sexta-feira, 18 de maio de 2007

A carta de adeus de Guy Môquet


A primeira medida do recém-eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy, confessadamente de direita, foi no sentido de preservar a memória da resistência ao nazi-fascismo. Determinou que no início de cada ano lectivo se lesse a carta de despedida de um jovem de 17 anos, que o exército hitleriano fuzilou em Outubro de 1941. Vale como registo para a nossa Assembleia da República, que no final do mês se espera venha a votar a petição do Movimento.
O compromisso político de Guy surgiu em 1939, quando o seu pai, deputado comunista, foi deportado para a Argélia. Tinha 16 anos e decidiu inscrever-se nas Juventudes Comunistas.
Um ano mais tarde, com a França já invadida pelas tropas do III Reich, foi preso quando andava a distribuir em Paris comunicados clandestinos. Apesar de ter sido absolvido, foi considerado politicamente suspeito e, como tal, transferido para o campo de concentração de Châteaubriant (Loire-Atlantique).
Guy Môquet foi fuzilado no dia 26 de Outubro de 1941, com mais 26 outros prisioneiros do campo, em atitude de represália pela morte de um oficial alemão. Antes de morrer, escreveu uma carta aos pais, onde expressa o sentimento de que a sua morte não venha a ser em vão.
Após a libertação de Paris, em Agosto de 1944, a sua memória foi exaltada e o seu nome inscrito numa estação do metro parisiense.

Para que não se esqueça, aqui fica a carta de adeus de Guy Môquet, transcrita de Le Monde do passado dia 17 de Maio.

Mãezinha querida
meu adorado irmãozinho
meu amado paizinho
Vou morrer! O que vos peço, em especial ti, mãezinha, é que sejas corajosa. Eu sou-o e quero sê-lo do mesmo modo que o foram outros antes de mim. Claro que preferia viver. Mas o que do mais fundo do coração desejo, é que a minha morte tenha um sentido. Não tive tempo de abraçar o Jean. Mas abracei os meus dois irmãos [de luta] Roger e Rino. Quanto ao verdadeiro, não o pude, hélas! Confio que todos os meus pertences vos sejam enviados, eles certamente ainda podem servir para o Serge, que estou certo se sentirá orgulhoso de os poder um dia usar. A ti, paizito, se te dei, assim que à mãezinha, não poucas preocupações, aqui fica esta minha derradeira saudação. Fica sabendo que fiz o melhor que pude para seguir a via que me traçaste.
Um último adeus a todos os meus amigos, ao meu irmão de que gosto muito. Que ele estude com afinco para mais tarde ser um homem.
17 anos e meio, a minha via foi curta, mas não alimento qualquer arrependimento, a não ser o ter de vos deixar. Vou morrer com Tintin, Michels. Mãe, o que te peço, o que quero que me prometas, é que serás corajosa e saberás ultrapassar o desgosto.
Não posso escrever mais. Deixo-vos a todos, a todas, a ti mãezinha, a ti, Sérgio, a ti, pai, aqui vos fica o grande abraço com todo o carinho infantil que me banha o coração. Coragem!
Do vosso Guy que tanto vos ama
Guy

Último pensamento: vós que ficais, sede dignos de nós, os 27 que vamos morrer!

3 comentários:

Anónimo disse...

Sera que tambem o Sr sarkozy vai obrigar as crianças no inicio de cada ano a ler nos livros os 50 milhões de mortos causados pelo comunismo estalinista.

S. disse...

Os comunistas responsáveis por não menos mortos que o nazismo não deixavam as suas vítimas escrever cartas antes das execuções e por isso o presidente francês não poderá fazer com que as crianças franceses saibam alguma coisa sobre a desgraçada doutrina de Marx e amigos...

Anónimo disse...

è por isso que o fato se destina a quem um di acreditou e vivenciou, ao invés de telo apenas estudado.