador espanhol Antonio Cazorla-Sanchez (Trent University, Ontário, Canadá) profere esta 6.ª feira uma conferência sobre a construção da vitimização dos vencedores sob o franquismo, no âmbito do Seminário de Investigação CEHCP/ICS.
Intitulada «Fascist tears: constructing victimhood in Franco's Spain», a palestra decorrerá às 13h30, na sala de aulas 2 do ICS-UL (Av. Prof. Aníbal de Bettencourt, 9; estação de metro Entrecampos). A organização cabe a António Costa Pinto (ICS-UL) e Luís Nuno Rodrigues (CEHCP-ISCTE).
Pode-se ter uma ideia do fio condutor da comunicação pela leitura de 2 textos saídos no El País: «Qué hacer con nuestra guerra» (4/IV/2005) e «El secuestro del dolor» (27/XI/2005).
Cazorla-Sanchez é autor, entre outros livros, de Las políticas de la victoria: la consolidación del nuevo estado franquista (1938-1953), Madrid, Marcial Pons, 2000.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Comunismo e Guerra Civil de Espanha

O Centro de Estudos de História Contemporânea do ISCTE, por iniciativa de João Arsénio Nunes e do companheiro do NAM José Neves, realiza esta 5.ª feira uma conferência alusiva à Guerra Civil de Espanha e ao papel dos comunistas numa das maiores tragédias do século XX, da qual emergeria a ditadura franquista. Aproveita-se para respigar o texto relativo à palestra do historiador Daniel Kowalsky:
"No âmbito do seminário permanente que tem vindo a decorrer desde o mês passado dedicado ao tema Comunismos: História, Poética, Política e Teoria, tem lugar na próxima quinta-feira, no auditório B203 do ISCTE (edifício novo), às 17,30h., a sessão dedicada ao tema «Comunismo na guerra civil de Espanha».
O conferencista é desta vez DANIEL KOWALSKY, Professor da Queen’s University de Belfast e actualmente um dos mais reputados especialistas mundiais sobre este tema. A sua tese de doutoramento realizada na Universidade de Wisconsin, Stalin and the Spanish Civil War, mereceu o American Historical Association's Gutenberg-e Prize em 2001. Actualmente desenvolve também pesquisa sobre cinema espanhol na época da transição para a democracia e é ainda o editor da série respeitante à União Soviética da publicação oficial dos Documentos Britânicos de Política Externa. Tem orientado seminários de investigação na Sorbonne e na London School of Economics, bem como em Espanha e nos EUA.
Em conclusão da sua tese, defende que «em todas as facetas do envolvimento soviético nas questões espanholas durante a guerra civil, a posição de Estaline nunca foi de força, mas antes de fraqueza». A iniciativa conta com o apoio do British Council e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia."
Nb: imagem retirada daqui.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Gernika



Em 26 de Abril de 1937, a força aérea nazi de Hitler, através da sua Legião Condor, bombardeava a cidade basca de Gernika. Aliás, não se limitou a bombardear; em verdade tentou dizimar toda a cidade. Na altura ao serviço das forças fascistas de Franco, o ataque a Gernika não teve quaisquer intentos militares, teve o objectivo de destruir tudo e todos em Gernika. Para a História ficou uma pequena árvore no centro da cidade que sobreviveu, sendo hoje um símbolo da cidade.

O ataque a Gernika foi um dos mais sinistros e simbólicos ataques das forças nazi-fascistas, durante a Guerra Civil de Espanha.

Em Paris, dias depois, desfolhando o jornal comunista L'Humanité, Pablo Picasso vê a notícia e as fotos do ataque a Gernika. É então que o Governo Republicano de Espanha lhe encomenda o quadro. Um notável quadro nasce. Actualmente o quadro encontra-se no Museu de Arte Reina Sofia em Madrid, ainda que envolto em polémica, pois o País Basco tem repetidamente pedido o repatriamento do quadro para o colocar em Bilbau, sendo recusado alegadamente por "fragilidade da obra".

quinta-feira, 24 de maio de 2007

"Arte e Literatura na Guerra Civil de Espanha" de João Cerqueira


Dia 24 de Maio, às 21:00, na Fundação Mário Soares, é apresentado o livro Arte e Literatura na Guerra Civil de Espanha de João Cerqueira.
"Durante a Guerra Civil de Espanha e posterior regime franquista a
arte e a literatura despontam como forma de resistência à opressão e à violência, encarnando um sentimento profundo de insubmissão e esperança. Uma intensa força espiritual compele artistas, escritores, cineastas, músicos, operários e camponeses a explorarem as suas potencialidades criativas para servir um ideal político-filosófico. Desse esforço desesperado resultou um número difícil de quantificar de obras literárias, artísticas, cinematográficas, teatrais e musicais. No embate com o tempo muitas não resistiram à carga de propaganda que lhes deu origem. Outras, devido ao carácter universal e intemporal, transcenderam o contexto histórico original, mantendo incólume a genialidade e o fulgor humanista na passagem pelo crivo dos anos."


Nascido em Viana do Castelo a 23 de Outubro de 1964, João Cerqueira é licenciado e mestre em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e prepara um doutoramento sobre José de Guimarães.
Foi convidado pela revista Arte Ibérica para efectuar a cobertura das exposições decorrentes durante o Porto 2001 Capital Europeia da Cultura e é colaborador da revista Idearte.
De entre os livros de referência escolhe, como guia espiritual e manual de instruções para a sinuosa estrada da vida, O elogio da loucura de Erasmo de Roterdão.
É membro da Amnistia Internacional e da Associação Raoul Follerau.

terça-feira, 22 de maio de 2007

sexta-feira, 18 de maio de 2007

A Guerra Civil de Espanha no concelho de Barrancos


"A terrífica guerra fratricida que marca a vida da Espanha entre 1936 e 1939 é, indubitavelmente, um acontecimento horrível que marca igualmente o nosso país e, em particular, os territórios que definem a fronteira entre os dois países."
Miguel Rego

"Quando em meados de Fevereiro de 1936 a Esquerda Republicana ganha as eleições por menos de 500 000 votos (4,5 milhões contra 4 milhões de votos dos partido de direita, não levando em conta os votos dos partidos radicais que rondaram o meio milhão), a Espanha torna-se um país bicéfalo e a abrir as portas a um conflito armado. O país tradicionalista e religioso não aceitou a derrota e a 18 de Julho, a partir das Canárias, o General Franco apela à sublevação “nacionalista” que o levará até ao norte de África onde inicia o Alzamiento (o levantamento militar) que o perpetuará no poder durante 30 anos.

O conflito dura até 1939, transformando-se num campo de ensaios industriais e tecnológicos com fins militares, que servirá em particular para a Alemanha nazi preparar a II Guerra Mundial. O bombardeamento de Guernica, imortalizado por Picasso, é um dos mais violentos e mais paradigmáticos exemplos deste conflito sem regras em que se transformou esta guerra.

Portugal viveu-a como se jogasse aí o seu futuro e, em particular, o futuro político do Estado Novo e do seu chefe António de Oliveira Salazar. Na realidade, o comportamento neutral que se exigia a um país como Portugal, e que tinha sido várias vezes pedido pela Sociedade das Nações, pois o novo Governo Republicano de Espanha havia sido legitimado pelo processo eleitoral legal e democrático de 16 de Fevereiro de 1936, nunca aconteceu. Portugal apoiou desde cedo a rebelião militar Nacionalista que se instala em Sevilha e, a partir daí, espalha o terror e a violência a todo o país.



Naquela que se pensava ser uma guerra rápida, as tropas marroquinas chefiadas por Franco, procuram chegar a Madrid através de Badajoz e Mérida, ficando com a retaguarda salvaguardada e defendida pelos seus aliados portugueses. A fronteira foi então o palco privilegiado do conflito. Não só pela proximidade da guerra, cujos primeiros passos se dão junto ao território português, mas também por ser este o destino de fuga de todos aqueles que abalavam do medo e da violência do conflito armado.


Pela sua localização geográfica, o concelho de Barrancos e, em particular, a Herdade da Coitadinha e as Russianas, uma e outra propriedade da família Fialho, encheram-se de fugitivos provenientes de Encinasola, Aroche, Higuera la Real, Fregenal de la Sierra, Valência del Mombuey, Oliva de la Frontera, Cala, Zafra, Zahinos, Almendro, Fuente de Cantos ou Segura de León, entre outras.

Com uma facilidade inusitada, os falangistas rapidamente conquistam os territórios pobres desta região, depois da sua entrada em Badajoz a 15 de Agosto. Começam os mais terríficos atentados à vida humana relatados por alguns jornalistas que acompanharam a evolução do conflito, entre os quais o português Mário Neves, repórter do Diário de Lisboa, provavelmente o primeiro jornalista a entrar na cidade com as tropas nacionalistas.

Paulo Barriga, no seu extraordinário trabalho “Campos de Concentração – O envolvimento português na Guerra Civil de Espanha”, editado pela Câmara Municipal de Barrancos, em 1999, dá conta de alguns relatos recolhidos na zona de Barrancos e que demonstram a violência que esteve imanente à evolução conquistadora das tropas de Franco. Francisco P., na altura com 75 anos, afirmou que as tropas falangistas às mulheres cortavam o cabelo e os seios, davam-lhes purgantes e passeavam-nas pelas ruas. Aos homens levavam-nos para os cemitérios e fuzilavam-nos”. Maria B. afirma que o purgante era feito “com pepino picado misturado com óleo de rícino. Ataram-lhes as saias à cintura, raparam-lhes a cabeça, deixando apenas uma mecha de cabelo (monha) onde prendiam uma fita encarnada. Depois passearam-nas pelas ruas a cantarem o hino da Falange”.


Os relatos sucedem-se e cada um mais violento que o outro. Justificam-se as fugas, o terror, o medo que avassala as gentes esfomeadas das localidades fronteiriças. Os que podem fogem para Portugal. O território de Barrancos, onde a língua não é barreira e onde vivem muitos amigos e familiares destas gentes raianas, começa a ser o destino e a esperança para muitos dos fugitivos.



A fronteira é agora um local ideal para as tropas falangistas capturarem “rojos” (como então se identificavam todos aqueles que defendiam a vitória da Esquerda nas eleições) e é ao longo da fronteira portuguesa que se repartem milhares de tropas com o intuito único de capturarem todos aqueles que andavam em fuga.


Mas as gentes de Barrancos abriram os braços aos fugitivos, alguns familiares e amigos, no intuito de minorar a fome a todos eles e de dar tempo para que as tropas saíssem dali e cada um pudesse voltar aos seus lares. “São às centenas os relatos” que Paulo Barriga procurou obter destes momentos de solidariedade e que demonstram o espírito solidário que norteou o comportamento destas gentes raianas. “António M., 75 anos, recordava que: durante a guerra civil, éramos nós ainda pequenos, os meus pais estavam no campo. Um dia apareceu um homem fugido da guerra e os meus pais esconderam-no num monte de palha a ali permaneceu durante 40 dias. Só de noite é que nós lhe levávamos comida”.

Entretanto, o estado português envia para a zona da fronteira reforços militares, com o receio de, na avalanche, alguns revolucionários portugueses procurarem derrubar o Estado Novo. São efectuadas batidas no sentido de precaver a existência de focos de revolta, mas as tropas portuguesas só encontram gente assustada, mulheres, crianças, velhos. O principal responsável pelo controlo desta fronteira é o Tenente Seixas, do Posto de Safara da Guarda-fiscal.


Entre Agosto e Outubro de 1936, o responsável militar procura minorar a violência contra os foragidos e vai tentando salvaguardar a segurança daqueles que estão sob a sua alçada das mãos dos falangistas que por todos os meios tentam apanhar o maior número possível de “republicanos e rojos”. Sem grandes condições para manter os grupos separados, são criados dois “campos de concentração” (talvez o melhor termo seja o de campo de refugiados), onde se concentram mais de mil espanhóis. Os locais são a Herdade da Coitadinha, a cerca de 60 metros do monte, a montante do Poço da Ferradura, e na Almofadinha, junto à Choça do Sardinheiro. Os números exactos são de 1025 pessoas, aquelas que serão transferidas a partir de 8 de Outubro em camionetas para Moura e Beja e, finalmente, a partir de Lisboa, onde no navio Niassa chegarão ao Porto republicano de Tarragona, fugindo desta forma à fúria nacionalista que à época controlava toda a zona.

Os relatos da altura falam do apoio dado em Beja pelas populações que forneceram água e víveres. E dos dois partos efectuados em Moura.


A Herdade da Coitadinha vê-se desta forma associada à Guerra Civil de Espanha pela existência de um Campo de Concentração (talvez mais correcto seja a utilização do termo Campo de Refugiados), pela forma como todos aqueles que ali se encontravam, que funcionou durante quase três meses. A solidariedade manifestava-se pela alimentação que era fornecida, tanto pelos barranquenhos e, em particular, pelos proprietários, como pelo Estado português, pelas roupas que eram doadas, em particular às crianças, para além da segurança que estava imanente à sua presença ali.

O campo era uma estrutura muito rudimentar em que uma das poucas construções efectuadas foi uma espécie de casa de banho dividida em duas partes, feita em chapas de zinco e troncos de azinheira, separando desta forma a área de utilização de mulheres e homens.


Acoitados entre estevas e azinheiras, os refugiados viviam protegidos pela Brigada Fiscal de Safara, que para ali tinha sido destacada para proteger a zona da fronteira, bastante povoada do lado espanhol, e muito acicatada pelos militares falangistas que, quase sempre não faziam prisioneiros, mas mortos.

Apesar de pouco divulgada esta estrutura marca bastante a memória da população de Barrancos, uma estrutura que tem ainda hoje como única referência física o Poço da Ferradura, e de onde se abasteciam os cerca de setecentos refugiados fugidos à violência das tropas que ocuparam as povoações espanholas da região de Barrancos.


Na memória, serve sobretudo a coragem do Tenente Seixas que, desobedecendo aos seus superiores hierárquicos, assumiu a segurança de todos os espanhóis em fuga que entendiam ficar sobre o seu controlo e viu-se por isso castigado sendo compulsivamente reformado."


Texto do Blogue Parque da Natureza de Noudar

  • Parque da Natureza de Noudar
  • segunda-feira, 14 de maio de 2007

    A Esperança - André Malraux


    Em Junho de 1936, o líder da oposição de direita é assassinado na Espanha, deflagrando uma revolta militar liderada pelo nacionalista Francisco Franco. A guerra civil que se seguiu durou três anos, opondo nacionalistas, religiosos e monarquistas, que controlavam o exército e eram apoiados pelos governos da Alemanha e da Itália, e as forças republicanas, que contavam com a polícia e os carabineiros, além de milícias operárias. Os legalistas eram apoiados pela União Soviética, Grã-Bretanha, México e França, e principalmente pelas Brigadas Internacionais, formadas por 35 mil voluntários de 50 países.
    Um desses voluntários era André Malraux, que, um mês após o início do conflito, organizou a esquadrilha España que, com menos de vinte aviões, participou de combates no vale do Tajo, em Toledo, Aragão e Málaga. Malraux, que não pilotava, participava das missões como observador e algumas vezes como artilheiro. Depois, passou a actuar como embaixador dos republicanos, inclusive com um périplo pelos Estados Unidos, discursando e recolhendo doações para hospitais espanhóis. Em Abril do ano seguinte, retornou à Europa para escrever A esperança, concluído em poucos meses e lançado em dezembro de 1937. O livro ainda daria origem a um filme, de mesmo título, lançado em 1939.
    Desde seu lançamento, A Esperança dividiu a crítica, indecisa entre tratar o livro como um romance ou como uma reportagem. Para Jean Lacouture, essa é uma questão menor, pois se a obra é um testemunho do engajamento de Malraux, a esperança do título vai além do episódio espanhol (ainda que crucial), para falar de todas as lutas travadas no século XX para mudar a condição humana. "Como se ele não devesse ser admirado por ser uma ‘reportagem’. Ademais, o que é um romance?".

    Nascido em Paris em 1901, escritor, ensaísta, crítico de arte, político, André Malraux participou activamente das grandes batalhas do século XX, desde o nacionalismo chinês até o combate ao nazismo, passando pela Guerra Civil espanhola. Militante de esquerda, ligado ao Partido Comunista Francês, permaneceu livre, porém, para se opor ao banimento de Trotski e se rebelar contra o regime ditatorial de Estalin na União Soviética. Entre 1958 e 1969, Malraux participou do governo do general Charles de Gaulle como ministro da Cultura. Morto em 1976, André Malraux é autor de numerosos romances e ensaios, entre eles, La Voie royale, Voix du silence, Les Conquérants e A condição humana, pelo qual ganhou o prêmio Goncourt.

    André Malraux visitou pela primeira vez Espanha apenas 2 meses antes do início da guerra civil, a convite do escritor José Bergamín. A sua participação no conflito começou logo em Agosto de 1936, data da constituição da esquadrilha aérea España. Esta força, com cerca de 20 aviões pilotados por um grupo de voluntários estrangeiros, teve um papel importante durante os primeiros meses de guerra, participando activamente nas frentes de Aragão, Toledo, Málaga e na batalha de Teruel, onde se confrontaram directamente com a Legião Condor alemã e conseguiram evitar a tomada da cidade pelas forças nacionalistas. Não sendo piloto, Malraux voou como observador em missões de reconhecimento e operou a metralhadora em missões de ataque, sendo ferido sem gravidade por 2 vezes.
    Com o fim da esquadrilha, em Fevereiro de 1937, terminou a participação activa de Malraux no conflito. Não deixou, contudo, de continuar a apoiar a causa republicana, participando em diversas actividades de recolha de fundos em França e nos Estados Unidos da América.
    Em Dezembro é publicado L’Espoir (A Esperança), romance baseado na sua experiência pessoal da guerra. Escrito antes do desenlace final do conflito, o livro termina cronologicamente com a vitória republicana na batalha de Guadalajara, num tom optimista que não se viria a confirmar. Entre 1938 e 1939, Malraux participa ainda na adaptação de alguns capítulos d’A Esperança para cinema. O filme é exibido pela primeira vez em 1939, sob o título Sierra de Teruel, mas só conhecerá circulação comercial depois da 2ª Guerra Mundial, desta vez com o mesmo título do romance em que se baseou.

    “Não se trata de ir combater em Madrid, em Barcelona ou no Pólo Norte. Nem de aceitar a vitória de Franco, com vinte anos de cagaço pela frente; todos à mercê da denúncia de uma puta, da vizinha ou do cura. Lembrem-se das Astúrias. A nossa aviação estará pronta dentro de alguns dias. Todo o país está conosco; e o país somos nós” (André Malraux, A Esperança)

    9 Citações:

    "A cultura, sob todas as formas de arte, de amor e de pensamento, através dos séculos, capacitou o homem a ser menos escravizado."

    "O comunismo destrói a democracia; mas a democracia também pode destruir o comunismo."

    "São precisos 60 anos e não 9 meses para fazer um homem."

    "O homem é aquilo que ele próprio faz."

    "A arte é um antidestino."

    "A Gioconda sorri porque todos os que lhe puseram bigodes estão mortos."

    "Os grandes artistas não são os copistas do mundo, são os seus rivais."

    "Se compreendêssemos, nunca mais poderíamos julgar."

    "Vi as democracias intervirem contra quase tudo, salvo contra os fascismos."


    ESPOIR/ Espoir-Sierra de Teruel
    de André Malraux
    com José Sempere, André Mejuto, Nicholas Rodriguez
    França, 1945 - 78 min

    Espoir, também conhecido como Sierra de Teruel, é um dos mais famosos filmes que tiveram por cenário a guerra civil de Espanha. Talvez o mais mítico e, seguramente, o mais comprometido, porque feito por alguém que a viveu, e filmado nos próprios locais durante o conflito. Inspirando-se no romance que escrevera e na sua experiência de combatente, André Malraux filmou o drama dos aviadores republicanos sobreviventes da queda do avião e o seu salvamento por civis, na serra de Teruel.

    sábado, 5 de maio de 2007

    Pombas de Guerra


    Pombas de Guerra - Quatro mulheres na Guerra Civil de Espanha - de Paul Preston

    O livro de Paul Preston é uma visão muito interessante sobre um dos acontecimentos mais marcantes do século XX - A Guerra Civil de Espanha.

    Do livro pode-se dizer que prima pela originalidade do tema, com uma escrita de fácil leitura.

    Do Sunday Telegraph:
    "Quatro mulheres extraordinárias, cujas histórias pessoais dissipam qualquer ilusão de que a Guerra Civil de Espanha foi uma guerra masculina...
    O livro está repleto de histórias maravilhosas e observações perspicazes. Mas, acima de tudo, estes são dramas humanos onde as questões morais, o certo e o errado, o fascismo e o comunismo desaparecem."


    "A aristocrata: Pip Scott-Ellis apaixonou-se por um príncipe espanhol e partiu para Madrid numa limusina com motorista. Acabou por ser enfermeira nos hospitais franquistas na linha da frente.

    A comunista: Nan Green, por outro lado, viajou até Espanha em 3.ª classe. Deixou para trás os filhos, em Inglaterra, enquanto combatia do lado das Brigadas Internacionais.

    A intelectual: Margarita Nelken era uma crítica de arte e escritora, que traduzira Kafka para espanhol. Acusada pela direita católica de ser uma prostituta, tornou-se uma política radical.

    A fascista: Após o seu marido ter sido morto em combate, e ter abortado assim que ouviu a notícia, Mercedes Sanz- Bachiller fundou uma organização de beneficência que iria mudar a face de Espanha."


    Paul Preston é Professor da cátedra Príncipe das Astúrias de História Contemporânea Espanhola e director do Centro Cañada Blanch na London School of Economics. É membro da Academia Britânica, Comendador da Ordem de Mérito Civil e foi nomeado para Comendador do Império Britânico (CBE) em 2000. Preston foi galardoado em 2005 com o Prémio Internacional Ramon Llull concedido pelo Instituto de Estudos Catalães e pelo Instituto Ramon Llull. A 20 de Junho de 2006, foi-lhe atribuída a cadeira Marcel Proust na Academia Europea de Youste.

    De Paul Preston recomendo o livro A Guerra Civil de Espanha editado em Portugal pela edições 70

    terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

    Fernando Ruiz Vergara: crónica de uma perseguição política

    Por sugestão da Paula Godinho, deixada na caixa de comentários do post dedicado a Dionísio Pereira, reproduzimos a seguir as informações que Dulce Simões nos fez chegar sobre o cineasta Fernando Ruiz Vergara, o qual foi, tal como aquele historiador galego, julgado em tribunal simplesmente porque fez um documentário em que denunciava crimes do franquismo. Aí foi condenado e se proibiu a exibição do seu filme «El Rocio» (1980). Aproveita-se ainda para deixar aqui um texto de enquadramento de Germinal e uma resenha crítica ao filme.
    "Fernando Ruiz Vergara realizou nos finais dos anos 70 um documentário denominado «Rocio», que para além da famosa romaria de Huelva, aludia à guerra civil em Almonte e à repressão franquista, identificando as vítimas e os principais responsáveis pela repressão. Como consequência, a família Reales destruiu-lhe a vida, a película foi censurada e proibida em Espanha, e Fernando Ruiz Vergara foi condenado a dois anos e meio de prisão, a uma multa de 50.000 ptas., e ao pagamento de dez milhões de pesetas de indemnização à família Reales. Isto ocorreu durante a transição da UCD para a maioria absoluta do PSOE, em 1982. Arruinado, destroçado e deprimido Fernando Ruiz Vergara ficou só, e o advogado apenas conseguiu livrá-lo da prisão. 25 anos passados, outra «família Reales» mantém o Poder de destruir a vida de um historiador que, como Fernando Ruiz Vergara, apenas lutava pela recuperação da memória histórica. No site http://www.rojoynegro.info/2004/article.php3?id_article=13282 podem aceder ao movimento de solidariedade para com Dionisio Pereira, encetado por um grupo de historiadores espanhóis. 17 de Fevereiro de 2007."
    Dulce Simões

    quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

    Em defesa de Dionísio Pereira, por uma memória histórica livre

    O historiador galego Dionísio Pereira, especialista do franquismo, será hoje julgado em tribunal por ter firmado num livro de História (A IIª República e a represión franquista no concello de Cerdedo) os nomes dalguns algozes da repressão franquista. A situação é grave, e está a ser denunciada pela opinião pública. Esperemos que prevaleça o bom senso em tribunal e que a sentença dê antes um aviso aos acusadores de que quem cometeu crimes não pode ver esses crimes limpos pela amnésia forçada.
    Uma carta aberta do Dionisio Pereira foi transcrita aqui pelo Daniel Lanero Táboas, outro historiador galego que já colaborou neste blogue. Aqui fica registado como tudo começou, em tradução livre dum texto original da Unión Libertaria reproduzido pela Indymedia Galiza:
    "A 12 de agosto de 2006, Verbo Xido, Asociación Ecoloxista e Cultural da Terra de Montes, organizou umas jornadas de recuperação da Memória. Falaram várias associações, apresentou-se um livro de Dionisio Pereira, organizou-se uma rota por lugares da repressão, e descerrou-se uma placa, colocada sobre uma formosa pedra talhada por um canteiro local, em memória de dois homens, Francisco Arca e Secundino Bugallo, canteiros e da CNT, torturados e assassinados a 13 de agosto de 1936 numa cuneta de Pedre. Não se sabe se os assistentes e as assistentes à homenagem choravam de emoção ou pelo fumo, pois ali mesmo alguém ateara fogo no monte há pouco tempo, e parecia provocado, pois atearam fogo em solo queimado, que ali já ardera há dois dias, como parte da vaga de incêndios deste Verão. Mais tarde alguém arrancou a placa de homenagem, que Verbo Xido repôs outra vez em novo acto, no mês de Novembro. Parece continuação destes actos que a Corporación Municipal de Cerdedo revira e anulara, de jeito não muito regular, um acordo prévio que exigia a retirada da placa com o nome dum edil implicado na repressão. E agora apresentaram duas denúncias contra Dionisio Pereira, por este parágrafo do seu livro sobre a repressão fascista na comarca de Cerdedo: «Persoas sinaladas pola súa presunta participación en diversas manifestacións da represión: Angel, Luis e Manuel Gutiérrez Torres (xefe da Falange, alcalde de Cerdedo nos anos 40 e 50), Eligio e Francisco Nieto (falanxistas)....», e por outro parágrafo semelhante nas Actas do Congreso de Memoria de Narón. Dionisio Pereira está citado a comparecer no Julgado de Paz de Cerdedo esta quinta dia 15, às 11 e às 12. Pedem-lhe que se retracte, coisa que Dionisio não pensa fazer (como pode retractar-se alguém dum trabalho de investigação?) e que indemnize os familiares."

    quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

    O 18 de Janeiro de 1934 como defesa do sindicalismo livre e das liberdades fundamentais

    A insurreição político-sindical do 18 de Janeiro de 1934 representou a resposta duma ampla frente sindical e popular contra a legislação anti-sindicalismo livre imposta pela ditadura e que vigorava desde esse mês.
    A projectada greve geral insurreccional falhou em parte por debilidade do auxílio de sectores civis e militares republicanos, que sofrerão forte perseguição oficial com a institucionalização do Estado Novo, além do rude golpe com a deportação súbita de 150 dos seus elementos para Angra do Heroísmo, em 19/11/1933. Vários percalços, actos extemporâneos e detenções de elementos chave (o militar republicano Sarmento Beires e os anarquistas Acácio Tomás de Aquino e Mário Castelhano, da CGT) adiaram a irrupção do movimento para a noite de 17 de Janeiro, já então enfraquecido. Um certo condicionamento operacional e a acção da polícia e exército fizeram o resto.
    Ainda assim, várias são as povoações onde a acção insurreccional tem lugar: greves em Almada (todo o concelho), Barreiro, Sines e Silves; actos violentos contra infra-estruturas e postos policiais (sabotagens, bombas, ocupações, etc.) em Coimbra, Leiria, Marinha Grande (aqui também se dá a reabertura da sede do sindicato), Lisboa, Póvoa de St.ª Iria, Almada, Barreiro, Silves, Vila Boim (Elvas) e Funcheira-Tunes-Algoz.
    Posteriormente, a autoria/ liderança deste movimento foi reivindicada por distintas forças políticas, do PCP aos anarquistas. O certo é que se tratou duma convergência de forças sindicais e políticas e de legados ideológicos: do «revolucionarismo» republicano à Revolução Social anarquista, passando pela greve geral revolucionária de massas do PCP. Os investigadores divergem quanto à liderança desse movimento: há quem diga que foi a anarquista CGT, como a historiadora Fátima Patriarca (cf. Sindicatos contra Salazar, ICS, 2000); há quem diga que foi a comunista CIS, como o historiador João Duarte Vasconcelos (cf. O 18 de Janeiro de 1934, Lx., FLUL, 2002, tese de mestrado). Patriarca vai mais longe, diz que o fito inicial era o restabelecimento das liberdades democráticas e não uma revolução operária (o exemplo era o dos acontecimentos recentes em Cuba). A partir da decapitação da componente política republicana, que faria o golpe político-militar, então os sindicalistas ficaram sozinhos no tabuleiro, a braços com uma questão de honra: cumprir a sua parte.
    Aproveita-se ainda para respigar a versão de João Duarte Vasconcelos:
    Assim que teve conhecimento dos decretos [de corporativização sindical], a CIS enviou uma circular à CGT, a todas as Associações de Indústria, Uniões Locais, Sindicatos e Grupos de Defesa Sindical. Ao analisar o «decreto colete de forças», a CIS refere que ele «é uma questão de vida ou de morte para todo o movimento de classe do proletariado» e propõe a «frente única de luta» contra o mesmo. E conclui: «O decreto é inaceitável; deve ser repudiado e todos nos devemos unir para a luta contra ele». […]
    A proposta da CIS para a preparação da luta visava a realização de uma campanha intensa de agitação e propaganda a nível nacional e nos diversos locais de trabalho, através de jornais, folhetos, reuniões ilegais rápidas, assembleias legais e artigos na imprensa legal. Ao mesmo tempo seriam convocadas assembleias gerais nos sindicatos, de formal legal, aprovando resoluções contra o citado decreto. Toda esta acção viria a culminar numa greve geral de todo o proletariado. Esta plataforma de luta seria concretizada em torno de diversos fins políticos e económico-sociais, como a organização livre dos sindicatos operários, o reconhecimento legal das Federações, Uniões, CGT, CIS, Partido Comunista e União Anarquista, liberdade de reunião, imprensa e greve, por uma ampla amnistia e dissolução da polícia política e dos tribunais especiais, pela semana de 40 horas, por um salário mínimo, por um subsídio de 75% de salário aos desempregados, pela instituição de um seguro contra a doença e invalidez, por 20 dias de licença anual, pagos pelo patronato e inclusão dos trabalhadores rurais em toda a legislação de carácter social.
    […]
    O 18 de Janeiro de 1934, movimento de resistência operária e sindical, eclodiu contra o Salazarismo e o seu «Estado Novo», que começava a estruturar-se organicamente e que teria só o seu fim passadas quatro longas décadas. […] o 18 de Janeiro de 1934 protagonizou o fim de um ciclo: foram os «últimos tempos de acção sindical livre e do anarquismo militante», no dizer de Manuel Joaquim de Sousa. Efectivamente, [com a corporativização salazarista] consumara-se a liquidação da autonomia operária.
    (in O 18 de Janeiro de 1934. História e mitificação, Lx., FLUL, 2002, tese de mestrado, p. 78 e 10)
    Nb: imagem retirada daqui.

    domingo, 24 de dezembro de 2006

    Emídio Santana, o anarquista da Lisboa operária

    Ainda em maré de centenários deve evocar-se o anarquista Emídio Santana (1906-1988), apesar do involuntário desfazamento temporal (nasceu no estival mês de Julho).
    Santana formou-se na mundividência operária primonovecentista da capital, o mesmo é dizer, nos centros operários e na rua: "A rua era o grande palco da vida quotidiana [...] Todos se conheciam, todos comunicavam; sabia-se quem era republicano, socialista ou sindicalista e era na rua que muita vez se discutiam os acontecimentos políticos, as greves ou outros casos" (in Memórias.., 1985). Estudou na Escola-Oficina n.º 1, espaço escolar de referência do ensino filantrópico e progressista. Começou a trabalhar aos 14 anos, como aprendiz de carpinteiro de moldes, depois desenhador. Adere então ao Sindicato Único das Classes Metalúrgicas, filiado na CGT anarquista lusa (e do qual será sec.º-geral em 1925). Segue-se o ingresso nas Juventudes Sindicalistas, em 1924, de que será tb. sec.º-geral. Por estas actividades é eleito para o Conselho Confederal da CGT (1927). Paralelamente, participará em várias iniciativas de movimentos culturais progressistas e do associativismo livre, como a Universidade Popular Portuguesa (1930), o Ateneu Cooperativo (1954), a Associação dos Inquilinos Lisbonenses (1964-5) e a DECO- Assoc. Portuguesa para a Defesa do Consumidor (integra o núcleo fundador formado em Fev.º 1974).
    Após o golpe de 28/V/1926 será várias vezes encarcerado por actividades sindicalistas e políticas: em 1927, em 1932/3 e em 1937. Desta última vez ficará preso até 1953, por participação na tentativa de atentado bombista contra Salazar. A justificação mais premente era o apoio do ditador à agressão franquista; como o próprio assumiria: "se Salazar se sentia autorizado a comprometer o país no conflito espanhol, nós, cidadãos portugueses, na legitimidade dos nossos direitos, tínhamos o dever de opor-nos à vilania da agressão e preferimos a lealdade e a solidariedade" (in Memórias.., 1985).
    Sempre que é libertado retoma a militância antifascista e libertária. Reorganiza o movimento anarquista, relança o seu jornal mais influente, A Batalha (em 1934-5, 1968 e 1974), e participa em iniciativas oposicionistas numa postura frentista. Em 1961 envolve-se na revolta da Sé, novamente para derrubar Salazar.
    Em 1978, co-fundou o Centro de Estudos Libertários e o Arquivo Histórico-Social (depois doado à Biblioteca Nacional, onde permance).
    Da sua obra, destaca-se a introdução e nota biográfica a O sindicalismo em Portugal (de Manuel Joaquim de Sousa, 1972); História de um atentado (1975); O 18 de Janeiro de 1934 (1978); Memórias de um militante anarco-sindicalista (1985); e Onde o homem acaba e a maldição começa (1989, obra póstuma de relato da experiência prisional).
    Fontes: «Recordando Emídio Santana», por Luís Garcia e Silva (2006); «Um militante corajoso», por Jorge Costa (2006); «Como conheci Emídio Santana», por Fernando J. Almeida (2006); «O anarquista que tentou matar Salazar era um homem que ria muito», por Carlos Pessoa (Público, 24/XII/2006, p.48-52 Pública). Sobre o anarquismo luso vd. «O anarquismo na História de Portugal» e «História do movimento anarquista em Portugal».

    quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

    A raia e o maquis

    A propósito dum recente post onde dava conta dum encontro internacional sobre a raia no período ditatorial ibérico, chegou-nos nova informação de textos já publicados sobre esta temática da raia e do maquis: «La Guerra Civil española y la posguerra en el norte de Portugal» (por David Simón Lorda, de balanço dalguns estudos específicos) e «O maquis na guerra civil de Espanha: o caso do cerco a Cambedo da Raia» (de Paula Godinho, revista História, n.º 27, 1996). Nb: agradeço a Rui Ferreira a cedência destas informações.
    ADENDA: aproveita-se para referir que já existem teses académicas específicas, a saber:
    *CANDEIAS, Maria Fernanda Sande (1998), O Alentejo e a Guerra Civil de Espanha, vigilância e fiscalização das povoações fronteiriças, Lisboa, FLUL;
    *PIRES (1997), João Carlos Salvador Urbano, A memória da Guerra Civil de Espanha no baixo alentejano raiano, Lisboa, ISCTE.