domingo, 24 de dezembro de 2006

Emídio Santana, o anarquista da Lisboa operária

Ainda em maré de centenários deve evocar-se o anarquista Emídio Santana (1906-1988), apesar do involuntário desfazamento temporal (nasceu no estival mês de Julho).
Santana formou-se na mundividência operária primonovecentista da capital, o mesmo é dizer, nos centros operários e na rua: "A rua era o grande palco da vida quotidiana [...] Todos se conheciam, todos comunicavam; sabia-se quem era republicano, socialista ou sindicalista e era na rua que muita vez se discutiam os acontecimentos políticos, as greves ou outros casos" (in Memórias.., 1985). Estudou na Escola-Oficina n.º 1, espaço escolar de referência do ensino filantrópico e progressista. Começou a trabalhar aos 14 anos, como aprendiz de carpinteiro de moldes, depois desenhador. Adere então ao Sindicato Único das Classes Metalúrgicas, filiado na CGT anarquista lusa (e do qual será sec.º-geral em 1925). Segue-se o ingresso nas Juventudes Sindicalistas, em 1924, de que será tb. sec.º-geral. Por estas actividades é eleito para o Conselho Confederal da CGT (1927). Paralelamente, participará em várias iniciativas de movimentos culturais progressistas e do associativismo livre, como a Universidade Popular Portuguesa (1930), o Ateneu Cooperativo (1954), a Associação dos Inquilinos Lisbonenses (1964-5) e a DECO- Assoc. Portuguesa para a Defesa do Consumidor (integra o núcleo fundador formado em Fev.º 1974).
Após o golpe de 28/V/1926 será várias vezes encarcerado por actividades sindicalistas e políticas: em 1927, em 1932/3 e em 1937. Desta última vez ficará preso até 1953, por participação na tentativa de atentado bombista contra Salazar. A justificação mais premente era o apoio do ditador à agressão franquista; como o próprio assumiria: "se Salazar se sentia autorizado a comprometer o país no conflito espanhol, nós, cidadãos portugueses, na legitimidade dos nossos direitos, tínhamos o dever de opor-nos à vilania da agressão e preferimos a lealdade e a solidariedade" (in Memórias.., 1985).
Sempre que é libertado retoma a militância antifascista e libertária. Reorganiza o movimento anarquista, relança o seu jornal mais influente, A Batalha (em 1934-5, 1968 e 1974), e participa em iniciativas oposicionistas numa postura frentista. Em 1961 envolve-se na revolta da Sé, novamente para derrubar Salazar.
Em 1978, co-fundou o Centro de Estudos Libertários e o Arquivo Histórico-Social (depois doado à Biblioteca Nacional, onde permance).
Da sua obra, destaca-se a introdução e nota biográfica a O sindicalismo em Portugal (de Manuel Joaquim de Sousa, 1972); História de um atentado (1975); O 18 de Janeiro de 1934 (1978); Memórias de um militante anarco-sindicalista (1985); e Onde o homem acaba e a maldição começa (1989, obra póstuma de relato da experiência prisional).
Fontes: «Recordando Emídio Santana», por Luís Garcia e Silva (2006); «Um militante corajoso», por Jorge Costa (2006); «Como conheci Emídio Santana», por Fernando J. Almeida (2006); «O anarquista que tentou matar Salazar era um homem que ria muito», por Carlos Pessoa (Público, 24/XII/2006, p.48-52 Pública). Sobre o anarquismo luso vd. «O anarquismo na História de Portugal» e «História do movimento anarquista em Portugal».

1 comentário:

T. disse...

Optimo blog. Optimo texto também. Porque há coisas que, para além de não ser esquecidas, têm de ser relembradas. E contadas as novas gerações.

(Escreve um miudo da dita nova geração)

www.resistenciapassiva.blogspot.com