quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Em defesa de Dionísio Pereira, por uma memória histórica livre

O historiador galego Dionísio Pereira, especialista do franquismo, será hoje julgado em tribunal por ter firmado num livro de História (A IIª República e a represión franquista no concello de Cerdedo) os nomes dalguns algozes da repressão franquista. A situação é grave, e está a ser denunciada pela opinião pública. Esperemos que prevaleça o bom senso em tribunal e que a sentença dê antes um aviso aos acusadores de que quem cometeu crimes não pode ver esses crimes limpos pela amnésia forçada.
Uma carta aberta do Dionisio Pereira foi transcrita aqui pelo Daniel Lanero Táboas, outro historiador galego que já colaborou neste blogue. Aqui fica registado como tudo começou, em tradução livre dum texto original da Unión Libertaria reproduzido pela Indymedia Galiza:
"A 12 de agosto de 2006, Verbo Xido, Asociación Ecoloxista e Cultural da Terra de Montes, organizou umas jornadas de recuperação da Memória. Falaram várias associações, apresentou-se um livro de Dionisio Pereira, organizou-se uma rota por lugares da repressão, e descerrou-se uma placa, colocada sobre uma formosa pedra talhada por um canteiro local, em memória de dois homens, Francisco Arca e Secundino Bugallo, canteiros e da CNT, torturados e assassinados a 13 de agosto de 1936 numa cuneta de Pedre. Não se sabe se os assistentes e as assistentes à homenagem choravam de emoção ou pelo fumo, pois ali mesmo alguém ateara fogo no monte há pouco tempo, e parecia provocado, pois atearam fogo em solo queimado, que ali já ardera há dois dias, como parte da vaga de incêndios deste Verão. Mais tarde alguém arrancou a placa de homenagem, que Verbo Xido repôs outra vez em novo acto, no mês de Novembro. Parece continuação destes actos que a Corporación Municipal de Cerdedo revira e anulara, de jeito não muito regular, um acordo prévio que exigia a retirada da placa com o nome dum edil implicado na repressão. E agora apresentaram duas denúncias contra Dionisio Pereira, por este parágrafo do seu livro sobre a repressão fascista na comarca de Cerdedo: «Persoas sinaladas pola súa presunta participación en diversas manifestacións da represión: Angel, Luis e Manuel Gutiérrez Torres (xefe da Falange, alcalde de Cerdedo nos anos 40 e 50), Eligio e Francisco Nieto (falanxistas)....», e por outro parágrafo semelhante nas Actas do Congreso de Memoria de Narón. Dionisio Pereira está citado a comparecer no Julgado de Paz de Cerdedo esta quinta dia 15, às 11 e às 12. Pedem-lhe que se retracte, coisa que Dionisio não pensa fazer (como pode retractar-se alguém dum trabalho de investigação?) e que indemnize os familiares."

11 comentários:

Paula Godinho disse...

Dionisio Pereira tem, ao longo dos últimos anos, desenvolvido uma muito séria e pormenorizada investigação acerca do franquismo na Galiza. Recordo uma pesquisa que ganhou recentemente uma visibilidade especial através duma iniciativa com grande impacto, o "Barco da Memória",que no Verão de 2006 percorreu a costa galega, aportando em diversos locais para mostrar uma excelente exposição acerca dos marinheiros reprimidos durante a ditadura franquista. Se em todo o Estado Espanhol foi difícil abordar o fenómeno, com dificuldades terríveis no acesso às fontes, no caso galego a situação foi ainda pior. Recorde-se que só há menos de dois anos a Galiza conseguiu libertar-se de Manuel Fraga. Nestas condições, não me espanta que a memória da repressão durante o franquismo e a nomeação dos responsáveis e seus lacaios por parte de Dionisio Pereiro o leve ao tribunal. Creio porém, que nos conclama, como investigadores, a tomar uma posição firme não só em relação à revisão duma história que visa proteger os mandantes e agentes da repressão, mas também na edificação com base na nossa investigação aturada, duma memória contra-hegemónica. É o que vem fazendo o Dionisio.

Daniel Melo disse...

Concordo inteiramente com a Paula Godinho e estou disponível para apoiar qualquer iniciativa que vise expressar solidariedade ao historiador e cidadão Dionisio Pereira, em nome da liberdade de expressão, de pensamento e duma ciência liberta desta arma política reaccionária que é a invocação da honra, como se não fossem os crimes em si que fossem desonrosos mas sim a revelação deles.
O movimento Não apaguem a Memória! no seu conjunto podia também tomar uma posição oficial sobre este caso grave de atentado à memória histórica. É essa também a minha proposta.

Daniel Melo disse...

No blogue «O levantador de minas» vem esta referência importante:
"Segundo parece, son varios os casos en que se sospeita unha manobra que pretende obstaculizar as actividades de historiadores e colectivos comprometidos co desvendamento dos crimes cometidos polos represores da dictadura.
Xunta o historiador [Dionisio Pereira] á [sua] carta un texto en que se solicita se lle manifeste apoio através dos enderezos:
dpereirag@terra.es
antenor53@yahoo.es".
Eu já escrevi ao Dionisio Pereira a solidarizar-me com ele, a título individual.
Para mais informações vd. http://olevantadordeminas.blogaliza.org/2007/02/13/peticion-de-apoio-do-historiador-dionisio-pereira/.
Vd. também o comunicado de solidariedade num blogue duma associação cívica de Cerdedo com a qual colabora o Dionisio Pereira: www.cadernoarraino.blogspot.com.

Daniel Melo disse...

Por lapso involuntário, o endereço do blogue do colectivo Arraianos ia mal escrita, o correcto é:
http://www.cadernoarraiano.blogspot.com/
Aí se pode ler o comunicado da Asociación Ecoloxista e Cultural de Terra de Montes “Verbo Xido”, de solidariedade para com o historiador galego Dionisio Pereira.

Daniel Melo disse...

Entre as muitas organizações da sociedade civil que já se solidarizaram destaca-se a Confederación Nacional do Traballo (CNT), cujo comunicado pode ser lido em http://galiza.indymedia.org/gz/2007/02/9954.shtml.
Fica aqui um excerto desse comunicado:
"A Confederación Nacional do Traballo (CNT) quere facer público o seu apoio ao historiador Dionisio Pereira fronte a esta agresión ao seu traballo e á
liberdade de expresión e investigación. Como sindicato ao que pertencían boa parte dos represaliados de Cerdedo, e coñecendo en carne propria o sistema de represión do franquismo e a persistente ocultación desa represión en épocas posteriores, esiximos que Dionisio sexa absolto desas acusacións e poida seguir investigando e sacando á luz a nosa historia real, a de tantos e tantos mortos e vivos anónimos que algúns se empeñan en que sigan sufrindo a represión fascista.
Consideramos ademais que a frase denunciada é incluso excesivamente tolerante, xa que sabemos, como parte que somos dos represaliados, que todos os xefes locais de Falange desa época eran non só «presuntos participantes» se non directos organizadores e responsables desa represión."

Daniel Melo disse...

Eis as últimas do julgamento, pela CNT-Galiza:
"Hoxe as 11:00 da mañá, no xulgado de paz de Cerdedo, declarou o Historiador Dionisio Pereira, apoiado por corenta amig@s, compañeir@s historiador@s, unha representación da CNT Galega e xente de ben en xeral.
A familia do falanxista ex-alcalde de Cerdedo e «presunto»(como din nun veciño país) represor atopabase xa dentro do xulgado,alí entraron Dionisio Pereira e a presidenta da Asociación Verbo Xido para declarar pola primera das duas acusacións; saindo dez minutos despois sen terse retractado de nada. Do mesmo xeito se produxo a segunda declaración as 11:30, dandose as mesmas circunstancias, pasadas as 11:40 saia pola porta Dionisio Pereira entre os aplausos dos alí congregados. Mentres, a familia do «presunto»(vestida coma o catálogo de outono de «el corte ingles»), se escabullía non sin antes soltar un viva franco, ben baixino coma fan os cobardes. Alguén dos presentes o espresou moi ben «de padres lobos, hijos lobitos».
Esperamos que esta publicidade que os «lobitos» estan dando o libro A Represión en Cerdedo e os historiador@s coma Dionisio Pereira sirva para que a verdade chegue a moita mais xente, e que Dionisio e demais historiador@s doblen o seus esforzos recuperando a memoria do noso pobo asasinado,reprimido e obligado a vivir nunha longa noite de pedra que os «lobitos» queren que siga moitos anos.
SAUDE OS QUE LOITAN."
Mais informações aqui: http://www.cntgaliza.org/?q=node/320

António Cardoso disse...

Com muito proveito visitei no verão passado o "Barco da Memória", o que permitiu constatar o excelente trabalho que Dionisio Pereira e outros historiadores galegos têm feito acerca da repressão franquista.Ofereço-me para todas as iniciativas de apoio àquele historiador contra esta tentativa de o silenciar. Há que lembrar também que se este processo obtiver vencimento, abre o caminho para idênticos procedimentos censórios, também em Portugal, visto que a legislação é semelhante. Aliás o recurso à via civil e não penal é insidioso. Do ponto de vista jurídico, é evidente que apenas se pode considerar censurável a ofensa ilícita à personalidade moral de uma pessoa falecida. Tal não sucede em caso algum com o historiador Dionisio Pereira, que no exercício do direito à investigação histórica e do direito à memória refere factos verídicos, com fase nas suas fontes. Mas como na justiça do Estado espanhol ( e português) há seguidores dos regimes ditatoriais, nunca se sabe. Aliás, mesmo que os processos não tenham seguimento, fica a intimidação, o incómodo e o vexame de andar a caminho dos tribunais. Por isso, o melhor é mobilizar para os tribunais e já agora aprofundar a investigação e divulgar ainda mais as "boas acções" dos pais ou avós de quem mete as acções.

Dulce Simões disse...

Fernando Ruiz Vergara realizou nos finais dos anos 70 um documentário denominado "Rocio", que para além da famosa romaria de Huelva, aludia à guerra civil em Ayamonte e à repressão franquista, identificando as vítimas, e os principais responsáveis pela repressão. Como consequência, a família Reales destruiu-lhe a vida, a película foi censurada e proibida em Espanha, e Fernando Ruiz Vergara foi condenado a dois anos e meio de prisão, a uma multa de 50.000 ptas., e ao pagamento de dez milhões de pesetas de indemnização à família Reales. Isto ocorreu durante a transição da UCD para a maioria absoluta do PSOE, em 1982. Arruinado, destroçado e deprimido Fernando Ruiz Vergara ficou só, e o advogado apenas conseguiu livrá-lo da prisão. 25 anos passados, outra “família Reales” mantém o Poder de destruir a vida de um historiador que, como Fernando Ruiz Vergara, apenas lutava pela recuperação da memória histórica.
No site:
http://www.rojoynegro.info/2004/article.php3?id_article=13282

Podem aceder ao movimento de solidariedade para com Dionisio Pereira, encetado por um grupo de historiadores espanhois.

Fernando Ruiz Vergara disse...

¿DEJA VU?...

Parece, que la historia se repite cíclicamente.

Parece que la vergüenza, brilla por su ausencia.

Parece que lavar la honra, esa vergüenza, solo se lava, reclamando una justicia, de la injusticia del acto, ¿con la justicia?.

Que se traduce, en hacer tragar las palabras de quién es portador de los hechos.

Maten al mensajero, porque las noticias no son buenas.

¡Bravo!

Así nos crece el pelo

Força Dionisio, a luta continua.

Paula Godinho disse...

Conheço o caso do Fernando Vergara, sobretudo via Dulce Simões. Não seria possível, para os que não o conhecem, que fosse sumáriamente descrito aqui? Para que, também em relação a estas situações que se repetem, não se pague a memória. É que é isso que nos defende.

Agustín Romero Barroso disse...

Desde Llerena, pueblo de Luis Rastrollo, dirigente obrero estudiado por Dionisio Pereira, en su libro "Sindicalistas e rebeldes", me sumo aen apoyo de Dionisio, de su libertad de expresión y narración de la verdad de los hechos ocurridos en Cerdedo.
Esperemos que la razón y el sentido, la cabalidad y la sensatez salgan triunfantes ante la denuncia inoportuna. No se condena a nadie, no se daña. Simplemente se narra lo ocurrido.
Salud