
Da introdução, destacamos a seguinte passagem:
"Este divórcio que hoje encontramos entre o que é a memória colectiva e a memória privada da Guerra Colonial prolonga um divórcio já havido nos tempos da guerra entre o discurso público sobre uma guerra silenciada e que oficialmente não existia e o conhecimento privado que dela tinham os portugueses mobilizados e as suas famílias. Daí a importância do testemunho tanto no momento em que o acontecimento em análise - a guerra - se processa, como depois da guerra. O texto produzido é portanto um testemunho do vivido para os seus leitores imediatos e para as gerações vindouras, satisfazendo aquilo a que podemos chamar o direito à memória e cumprindo o que Primo Levi chamou «o dever de memória» [Primo Levi, O Dever de Memória, Lisboa: Civilização/Contexto, 1997], ao estabelecer um cúmplice compromisso entre quem conta - que assim cumpre a sua função de testemunha - e quem ouve - que assim toma conhecimento e não mais pode dizer que não sabia. Desta forma gera-se o pacto de responsabilidade partilhada inerente à funcionalidade do testemunho que é uma textualidade produzida contra o esquecimento e por vezes, de grande valor performativo, seja no domínio privado do ajuste de contas, do reconhecimento e do terapêutico, seja no domínio político e social e, portanto, público." (p. 15).
A memória da guerra colonial cedo contaminou a literatura portuguesa pós-25 de Abril, tanto no masculino como no feminino. Mas só agora, pela mão de Margarida Calafate Ribeiro, nos chega o discurso directo de mulheres reais, num registo histórico e para a História. Conhecimento contra o esquecimento.
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